3 anomalias

26/01/2015 | Conflito; História

Por Yuval Harari, originalmente publicado no Haaretz, no dia 7 de julho de 2014.

No começo do século 21, o mundo está vivendo uma era de paz sem precedentes. Não somente houve um grande declínio no número e na intensidade de guerras internacionais, mas a própria definição de paz mudou. Antigamente, paz significava simplesmente “ausência de guerra.” Mesmo quando dois reinos ou tribos estavam “em paz”, a eclosão de uma guerra entre eles ainda era um cenário plausível. Uma lei de ferro das relações internacionais afirmava que “para cada par de entidades políticas vizinhas, existe um cenário plausível que elas estejam em guerra dentro de um ano.” Se a Alemanha e a França estão em paz em 1913, era completamente lógico assumir que em 1914 elas estariam despedaçando uma a outra.

No século 21, esta lei da selva foi quebrada, e o conceito de “paz” ganhou um novo significado. Hoje, paz não é somente “ausência de guerra,” mas sim a “implausibilidade de guerra.” Este novo tipo de paz existe entre a maioria dos países do mundo. É altamente implausível que uma guerra séria ecloda ano que vem entre a Espanha e o Marrocos, Malásia e Tailândia, ou entre o Brasil e o Uruguai. Quando o governo brasileiro se junta para discutir o orçamento da união de 2015, é inimaginável que o Ministro de Defesa brasileiro levante-se de sua cadeira no meio da discussão, bata seu punho na mesa e grite “Espera um pouco! E se nós quisermos invadir e conquistar o Uruguai? Vocês não levaram isto em conta. Nós temos que deixar de lado alguns bilhões de dólares para que possamos financiar essa conquista.”

Obviamente, existem alguns lugares onde os Ministros da Defesa ainda estão dizendo este tipo de coisa, e há lugares onde a nova paz ainda não conseguiu se instaurar. Mas estas são as exceções. O conflito israelo-palestino é uma destas exceções. Três fatores o fazem um fenômeno único neste mundo relativamente sereno do começo do século 21: a anomalia de Israel; a anomalia da ocupação; e a anomalia dos refugiados.

A anomalia de Israel

Durante toda a História, a maior parte das entidades políticas viveram em uma ameaça existencial perpétua por parte de seus vizinhos. Sejam vocês poloneses, moicanos, zulus ou habitantes do Reino de Israel bíblico, vocês sabiam que a qualquer momento seus vizinhos poderiam invadir seu país, derrotar seu exército, subjugá-los ou exilá-los, e apagar o seu reino ou tribo da face da terra.

No século 21, ainda existe um grande número de disputas de fronteiras, conflitos territoriais e guerras civis. Mas a grande maioria dos Estados já não encontra a sua própria existência ameaçada por seus vizinhos. Os gregos não temem que os turcos vão varrê-los do mapa; a Índia não planeja a conquista do Paquistão; e Peru não está tramando para engolir o Equador.

Embora tenham havido alguns casos desde 1945 em que um Estado foi ocupado pelo uso da força, como a ocupação soviética da Hungria e a ocupação americana do Iraque, os soviéticos e americanos continuaram a reconhecer a existência da Hungria e do Iraque, e estavam satisfeitos em substituir os governos locais.

Quando a Rússia invadiu a Geórgia em 2008, os russos gozavam de uma esmagadora superioridade militar, e, aparentemente, poderiam ter feito o que quisessem com a Geórgia. Mas eles apenas mostraram sua força. Eles conquistaram algumas zonas fronteiriças, que mais tarde foram evacuadas; eles se abstiveram de ocupar a cidade capital da Geórgia, Tbilisi; e eles nem sequer tentaram substituir o governo pró-ocidental de Mikheil Saakashvili com um regime pró-russo. Como Átila, o Huno; Pedro, o Grande; ou Stalin teriam agido no lugar de Putin?

Desde 1945, nunca aconteceu de que um Estado-membro da ONU que desfrutasse de amplo reconhecimento internacional fosse eliminado pela força bruta. Saddam Hussein tentou fazer exatamente isso com o Kuwait, mas uma coalizão internacional frustrou seus planos e deixou claro a Saddam que nós já não estamos vivendo nos dias de Nabucodonosor ou Genghis Khan.

