A incrível história da tradução do Hobbit para o Hebraico

Existem em hebraico duas traduções do livro O Hobbit. Uma é a oficial, de 1976, por Moshe Hana’ami, e a outra, anterior, cuja história é tão ou mais incrível quanto a de Bilbo: foi feita na prisão no Egito, por quatro oficiais israelenses capturados pelo exército egípcio durante a Guerra de Atrito.

Rami Harpaz teve seu avião Phantom abatido entre Suez e o Cairo, no dia 30 de junho de 1970, e foi capturado.

“Fomos bombardear uma bateria de mísseis do lado ocidental do canal, e outra bateria lançou mísseis contra nós. Fomos capazes de evitar o primeiro míssil, mas o segundo nos atingiu. Ouviu-se uma forte explosão, a cauda do Phantom havia sido arrancada e o avião começou a girar rapidamente. Todas as possibilidades de ação se resumiam a uma: abandonar a aeronave. De paraquedas, descemos numa área desértica, mas enquanto nos aproximávamos do solo, víamos o deserto inteiro correndo em nossa direção. Havia ali uma base militar e os soldados egípcios vinham correndo até nós por todos os lados. Não havia para onde fugir.”

Harpaz foi levado a uma prisão no Cairo. Lá, ficou por mais de seis meses em uma solitária, onde foi investigado e interrogado.

“No inverno de 1971, nós éramos 10 pessoas na prisão egípcia, no Cairo. Já estávamos todos juntos, depois de meio ano em solitárias. Nos aproximávamos muito uns dos outros. Tentávamos, dentro dos limites da prisão, manter uma vida o mais normal possível. Afinal, de qualquer forma, já estávamos ali mesmo, e tínhamos um certo controle sobre o que acontecia dentro da cela (área de 6 x 6 metros, banheiro de 6 x 3 metros e pátio, 18 x 7 metros). O que acontecia fora da cela era um mundo sobre o qual não tínhamos qualquer controle. Um mundo com o qual nossa ligação era resumida por encontros com a Cruz Vermelha, cartas que iam e vinham, e a esperança de que, eventualmente voltaríamos para casa.”

“Nosso mundo inteiro era aquela cela. Ali, nós tínhamos que levar a nossa vida. Ali, nós nos levantávamos de manhã, passávamos o dia, dormíamos de noite e, principalmente, tínhamos que acordar no dia seguinte. De novo. Podíamos amargar-nos com este nosso destino, de que éramos prisioneiros de guerra, e de que nossas famílias estavam longe, em casa.”

O coronel da aeronáutica aposentado conta mais sobre os primeiros meses no cativeiro:

“Podíamos simplesmente ficar deitados na cama e ficar olhando para o teto, ou rezando para Deus e esperar que dele viesse alguma luz. Se nos primeiros dias de cativeiro havia um tapete sobre o qual eu dormia, podia-se contar o número de fibras que ele tinha. Se depois disso as condições melhoraram um pouco, podíamos fazer outras coisas. Foi o que fizemos. Aproveitamos tudo que estava em nossas mãos a fim de levar uma vida normal, interessante e proveitosa, dentro da medida do possível.”

Os 10 prisioneiros criaram uma rotina impressionante, de estudos e atividades físicas. “Iniciávamos a manhã com exercícios. E participava quem estivesse afim. Ninguém era obrigado. E quem não quisesse, podia continuar dormindo. Depois disso começávamos a primeira aula, que tentávamos fazer em silêncio, para não atrapalhar os que dormiam.

Como assim aula? Tínhamos lá Menachem Eini, que era formado pelo Technion. Com ele, aprendi física e matemática. Havia Itzhak Kfir, formado nos Estados Unidos, que nos ensinou inglês. Eu me lembrava um pouco mais de química do que o resto, então foi o que eu ensinei. Eram cinco matérias que estudávamos.”

Dois dos soldados que, depois de libertos, foram estudar no Technion, ganharam créditos pelo que estudaram durante a prisão no Egito. Harpaz continua:

“No café da manhã, comia-se o que havia. E depois disso vinha a aula dos menos avançados. Aqueles que, enquanto nós estávamos estudando frações na escola, estavam lá fora, caçando borboletas. Tentamos também estudar Torá, mas não funcionou. Não havia entre nós alguém com a personalidade para levar a ideia a cabo.”

