A cultura do estupro em Israel

30/05/2016 | Sociedade

Era meio-dia de uma serena quinta-feira de inverno israelense. Nos telejornais parecia haver uma única notícia a ser reportada e, nas ruas, o burburinho era uníssono. A apreensão era epidêmica e a nação, com seus juvenis 52 anos, assistia exasperada ao desfecho de um caso que marcaria sua história. Era a triste novela da vida real, um reality que de “show” nada tinha.

Há cinco anos e meio, Moshe Katsav, então presidente do país, era julgado culpado por estupro e assédio sexual. O “cidadão número um”, como denominam popularmente aqueles que exercem o cargo, tornava-se motivo de vergonha nacional. Não há como negar que o israelense recebeu um duro golpe em sua moral – um abatimento generalizado pairava no ar. Apesar da sentença ter sido finalmente dada, o simbolismo do caso estava apenas começando a ganhar forma.  

Desde aquele 12 de Dezembro de 2010, outros muitos se juntaram a Katsav. Na terra santa, ao que tudo indica, ninguém está imune – políticos, pedreiros, intelectuais, motoristas,  artistas e profissionais liberais são todos julgados com a mesma imparcialidade e eficiência perante a lei.  

Ainda assim, é triste pensar que nenhum país está livre desse mal. Em democracias e ditaduras, no ocidente e no oriente, em países cristãos, judeus e muçulmanos, a  violência contra a mulher não é um fenômeno, é uma constante. Muda-se o grau, mas o gênero, se me permitem o trocadilho, segue o mesmo.

O estupro, no entanto, não é uma cultura.  A covardia do homem é. Uma covardia hegemônica, que se naturaliza em nosso meio social, ganhando diferentes formas e adaptando-se ao contexto em que é expressada. Essa covardia é o denominador comum do machismo, do sexismo, do patriarcalismo, do militarismo e outros “ismos” que nos ajudam a entender a submissão da mulher na sociedade. Ela está em todo lugar e ocorre a todo instante – é a precisa materialização do que o sociólogo Émile Durkheim chamou de fato social.

A cultura covarde ocorre sempre que a mulher é respeitada por opção e o homem enaltecido por obrigação. Quando as redes sociais se tornam palco da decadência do “Golem-humano” que, construído por sua sociedade, passa de um retrato da realidade a um ideal a ser promovido por outros bípedes urbanos. O estupro não é, portanto, um acontecimento isolado e pontual; ele é um risco eminente. Ele está no medo incessante e na barbárie de julgamentos irracionais. O estupro é cláusula no contrato social tácito entre machos-alfas que visam a perpetuação de sua covardia nas esferas pública e privada.

Em Israel, onde a luta pela erradicação dessa cultura selvagem contra a mulher encontra-se em estágio avançado, o quadro ainda é alarmante: segundo dados de 2012, uma em cada três mulheres já se sentiu sexualmente violada e cerca de 70% afirma ter medo de ser sexualmente assediada.

No país, a punição por violência contra a mulher está prevista na Lei de Prevenção de Assédio Sexual (1998), que, redigida no masculino, mas, como de costume, aplicada a todos os sexos, deixa configurada a violência nos seguintes casos:

  • Extorsão por ameaça quando o ato que a pessoa é obrigada a realizar é de natureza sexual.
  • Atos indecentes, ou seja, atitudes que tem como objetivo a excitação, a gratificação ou a humilhação sexual sem o consentimento do assediado.
  • Repetidas proposições de natureza sexual endereçadas a uma pessoa que já demonstrou ao assediador que não possui interesse (quando as propostas tiram vantagem de uma posição de autoridade, dependência, educação ou cuidado, o assediado não tem a obrigação de demonstrar o desinteresse).
  • Repetidas observações focadas na sexualidade da pessoa a quem são direcionadas, quando essa pessoa tem demonstrado ao assediador que não possui interesse (quando as observações tiram vantagem de uma posição de autoridade, dependência, educação ou cuidado, o assediado não tem a obrigação de demonstrar o desinteresse).
  • Fazer referência intimidante ou humilhante direcionada a uma pessoa com relação a sexo ou sexualidade, incluindo a orientação sexual.
  • Distribuir fotos ou vídeos com conteúdo sexual de outra pessoa sem permissão na Internet (por alteração em 2014).

Em Israel, a Lei de Prevenção ao Assédio Sexual já fez importantes vítimas e sua aplicação é, de fato, rápida e eficaz.  Ainda assim, é fundamental ter em mente que os mecanismos legais, apesar de necessários, não são suficientes para o fim da cultura da covardia. Em Israel, e em todo lugar do mundo, o processo é pedagógico e o debate é público. É hora da mulher protagonizar a mudança e ditar as regras de como promovê-la. A luta é delas e devemos escutá-las e obedecê-las sem opinar. Enquanto for o homem a lutar pelos direitos das mulheres, seguiremos vivendo a igualdade apenas em simbolismo, onde concessões derivam de boa-fé e a covardia se perpetua.  

