A arte precisa ter uma razão

“A arte precisa ter uma razão”.

Esta frase provavelmente será escutada pela maioria dos artistas no mundo. Sejam eles artistas plásticos, músicos, atores, diretores ou práticos de qualquer uma das tantas expressões artísticas.
Definir o que é arte não é uma tarefa fácil, mas acredito que a mensagem daquela frase tão simples se refere ao fato de que um artista deve tentar transmitir em seu trabalho algum tipo de mensagem ou ideia e que isto, de alguma forma, elevará seu trabalho a outro patamar. Um tanto filosófico não?

Particularmente, não sou muito apegado a definições, tendo a achá-las limitadoras de certa forma (apesar de entender sua importância em muitos aspectos). Contudo, acredito, sim, na importância de uma mensagem ou ideia por trás de um trabalho artístico. E por esta razão escrevo este texto.

Sou estudante de teatro em uma faculdade cuja população estudantil se divide em uma metade árabe (dentre eles mulçumanos, drusos, e até alguns sem nacionalidade definida) e a outra metade judaico israelense. Tenho a sorte, também, de nesta mesma universidade, estudar em um prédio totalmente voltado às artes, oferecendo graduações em Artes Plásticas, Música e Teatro. É um privilégio estudar neste edifício, pois aqui posso mergulhar no mundo artístico israelense e conhecer toda sua diversidade. Pude também ter contato direto com o famoso “conflito árabe-israelense” naquela que, a meu ver, é sua forma mais pura e sincera: através da expressão artística.

Passei, nos últimos anos, a acreditar que o teatro é uma das formas mais expressivas de arte que existem, trazendo da maneira mais intensa a tal da mensagem sobre a qual falamos há pouco. Afinal, em uma peça, a dita-cuja se materializa em sua frente, ela se torna uma realidade física, passível de ser escutada, vista, sentida. Sendo assim, me encantei – e ainda me encanto – com todos os roteiros que li e peças que vi. Além disso, todas as vezes que me deparava com alguma peça que trazia um pouco da história de Israel, me surpreendia e me emocionava. Não foi diferente quando, em meados de 2014, minha faculdade trouxe para nosso auditório, a peça HaZman HaMakbil (“O tempo que passa”, em uma tradução livre), escrita, produzida e dirigida por Bashar Morkus (Bashar é diretor de teatro, produtor e ator, formado pela própria Universidade de Haifa, onde trabalha como professor e produtor de nossas produções ) .

Foi a primeira vez que vi, de cima de um palco, o outro lado da moeda. A peça se passa dentro de uma cadeia, mostrando o dia-a-dia dos prisioneiros. Não há nenhum tipo de menção – em momento algum – ao nome dos personagens ou a razão pela qual estão presos. Há algumas poucas referências a alguns episódios do conflito, porém de concreto, nada. A peça é extremamente poderosa emocionalmente. Há uma clara evolução nos personagens que, aos poucos, se abrem e deixam a plateia ver a dificuldade emocional de estar ali. Em um determinado momento o espectador chega a esquecer que está assistindo a prisioneiros em uma prisão, isto já não é mais importante. Existe uma relação de simpatia com os personagens. Ao final da peça, quando nos sentamos com Bashar para debater o que havíamos visto, descubro que a ideia inicial da peça veio a Bashar durante a leitura do diário de Valid Nimar Daka, um terrorista preso por esfaquear e assassinar um soldado israelense.

Após alguns minutos de revolta por parte de alguns estudantes, Bashar nos explica que “é evidente que não apoio o atentado em si”,  e que sua ideia era tentar mostrar o depois, ou seja, o que acontece com aquela pessoa a partir do momento em que ela é presa e abandonada pela sociedade.

Esta era a mensagem deste artista chamado Bashar Morkus. Eu mesmo ainda tenho dificuldades em formar minha opinião acerca do que vi, mas entendo a mensagem e reconheço que ela me fez pensar.
Infelizmente, não poderei recomendar a ninguém que assista a esta peça e se permita passar pelos questionamentos que passei. Isto porque nosso ministro da Educação Naftali Bennett (A Casa Judaica) vetou-a de ser apresentada. Explicarei melhor este veto.

Quando um diretor ou produtor de Teatro deseja apresentar sua peça ele deve submeter um pedido de autorização a um orgão chamado Comissão de Repertório. O pedido de autorização pode ser seguido de um pedido de ajuda financeira para a produção do espetáculo. Esta comissão tem seus orçamentos controlados, em conjunto, pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério da Educação.

Em fevereiro de 2015, Bashar Morkus entrou com um recurso para apresentar sua peça no Teatro Almidan, em Haifa, juntamente com um pedido para verba de produção para sua peça. A Comissão de Repertório – como de costume – ficou encarregada de tomar a decisão,chegando, ao final, a uma conclusão positiva, ou seja, aprovando os pedidos de Bashar.

