‎Ania Bukstein sobre o rabinato de Israel

Ontem fui convidada para falar na Comissão Parlamentar de Absorção de Imigração. Lá eu contei as dificuldades que encontrei quando quis me casar com meu companheiro pelo rabinato.

Vi que foram publicadas por aí todo tipo de frases ditas na comissão, e acho importante contar aqui a história completa, e principalmente esclarecer por que me era importante participar dela e transmitir minha mensagem.

Não sei se vocês sabem, mas mesmo que esteja escrito em minha carteira de identidade que sou judia, mesmo que o Estado e todas suas instituições me reconhecem como judia, pelo fato de eu ter nascido em outro país e depois ter imigrado a Israel, segundo o rabinato eu sou suspeita. Fui mandada à comissão de casos excepcionais do rabinato que se chama “verificação de judaísmo”.

Vamos por um instante deixar de lado a ofensa – e acreditem que sim ofende, vou lhes contar como isso aconteceu:

Fomos convidados a uma primeira verificação junto com o investigador de judaísmo. Minha mãe e eu tomamos uma manhã de folga no trabalho, trouxemos os documentos que tínhamos e estávamos otimistas. Não apenas isto, nunca chegamos a desconfiar que alguém pudesse colocar em dúvida o nosso judaísmo. Mas, infelizmente, o rabino que conduziu a verficação, não se satisfez com a minha certidão de nascimento, a de minha mãe, e de minha avó. Mesmo a certidão de casamento de meus pais não lhe bastou, e ele exigiu que eu conseguisse também a certidão de nascimento de minha bisavó que nasceu no ano 1901!!

Claro, todos nós temos este tipo de documento em casa… Como se consegue algo assim? De onde? Saímos da verificação desesperadas. Chegamos a pensar a viajar ao exterior para nos casar, mas achávamos importante fazer um casamento judaico. E então ouvimos falar da organização Shorashim (raízes), que se especializa e ajuda neste tipo de caso.

Minha mãe e eu viajamos a Jerusalém, contamos novamente toda a história e por grande sorte, depois de 10 dias, eles não conseguiram a certidão necessária, mas sim um outro documento que o investigador de judaísmo concordou em aceitar. Suspiros de alívio, aqui estão os documentos em nossas mãos, e supostamente esta jornada surreal acabaria agora, só que não…

Fomos chamadas a uma audiência, nada mais e nada menos que pelo tribunal rabínico, novamente tomamos um dia de folga do trabalho, novamente a tensão… chegamos. E o que aconteceu nesta meia hora em frente ao rabino é uma farsa ridícula. O rabino e seu assistente não conheciam o meu caso, e na verdade eles até confundiram o nosso caso com um outro.

Minha mãe estava de pé na bancada das testemunhas, novamente tomou um dilúvio de perguntas humilhantes e irrelevantes, e para quê? Pois todos os documentos relevantes estavam em suas mãos. No final passamos esta prova.

A própria verficação é talvez legítima, mas o jeito como se faz deve ser eficiente, profissional, e mais humano. Hoje quando vim contar a minha história na comissão, descobri que isto não é nada perto dos problemas que o rabinato faz a outros casais, que também contaram suas histórias.

Entendi algo mais, este comportamento do rabinato não é um engano ou negligência, mas sim uma política planejada de bullying e desprezo de um monopólio grosseiro, antiquado e obtuso. Uma organização que usa para o mal sua enorme força.

Como eu sei tudo isso? Fora as duras histórias… Porque o representante do rabinato que foi convidado à comissão a dar um relatório, ou talvez para tentar melhorar e ajudar, simplesmente não se deu o trabalho de vir. Aos integrantes da comissão foi comunicado que o rabinato não acha que este assunto lhe diz respeito.

Então já entendemos que não é do rabinato que virá a solução, mas sim dos parlamentares. O trabalho deles é tirar das mãos toscas do rabinato a nossa liberdade de nos casar, criar uma alternativa legal e civil para que todos os cidadãos deste país possam se casar.

Isto inclui também meus amigos da comunidade gay, e aqueles cuja crença não passa pelo exame do rabinato. Pois o rabinato já há tempos não apenas nos expropria de direitos civis como o direito de casar e formar uma família, o rabinato nos expropria também do nosso judaísmo e o afasta de nós.

Depoimento divulgado pela atriz israelense ‎Ania Bukstein, em sua página do facebook, no dia 14 de maio de 2014.

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