100 anos atrás: A Declaração Balfour

01/11/2017 | História; Sionismo

Há exatos 100 anos, o Sionismo Político alcançava sua primeira conquista relevante. O grande objetivo de Theodor Herzl, pai da corrente, era conseguir a aprovação e o apoio das grandes nações ao projeto sionista. 20 anos após o Primeiro Congresso Sionista (leia mais aqui), o movimento sionista tem a simpatia do maior império do mundo ao estabelecimento de um lar nacional judaico na Palestina. Conheçamos um pouco da história, dos bastidores e dos personagens principais deste importante acontecimento.

A Primeira Guerra Mundial: uma oportunidade

No primeiro dia após iniciar-se, a Primeira Guerra Mundial já tinha um derrotado: o Império Turco-Otomano. Unificado desde os últimos dias da Idade Média, o extenso e subdesenvolvido império era uma aberração no contexto do imperialismo contemporâneo, cuja consequência foi a Primeira Guerra Mundial. A administração dos territórios obedecia a uma lógica pré-capitalista, os mecanismos de controle turco-otomanos não eram eficientes, e o interesse europeu nos seus protetorados era questão de tempo, sobretudo por conta do petróleo (que já havia se tornado uma das principais fontes de energia do planeta após a Segunda Revolução Industrial – 1850-70). Controlando boa parte do mundo árabe, os turcos buscaram aliar-se rapidamente a um dos lados na guerra com o objetivo de sofrerem menos danos após o fim do confronto.

A relação do movimento sionista com o Império Turco-Otomano, até o início da guerra, era razoável. A imigração era limitada, os judeus eram cidadãos de segunda classe, mas não havia uma perseguição institucional. Era permitida aos judeus a compra de terras em determinadas circunstâncias, e o desenvolvimento do Ishuv (vida judaica na Palestina pré-1948) florescia.

A Primeira Guerra Mundial alterou essa relação para sempre. Durante o confronto, o movimento sionista não cessou seu diálogo com os países que compunham a Tríplice Entente (Reino Unido, França e outros), o que gerou acusações de traição por parte dos turcos. Por outro lado, o movimento sionista decidiu em 1914, em uma conferência na cidade de Copenhague, não adotar nenhum lado, mantendo igualmente sua boa relação com países que compunham a Tríplice Aliança: a sede do movimento sionista, neste momento, era a Alemanha. Houve frequentes debates internos, com diferentes posicionamentos sobre que lado deveria adotar durante o confronto. A posição vencedora, no entanto, foi a que apoiava a neutralidade.

Curioso que o grande protagonista dos bastidores que acarretaram na Declaração Balfour, o cientista sionista Chaim Weizmann, era abertamente a favor de que o movimento sionista declarasse apoio à Tríplice Entente. Weizmann tratava de construir relações consistentes com o Reino Unido, tanto por afinidade ideológica, quanto estratégica. O cientista acreditava que os britânicos se diferenciavam dos outros europeus por não aderirem ao antissemitismo, que sua postura tolerante deveria ser valorizada pelos judeus. Por outro lado, o cientista também acreditava na vitória da Tríplice Entente na guerra, portanto o movimento sionista deveria apoiá-los enquanto fosse tempo.

A neutralidade do movimento, entretanto, foi crucial para a continuidade da vida judaica no Ishuv. Quando Djemal Pashá, comandante turco na Palestina, ameaçou expulsar todos os judeus de origem russa da Palestina (ou seja, quase todos os judeus), foram os alemães que intercederam pela sua permanência na região. Se bem o governo alemão não desejasse comprometer-se com a causa sionista, não eram de forma alguma opositores, e não tinham como intenção entregar um grupo potencialmente importante nas mãos do inimigo.

As grandes potências, então, brigavam ao mesmo tempo pelo apoio judaico-sionista, mas sem a intenção de comprometer-se por receio à reação árabe. Até 1917, parte das motivações políticas de Alemanha e Reino Unido por conquistar o apoio sionista se dava em relação à entrada dos EUA na guerra: o ascendente poder político-econômico da comunidade judaica norte-americana poderia decidir para que lado iria o país, potência mundial emergente.

