Quando viramos Judas

No final do ano passado acompanhei pelo facebook que alguns eventos estavam sendo organizados sobre o último livro de Amos Oz, Judas. Publicado em Israel em 2014, foi traduzido para o portugês e chegou ao Brasil em 2015.

Curiosamente duas pessoas por quem tenho admiração me recomendaram a leitura. A primeira pessoa que me indicou o livro eu tinha acabado de conhecer pessoalmente. “Eu acho que você deveria ler o Judas, de Amos Oz”, disse. “Tem tudo a ver com você”.

A segunda, que me conhece há pouco mais de um ano, disse que eu gostaria da história. Não tinha acabado de ler o livro mas recomendou. Disse também que achou certas partes um pouco chatas e não teve problema em dizer que havia “pulado” certas partes para chegar logo ao que lhe interessava. Como ele tinha um livro e uma cópia eletrônica, me emprestou o livro.

Resolvi acatar a recomendação e comecei a ler. Realmente, como quase todos os livros que li de Amos Oz, é uma leitura muito agradável. Seus curtos capítulos tornam a leitura mais aprazível e aumenta a vontade de ler. Lia em casa, no ônibus, em qualquer intervalo que tivesse.

O livro conta a história de Shmuel Asch, estudante de mestrado que pesquisa a visão dos judeus sobre Jesus. Abandona seus estudos e vai trabalhar na casa de uma família para acompanhar Gershom Wald, um senhor de idade que precisa de alguma companhia algumas horas do dia. A casa é de Atália Abravanel, viúva de Michael Wald morto em 1949 na guerra de Independência de Israel. Seu pai, por sua vez, Shmuel Abravanel. era membro do comitê executivo da Agência Judaica e foi expulso por Ben Gurion por discordar de suas ideias. Shmuel Abravanel entendia que era possível chegar a um acordo com os árabes sem a necessidade de entrar em uma guerra. Tinha uma visão do sionismo inspirada no sionismo cultural de Ahad HaAm. Shmuel é o Judas para Ben Gurion e o seu pragmatismo político.

Em um determinado dia precisei viajar para uma região mais ao norte de Israel, cerca de duas horas de viagem de Jerusalém. O livro na bolsa encurtou a distância, principalmente na volta. Chovia e fazia frio. Precisava estar as dez horas da noite em um cruzamento chamado Megido para pegar o ônibus para Jerusalém. O último ônibus do dia.

Sete minutos antes das dez eu estava no ponto, a baixa neblina do inverno dificultava a visualização dos ônibus que vinham. Olho no aplicativo do telefone para saber se o ônibus estava chegando e pra minha surpresa e infelicidade ele já havia passado.Sem mais ônibus para Jerusalém naquele dia. O que fazer agora além de xingar todo mundo? A minha irritação com o péssimo sistema de transporte público israelense se aflorava mais uma vez.

Para onde ir? Haifa? Tel aviv? Volto para o aplicativo e vejo que em 40 minutos teria um ônibus para Tel Aviv. Então pensei: “Pego o ônibus para Tel Aviv e de lá um outro para Jerusalém. Chego em Jerusalém por volta de 1 da manhã e, como não vai ter mais ônibus urbano, um táxi para casa”. A raiva com os meios de transportes, aliviada após ver que teria ônibus para Tel Aviv, voltou a crescer ao perceber que em Jerusalém não teria mais ônibus para me levar da rodoviária até em casa.

O ônibus de Tel Aviv não chegou antes como o que foi para Jerusalém. Esperei por quarenta minutos no frio. No ponto, logo após a minha chegada, pararam dois carros da polícia de fronteira, e por ali ficaram até o ônibus chegar. Um policial desconfiado me pergunta se está tudo bem, para onde eu estou indo e me pede documentos. Uma “dura”, pensei. Coisa não muito comum de acontecer com uma pessoa com traços ashkenazis em Israel.

Entro no ônibus e percebo de imediato três coisas: para a minha surpresa, contrariando todas as possibilidades, o motorista era muito simpático. “Boa noite”, eu disse. “Abençoada”, respondeu o motorista que apesar de usar uma expressão religiosa não usava kipá, a primeira coisa que percebemos em alguém religioso.