Essa proteção foi concedida até mesmo a Estados que foram formados por acordos arbitrários entre potências imperiais, que não tinham qualquer identidade nacional genuína, e que existiam na teoria mais do que na prática. Por exemplo, ao longo das últimas décadas vários Estados africanos – como a Serra Leoa, Guiné Equatorial, Uganda, República Centro-Africano e a República Democrática do Congo – têm se desintegrado em um caos completo. Apesar de seus vizinhos muitas vezes terem intervido nos assuntos desses Estados falidos, apoiado grupos rebeldes locais e até mesmo invadido seu território, nunca aconteceu que os vizinhos se aproveitassem da situação para eliminar completamente o Estado falido. Por exemplo, depois da Tanzânia ter ocupado a Uganda, em 1979, ela se contentou em derrubar o regime tirânico de Idi Amin, e após isso as forças da Tanzânia simplesmente se retiraram.

Israel é o único país no mundo que goza de amplo reconhecimento internacional, mas que, no entanto, enfrenta uma ameaça existencial de seus vizinhos. A maioria dos países na sua vizinhança se recusam em reconhecer o seu direito de existir, e freqüentemente declararam a sua intenção de varrê-lo no mapa.

Yuval Harari, autor do texto
Yuval Harari, autor do texto

A anomalia da ocupação

Durante a maior parte da História, diversos modelos políticos coexistiam lado a lado na Terra. Se você voltasse para o ano 1000, você encontraria imensos impérios no Oriente Médio e China, reinos feudais na Europa Ocidental e na África, cidades-estados independentes na Itália e na América Central, confederações tribais na Ásia Central, e inúmeros principados, tribos e bandos independentes espalhados por aí. Você poderia até mesmo encontrar amplos pedaços de terra que não pertencem a ninguém. Se você fosse voltar um século ao ano 1914, você ainda encontraria uma variedade de modelos políticos competindo na Terra. Na Europa e na América o modelo dominante foi o Estado soberano, mas a maior parte do mundo estava dividido em colônias imperiais.

Desde 1945, uma nova ordem global evoluiu que reconhece, pelo menos em teoria, apenas um arranjo político legítimo. Pela primeira vez na História, cada indivíduo e cada país na Terra estão sujeitos ao mesmo tipo de modelo político. O modelo vitorioso é o Estado soberano.

Se você abrir um mapa mundi, você vai ver que, em contraste com a situação do ano 1000 ou 1914, com algumas pequenas exceções – como a Cidade do Vaticano e o território americano não incorporado de Porto Rico – o mapa mundi está dividido em blocos coloridos, cada um dos quais representa um Estado soberano. É verdade, em lugares como a Somália e o Afeganistão, o Estado soberano é mais uma fantasia do que uma realidade, mas o sistema internacional não está disposto a reconhecer outra coisa senão que esta fantasia.

Há, no entanto, dois lugares na Terra que dão aos cartógrafos uma grande dor de cabeça: a Antártida – e a Judeia, Samaria e a Faixa de Gaza. A Antártida não é um Estado soberano, e de acordo com o Tratado da Antártida de 1959 nenhum Estado reivindica expandir a sua soberania para lá. No entanto, a Antártida não tem população humana indígena, e é povoada principalmente por gelo e pinguins, e assim os cartógrafos simplesmente a colorem de branco.

A história da Judeia, Samaria e a Faixa de Gaza é muito mais complicada. Milhões de pessoas vivem nestas áreas, mas nenhum Estado extendeu a sua soberania para lá. A Jordânia e o Egito renunciaram qualquer reivindicação a estas áreas, Israel nunca os anexou (com exceção de Jerusalém Oriental), e a Palestina ainda não existe.

Em termos práticos, o território é governado de uma forma um pouco semelhante a uma colônia do século 19. No entanto, a ordem global do século 21 não está disposta a reconhecer um modelo de tal política, e está disposto a tolerá-lo apenas descrevendo-o como uma “situação temporária” à espera de uma “solução.” Judeia, Samaria e Gaza são, portanto, as únicas áreas povoadas na Terra que tão agudamente desviam-se das normas da ordem global dominante.

