O sistema de saúde israelense

19/02/2016 | Sociedade.

Um sistema de saúde de qualidade e barato. Acessível a todos os cidadãos do país. Utopia?

sistema de saúde israelense (SSI) não é perfeito, mas ele está muito próximo do que imaginamos ser um sistema de saúde justo e eficiente. Entenda como ele funciona.  

SSI é um sistema público, financiado por impostos e pelo orçamento nacional, e está composto basicamente por quatro “convênios de sáude” (em hebraico, Kupot Cholim) e dezenas de hospitais.

Os convênios de saúde são licenciados e financiados pelo governo para atender a um plano básico para todos os cidadãos ou residentes permanentes. Eles atuam de forma similar a uma parceria público-privada.

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Todo cidadão israelense é obrigado por lei a ter um plano de saúde básico, oferecido por um dos convênios. A lei do ‘Seguro de Saúde Nacional’, que entrou em vigor em 1995, também estipula que o convênio, em seu plano básico, deve atender gratuitamente uma cesta de serviços e medicamentos, anualmente definida pelo Ministério da Saúde.

Todo ano há uma discussão sobre o que será incluído nesta cesta. Em 2016, foram adicionados remédios recém-lançados contra o câncer, aparelhos auditivos para adultos, remédios abortivos para mulheres que sofreram violência sexual, alimentação especial para pacientes com ALS e rémedios contra déficit de atenção em crianças.

Convênios de saúde

Historicamente, os convênios de saúde foram criados com base nas organizações de trabalhadores. Três dos quatro convênios já estavam ativos antes mesmo da criação do Estado de Israel.

NomeNome em hebraicoAno de fundação% da populaçãoLogotipo
Clalitכללית191352%clalit
Macabiמכבי194125%ביטוח-מכבי-שירותי-בריאות
Meuchedetמאוחדת197414%meuchedet
Leumitלאומית19339%leumit

Todo cidadão tem direito de trocar de convênio duas vezes por ano, e por lei, nenhum convênio pode recusar recebê-lo.

Os convênios têm a possibilidade de propor pacotes “premium” que incluem itens não incluídos no plano básico. Em geral, estes pacotes oferecem descontos em remédios excluídos da cesta básica, serviços de medicina alternativa, nutricionista, fisioterapia e tratamentos dentários por preços mais baixos. Em relação a estes pacotes, os planos atuam de forma exclusivamente privada, competindo entre si em questões de preço, qualidade e serviços.

As tarifas dos planos “premium” também são muito acessíveis, e variam de acordo com a idade. Veja a tabela abaixo com os preços mensais (em shekels, ₪1 é aproximadamente R$ 1) de acordo com o grupo de idade:

Idade* / PlanoClalit ‘Platinum’Macabi ‘Sheli’Mehuchedet ‘Si’Leumit ‘Zahav’
25-30 anos75.06 95.5882.5055.87
31-4096.01116.27107.5069.90
41-50105.52119.99125.5087.80
51-60116.24119.99146.00109.83

* A divisão de preços por grupo de idades não é igual para todos os planos. Em alguns casos, foi feita uma média ponderada para chegar a estes resultados. Para uma tabela detalhada (em hebraico), clique aqui.

Além disso, hoje em dia já existem planos ainda mais avançados de empresas exclusivamente privadas que cobrem serviços mais específicos (e caros!), como o acesso a cirurgias no exterior, transplante de orgãos e remédios para doenças raras.  

Financiamento

O Instituto de Seguro Nacional (equivalente ao INSS brasileiro) coleta o imposto da saúde, tributado de forma progressiva, ou seja, contribuintes de maior renda pagam proporcionalmente mais do que os de menor renda.

Ele redivide as contribuições entre os quatro convênios de saúde de acordo com uma fórmula que leva em consideração: (a) número de associados, (b) distribuição de idade dos associados, (c) região geográfica, (d) outros fatores. Além disso, os convênios também recebem um complemento proveniente do orçamento do governo.

E funciona?

O SSI ficou em sétimo lugar numa lista elaborada pela Bloomberg, em 2014, que avaliou a eficiência dos sistemas de saúde de 51 países.

Serviços básicos, como visitar um clínico geral, ou algum médico especialista (ortopedista, ginecologista, dermatologista,etc..), apesar de pequenas variações de acordo com o convênio e a região, não são tarefas complicadas. Assim como realizar exames básicos, como exames de sangue, fezes, urina e raio-x.

