Escravos do poder e amantes da liberdade

27/04/2016 | Cultura e Esporte, Opinião.

Liberdade é geralmente associada a poder – “sou livre porque posso estudar, porque tenho oportunidade, porque posso comprar, tenho direitos, posso votar, me expressar, ir e vir…”.

Não há como negar: hoje somos livres porque podemos e temos. Consequentemente, seria lógico argumentar que  somos mais livres na medida em que mais podemos e mais temos.  

Essa relação de dependência entre liberdade e poder é, no entanto, problemática. Primeiro, porque a liberdade passa a ser medida de forma arbitrária: quanto precisamos estudar para sermos livres? Quantas oportunidades são necessárias para que ganhemos a tão sonhada liberdade? Quão grande deve ser o nosso poder aquisitivo para que entremos na categoria de “seres livres”?

Essas são perguntas de impossíveis respostas – elas exigem que encontremos medidas para uma imensa quantidade de fatores com a pretensão de que, de alguma forma, determinemos a existência ou a ausência de liberdade. Além disso, como escolher um parâmetro (média populacional, outros países, grupo social, etc.) para cada um dos fatores envolvidos? Como definir quais deles possuem mais peso na “fórmula da liberdade”? É, portanto, evidente que a liberdade não pode ser (apenas) estabelecida por um cálculo de poder.

O segundo problema em entender a liberdade em termos do quanto possuimos e podemos é acreditar que ter liberdade é o mesmo que ser livre. Imaginemos uma situação em que temos – objetivamente – o direito de falar, mas não nos sentimos à vontade, como se houvesse uma pressão social para não nos expressarmos. Nesse caso, é plausível afirmarmos que, apesar de termos liberdade, não somos exatamente livres. Da mesma forma, se tenho acesso a determinado lugar, mas não sou bem vindo por aqueles que alí estão – o que, obviamente, me faz questionar a permissão de ir àquele lugar – podemos afirmar que possuo a liberdade mas, dificilmente, me sinto livre.

Observando essas facetas da liberdade – como ela se transforma na medida em que a pensamos objetiva ou subjetivamente – Isaiah Berlin, cientista político e filósofo judeu, criou os conceitos de liberdade positiva e negativa. O primeiro se refere a “permissão” e ao “acesso” nos casos acima; ou seja, à objetividade de ter liberdade. O segundo, por outro lado, está associado à “pressão social” e ao “não serei bem vindo”; ou seja, à subjetividade de ser livre.

O terceiro problema (e por aqui termino) na relação entre liberdade e poder é o exagerado foco no indivíduo, como se a liberdade individual estivesse em detrimento do coletivo. Sem dúvida, a liberdade deve ser entendida pela perspectiva individual, mas isso não implica dizer que devemos – como indivíduos – viver aquém do bem comum. Na realidade, somente com um forte senso de comunidade, somos capazes de preservar a nossa própria liberdade. Por exemplo, é inegável que para obtermos e protegermos certos direitos, devemos concedê-los também a outros. Caso contrário, ou viveríamos em uma ditadura (sem qualquer liberdade) ou entraríamos em conflito (colocando a nossa liberdade individual em perigo). O mesmo racional se aplica para outros fatores associados à ideia de liberdade, como poder aquisitivo e oportunidade.

O princípio de que a minha liberdade está atrelada a do outro – tão contemplado por grandes filósofos liberais – se deteriora com a crescente relação que estabelecemos com o poder. A obtenção da liberdade individual depende, invariavelmente, da nossa luta para que outros também sejam livres. Devemos entender, portanto, que, quanto mais forte for a associação entre liberdade, “ter” e “poder”, maior será a tendência de que, no longo prazo, perdamos essa mesma liberdade que tanto veneramos.

Algumas perguntas ficam pendentes: Como, então, definir liberdade? Como determinar se somos realmente livres? Não há uma resposta definitiva a essas perguntas – elas são parte de um interminável debate. A única conclusão que a análise acima nos permite chegar é que a relação entre liberdade e poder é problemática.  De resto, posso apenas desejar que, nesse Pessach, consigamos encontrar liberdade dentro de nós. Que vejamos liberdade além do quanto temos e podemos. Que encontremos a nossa liberdade na liberdade do outro. Que tenhamos, enfim, um chag sameach.