Entendendo o conflito em uma semana

21/12/2015 | Conflito, Política.

Passei uma semana incrível nesse mês de dezembro trabalhando como intérprete para uma delegação de deputados brasileiros em visita extra-oficial a Israel. Participamos de palestras sensacionais, com um conteúdo que, de tão rico, é difícil ser condensado.

Ouvimos as impressões e relatos de pessoas que fazem a história por aqui. Dois aspectos que foram repetidos diversas vezes me impressionaram mais do que tudo: a crença unânime de que precisaremos esperar outros 10 ou 15 anos para de novo sonhar com um acordo de paz entre israelenses e palestinos, e a previsão de que, no lugar de discutir um acordo sobre a criação de dois Estados, precisamos começar a considerar três. Isso em razão da dicotomia estabelecida entre o povo palestino, hoje completamente dividido entre Cisjordânia (partido Fatah, de Abu Mazen) e Faixa de Gaza (o terrorista Hamas). Nesse momento, a distância conceitual entre os dois territórios extrapola completamente os 45 quilômetros de chão que os separam.

Todos os palestrantes citaram a necessidade imprescindível de um “líder histórico” para a construção de um horizonte de paz e, consequentemente, a assinatura de um acordo. Alguém citou a personalidade do presidente egípcio Anwar Sadat como o líder histórico que proporcionou a paz entre seu país e Israel – e depois pagou o preço dela com a vida. Também mencionou o rei Hussein da Jordânia, com o qual Israel assinou a paz em 1994. Alguns abordaram a importância que a amizade pessoal cultivada entre ele e o primeiro-ministro israelense Itzchak Rabin teve nesse processo.

Aprendi, assim, que a paz precisa ser antes feita entre duas pessoas para que depois possa ser transportada, disseminada e instaurada entre os povos liderados por elas. E que essa segunda parte da tarefa, angariar o apoio da população, é um processo que extrapola a atuação dos líderes dos países para se tornar tarefa de líderes de todos os segmentos: de rabinos a mulás, de pais e professores, de ministros a radialistas.

Triste entender que, na visão desses especialistas, a sensação comum por aqui é confirmada: não existe nesse momento um líder histórico de nenhum dos lados que possa desempenhar o papel de negociador. O que fazer, então, por agora e pelos vários anos à frente? “Gerenciar o conflito”. Essa frase, repetida também por todos os palestrantes, arrancava calafrios de mim e, creio, de todos os participantes.

Well, well.

Deputados brasileiros em conversa sobre direitos humanos em Israel com Yuval shani, reitor da faculdade de direito e titular de lei publica internacional da universidade hebraica de Jerusalém.
Deputados brasileiros em conversa sobre direitos humanos em Israel com Yuval Shani, reitor da Faculdade de Direito e titular de Direito Público Internacional da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Isso não provocaria tanta desilusão não fosse a percepção concreta de que praticamente não existe mais a possibilidade de se discutir a criação de um único Estado palestino. É fato que a sensação de que não existe um representante global do lado de lá (suspiros de “saudade” do Yasser Arafat) é antiga, mas mesmo assim impressiona ouvir da boca de pessoas que se sentam às infinitas mesas de negociação – hoje inexistentes – que, de fato, é preciso lidar com dois interlocutores. Ou melhor, com a falta de até mesmo um.

A realidade na Faixa de Gaza e na Cisjordânia é tão absolutamente distinta que transformá-las novamente em uma unidade se tornou uma tarefa quase impossível e sobre a qual Israel não tem o menor poder de influência. Com o passar dos anos, é o inverso que acontece: a política se diferencia, os objetivos se dispersam, as populações se dividem, ações desastrosas de ambos os lados os afastam. Deixar o tempo correr, uma estratégia muito pouco recomendável na maior parte das situações, só trouxe dano ao nosso frágil ecossistema local.