Além disso, o ônibus estava quase vazio. Comigo erámos somente sete passageiros. E o ônibus era novo, com cheiro de novo e com carregadores “usb” para telefones, tablets e laptops. Dos seis passageiros que já viajavam, dois tinham fios penduarados do teto, ao lado das lâmpadas de leitura, carregando seus telefones.

Vou andando pelo corredor escuro pra achar um lugar.imaginando que não seria muito difícil. Pensava no livro. Depois de quarenta minutos esperando no frio eu queria sentar, abrir o livro e chegar em Tel Aviv. Mas não foi tão simples.

No meio do ônibus sentavam dois garotos. Um deles com o fio pendurado carregando o seu telefone. Ouviam música no alto-falante. Mesmo sentando na penúltima fileira eu ouvia tudo. A minha irritação volta. “Porra, não é possível!”, pensei. Fui falar com ele: “Você pode diminuir o volume?”. Ele pega o telefone que estava apoiado no seu ombro para que os dois pudessem ouvir a música e diz:”Não. Meu telefone está com um problema e não posso diminuir”. “Então desliga”, retruquei. Com aquela petulância e falta de respeito de boa parte da população israelense ele diz: “Não”.

Minha vontade era simplesmente jogar o telefone dele pela pequena janela e depois dar um jeito de jogá-lo também. Ou simplesmente começar uma briga – devo admitir que eu queria muito isso, mas muito mesmo! – mas engoli seco e voltei para o final do ônibus.

Coloco então meus fones de ouvido, sem músca, na esperança de abafar um pouco o som deles e poder ler meu livro em paz. Mas para a surpresa de todos que estavam no ônibus os “camaradas” acendem um cigarro. “Inacreditável”, pensei. “Como pode?”. O motorista intervém e os manda apagar o cigarro. “Mas nós não estamos fumando”, diz um deles. “Apague agora o cigarro ou eu tiro vocês dois do ônibus agora. O que que vocês estão pensando?”, responde o motorista irritado. O cigarro é arremessado pela pequena janela, a mesma que eu queria ter usado para me livrar do celular dele, e a calma é mantida por mais dez minutos e eu volto a leitura.

No cruzamento das estradas 65 com a 2 ouço uma sirene de polícia. O policial manda o ônibus encostar. “Outra dura? É realmente meu dia de sorte”, falei baixinho sem chamar a atenção dos policiais que já entravam no ônibus. Além disso nunca tinha visto um ônibus ser encostado pela polícia para checar os passageiros.

Aí me dei conta que estávamos perto da região onde o terrorista que atirou e matou pessoas em um bar em Tel Aviv duas semana antes vivia e havia sido morto poucos dias antes. A polícia manda quatro passageiros descerem, dentre eles os dois perturbadores da ordem da viagem. Ficamos ali cerca de cinco minutos. Todos tiveram seus documentos checados e foram liberados. Voltaram para o ônibus e seguimos para Tel Aviv.

A música do telefone foi substituída por um jogo sem som, permitindo a minha leitura em paz. Chegamos em Tel Aviv e eu não consigo parar de ler o livro. Difícil de largar. Em um determinado momento pensei que era um daqueles dias que não deveríamos ter saído de casa. Perdi ônibus, tomei dura, passei frio, me irritei com a música alheira, mas ler Amos Oz me acalmou, me carregou para outra dimensão e esse era o lado positivo de ter saído de casa naquela noite fadada aos infortúnios. Deveria agradecer a Amos Oz.

Mas deveria agradecer principalmente a Oz por ele trazer a tona uma antiga, porém fundamental, perspectiva de sionismo. Não um sionismo baseado em fronteiras, nacionalismo e estado-nação que tem se mostrado muito complicado na atualidade. Mas o contrário disso. Um sionismo pautado na cultura do povo judeu, seja secular ou religiosa, de esquerda ou de direita, mas antes de tudo, tolerante, igualitária e capaz de influenciar comunidades judaicas mundo a fora.