Bennett, porém, interviu e, sob a argumentação de que não está disposto a expor “nossas crianças” a este tipo de conteúdo, e que a família do soldado assassinado não merece passar por isto, vetou a decisão da comissão e decidiu por não permitir a peça de ser exibida.

O episódio ainda não está encerrado, longe disso, creio eu. A comissão já teve todos seus 40 membros ameaçando uma demissão coletiva, Bashar entrou com uma ação contra Bennett através do Ministério da Cultura e, é claro, houve grande repercussão  dentro do meio artístico.

Vi muitos amigos ex-soldados, que perderam companheiros em atentados terroristas defenderem de maneira enfática o veto, afirmando que, uma vez que seja permitido retratar atentados terroristas desta forma, estaremos um passo mais próximo de entregar nosso Estado (vale lembrar que a peça, ainda que baseada em um diário de um guerrilheiro preso, não menciona, em momento algum, o atentado, ou mesmo nomes dos envolvidos). Na mesma moeda, vi muitos repudiarem o veto, sendo este um ato de censura claro e explicito.

Deixemos de lado, por um momento, o conteúdo da peça em si. Entendo ser um assunto delicado, que toca em uma ferida mais delicada ainda, mas gostaria de propor uma reflexão.

Como expliquei anteriormente, a peça não faz nenhum tipo de menção a nomes, datas, causas ou episódios. Ou seja, os prisioneiros ali retratados poderiam ter sido, tranquilamente, baseados em ladrões de banco, em hackers, em políticos corruptos, em pedófilos ou em qualquer criminoso que, por qualquer razão, estaria ali preso. É uma peça que busca mostrar o lado humano do presidiário. Uma peça que deveria levantar uma serie de questões sociais, psicológicas, humanas acerca de como lidamos com uma pessoa que, por qualquer razão que seja, não se encaixou no padrão da nossa sociedade.

Vejam bem, essas questões não são menos complexas ou polêmicas. Elas simplesmente foram deixadas de lado e sucumbiram ao poder e à importância que o famoso conflito tem em nossa sociedade.

A arte é um veículo que nos ajuda a abordar temas complexos de forma mais pura e menos objetiva (mais subjetiva). Nos permite pensar de forma diferente. Nos permite fugir de nossa realidade e nos permite – muitas vezes – encarar assuntos dotados de conotação política de forma menos parcial.

Acredito que esta censura imposta por Bennett tenha sido um ato mais político do que uma preocupação com o conteúdo da peça. E infelizmente funcionou. Há semanas que só se fala no veto e nas repercussões políticas deste veto, e não na peça em si.

Há espaço para a política em um palco de teatro (e como há!). Neste caso, porém, a política extrapolou os limites do cenário e se envolveu de forma a matar a expressão artística.

Contestar a censura é necessário, mas ela não pode se tornar o astro principal do espetáculo.


 Gustavo Salomão é estudante de Teatro Social – com foco em Palhaços Médicos –  na Universidade de Haifa, fez Aliah em 2012 pelo Habonim Dror

Comentários    ( 2 )

2 comentários para “A arte precisa ter uma razão”

  • Marcelo Starec

    22/08/2015 at 06:15

    Oi Gustavo,

    Muito interessante o artigo e o ambiente universitário que você aqui relata…Uma coexistência exemplar entre judeus e árabes – estudam lá 50% de judeus e outros 50% de árabes, o que é motivo de orgulho a respeito de Israel !…Gostaria de colocar meramente uma posição superficial sobre esse tema tão complexo: Se a peça não menciona o motivo dele ter sido preso – um atentado palestino contra um israelense, então por qual motivo o sr. Bashar precisava relatar exatamente o que levou o protagonista da peça a ser preso?…Isto posto, entendo ser inaceitável a postura do sr. Bashar, ao deixar claro que, especificamente, usou a arte para humanizar um terrorista – sem considerar o mal que ele fez aos demais ( o israelense morto, sua família e seus amigos), portanto ao relatar isso, a peça passou a ser um instrumento de política que, de algum modo, direta ou indiretamente, termina respaldando o ato terrorista. Se a peça deveria ser vetada, a meu ver não deveria,até por que esse veto, na tão democrática sociedade israelense, acabará mesmo é servindo de propaganda para o sr. Bashar, que acabará por fim vencendo essa luta!…Entendo aqui que ambos – Bashar e Benett, colocaram a política na frente da arte – e isso não é algo positivo!…..

    Abraço,

    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    23/08/2015 at 12:17

    Creio que a causa principal do mal neste caso é o financiamento estatal ao teatro (e as demais expressões artísticas).

    Porque o Estado tem que dispor recursos dos contribuintes para uma obra de arte?

    Quem outorgou ao Estado o poder de decidir o que pode ou não ser visto pelo público?

    O Estado julga que os cidadãos são crianças que devem ser monitoradas por um ente superior de razão – no caso, surpresa, surpresa!, ele mesmo.

    Caros Gustavo e demais frequentadores do Conexão: vocês acham que o Estado tem que patrocinar obras de arte?

Você é humano? *