Nesses dias li que o Peace Index Report – estudo que trata sobre os conflitos instaurados pelo mundo – reportou que apenas 11 de 152 países pesquisados estão em paz nesse momento. Queria ter pensado um treco mesquinho do tipo “pelo menos não somos só nós”, mas não deu. Novamente, voltaram os calafrios. Faz tempo que o mundo não é um lugar seguro para se viver, mas acho que a humanidade está exagerando.

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Comentários    ( 13 )

13 Responses to “Entendendo o conflito em uma semana”

  • Raul Gottlieb

    21/12/2015 at 12:36

    Miriam, quem “está exagerando” é o Islã e não a humanidade.

    Claro que a perfeição não existe, assim que o restante da humanidade não é composta por pessoas bondosas que perseguem políticas de bem estar para todos.

    Mas é claro para qualquer um hoje que, independente das mazelas dos regimes democráticos, o Islã abraçou de vez uma ideologia (que não me importa se tenha fundo religioso ou não) totalitária e fascista que prega abertamente o extermínio de todos os não muçulmanos e que prega dentro do Islã o extermínio de todos os que não aderem a sua versão de Islã.

    E esta ideologia não está apenas no reino teórico. Ela se manifesta diariamente em horrorosos atos de barbárie em todos os quadrantes do globo.

    Assim que o calafrio que você sente deveria ser sentido por todos, inclusive pelos muçulmanos (pois o totalitarismo vitima a todos), mas principalmente pelas lideranças políticas do mundo que se omitem, não combatem o Islã e que serão culpadas por uma tragédia imensa se não acordarem a tempo.

    Infelizmente, acho que não vão acordar.

    E é claro que gerenciar o conflito é tudo o que Israel pode fazer neste momento. Já sabemos disto há alguns anos, não é?

    Abraço,
    Raul

    • Miriam Sanger

      22/12/2015 at 11:42

      Olá, Raul.
      O islã é a bola da vez e, de fato, está na linha de frente dos embates mundiais. Mas não podemos esquecer os conflitos tribais na África, os de países latinos e muitos outros por aí, que não têm o islamismo como pano de fundo.
      Abraço!
      Miriam

  • Mario S Nusbaum

    21/12/2015 at 14:52

    Interessante essa tese dos três países. Perdi a conta do número de vezes em que comparei a partilha da com o conflito Israel x palestinos, quase sempre em relação aos refugiados. Esta pode ser mais uma semelhança.

    “Cisjordânia (partido Fatah, de Abu Mazen) e Faixa de Gaza (o terrorista Hamas)”
    Na minha opinião, Cisjordânia (partido Fatah, do terrorista enrustido Abu Mazen) e Faixa de Gaza (o terrorista confesso Hamas).
    “extrapola completamente os 45 quilômetros de chão que os separam”
    Sempre morei no Brasil, e continuo me surpreendendo com as distâncias em Israel. Conheço muita gente que mora a mais do que isso do trabalho.

    • Miriam Sanger

      22/12/2015 at 11:39

      Pois é. Tem gente que nem imagina que, se espirrarmos, podemos respingar uns nos outros.
      Obrigada pela mensagem, Mario.
      Abraço,
      Miriam

  • Felipe M

    21/12/2015 at 20:12

    Por curiosidade gostaria de saber quais foram os deputados e partidos envolvidos.

    • Miriam Sanger

      22/12/2015 at 11:38

      Olá, Felipe. Vieram: Fernando Capez, Julio Delgado,Izalci Lucas Ferreira, Raul Jungmann, Sinval Malheiros, Jony Marcos, Darcísio Perondi e Carlos Zarattini. Vale ressaltar que não vieram representar seus partidos ou o governo. Foi um convite pessoal.
      Abraço,
      Miriam

  • Raul Gottlieb

    23/12/2015 at 08:19

    Miriam,

    A grande (bota grande nisso) maioria dos conflitos no mundo hoje tem o Islã como motivador.

