50 anos atrás: Guerra dos Seis Dias

06/06/2017 | História

Em Israel, praticamente não se fala de outra coisa. Alguns comemoram o evento, recordando a unificação de Jerusalém e a elevação de Israel como potência regional. Outros recordam em tom crítico, citando os 50 anos de ocupação como um desastre nacional. Seja em forma de exaltação ou de crítica, a Guerra dos Seis Dias é um marco na história israelense. Faremos aqui um breve resumo dos fatos, e ao longo dos próximos seis dias, contaremos alguns bastidores da guerra, e traduziremos parte do que sai na imprensa israelense.

Contexto

O contexto da guerra é de fundamental relevância para a sua compreensão: Israel recém havia conquistado sua maioridade, mas já havia passado por duas guerras (1948 e 1956), incorporado mais de um milhão de imigrantes (boa parte deles refugiados, que chegaram ao país sem um tostão), e ainda convivia com ameaças de destruição por países vizinhos, que faziam eco à memória recente da tragédia do Holocausto.

Os presidentes de Egito e Síria compartilhavam a mesma ideologia, a partir da qual pregavam a união entre os países árabes, tendo Israel como inimigo em comum de sua nação. Era o panarabismo. Ambos incitavam suas populações ao ódio a Israel, pregavam a destruição do Estado judeu, e de fato, tomavam medidas com este objetivo: em 1956, o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, já havia fechado o Canal de Suez a embarcações israelenses, o que gerou a Guerra do Sinai. Ambos os países financiavam o terrorismo palestino contra populações civis israelenses, e adotaram a recém-fundada Organização pela Libertação da Palestina (OLP), cuja forma de atuação se dava por meio de atentados terroristas, como representante do povo palestino.

Em maio de 1967, Nasser conseguiu que a ONU retirasse suas tropas do Sinai após 10 anos, e passou a remilitarizar a província. Ao mesmo tempo, ordenou que os Estreitos de Tiran fossem bloqueados a embarcações israelenses, o que para Israel era uma declaração de guerra. Declarações do general sírio Salah Jadid, davam mostras de que o país se preparava para o confronto bélico. Nasser a cada dia parecia mais pronto para o embate, e ambos os países eram respaldados pela URSS. A Jordânia, por sua vez, era mais próxima do ocidente. Três anos de negociações secretas por um pacto de não agressão entre o Rei Hussein, a ex e o atual chanceler israelenses, Golda Meir e Abba Eban, foram interrompidas em novembro de 1966, depois de Israel atacar a Cisjordânia (ocupado pelo país vizinho) em represália a um atentado terrorista (Incidentes de Samu), aproximando a Jordânia dos países árabes. Manifestações populares exigiam do monarca uma declaração de apoio ao Egito e à Síria em caso de guerra. Transmissões de rádio nos três países já convocavam as populações para o inevitável confronto.

Em Israel

Israel também se preparava para a guerra. Reservistas eram chamados com frequência, material de guerra era preparado para o caso de que o confronto se iniciasse em questão de minutos. No fim de maio, o primeiro-ministro Levi Eshkol, trabalhista, convocou os partidos de oposição para compor um governo de união nacional, que lhe desse legitimidade de iniciar uma guerra. Menachem Begin, líder da oposição, concordou sem titubear, e tornou-se ministro sem pasta. Moshe Dayan, membro do partido oposicionista (embora também trabalhista) Rafi, assumiu o Ministério da Defesa (que antes pertencia ao próprio Eshkol), dando credibilidade à pasta. O general Yitzhak Rabin, Chefe do Estado Maior das Forças Armadas (ramatkal), havia preparado primorosamente o exército para esta ocasião durante os últimos três anos. Mas a atmosfera não era tão positiva: fossas comuns eram cavadas nos cemitérios israelenses. Alguns professavam o apocalipse, o fim do sonho judaico de construir um Estado na Terra de Israel depois de dois mil anos, a tragédia do empreendimento sionista. Previa-se mais de 40 mil israelenses mortos, um número gigantesco para uma população de cerca de 2,5 milhões de pessoas.