Muitas áreas do mundo estão sob disputa de dois Estados. Por exemplo, a Índia e o Paquistão alegam Caxemira para si. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia estão declarando que a Crimea é deles. O Chipre alega que a parte norte da ilha é uma parte integral de seu território, enquanto que a Turquia acredita que Chipre do Norte é um Estado independente e soberano. No entanto, um território povoado por milhões de pessoas, que nenhum Estado reivindica como seu próprio? Isto só pode ser encontrada em Israel. Ou só na Palestina.

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A anomalia dos refugiados

A ordem global prefere compromisso e paz à justiça. É difícil se resolver problemas políticos aderindo rigidamente aos princípios de justiça. É manifestamente claro que as fronteiras da maioria dos Estados da África e do Oriente Médio foram fixadas por diplomatas europeus em Berlim, Londres e Paris, em flagrante desrespeito à História, às economias e aos desejos das populações locais. Mas também é claro que qualquer tentativa de redesenhar fronteiras mais “justas” levaria a disputas sem fim. Assim, a ordem global optou pela solução pragmática de santificar as fronteiras existentes, sejam elas quais forem.

A ordem global tem tomado uma posição semelhante em relação aos refugiados. Embora exista uma grande variedade de circunstâncias, na maioria dos casos é mais importante para a ordem global fornecer aos refugiados alimentos, casas, empregos e cidadania do que a justiça. Quando a nova ordem global foi forjada após a Segunda Guerra Mundial, a Europa e a Ásia estavam cheias de refugiados. Mais de 12 milhões de alemães perderam suas casas na Prússia Oriental, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e Iugoslávia. Cerca de sete milhões de hindus e sikhs foram deslocadas do Paquistão, e cerca de sete milhões de muçulmanos fugiram da Índia. Um milhão e meio de poloneses foram desenraizados da União Soviética, meio milhão de ucranianos da Polônia, e cerca de 350 mil italianos da Iugoslávia. Centenas de milhares de sobreviventes judeus do Holocausto foram arrancados das terras de seu nascimento. Cerca de 700 mil palestinos foram deslocados de Israel, enquanto que um número semelhante de judeus foi deslocado de Estados árabes. A grande maioria destes refugiados criou novas raízes em seus vários países de asilo, e, embora eles e seus descendentes ainda carreguem estas cicatrizes e, por vezes, continuam a sofrer de discriminação e pobreza, eles não são mais refugiados.

Apenas os refugiados palestinos, que atualmente são mais de cinco milhões de pessoas, ainda são considerados refugiados, quase 70 anos depois de terem sido deslocados. Por uma grande variedade de razões, seus países de acolhimento, bem como organizações internacionais, preferiram perpetuar o status de refugiado dos palestinos, de modo que hoje tornou-se um status permanente, transmitido de uma geração a outra. Em teoria, no ano de 2114, poderá haver dezenas de milhões de refugiados palestinos no mundo.

Para que possamos compreender o quão única e perigosa esta situação é, vamos supor que a Alemanha e a Áustria tenham perpetuado o status de refugiado dos 12 milhões de alemães que foram deslocados em meados dos anos 1940 da Europa Central e Oriental. Como é que a política europeia teria sido se, na periferia de Berlim, Munique e Viena, você pudesse encontrar hoje 20 milhões de refugiados alemães vivendo em barracos de lata e cabanas de barro, sofrendo de pobreza e desesperança, sonhando com o dia em que voltarão para a casa de sua avó em Königsberg (Kaliningrad), Breslau (Wroclaw), Danzig (Gdansk) ou Karlsbad (Karlovy Vary)?

Estas três anomalias estão, é claro, interligadas. Israel usa a ameaça existencial que paira sobre si para justificar tanto a ocupação quanto sua falta de vontade de compromisso com o problema dos refugiados. Muitos países árabes e muçulmanos, por sua vez, usam a ocupação e os refugiados para justificar a sua ameaça existencial contra Israel. E com respeito ao problema dos refugiados, ele foi tão fortemente ligado à ocupação que, embora em teoria eles sejam questões separadas, cada um com a sua própria solução, na prática, seria difícil de resolver um sem o outro.

Aparentemente, uma vez que o conflito está fundado sobre violações tão flagrantes das normas globais, deveria ser bastante fácil de resolvê-lo. É necessário apenas aplicar estas normas. Os vizinhos de Israel deveriam reconhecer sua existência, a ocupação israelense deveria acabar, e os refugiados palestinos deveriam ser permitidos a criar raízes, mesmo que isto fique aquém de dar-lhes justiça. Na prática, como todos sabemos, nada disso está acontecendo.