    Quais conflitos de países latinos existem hoje? Me ocorre o das FARC na Colômbia e mais nenhum.

    Até mesmo em conflitos africanos (como no Congo) o Islã é o motivador.

    Um Islã em paz e tolerante com os não muçulmanos faria o mundo ficar muitas vezes melhor.

    Repito: não é a humanidade que está exagerando. É o Islã que está completamente dissonante.

    Abraço, Raul

  • Marcelo Starec

    24/12/2015 at 22:07

    Oi Miriam,

    Muito bom o seu texto!…Realmente, o que você coloca para mim pode ser resumido em um termo simples – realidade!!!…É isso…Na verdade, até hoje tivemos oportunidades pontuais de alguns acordos “frios” com países árabes visando interesses em comum, mas nada próximo a uma verdadeira paz!…E a vertente do islã radical continua forte e ativa, nos retirando o direito de viver…de respirar…de existir….Era isso em 1920, em 1948 e….hoje!!!….Nada mudou, apenas Israel conseguiu sobreviver e ficar mais forte, por ora ficando óbvia a impossibilidade de ser destruído…Fazer a paz um dia, com três Estados Palestinos (já temos com um, a Jordânia, que ocupa cerca de 80% do que era a palestina, faltando que o mesmo ocorra com os demais…Cisjordânia e Gaza)….Por que não?…..Se algum líder de fato desejar a paz, seja ele do Fatah ou do Hamas…Que se negocie!…mas sempre com muita calma, de forma gradativa e só cedendo com toda a segurança!!!…Sabe, chega de ficar entregando terra para colocarem bases de mísseis e perpetrarem o terror….Fazer a paz é de fato resolver o problema, coexistir etc…Ou pelo menos parar de agredir…Enfim, tudo isso será lento e demandará “savlanut” (paciência!) do nosso lado…Perseverança e paciência!…..

    Abraço,

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      30/12/2015 at 13:18

      Oi, vizinho!
      Bonitinho você chamar a Jordânia de estado palestino 🙂
      Torçamos, torçamos.
      Abraço!
      Miriam

  • Jessica Srour

    30/12/2015 at 01:55

    Olá Miriam,

    Muito interessante tua reportagem. Porém sinto dizer que concordo plenamente com o Raul. Dos grupos terroristas mais sanguinários e covardes da atualidade não me lembro de absolutamente nenhum que não seja muçulmano: ISIS, Boko Haram, Hamas, Hezbollah, Al-Qaeda, etc, etc. É de fato politicamente correto colocarmos Israe em nível com o restante do mundo; não digo isso por arrogância, mas por justiça no que diz respeito aos valores cultivados pelo Povo Judeu ao longo da história como democracia, igualdade de direitos e tantos outros exaltados pelo Ocidente. O que vemos hoje no entanto é uma alienação da esquerda ocidental se juntando aos extremistas islâmicos de modo que o algoz vira vítima e a vítima por sua vez o algoz. Uma total inversão de valores. Assim como acontece no Brasil com deputados de esquerda que defendem que a população absorva os detentos em período de indulto em suas próprias casas……vivemos um tempo de trevas……..apesar de acharmos que somos “evoluídos”.

    • Miriam Sanger

      30/12/2015 at 13:14

      Oi, Jessica,
      Diálogo é sempre muito bom e acho bom que você tenha concordado com um dos lados.
      Mas creio que, com o Raul, não citamos somente o terrorismo — e ele é, de fato, a principal estratégia de guerra do extremismo islâmico. Acho que citamos “guerras/conflitos”. Nesse caso, rolam guerras relacionadas a narcotráfico em vários países da América Latina, que nenhuma relação têm com o Islã. Esse é só um exemplo, mesmo porque não tenho propriedade para falar sobre geopolítica internacional.
      Claro, posso estar enganada.
      Obrigada pela mensagem!
      Miriam

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