Frente à ameaça de guerra contra três países vizinhos, cujas populações somadas eram de mais de 20 vezes a israelense, e com um poderio militar considerável, Levi Eshkol decidiu acalmar a população israelense por meio de um discurso no rádio. Resultado: pânico! O primeiro-ministro, que já encarava a dura missão de substituir o mitológico David Ben-Gurion no posto de líder do mais alto escalão do país, se enrolou, gaguejou, e passou insegurança à população. Não havia mais o que fazer, e Eshkol convocou seu gabinete militar para tomar uma decisão. Como desgraça pouca é bobagem, nesta reunião não esteve presente o chefe do exército, pois estava literalmente desmaiado em sua casa. Rabin foi aconselhar-se com Ben-Gurion, que lhe disse que uma guerra neste momento causaria tamanha desgraça, que se referiu a ela como “Destruição do Terceiro Templo Sagrado” (Chorban Bait Shlishi), em alusão ao triste destino dos judeus após as destruições dos dois primeiros templos (que significaram exílio, diáspora e fim da soberania judaica na Terra de Israel). Rabin entrou em pânico, fumou uma quantidade imensurável de cigarros, e desmaiou. O cenário da tragédia era completo: o primeiro-ministro gagueja e mostra insegurança a toda a população. O chefe das forças armadas desmaia de nervosismo. Tudo isso enquanto as tropas egípcias e sírias se movimentavam na Península do Sinai e nas Colinas do Golã, respectivamente, e o povo já cavava fossas coletivas. Cenário completo para a catástrofe.

Na tensa reunião de gabinete, no entanto, general Ezer Weizmann, Chefe do Comando de Operações das Forças Armadas e ex-comandante da Força Aérea Israelense, apresentou um ousado plano: um ataque aéreo surpresa, que destruiria as frotas aéreas de Egito e Síria em questão de horas. Se saísse bem, a guerra seria vencida com facilidade. Caso contrário, talvez em questão de dias não existisse mais Israel. Após muita discussão, o detalhado plano foi aceito. Preciosas informações da inteligência israelense foram cruciais para a vitória, sobretudo do espião Ely Cohen, que servia na Síria. E foram para a guerra.

A guerra

O ataque surpresa saiu melhor que a encomenda: às 8:00 da manhã iniciaram-se os ataques israelenses aos aviões egípcios. Ao meio-dia, 286 dos 420 aviões do país de Nasser já haviam sido destruídos (enquanto Israel perdeu somente 19 dos seus 250 aviões de combate). Às 11:15, a Jordânia bombardeia Jerusalém ocidental, forçando a infantaria israelense a responder. Na Síria, até o fim da tarde, 60% de sua força aérea já havia sucumbido. Com suas forças debilitadas, Israel força a Síria a enviar reforço à Jordânia, e isola o Egito de seus aliados. A vitória no Sinai chega no terceiro dia de guerra, tal qual a conquista de Jerusalém oriental pela unidade dos paraquedistas israelenses.


Curiosidade:

Neste momento foi tirada a famosa foto de Yitzhak Rabin, Moshe Dayan e Uzi Narkiss (general, chefe do comando central das Forças Armadas) marchando triunfantes na cidade velha de Jerusalém. Reparem que Moshe Dayan (o do meio, inconfundível com seu tapa-olho), ministro da Defesa (portanto, civil) usa trajes militares sem patente (reparem no seu uniforme na altura dos seus ombros, em comparação com os dois generais). Dayan queria tirar uma casquinha da grande vitória, e posou com roupa militar para fotos ao lado dos principais generais das Forças Armadas, para maquiar o fato de que havia assumido o Ministério da Defesa somente 10 dias antes da guerra, e, portanto, sua participação efetiva na vitória foi ínfima.


Ao fim do quarto dia Egito e Jordânia já se haviam rendido, tendo Israel conquistado a Faixa de Gaza e a Península do Sinai, pertencentes anteriormente ao Egito, e a Cisjordânia (incluindo Jerusalém oriental), pertencente à Jordânia. Os últimos dois dias de guerra (e os mais sangrentos para Israel) se deram contra um único inimigo: a Síria. No fim, Israel conquista parte das Colinas do Golã, que lhe davam desvantagem geográfica em caso de guerra (devido à altura e à proximidade ao Mar da Galileia), e importante fonte de água para o país atualmente.