 

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “A cultura do estupro em Israel”

  • Raul Gottlieb

    31/05/2016 at 17:46

    Bruno,

    Suspeito fortemente que você escolheu este tema hoje porque ele está sendo divulgado no Brasil, por conta do ocorrido no Rio de Janeiro.

    Eu não gosto disto. Leio o Conexão para saber de Israel e de sua sociedade e não dos ecos do noticiário brasileiro na cabeça dos autores do Conexão.

    Claro que esta é apenas a minha opinião. Peço somente que pense sobre ela.

    Acho também que muita coisa no teu texto está equivocada. A submissão da mulher é algo do passado. Isto não existe mais hoje em dia, nem em Israel nem no Brasil (já que eu suspeito que você puxou o assunto pensando no Brasil), nem na imensa maioria do mundo democrático.

    Existe sim – e muito – no mundo islâmico. Senti falta de uma análise sobre os crimes de honra (e outras doenças patriarcais) que acontecem no mundo árabe. A população árabe de Israel está imune a esta doença?

    Enfim, acho que você está “chutando em cachorro morto” (ou seja, abordando um assunto que já não mais é assunto há muitos anos) e fazendo isto como um reflexo do que se fala no Brasil e não em Israel.

    Abraço,
    Raul

  • Raul Gottlieb

    01/06/2016 at 11:02

    Olá Bruno,

    Relamente não conhecia esta parte do noticiário israelense. Leio o Times of Israel e o Yediot todos os dias e estes itens não chamaram a minha atenção.

    Mas vamos pela ordem no que você escreveu:

    70% das mulheres israelenses terem medo de serem violentadas?

    A resposta depende sempre da pergunta. Quem fez esta pesquisa? Qual foi o método? Quais foram as perguntas? 70% das mulheres que você conhece tem medo de serem violentadas? Este é um número que eu não acredito nem um pouco. Acho ele para lá de fantasioso.

    E o fato de a cada 11 minutos uma mulher ser estuprada no Brasil?

    Isto significa pouco menos de 48 mil estupros por ano (131 por dia). É um número fantástico e que me parece igualmente fantasioso. Quem o publicou e com base no que?

    E 33% das mulheres afirmarem já terem sido assediadas em Israel?

    Pela definição de assédio que se usa hoje, eu penso que 33% dos homens também foi assediado.

    E 10% e 25% dos parlamentos de Brasil e Israel serem, respectivamente, representados por mulheres?

    O que isto tem a ver com o estupro ou com a submissão? Você tem o número de quantas mulheres são impedidas de se candidatar? Existe uma opressão que impede a mulher se candidatar? Qual? Quem a exerce?

    E as diferenças salariais para homens e mulheres que ocupam posições idênticas (em muitos casos, na mesma empresa)?

    Isto simplesmente não existe. São estatísticas tendenciosas, pode ter certeza.

    E o divórcio, em Israel, ter que ser uma concessão do homem e um processo a ser julgado pelo rabinato?

    Sim, os ortodoxos tem uma cultura machista e patriarcal. Mas ela não conduz à violência física ou ao estupro contra a mulher. De forma alguma!!!

    E o fato das mulheres não poderem rezar em determinados lugares?

    Idem.

    Você costuma ver muitos empregados domésticos? Donos de casa?

    Há cinquenta anos eram zero. Hoje tem muito mais do que antes. Mas veja que é biologicamente impossível uma mãe se tornar pai e vice versa. Então eu penso que a maternidade está na raiz de muitas destas diferenças que você aponta. O espaço é curto para esta discussão, mas é claro que as pessoas escolhem (i) ter relacionamentos ou viver sozinhas; (ii) ter filhos ou não. E quando escolhem ter relacionamentos e filhos, a mulher tem um papel diferente do que o do homem, o que leva a algumas das desigualdades que você menciona.

    Posso te apresentar centenas de dados estatísticos e depoimentos que comprovam que o patriarcalismo é ainda hegemônico na nossa democracia.

    Pelo que entendo a maior parte destas estatísticas são fajutas. E depoimentos são normalmente casos pinçados que não representam uma tendências.

    O patriarcalismo é um fato histórico inegável. Mas ele está em franca decadência, sendo desprezível hoje em dia no mundo ocidental e democrático. E que sejamos bem claros: o patriarcalismo não conduz à violência física e ao estupro. A tal “cultura do estupro” não existe na sociedade ocidental e democrática. Mas concordo que o patriarcalismo ainda sobrevive em pequenos bolsões.