A verdadeira grande anomalia do conflito israelo-palestino é que a ordem global esteve disposta a permitir que estas anomalias supurassem ao longo de décadas, como se fossem perfeitamente normais.


Yuval Harari é professor no Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém. Eu (Yair) já escrevi a respeito dele em meu texto “O Fim da História“, confira. Ele é autor do excelente livro “Sapiens: A Brief History of Humankind“, vale a pena a leitura! Este texto foi traduzido por mim do original em inglês, publicado no Haaretz, no dia 7 de julho de 2014.

Imagem de capa: Flickr de Magdalena Roeseler. segundo a seguinte licença Creative Commons.

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “3 anomalias”

  • Raul Gottlieb

    26/01/2015 at 21:06

    Yair,

    No dialeto sociológico estas anomalias se chamam “discriminação”. Veja como o Aulete digital define o termo:

    4. P.ext. Soc. Tratamento desigual, favorável ou desfavorável, dado às pessoas em função de suas características raciais, sociais, religiosas, de gênero etc.

    Israel é tratado de forma desigual a de todos os demais países do mundo, assim como os Palestinos, que são tratados de forma desigual a de todos os demais refugiados do mundo, não com o intuito de protegê-los, mas com o intuito de embaraçar Israel.

    O Yuval Hariri usa um termo bem educado (anomalia) para definir a enorme discriminação e que Israel é vítima, termos este que é definido pelo dicionário Aulete como “o que se desvia do normal”.

    Porém considerando que este desvio do normal é provocado pela ação política de milhares de agentes, fica claro que o que temos mesmo é discriminação. Que quando atinge aos judeus é também chamada de antissemitismo.

    O texto do Yuval eh ótimo, mas seria melhor se fosse mais preciso na terminologia.

    Obrigado por tê-lo traduzido para nos.

    Abraço, Raul

  • Marcelo Starec

    03/02/2015 at 06:26

    Oi Yair,
    Muito interessante esse artigo, o qual tornou-se acessível para nós a partir da sua essencial tradução. Concordo plenamente com o Raul e entendo esse termo “anomalia” como algo deliberadamente utilizado por países árabes e mediante o apoio ingênuo ou mesmo de má-fé contra um minúsculo País, que mesmo ocupando um território insignificante do Oriente Médio tem o seu direito de existir não aceito – uma verdadeira aberração!…Senão vejamos: Quem de forma explicita e mediante o uso da força rejeitou o direito de existir de Israel em 1948? E quais os Territórios que Israel “ocupava” em 1948? E a guerra de independência ocorreu dentro do Território de Israel (e não fora!), mas houve uma massiva expulsão de judeus que viviam nos países árabes e se Israel não conseguisse ter resistido a essa guerra, possivelmente os judeus teriam sido impedidos de viver em qualquer pedacinho do Oriente Médio ou existiriam em quantidades insignificantes. Sim, saíram árabes de Israel em 1948, em função de uma série de fatores, notadamente em função da própria guerra contra o direito do Estado Judeu de existir, mas Israel honrou a promessa de oferecer cidadania e todos os direitos aos que lá quiseram permanecer – e não foram poucos os que ficaram e estão lá até hoje. Desse modo, há de se ter em mente que sim, existem verdadeiras aberrações em relação ao modo como o Estado Judeu é tratado – por um lado, este é constantemente ameaçado de ser “varrido do mapa” às claras, sem nenhum pudor, algo que por si só deveria ser inaceitável de pronto, mas infelizmente não é. Ainda, como se tudo isso não bastasse, se criou uma lógica verdadeiramente perversa para a questão dos refugiados palestinos de 1948, onde tais direitos, que passam a valer também para todos os familiares e descendentes, simplesmente não existe na legislação que contempla refugiados de nenhum local – criou-se uma situação onde os árabes palestinos tem um direito que não existe para mais ninguém – ou seja, seus descendentes, familiares e agregados teriam um suposto direito de receber uma “bolsa refugiado” e ainda o de tomar Israel democraticamente…
    Um abraço,
    Marcelo.