Consequências

Israel saiu da guerra totalmente vitorioso. Conquistou territórios equivalentes a quatro vezes o seu tamanho em 1967, ricos em petróleo (Sinai) e água (Golã). Reconquista a cidade velha de Jerusalém, aspiração judaica durante séculos, permitindo que judeus visitem o Muro das Lamentações, e passeiem pelo bairro judaico. A conquista de Jerusalém é uma massagem no ego israelense, responsável pela euforia de sionistas religiosos e laicos, direitistas e esquerdistas: a soberania judaica em Jerusalém, capital histórica do povo judeu desde a remota época do Rei David, é restabelecida. Um símbolo incomparável.

Também foram conquistadas cidades bíblicas, com importante passado judaico na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, que depois de dois mil anos passam a estar sob controle israelense, como Hebron, Siloé, Belém e outras. Esta conquista permitiu que civis israelenses construam suas casas próximas a essas localidades, gerando um impasse internacional: a questão dos assentamentos.

Israel também firma-se como potência militar regional, e termina de uma vez por todas com o temor de destruição por parte dos inimigos. Já não era mais considerado viável destruir Israel.


Curiosidade

A vitória acachapante na Guerra dos Seis Dias gerou um mito ao empreendimento sionista, o do “exército invencível de Israel”. Por outro lado, tornou muitos israelenses arrogantes, certos de que os países árabes os temiam, e que se tornaram potência de tal magnitude, que devam explicações nenhuma à comunidade internacional. Um exemplo disso são piadas contadas pelos israelenses nesta época. Deixo aqui abaixo duas delas:

 

Rabin conversava com Moshe Dayan, ambos sentados na Kiriá (base central do exército), entediados, quando o primeiro diz:

– Dayan, estou entediado. O que podemos fazer para matar o tempo?

Dayan responde:

– Que tal conquistar um país árabe?

E Rabin diz:

– E o que faríamos depois do almoço?

 

 

Do que o exército israelense precisa para conquistar Bagdad, Moscou ou Pequim?

De uma ordem.


Outra consequência da guerra foi a mudança da posição de Israel frente a comunidade internacional. Se nos anos 1950 e 1960 o país havia se aproximado do terceiro mundo (sobretudo da África central e sul e da América Latina), auxiliando no desenvolvimento agrícola desses países, cooperando em estratégia de desenvolvimento nacional público, após 1967, cria-se uma imagem de Israel identificado com o ocidente imperialista. Paulatinamente, os países do terceiro mundo se desconectam de Israel, o que se agravaria depois da Guerra de Yom Kippur, em 1973. Por outro lado, o país cada vez mais se aproxima dos EUA, aliança estratégica até os dias de hoje.

A força demonstrada por Israel, por um lado foi positiva para que o país chegasse à paz com o Egito em 1979. A Península do Sinai foi devolvida integralmente em troca de um acordo de paz e relações diplomáticas e econômicas, vantajosas aos dois lados. Desde 1973 Israel tampouco foi atacado pela Síria, embora o estado de guerra siga vigente.

Por outro lado, uma consequência negativa é determinante até os dias de hoje: desde 1967, os palestinos residentes na Faixa de Gaza e Cisjordânia, vivem sob jugo de uma ocupação militar (e em alguns aspectos civil) israelense. Embora os Acordos de Oslo e a Desconexão de Gaza tenham lhes dado relativa autonomia sobre estas regiões, o exército segue presente nos territórios ocupados, limitando a vida de civis palestinos, infringindo direitos humanos, e tomando uma responsabilidade que, segundo o filósofo ortodoxo Yeshayahu Leibowitz, corrompe moralmente a população israelense. Hoje em dia, quando se fala em Israel, se fala em ocupação dos territórios palestinos (que não são anexados porque Israel não pretende dar cidadania aos árabes palestinos, por receio de perder a maioria judaica no país). A Guerra dos Seis Dias vive em cada israelense até os dias de hoje.

 

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