A arte de receber e transmitir

Esta semana celebra-se a festa de Shavuot (festa do recebimento da Torá).

A tradição judaica diz que a liberdade física conquistada com saída do Egito (mitzraim) só passa a ter sentido com a conquista da liberdade espiritual. O recebimento da Torá traz junto a sí um conjunto de regras que “disciplinam e condicionam” o comportamento do povo judeu frente ao mundo.

O tratado de ética judaico chamado Pirkei Avot tem na sua primeira porção a cadeia de transmissão que fizeram com que a mensagem “do Sinai” chegasse até os dias de hoje.

Mishna 1:1 “Moisés recebeu a Torá no Sinai, transmitiu-a a Josué, Josué aos anciãos, os anciãos aos profetas, e os profetas a transmitiram aos homens da Grande Assembléia. Estes proclamaram três coisas: sede ponderados no julgamento, formai muitos discípulos e constrói cercas ao redor da Torá.”

Em dita porção se escondem muitos dos segredos e pilares da tradição do povo judeu. Como sempre digo, se a Torá é um livro incrível porque se não tem mais de 3250 como conta a história, este livro carrega pelo menos 2300 anos de longetividade (dado comprovado segundo os pergaminhos de qumram encontrados no mar morto em 1948). Ou seja, nestes mais de dois mil anos muitas coisas aconteceram no mundo, muitas mudanças se passaram e o povo judeu conseguiu manter o texto e seu conteúdo   relevantes para nossos dias.

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Voltemos a análise da escritura.

Moisés recebeu …” – Shavuot é Zman Matan Toratenu, o tempo da entrega da nossa Torá. Como os sábios ensinam, a Torá é entregue ao longo da história, sendo nossa responsabilidade aceitá-la, abraçá-la e recebê-la. D´us pode entregar a Torá; mas depende de cada um decidir se quer recebê-la. Torá, neste contexto, pode ser entendida como as histórias valores/práticas (não existem valores que não acarretam práticas, por isso de colcar juntas ambas palavras) e tradições do povo.

No momento que o escritor decide colocar o verbo receber e não entregar, automaticamente aquele que entrega passa a ser o passivo na relação, transformando o receptor no agente ativo. É ele que decide como e até quanto quer receber. Por tanto, o ato do recebimento uma tarefa que exige pensamento e responsabilidade em querer assumir a mesma.

Transmitiu” – apesar de haver recebido a Torá no Sinai, Moisés transmite a mesma à Josué. Os sábios se questionaram porque não mantiveram a mesma forma anterior e não se escreveu que “Josué recebeu…”.  A resposta está que aquele que recebe “em primeira mão” qualquer tipo de mensagem ou informação, obrigatoriamente “transcreve/interpreta/entende” a mesma apartir de sua visão e experiencia de mundo. Logo, não existirá nenhum tipo de “entrega de pacotes lacrados”, e sim uma “transmissão/educação” de geração para geração que sempre estará influenciada pelos pontos de vistas e verdades daqueles que a transmitem. Com isso, Moisés educa a Josué aquilo que pode entender.

A palavra “transmitiu” volta aparecer ao final da Cadeia de gerações, justamente no momento que houve um enorme medo de como “transmitiriam” aquela mensagem para um corpo de pessoas de diferentes lugares, histórias, vivências e experiências. O escritor tomou cuidado em alertar que naquele momento de tamanha mudança haveriam de tomar mais cuidado em como será essa passagem e de que maneira a geração anterior educará a Grande assembléia (representantes do povo).

O povo quando recebe esta missão de educar as novas gerações estabelece três premissas fundamentais para ter sucesso “nessa empreitada”. A primeira é serem justos e cuidadosos em seus julgamentos/decisões. Tal qual o lema do Tio Ben do homem-aranha, “um grande poder gera uma grande responsabilidade”. Caso o povo entenda o tamanho de sua responsabilidade, caberá aos mesmos pensar em cada decisão de uma forma profunda. Quando se está a frente de um processo educativo e uma construção ética de um povo (ou até mesmo de crianças), deve-se pensar que cada detalhe é importante. As metodologias e vivências são fundamentais na assimilação e compreensão da mensagem. E mais que tudo, ser diligente faz com que o educador pondere sobre que, como e porque de sua mensagem.