Porém nas últimas semanas o livro toma uma outra dimensão. Amos Oz, um dos mais renomados escritores israelenses, vira alvo do movimento fascista “Im Tirsu”. Com sua política macartista, como bem explicado no artigo do João, perseguindo e marcando quem pensa diferente, desde organizações de direitos humanos até intelectuais e artistas, o “Im Tirsu” chama Oz de traidor por ter uma posição política de esquerda, humanista e democrática. Por querer um Estado de Israel diferente do que vem sendo construído pelo atual governo há quase um ano.

Amos Oz vira o Judas do seu livro, o Shmuel Abravanel. E nesse momento tive a mesma sensação que tive quando percebi que ler seu livro me levava para outra dimensão: graditão. E por ser grato tenho obrigação de agradecer. Obrigado, Amos Oz. Precisamos, cada dia mais, de escritores como você.

Comentários    ( 7 )

7 comentários para “Quando viramos Judas”

  • Mario S Nusbaum

    17/02/2016 at 14:45

    ” A minha irritação com o péssimo sistema de transporte público israelense se aflorava mais uma vez.”
    Sério? Sugiro um artigo sobre isso. Eu sempre imaginei que fosse ótimo, e explico porque:
    – Israel é tecnologicamente muito avançado
    – o país é minúsculo

  • Alex Strum

    17/02/2016 at 15:28

    Marcos, voce consegue imaginar como seria Israel se a tese do Shmuel Abravanel tivesse prevalecido e não a do Ben Gurion?
    Em tempo, voce sabe se o nosso Silvio Santos tem algum parentesco com este Abravanel? Apenas uma curiosidade.
    Alex

    • Marcos Gorinstein

      17/02/2016 at 22:13

      Olá, Alex. Não tenho como responder a sua primeira pergunta. Aprendi que a história não é escrita com “se”. Só sei que teria sido diferente. Bem diferente. Quanto ao Silvio Santos, não tenho a mínima idéia. Abs.

  • Rafael Stern

    17/02/2016 at 18:37

    Adorei o texto.
    Adorei o livro.
    Adorei a foto. O beijo do Amos Oz é uma referência ao beijo do Judas?

    • Marcos Gorinstein

      17/02/2016 at 22:11

      Oi Rafael, tudo bem? Não achei que alguém fosse perceber. Pra bom entendendor meia palavra basta! 😉

  • Fábio

    18/02/2016 at 12:51

    Caros, os personagens do Amós Oz não são fictícios? Se sim, se trata só de “parente literário”.

    Conseguiu pegar táxi na rodoviária?

    Meguido não é qualquer lugar. Sem contar os cruzamentos do presente, os cristãos acreditam que ali será o Armagedom.

    Com um abraço, Fábio.

  • Raul Gottlieb

    19/02/2016 at 12:05

    Amigos,

    O livro Judas é um livro de ficção, com personagens fictícios, inseridos num cenário histórico. Assim que a resposta que eu daria à pergunta do Alex é: basta você querer que o personagem do livro passa a ser parente do apresentador de TV. Sinta–se completamente livre para criar!

    No livro do Amos Oz, o personagem principal postula que Judas foi o maior e mais fiel seguidor de Jesus e não um traidor. Que Judas delatou aos romanos o local onde Jesus estava para permitir que ele cumprisse a sua profecia de ser sacrificado em prol da humanidade (numa lógica teológica que a minha mente judaica até hoje não conseguiu desvendar).

    Assim que, a meu ver, Amos Oz traça mais um romance cheio de sutilezas onde nada é bem o que parece ser. O traidor não trai e o amante não ama. As imagens reais são bem diferentes das que ficam para a posteridade.

    É uma visão muito interessante que nos alerta para sermos bem cuidadosos no julgamento e, principalmente, para evitarmos seguir a massa.

    O beijo de Judas pode ter sido de verdade um beijo sincero de amor.

    Já quanto ao que aconteceu com os grupos (como o “Brit Shalom”) que postulavam um entendimento com os árabes para a construção de um país moderno e binacional, não é preciso especular muito no terreno das hipóteses tipo “e se”. Todos estes grupos fracassaram em achar uma contraparte árabe significativamente forte para prevalecer do lado de lá. O que não quer dizer que tenham tido grande sucesso do lado dos judeus também.

    Shabat Shalom.
    Raul

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