Exames um pouco mais avançados, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, assim como tratamentos de alto custo, podem demorar mais tempo para serem aprovados, e devem passar por um processo burocrático um pouco mais tedioso. Mas, cedo ou tarde, e se realmente necessário, será possível fazê-los – com a certeza de que serão realizados em aparelhos modernos e em excelentes condições.

Obviamente, se o caso é urgente, é possível agilizar quaisquer procedimentos e fazê-los todos em questão de apenas uma semana, talvez tendo que se deslocar para outras regiões do país.

Os hospitais públicos tem nível de hospitais privados do Brasil. O nível dos médicos também não fica nem um pouco atrás. O país está na vanguarda da pesquisa científica em diversas áreas da medicina, com destaque para as pesquisas oncológicas.

Em caso de doenças graves, como câncer por exemplo, praticamente todos os tratamentos são completamente cobertos pelo plano básico – incluindo tratamentos quimioterápicos, radioterápicos, internações, cirurgias, entre outros.

Nem tudo está tão bem

Apesar dos bons indicadores, todos os convênios tem apresentado saldos negativos de bilhões de shekels nos últimos anos [ref] http://www.themarker.com/markets/ifrs/1.2303200 [/ref].

O sistema tem enfrentando dificuldades financeiras, e precisa ser sustentado, de forma constante, por novas transferências do governo. O mesmo ocorre com grandes hospitais (ex: Hadassa e Shaarei Tzedek), que têm sofrido com dívidas causadas, entre outros motivos, por má administração.

Há quem diga também que a qualidade do serviço está diminuindo gradativamente, muito por conta do aumento do número de hospitais e planos de saúde privados, onde literalmente os mesmos médicos presentes no sistema público, oferecem o mesmo atendimento, com excessão de um detalhe: filas, burocracias e tempo de espera menores, mas preços mais altos.    

Os convênios de saúde foram criados com base no princípio da igualdade e da ajuda mútua entre seus associados [ref] http://www.gertnerinst.org.il/health_policy/technology/technolog_publications/HTA_management/&mod=download&me_id=2716. [/ref], muito inspirados nos ideais socialistas do início do século XX.

Por outra perspectiva, mas com significado similar, a famosa frase “Todo o povo de Israel é responsável um pelo outro”, expressa na tradição judaico-religiosa presente no Talmud [ref] http://www.myjewishlearning.com/article/all-of-israel-are-responsible-for-one-another/ [/ref], reafirma a importância da ajuda mútua entre as pessoas.

Isso faz com que o SSI seja uma daquelas poucas “esquinas” em que socialistas laicos e religiosos ultra-ortodoxos podem concordar entre si. O SSI é um patrimônio da sociedade israelense e, por isso, todos os esforços possíves devem ser feitos para a manutenção do sistema.

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Comentários    ( 10 )

10 Responses to “O sistema de saúde israelense”

  • Raul Gottlieb

    19/02/2016 at 14:03

    Muito boa a explicação, Amir. Obrigado.

    Apenas uma observação: o sistema é financiado integralmente por impostos, tendo em vista que o “orçamento nacional” não é uma fonte de recursos e sim um plano para a destinação dos recursos arrecadados, única e exclusivamente a partir de impostos.

    Assim que se você extirpar a menção ao orçamento nacional do terceiro parágrafo, o teu texto fica, a meu ver, ainda melhor.

    E nem seria necessário falar que o sistema é público e sustentado pelos impostos pagos pelos cidadãos, pois todo sistema público o é.

    Governos não geram dinheiro. Apenas administram o dinheiro dos cidadãos. Algumas vezes bem, muitas vezes mal e em países socialistas numa desconfortável gradação entre o muito mal e o péssimo.

    Abraço!
    Raul

  • Charles

    19/02/2016 at 19:12

    Muito legal o artigo, parabéns!

    Estive agora em Israel e precisei de uma cirurgia ortopédica de urgência.

    Fui internado e operado em um hospital (Ichilov, em Tel-Aviv) que compete com os melhores daqui do Brasil. Tudo de graça, inclsuive a fisioterapia pós operatória. A cirurgia foi um sucesso.

    Percebi entretanto uma diferença muito grande na relação médico-paciente e no serviço da internação. Não existe nenhum “mimo” por parte dos hospítais ou dos médicos, eles fazem o que é necessário para curar e ponto final. Sem discussão, sem enrolação, sem quartos suíte privados com tv a cabo. Uma medicina bastante objetiva. Para se ter idéia, fui liberado do hospital em menos de 12 horas depois da operação.