“De tarde, cada um cuidava de sua vida. No fim da tarde jogávamos bridge. De noite seguíamos com nossas distrações, que eram variadas. Entre outras coisas, li livros. Alias, li no cativeiro 304 livros. É muito mais do que eu li antes, ou depois disso. Simplesmente tínhamos tempo. Além disso, nos ocupávamos com trabalhos manuais como tricô (Harpaz fez um vestido para sua esposa e um para cada uma das suas filhas gêmeas, que nasceram quando ele ainda estava no Egito), construção com palitos de fósforos (um dos soldados construiu uma réplica da torre Eiffel com mais de um metro de altura), escultura, e até houve alguma tentativa com a pintura, mas não foi levado muito a sério. Na realidade, cada um se ocupava com as coisas que poderia se ocupar. As opções nos eram dadas através da Cruz Vermelha, pacotes mandados de Israel, das famílias que se apressaram em nos mandar cada coisinha que mensionávamos em nossas cartas. A aeronáutica também nos ajudou muito mandando encomendas e, na verdade, fizeram tudo que puderam.”

E foi assim que eles mergulharam no universo de Tolkien. Leram antes O Senhor dos Anéis, entraram num mundo que não tinha qualquer referência, nenhum paralelo com o deles. Saíram do Oriente Médio e penetraram na Terra Média. “Estávamos lá. E era simplesmente um prazer. Quando recebemos O Hobbit, mais tarde, vimos nele uma obra, eu diria, diferente. Eu até mesmo ousaria dizer, melhor. Aproveitamos mais O Hobbit do que O Senhor dos Anéis. Na minha opinião, justamente por ser um livro para crianças, Tolkien colocou ali muito humor, e isso nos fez aproximar muito mais do livro. Era delicioso se divertir com humor. Só que, como nem todos nós sabíamos inglês, acabamos por dizer para nós mesmos: ‘Espere um instante; têm os que não sabem inglês. OK, vamos traduzir isso para eles então’”.

“Trabalhamos então mais ou menos em duas duplas. Enquanto um lia o texto original em inglês e ditava em hebraico, o outro escrevia. Evidentemente dali saia um hebraico errado. O outro que estava do seu lado escrevia em hebraico ininteligível. Depois disso, pegávamos o hebraico do jeito que saiu e construímos as sentenças de forma mais ordenada.”

A tradução completa demorou quatro meses para se completar. Mas foi a última. Apesar do trabalho extremamente prazeroso que ocupou a mente dos prisioneiros por tanto tempo, o grupo decidiu não dar o próximo passo lógico e traduzir também O Senhor dos Anéis. Não foi por falta de tempo. Os soldados permaneceram no cativeiro por mais dois anos. O primeiro motivo seria a atmosfera mais sóbria do livro, que tem mais complexas e densas poesias. O segundo, e principal, motivo é que o trabalho dividiu o grupo em dois: os que estavam trabalhando no projeto, e os que não estavam. “O Senhor dos Anéis”, diz Harpaz brincando “vamos deixar para a próxima vez”.

Harpaz foi solto 40 meses depois de ser capturado numa troca de prisioneiros durante a Guerra do Yom Kipur. Os direitos para a publicação já haviam sido adquiridos, mas Harpaz convenceu a editora de publicar sua versão. Na contra-capa, como tradutor, consta apenas que o livro foi traduzido por um grupo de prisioneiros.

Fontes:

Esse texto foi baseado principalmente numa palestra dada por Harpaz em um conjunto de aulas sobre Tolkien, em Beit Ariel, em 2006. O site original onde a transcrição foi postada (http://numenore.com/28/) está fora do ar, mas pode ser encontrada no Cache do Google, no link http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:http://numenore.com/28/

 

http://www.iaf.org.il/6470-38638-he/IAF.aspx

http://www.jpost.com/Features/Their-Precious

http://www.nrg.co.il/online/47/ART2/423/193.html