A guerra, que havia pego o movimento sionista de surpresa, terminou por ter consequências políticas positivas ao sionismo.

Os bastidores da Declaração

A teoria mais conhecida para a aceitação dos britânicos em produzir uma declaração simpática às aspirações sionistas é a de que Weizmann ‘trocou” uma descoberta científica sua pela tal declaração. A descoberta teria sido a produção da acetona por meio da fermentação bacteriana em grande escala, que poderia transformar-se em bombas que não expeliam fumaça, próprias para o uso em batalhas navais. Weizmann teria pedido para, ao invés de ser condecorado, que um favor fosse feito ao povo judeu. Verdade ou mito, exagero ou não, o que parece ser relevante é o prestígio adquirido pelo cientista sionista no meio político britânico. Por mais que possa parecer fantasiosa a ideia da troca de um armamento por uma declaração política, a obrigação à reciprocidade e as portas abertas a Weizmann para reunir-se com os mais importantes membros do executivo britânico seguramente são questões primordiais.

Reduzir este caso a uma única causa, no entanto, é equivocado e reducionista. A guerra proporcionou ao movimento sionista uma oportunidade de barganha para as negociações de apoio internacional ao Estado judeu. O movimento sionista, através de seu executivo, aproveitou o momento para garantir de ambos os lados envolvidos no confronto um compromisso diplomático com a guerra. A posição de neutralidade do sionismo acelerou as negociações com o Reino Unido. Ainda que o governo alemão não fosse um grande entusiasta de declarar apoio às aspirações nacionalistas judaicas, seus jornais, de tendência liberal, muitas vezes davam atenção especial à justa causa nacional judaica (LAQUEUR:1988,147). Este fato fez com que os britânicos se apressassem a chegar a um acordo com o movimento sionista, temendo perder o apoio judaico na Europa e nos EUA.

A potência emergente era uma questão à parte. Com uma crescente e influente comunidade judaica, a entrada dos EUA na guerra dependia do apoio popular. Inicialmente não tão afiliada às ideias sionistas, parte importante da comunidade judaica norte-americana passou a apoiar as aspirações sionistas, sobretudo após um brilhante trabalho político executado por Louis Brandeis. Frente à entrada dos EUA na guerra, Brandeis conseguiu unir setores da comunidade judaica envolvida na luta pelos direitos civis dos judeus europeus, isolando-os dos grupos não sionistas Bund e American Jewish Commitee. Brandeis inseriu na pauta a luta pelos direitos civis não só dos judeus da Europa Oriental, como também dos que viviam na Palestina. Eleito presidente do Comitê Executivo Provisional para Assuntos Sionistas Gerais, Brandeis teve duas audiências públicas com Arthur Balfour, que com a troca de governo britânico havia assumido o posto de secretário do Foreign Office. Na primeira, em abril de 1917, fez-se saber a posição da comunidade judaica norte-americana em relação ao sionismo. Na segunda, garantiu que conseguiria o apoio do presidente norte-americano Woodrow Wilson à declaração futura.

No entanto, o campo de batalha mais importante era Londres, e não Washington (LAQUEUR: 1988,150). Desde 1915, Chaim Weizmann seria o principal articulador da declaração britânica, reunindo-se com membros da imprensa, com políticos, homens de negócio e religiosos influentes. Weizmann usava de todas as armas que um bom político possuía, apelando tanto para questões político-estratégicas quando ideológico-religiosas. Seu primeiro trabalho político-diplomático se deu ao cooptar o futuro Alto Comissário Britânico na Palestina, Herbert Samuel (então político liberal) à causa sionista. Samuel sugeriu que os britânicos não permitissem que a Palestina se transformasse um protetorado francês após a guerra, dentro do contexto dos Acordos de Sykes-Picot. Com Lloyd George, em 1915 secretário da Guerra e homem profundamente religioso, Weizmann apelou para questões bíblicas: o retorno do povo judeu à Terra de Israel remontava a questões tradicionais cristãs. O cientista compreendeu que a fé de certos estadistas era uma questão não menos importante que o realismo político.

