Assédio Sexual – o fim da linha

12/08/2016 | Política, Sociedade.

Você já ouviu falar de um político israelense chamado Silvan Shalom? Ele era para ser o próximo líder do partido Likud e, portanto, estar na corrida para primeiro ministro. Era. Não é mais. Foi pego com as mãos em mulheres outras, que não a sua. Mulheres outras, essas, que não estavam exatamente de acordo com os atos do ex-ministro. Foi acusado de assédio sexual e indiciado. Sua esposa, Judy Nir Mozes Shalom, uma conhecidíssima socialite, apresentadora de televisão e twiteira costumaz, foi pega ameaçando a suposta vítima, exigindo que ficasse quieta. Bem ao estilo mafioso. Não deu certo. A ameaça caiu na mídia, junto com algumas provas do tal assédio. O ministro se demitiu, desligou-se da política e, hoje, nem se fala mais dele.
Silvan Shalom não foi o único político a ter sua carreira demolida por ter cometido assédio sexual ou estupro. Moshe Katzav, que foi presidente, foi indiciado por estupro, e condenado. Hoje está na prisão. Haim Ramon, ex ministro da justiça, foi acusado de dar um beijo na boca de uma soldada que pediu para tirar uma foto com ele. Nunca negou ter dado o tal beijo, mas não achou que fosse caso de assédio, já que alega que foi sob consentimento. Eu vi os dentes dele. Eu acho que sim, foi assédio. Mas, minha opinião odontológica não tem qualquer valor legal aqui e, Haim Ramon, embora nunca tenha sido condenado, também nunca mais voltou à politica. Era para ser ele o sucessor de Ehud Barak.

Houve um tempo em que humor sexista tinha seu lugar na sociedade, e até na política israelense. Ezer Weitzman (1924-2005), foi comandante da Força Aérea de Israel e Presidente, entre 1993 até 1998. Cunhou a icônica frase: “Os melhores para a aeronáutica, as melhores para os aeronautas” (“הטובים לטייסת, הטובות לטייסים”). Não há a menor chance de uma frase dessas, hoje em dia, ser levada com humor. Não só porque hoje a Força Aérea conta com pilotos mulheres. E não só (e principalmente) porque a piadinha não tem graça. Mas porque, hoje, casos de assédio, ou mesmo misoginia, são vistos com péssimos olhos. Ao menos no âmbito público.

E não é só na política. Moshe Ivgi, premiadíssimo, e um dos mais conhecidos atores de Israel, foi recentemente acusado de diversos casos de assédio sexual. Chegou a ter prisão domiciliar preventiva decretada. Demitiu-se do teatro em que trabalhava logo após o início do processo, e decidiu dar um tempo na carreira. O general Ofek Buchris, soldado de carreira em franco progresso, visado para ser chefe das forças armadas, será julgado por estupro estatutário de uma soldada sob seu comando. As provas contra ele são sólidas. Não há quase nenhuma chance dele retomar sua carreira. Mais? Jornalista famoso, compententíssimo, figurinha comum na televisão há anos, Emanuel Rosen foi acusado, por mais de dez colegas, por assédio sexual. Negou tudo, mas demitiu-se, e nunca mais teve uma linha publicada. Inon Magal, também jornalista, recém eleito para a Knesset pelo partido Israel Nossa Casa, demitiu-se depois de uma acusação que, afinal, acabou não se transformando em indiciamento.

Houve casos graves, famosos, de personalidades acusadas de terem cometido assédio e serem depois inocentados por falta de provas, ou provas contrárias. O próprio caso de Haim Ramon é controverso. Há quem afirme que a suposta vítima foi plantada por inimigos políticos.

É um risco conhecido, que a sociedade, a imprensa e o sistema judiciário estão aprendendo a colocar em correta perspectiva. Afinal, falsas acusações são, de acordo com a Organização de Proteção às Vítimas de Violência Sexual, apenas entre 1,5 e 3% do número total. E, obviamente, tanto entre culpados, como entre inocentes, a primeira alegação depois de uma acusação, é que tudo se trata de uma denúncia falsa.

Silvan Shalom, Moshe Katzav, Moshe Ivgi, Ofek Buchris – todos homens importantes e poderosos, seguiram o mesmo script: Negação, acusação da vítima por difamação, admissão de que houve algo sob alegação de que tudo se trata de um mal entendido e foi tudo feito com consentimento, levantamento de suspeitas à reputação e aos interesses da vítima e, por fim, indiciamento.

Exige uma incrível coragem para sair contra alguém em posição de destaque, e acusá-lo de assédio. Os assediadores contam com essa falta de coragem por parte das vítimas, com as dificuldades judiciais que advirão, e com a aceitação dessa situação pela sociedade. Hoje, em Israel, depende-se cada vez menos dos dois últimos. A sociedade já não aceita essa situação com tanta facilidade, e o sistema judiciário já entende melhor as dificuldades de um caso de assédio. Agora so falta só a coragem.

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