Junto a isso, deve-se formar muitos discipulos. Quando o educador acredita que sua mensagem pode ser relevante e significativa para o mundo, cabe a este fomentar a multiplicação de sócios/educandos. Como dizia Paulo Freire, a relação educador-educando deve estar em pé de igualdade. Por tanto, a educador deixa de ver no educando “um cliente ou um fim em si mesmo”, e passa a buscar nesta relação um sócio na construção de um mundo melhor. Assim sendo, formar muitos discípulos é aumentar o número de sócios na tarefa de levar a justiça e igualdade que a Torá tanto prega.

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A última parte da “mishna” diz para formar cercas ao redor da Tora. Este pedaço traz várias interpretações nas mais diferentes direções. Dentre estas a que mais me identifico traz o conceito da criação de um marco de proteção e ao mesmo tempo que “gere responsabilidade”. Na sociedade atual é muito comum escutar que a religião é o ópio do povo, ou ver a busca hedonista do prazer individual, ou ainda “a corrida em satisfazer as pseudo-necessidades individuais” e que terminam resultando num maior egoísmo, individualismo ou solidão. 

Estas cercas ao redor dos ensinamentos, em minha opinião, são as ferramentas que nossos sábios criaram para manter relevante a mensagem da Torá e ao mesmo tempo garantir que a pessoa não ficará somente na sua zona de conforto. O judaismo prega a luta pela não alienação de cada um frente a realidade que os rodeia. A filosofia de vida judaica proíbe que o individuo pense única e exclusivamente em sí. Esta clama pela responsabilidade coletiva, pelo assumir um compromisso frente ao outro, mesmo que não me seja comodo ou até agradavél. 

Criar estas cercas é “por a mão na massa”. É voluntariazar-se em ser parte ativa no recebimento diário dos ensinamentos e mais que tudo, ser um elo fundamental na cadeia de transmissão que educam as novas gerações. Shavuot representa nosso dever de educar para que o “Eu” junto ao outro assumam uma responsabilidade de fazer deste mundo um mundo melhor. Como está escrito na Torá: reparar o mundo com minhas ações e construir um santuário de justica, bondade e piedade. 

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “A arte de receber e transmitir”

  • Paulinho

    17/05/2013 at 01:56

    Chag sameach Pato!
    Curti muito o texto e as figuras!

  • Raul Gottlieb

    19/05/2013 at 15:02

    A Torá escrita tem certamente mais de 2300 anos. Os pergaminhos de Qumran divergem do texto atual em alguns pontos, o que evidencia que eles foram copiados de fontes comuns anteriores.

    Acho formidável o formato literário da Torá, que em sua linguagem econômica consegue abrir tantos mundos.

    E um deles remete à questão de como se deve escrever a palavra “Deus”.

    O nome do Eterno é oculto (não conhecido) e impronunciável por definição teológica irremovível. Não é possível dotar o Eterno de um nome e se manter fiel ao judaísmo.

    A Torá esconde o nome do Eterno atrás de quatro letras impronunciáveis, que são tradicionalmente pronunciadas Adonai (nosso senhor).

    O judaísmo não estabelece que as quatro letras sejam o nome do Eterno. Este nome é oculto pelas quatro letras e não revelado por elas.

    Deus é a tradução para o português do conceito teológico Adonai. Deus não é o nome do Eterno.

    Ao escrever D’us estamos evidentemente obedecendo o mandamento de não pronunciar o nome impronunciável. No entanto ao fazer isto estamos mais revelando do que ocultando o nome Dele.

    Porque todos sabem que D’us é Deus sem a letra “e”. Enquanto que as quatro letras da Torá não tem relação alguma nem com Adonai nem com o nome Dele.

    A consequencia é que ao escrever D’us estamos revelando o nome do Eterno em vez de ocultá-lo. E, ainda pior, estamos revelando um nome que não tem nada a ver com o Eterno, que não se chama nem Deus, nem God, nem Elohim, nem Allah, nem nenhuma destas traduções teológicas de Adonai.