Quando o governo britânico entrou em crise em 1916 por conta de dificuldades na guerra, o primeiro-ministro Asquith renunciou, trazendo de volta ao governo um dos principais opositores do sionismo, Edwin Montagu. Neste contexto, Weizmann soube dos termos dos Tratados de Sykes-Picot, o que lhe preocupou e provocou uma nova estratégia. Enquanto negociavam com Samuel (intermediados pela família Rothschild, influentes banqueiros judeus partidários do sionismo), foi decidido que Nachum Sokolow (secretário-geral da Organização Sionista Mundial – OSM) fosse em missão diplomática a Paris e a Roma tentar uma declaração de simpatia. A opção por aceitar que a Palestina fosse transformada em um protetorado inglês tornava-se aceitável, sobretudo em caso de conseguir-se uma declaração de apoio ao sionismo por parte dos britânicos.

Muntagu conseguiu que o presidente Wilson se manifestasse contrário a tal declaração, o que obrigou ao movimento sionista a esforçar-se para preparar um rascunho de uma declaração, agregada de um memorando com o apoio de mais de 350 comunidades judaicas.

Outros planos para o oriente

O movimento sionista, entretanto, não era o único grupo de interesse estratégico britânico. O político britânico Henry McMahon, alto comissionado no Egito, simultaneamente negociava de forma secreta com oligarcas árabes a fim de conseguir seu apoio durante a guerra contra o Império Otomano. No contexto dessas declarações, foram trocadas as Cartas McMahon-Husayn, correspondências entre o político britânico e Husayn Ibn Ali, xerife de Meca. Nestas correspondências, trocadas entre julho de 1915 e janeiro de 1916, McMahon demonstrava apoio ao nacionalismo árabe e à criação de um grande Estado árabe nas regiões pertencentes ao Império Turco-Otomano. McMahon alega que jamais prometeu entregar a Palestina aos árabes, você pode tirar sua conclusão aqui. Como consequência deste acordo, eclodiu a Grande Revolta Árabe em 1916 contra o domínio turco-otomano, comandada justamente por Husayn Ibn Ali. A revolta durou até 1918, facilitando a conquista da região por britânicos e franceses e desmembrando o Império Turco-Otomano.

Os Tratados de Sykes-Picot também foram parte de outros planos para o Oriente Médio. Percebendo a iminente ruína do Império Turco-Otomano, britânicos, franceses, italianos e russos se reuniram para dividir os territórios conquistados em colônias, protetorados e áreas de influência. Estes acordos secretos batiam de frente tanto com a Declaração Balfour quanto com as Cartas McMahon-Husayn, pois, ao mesmo tempo em que prometiam e demonstravam aprovação a projetos de emancipação nacional, planejavam manter colônias e protetorados nessas mesmas regiões. Com o advento da Revolução Russa, Vladimir I. Lenin divulgou os termos do tratado, deixando britânicos e ingleses em situação embaraçosa. Frente a essas adversidades, os líderes das potências imperialistas chegaram a acordos com oligarquias árabes, garantindo a independência de determinadas regiões (como o Iraque), nas quais reinariam monarquias simpáticas às demandas desses países europeus. Outras regiões passariam a ser protetorados e colônias britânicas e francesas até a Segunda Guerra Mundial. As monarquias árabes resistiram até a Guerra Fria, mas não puderam conter o avanço do movimento nacionalista árabe.