    Vou ignorar a sua comparação aos países árabes por achá-la inútil.

    Que pena, pois aí poderíamos comparar as sociedade democráticas e capitalistas das sociedades socialmente falidas.

    Perdoe-me a afirmação, Raul, mas acreditar não haver submissão da mulher é leniência, muita ignorância ou os dois.

    Está perdoado! Talvez eu seja leniente e ignorante sim. Mas um número ínfimo das mulheres que eu conheço são submissas. E acho que o mesmo se dá com você. Além disso o número de mulheres submissas que eu conheço é igual ao de homens submissos. E eu acredito mais no que eu vejo do que no que me dizem. Principalmente em estatísticas feitas por movimentos que almejam transformar a sociedade.

    Avise quando você descer do paraíso ocidental que você tem vivido.

    O ocidente democrático não é nenhum paraíso, mas eu não tenho nenhuma pretensão de desembarcar dele. Aliás, a minha política é de não visitar ditaduras nem como turista.

    Mas esta tua última frase é super interessante e desperta um pensamento que não tem a ver com a situação da mulher:

    O ocidente democrático realmente é muito melhor de se viver do que o resto do mundo. Contudo, muita gente atribui as terríveis (bota terríveis nisso) deficiências do mundo não democrático e não capitalista ao capitalismo.

    É muito curioso!

    A Síria de desintegra? A culpa é do Ocidente colonialista.
    A África é miserável? A culpa é do capitalismo.
    Etc. etc. etc.

    Sempre um prazer conversar contigo. Mas consiga temas mais interessantes para o Conexão.

    Abraço, Raul

  • Raul Gottlieb

    01/06/2016 at 14:58

    Olha, Bruno, a Miriam me ligou para dizer que eu estou completamente errado e que você está certo. Que eu vivo numa bolha e que não entendo muita coisa do mundo fora dela.

    Eu não concordei, mas achei bom você ficar sabendo.

    Fico matutando que todo mundo vive em sua bolha não é? Então o quão preciso e honesto é falar que existe (ou não existe) uma “cultura do estupro: sem qualificar muito bem onde ela existe e como se manifesta. Que é preciso muito mais precisão nas afirmações.

    Fiquei pensando que as generalizações (apoiadas por estudos muitas vezes duvidosos) são um passo no caminho do agravamento dos problemas e não de sua solução. Ou seja, temos sociólogos demais e engenheiros de menos no mundo.

    Abraço, Raul

    • Mario S Nusbaum

      03/06/2016 at 00:33

      Oi vizinho de bolha!
      “Ou seja, temos sociólogos demais e engenheiros de menos no mundo.”
      Cá entre nós eu também acho, mas não pega bem dizer. Um abraço

  • Mario S Nusbaum

    03/06/2016 at 00:31

    “70% das mulheres israelenses terem medo de serem violentadas?”
    Concordo com o Raul em que a seriedade desse dado depende totalmente da pergunta e de como foi feita. Dizer que 95% das pessoas tem medo de ter uma doença séria não diz nada sobre as chances de isso acontecer.

    “E o fato de a cada 11 minutos uma mulher ser estuprada no Brasil?”
    Não posso garantir, mas tenho 99% de certeza de que esses 48 mil estupros/ano incluem coisas como insistência “indevida” e outros absurdos politicamente corretos. Raul, já que você colocou em dúvida esses números, leia isso, sobre os EUA:
    “How often does sexual assault occur?
    There is an average of 293,066 victims (age 12 or older) of rape and sexual assault each year” Definição de sexual assault segundo esse site: “What is sexual assault?
    Sexual assault is a crime of power and control. The term sexual assault refers to sexual contact or behavior that occurs without explicit consent of the victim”. Chamo a atenção para a palavre explicit.
    Some forms of sexual assault include:
    Fondling or unwanted sexual touching
    Acho que já deu para entender esses números absurdos.

    “Pela definição de assédio que se usa hoje, eu penso que 33% dos homens também foi assediado.”
    Ou até mais, e, com certeza, mais de 80% das mulheres.

    “E as diferenças salariais para homens e mulheres que ocupam posições idênticas (em muitos casos, na mesma empresa)?
    Isto simplesmente não existe. São estatísticas tendenciosas, pode ter certeza.”
    Não existe mesmo, nunca vi nada parecido nos lugares em que trabalhei.

    Acho que vivo na mesma bolha que o Raul! Encerro com uma confissão tenebrosa: pelos critérios que as feministas usam hoje em dia, já “estuprei” várias mulheres!!!!!!!!

Você é humano? *