    De forma geral acho a saúde pública israelense exemplar.

    abs

  • Paulinho

    23/02/2016 at 04:58

    Gostei muito do texto Amir!
    Este é um tema que me interessa bastante.
    Eu não entendi uma coisa, é obrigatório ter um plano de saúde básico, mas é gratuito. Então a pessoa precisa se associar a algum desses convênios, mesmo que não pague nada?
    Eu sei que pode ser uma pergunta complicada, mas os planos básicos oferecem o que exatamente? É por que isso faz muita diferença.
    Me parece que os planos básicos não oferecem o cuidado integral, ou seja, em todos os níveis de atenção. Mas num geral parece um modelo interessante.
    Grande abraço,
    Paulinho

  • Amir Szuster

    23/02/2016 at 10:42

    Fala Paulinho,

    Sim, correto. É obrigatório ter um plano de saúde básico, que oferece uma cesta de serviços determinada.
    A pessoa precisa se associar a um dos convenios, mesmo que não pague nada.

    Sobre os serviços do plano básico. A pergunta é de fato complicada. Vou buscar uma lista exata,mas ela provavelmente estará em hebraico.

    Posso adiantar que visitar a um clínico geral, exames de sangue e outros procedimentos básicos estão incluídos, assim como tratamento de cancer e outros exemplos que eu dei no texto. (todos na cesta básica, que é alterada anualmente).Alguns serviços podem incluir uma taxa quase que simbólica. Por exemplo, visitar um ortopedista pode custar 10 shkalim, e voce poderá visitá-lo quantas vezes for necessário durante 2 meses. Ou seja, uma pequena participação em caso de uso. Dei apenas um exemplo geral, preciso conferir exatamente se esses números são os corretos hoje em dia.

    O upgrade para um plano mais avançado é bastante acessível, como voce pode ver na tabela de preços. Para um israelense, esse valor não é muito alto comparado ao salário mínimo do país.

    Qualquer duvida, me avisa.
    Abs

  • Djalma Ferreira

    25/02/2016 at 00:16

    Eu gostaria de morar em Israel. Israel é uma nação de heróis.

  • Marcelo Starec

    25/02/2016 at 21:46

    Oi Amir,

    Muito bom o texto!…Eu não tenho dúvida de que o modelo israelense de saúde é um dos mais interessantes do mundo. Israel, é certo, vem seguindo um direcionamento para uma economia mais de mercado, a décadas, porém não deixou de considerar, como algo indispensável, a educação e a saúde…É fato que hoje há em Israel, assim como no mundo todo, um grupo de pessoas em condição e dispostas a pagar por planos totalmente privados, sem filas e com atendimento VIP – o que é muito importante (e está muito bem colocado em seu texto!) é que o direito básico, de todos, este não está e nem pode ser deixado de lado, pois é um valor da sociedade israelense!!!…..

    Abraço,

    Marcelo.

    • Mario S Nusbaum

      27/02/2016 at 02:59

      ” o direito básico, de todos, este não está e nem pode ser deixado de lado”
      O problema é exatamente este Marcelo, qual é o direito básico? Saúde é um caso a parte. Se discutirmos o direito a transporte ou alimentação, ninguém vai achar que tem direito a um motorista particular ou a caviar, mas em assistência médica todo mundo acha que deve poder ter acesso aos métodos mais modernos de diagnóstico e cura, por mais caro que custem.
      Não vou dar minha opinião (ela se baseia em estatística, e, com certeza, vai ser tachada de desumana) mas o FATO é que não existe dinheiro no mundo para sustentar isso.

  • Leandro

    03/04/2016 at 23:34

    Oi Amir,
    Vou estudar em Israel, tem como eu ser admitido em um convenio de direito básico de forma gratuita, estando eu aqui no Brasil. O consulado, para visto de estudante, pede este seguro??

  • Daniel Sabbá

    04/04/2016 at 16:09

    Amir,

    Bom texto, queria te fazer uma pergunta, você sabe se é facil e se os planos cobrem remédios caros, pois eu faço tratamento com Simponi (Golimumab) aqui no brasil, eu e minha esposa pretendemos fazer alia no meio do ano, todavia, esse é o principal impedimento, saber se conseguirei continuar meu tratamento, pelo o que pesquisei o remédio se eu mesmo fosse comprar lá custa 6.000 shekelim.

  • Sonia

    24/05/2016 at 15:12

    Por favor, gostaria de saber se o desconto com o plano de saúde na folha de pagamento varia dependendo da renda, ou seria igual para pessoas com a mesma faixa etária e mesmo plano? Obrigada

Você é humano? *