A declaração e suas consequências

A Declaração Balfour (leia abaixo), datada no dia 2 de novembro, tornou-se pública na imprensa no dia 18 de novembro, competindo com notícias sobre a Revolução Bolchevique. Os meses que se seguiram foram de intenso trabalho do movimento sionista a fim de convencer outras nações a apoiar o documento britânico. Uma tímida declaração de apoio italiana veio dois meses mais tarde. Por parte da França, foi noticiado um acordo com os britânicos na mesma época, para um estabelecimento judaico na Palestina, sem dar mais detalhes. Somente 10 meses depois os EUA declararam um tímido apoio ao sionismo, por meio de Stephen Wise. O novo governo soviético associou a Declaração Balfour a uma intriga imperialista antissoviética, portanto, sem apoiá-la. A Alemanha não se manifestou.

35 anos após a Primeira Aliá (primeira onda de imigração judaico-sionista à Terra de Israel), o sionismo surtia efeito na prática. 20 anos após o Primeiro Congresso Sionista (leia mais aqui), o sionismo político, inventado e executado por Theodor Herzl, chegava ao seu maior êxito: conseguia o reconhecimento da maior potência europeia às suas aspirações. Ao mesmo tempo, a Declaração Balfour esbarrava no crescente nacionalismo árabe e no imperialismo mundial, ambos com planos conflitantes com o sionismo. A Declaração Balfour ao mesmo tempo, deu ao movimento sionista as garantias políticas exigidas, e por outro lado marcou a mudança de uma era na região. O adversário do sionismo não era mais somente o imperialismo europeu, mas também o movimento de emancipação árabe. A luta política se desdobraria em duas mais: militar e de ocupação de terras.

Bibliografia

Jonathan Schneer,. “The Balfour Declaration: the origins of the Arab-Israeli conflict”. Random House, 2010, EUA.

Walter Laqueur. “Historia del Sionismo”. La Semana Publicaciones Ltda, 1988, Jerusalén.

http://www.morasha.com.br/historia-de-israel/declaracao-balfour-o-centenario-de-um-marco.html

https://es.wikipedia.org/wiki/Declaraci%C3%B3n_Balfourhttp://philosemitism.blogspot.com.ar/2010/11/henry-dunant-first-christian-zionist.html

https://www.fozmuseum.com/exhibits/dreamers/dunant/http://www.jpost.com/Features/In-Thespotlight/The-many-faces-of-Christian-Zionism

Comentários    ( )

Um comentário para “100 anos atrás: A Declaração Balfour”

  • Henrique Samet

    06/11/2017 at 12:35

    Montagu e o Brasil

    Edwin Samuel Montagu PC (06 de fevereiro de 1879 – 15 de novembro de 1924) foi um político liberal britânico que serviu como Secretário de Estado da Índia entre 1917 e 1922. sendo o segundo judeu a participar de um Conselho de Ministros ingles.
    O curioso é o fato de que, sendo antissionista Edwin Samuel Montagu sugeriu alteração na Declaração Balfour.
    Opunha-se fortemente ao projeto sionista e afirmava, então, estar preocupado com o documento tal como se apresentava pois poderia resultar em aumento de antissemitismo pois criando uma entidade judaica políticamente autônoma poderia fazer com que os judeus fossem considerados e tratados como estrangeiros em todos os países e particularmente tornaria, para ele Montagu, mais difícil lidar com os muçulmanos indianos.
    A Declaração Balfour em sua versão final foi redigida, pois propositalmente em termos ambíguos, pois assinalava a simpatia britânica por um “lar nacional judeu”, mas não um Estado, com o apoio de Edwin Samuel Montagu O adendo por ele sugerido e acrescido à declaração afirmava “que seja claramente entendido que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas na Palestina, ou os direitos e estatuto político usufruídos pelos judeus em qualquer outro país”.
    Em 1923 foi chefe da missão encarregada de investigar as finanças do governo brasileiro. Seu tio, Leonard Cohen em Londres pediu ao mesmo dar apoio ao rabino Isaías Raffalovitch que vinha no mesmo navio da missão explicando ao sobrinho as atividades que seriam exercidas por Raffalovich no Brasil e pedia ajudá-lo no contato com o governo brasileiro.

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