5 mil palestinos + 12 mil israelenses = 17 mil brasileiros

24/07/2015 | Conflito, Sociedade.

Um primeiro encontro entre membros das comunidades brasileiras judaico-israelense e árabe-palestina foi realizado em Ramala no mês de maio. Deixou três certezas: que esta seria uma aproximação muito positiva; que existem fortes pontos em comum além da necessidade de vencer o medo e lutar contra preconceitos; e que é preciso combater as vozes radicais e dissonantes, que insistem que o ódio é um componente essencial quando se trata da relação entre Israel e a Palestina.

Há cerca de dois meses, na aparentemente sossegada cidade de Ramala, foi realizado o primeiro encontro entre representantes das comunidades brasileiras judaico-israelense e árabe-palestina. O almoço em um restaurante sofisticado da principal cidade da Cisjordânia, com a participação de três israelenses e quatro palestinos, foi promovido pela Embaixada do Brasil em Israel e o Escritório de Representação do Brasil na Palestina. O Embaixador brasileiro na Palestina, Paulo França, estava presente, assim como seu assessor, Ricardo Fleury. Como único objetivo, a aproximação das comunidades brasileiras dos “dois lados do muro”.

Nas semanas seguintes ao encontro, houve dificuldade de contato entre os dois lados. Logo soube-se que existe um grupo de brasileiros palestinos contrário à aproximação com os “inimigos sionistas”, que passou a pressionar e ameaçar os participantes do almoço. A resposta para amenizar a situação veio de Paulo França: um comunicado esclarecendo os objetivos do evento e tomando para si a responsabilidade pela promoção do encontro.

O medo, no entanto, continua, e a dificuldade de comunicação permanece. Infelizmente.

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Imagens do check-point Calândia, ao norte de Jerusalém.

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Não foi necessário, no primeiro encontro, nenhum artifício para quebrar o gelo: os dois grupos imediatamente se misturaram. Foram três horas de troca intensa de informações, impressões e, principalmente, ideias. O cenário político não foi abertamente discutido. “Existe uma guerra entre nossos governos, mas não precisa haver o mesmo entre os dois povos. Precisamos encontrar uma forma de nos relacionarmos sem nos endemonizarmos”, afirmou a única participante feminina do lado palestino.

Ela casou-se com um palestino, que também estava no almoço. Eles se conheceram no Brasil, casaram-se e se mudaram para a Cisjordânia. Os filhos do casal nasceram ali e são sua maior fonte de preocupação: “É triste perceber o medo com que eles estão crescendo. Quando o menor ouve falar que existem soldados israelenses por perto, entra em pânico”. O marido, empresário, contou sobre a dificuldade de fazer negócios dentro de fronteiras tão fechadas. Segundo ele, tudo o que entra e sai de Ramala precisa passar por Amã, inclusive cidadãos, pois os palestinos não teriam autorização para utilizar o aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv.

Já o terceiro participante, que trabalha ativamente com a comunidade palestina brasileira, formada por 4 a 5 mil pessoas, voltou à Palestina com seus pais na decada de 90, após o acordo de Oslo. “Acreditaram que o melhor estava para começar. Enganaram-se”, conta. Ele e seus irmãos já estão casados, têm filhos e firmaram raízes. O quarto é empresário, e passa meses em viagem pelo Brasil. Está antenado na realidade dos dois países e sonha com fronteiras mais abertas e uma convivência minimamente harmoniosa.

Do lado israelense, Davi Windholz fundou há anos uma ONG que busca incentivar o contato entre crianças e jovens cristãos, muçulmanos e judeus que “vivem juntos mas não convivem”, segundo suas palavras, no norte de Israel. Jayme Fucs é guia de turismo e especializou-se em viagens educacionais, que buscam mostrar aos turistas o que acontece no país. Leva seus clientes para passeios em Hebron, por exemplo, onde pode explicar e mostrar in loco as dificuldades de relacionamento entre as populações judaicas e árabes. Josef Manaster, o terceiro integrante do grupo israelense, acredita que “fomentar negócios é a melhor forma de criar laços sustentáveis entre os dois povos”. Todos defendem a criação do Estado palestino e pregam que incentivar o relacionamento entre as duas comunidades brasileiras é um primeiro passo no sentido de gerar paz e respeito mútuo, ao menos entre os povos.

Eles estão tentando fazer o que os governos israelenses e palestinos não tentaram.

O almoço, regado a comentários sobre futebol, terminou com a promessa de continuidade. Atualmente, os dois grupos buscam angariar a participação de outros brasileiros e se mexem para promover um encontro entre famílias palestinas e israelenses em Israel. Davi, brasileiro que vive em Israel há mais de 30 anos, tem sido o condutor do processo. Ele não teme pressões de nenhum lado. “Temos que ser insistentes para vencer a oposição dos radicais que atuam dos dois lados, tanto o palestino quanto o israelense. Esse é o único caminho possível para a paz”.

 

OBS: Os nomes dos brasileiros palestinos foram ocultados propositadamente. Já estão sofrendo pressão o suficiente mesmo antes de ter os seus dados divulgados em um artigo.

 

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “5 mil palestinos + 12 mil israelenses = 17 mil brasileiros”

  • Mario S Nusbaum

    24/07/2015 at 19:05

    ” existe um grupo de brasileiros palestinos contrário à aproximação com os “inimigos sionistas”, que passou a pressionar e ameaçar os participantes do almoço.” Sugiram aos participantes que mandem esse grupo à……

    • Miriam Sanger

      25/07/2015 at 20:45

      Pois é. Ser contra tudo bem, pois a democracia foi uma boa invenção da humanidade. Ameaça, cá entre nós, é coisa de gente covarde.
      Abracao!
      Miriam

  • Mario S Nusbaum

    24/07/2015 at 19:08

    Curiosidade Miriam, quantos brasileiro vivem em Israel? E parabéns pelo artigo.

  • Marcelo Starec

    24/07/2015 at 21:17

    Oi Miriam,

    Muito interessante o artigo e a iniciativa!…Acho que é por aí mesmo, tem de se construir pontes e não apoiar os que pregam o ódio e o preconceito!…Israel ocupa um território ínfimo do Oriente Médio, mas não vai sair de lá! – os árabes também não, obviamente!…Assim, querendo ou não, estamos destinados a coexistir de algum modo – e quanto melhor for, será para o benefício de todos!…

    Abraço,

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      25/07/2015 at 20:42

      Concordo! Por isso mesmo, iniciativas como a desses grupos são fundamentais.
      Abraço e shavua tov.
      Miriam

  • flavio santos

    30/07/2015 at 14:58

    Não há problemas estre Israelenses e Palestinos,nunca houve..O problema está no sionismo e suas atitudes em relação aos palestinos,seria interessante se esse grupo também se pronunciasse contra o sionismo e não ignorasse a realidade que acontece a diário na Palestina como se o problema único fosse apenas uma questão guerra entre dois povos que não se cheiram,sabendo que a questão acima de tudo é territorial.

    • Miriam Sanger

      02/08/2015 at 10:35

      Oi, Flávio.
      Repeito sua opinião, mas não concordo com ela. Não faria sentido que esse grupo fosse contra o sionismo, pois todos nós somos sionistas: sionistas contrários à atual política do governo israelense (na maior parte do tempo, porque não há nada estático no mundo), mas ainda sim acreditamos no direito do povo judeu de habitar em seu próprio país.
      Quanto a israelenses e palestinos, há uma disputa territorial, mas também há a ideológica. Há vários artigos tratando sobre temas correlatos em nosso blog.
      Obrigada por nos escrever.
      Miriam

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