A benção maldita

18/09/2015 | Opinião; Política; Sociedade

Na última semana, levei o meu filho de três anos para o primeiro dia de “aula” em sua nova creche, num bairro chamado Hadar Yossef, norte de Tel Aviv. Novo endereço, nova estrutura, professores, horários e, principalmente, amigos. Não demorou muito mais do que cinco minutos para todas as crianças estarem brincando juntas, como se fossem amigos de longa data. Encontrei um canto da sala onde pude curtir o meu orgulho silencioso ao ouvir o meu filho falando um hebraico perfeito. Em certo momento, a professora junta as crianças para aprender músicas de Rosh Hashana (ano novo) que deverão ser entoadas em breve na mesa de jantar. Penso por breves instantes naquelas crianças, em suas vidas, seus destinos.

Durante toda a história do povo judeu, quantas crianças foram tão sortudas como estas? Todas  nasceram depois de guerras que – de fato – ameaçaram a existência do Estado de Israel, crescem em um período incomum de abundância de alimentos e em um mundo menor e mais interconectado. O sistema de saúde israelense oferece-lhes um atendimento decente, uma das maiores expectativas de vida do mundo, o “índice de felicidade” alcança níveis estratosféricos na sociedade, a população confia nas redes de segurança que tem como preocupação única a defesa de sua vida. O livre mercado possibilita que muitos tenham conforto, comodidade, melhores serviços e uma enorme diversidade de produtos.

Ao contrário do verão passado em que fomos obrigados a conviver com sirenes, foguetes e mais um capítulo do eterno conflito entre Israel o terrorismo palestino, este verão foi muito mais silencioso e tranquilo. É claro que ao nosso redor os fatos não nos deixam acomodar: Estado Islâmico na Tunísia, Líbia, Sinai, Síria e Iraque. Grécia em quase-colapso financeiro, Europa perdida em meio a questão dos refugiados. Entretanto, precisamente aqui, no meio do barril de pólvora do Oriente Médio, vivemos uma relativa calma. Lembro que utilizamos uma expressão em um dos artigos no Conexão Israel ao tempo do último conflito – “aparar a grama”. Com a ajuda de um patrulhamento extensivo do exército nas fronteiras de norte a sul do país em conjunto com o trabalho da Inteligência, esperamos que essa grama (maldita grama), demore uns belos anos para ter a coragem de emergir o seu corpo para o lado de fora da terra.

Contra fatos não existem argumentos: mais e mais guindastes sendo erguidos em todo o país, mais e mais arranha-céus surgindo em Tel Aviv. Milhares de turistas. Restaurantes abarrotados, praias lotadas. Revoluções por minuto em todas as áreas – da medicina à agricultura, passando, é claro, pelos novos aplicativos em seu smartphone. Na minha humilde opinião é realmente agradável viver em Israel. Não diga a ninguém que eu escrevi isso, jamais admitirei em público, mas, apesar do governo Netanyahu – a qualidade da minha vida em Israel é extremamente satisfatória.

Exceto, é claro, por uma pequeníssima questão. Quase um detalhe despercebido nesta imensidão de maravilhas: o futuro. Pensando no meu filho e em seus amigos, pergunto-me se a minha geração será capaz de manter o “empreendimento sionista”?

Qual era mesmo o objetivo do sionismo? Em poucas palavras: o sionismo surge para conceder um lugar no globo terrestre em que o povo judeu não fosse mais uma minoria. Como consequência direta, conquistaríamos o direito que nos foi negado durante dois mil anos: “soberania”. O ideal sionista ainda vai além:  determina-se que a soberania judaica seria apenas o instrumento de construção de uma sociedade atrelada a valores essencialmente democráticos. Isso é o bastante. Por isso viemos para este local e sacrificamos o que sacrificamos porque esta era uma ideia correta, justa e promissora. De certa forma fomos extremamente bem-sucedidos.

Mas isso não é toda a história. Desde o verão de 1967 e a vitória esmagadora sobre todos os exércitos inimigos em apenas seis dias, nós insistimos em profanar o milagre que ocorreu no país. Há quarenta e oito anos, estamos corroendo a maioria judaica e a soberania israelense e contribuímos para lentamente abalar as estruturas democráticas do país. Pouco a pouco, sem grande estardalhaço, nós perdemos a noção do razoável.

O processo que começou devagar naquele tempo hoje toma uma proporção cruel. Mais e mais assentamentos são construídos nos territórios. Mais colonos e mais colonos (e mais colonos) até que chegará um momento em que será impossível dividir o território entre os dois povos, e seremos obrigados a declarar aqui um só país, de maioria árabe. O Estado só não perderá seu caráter judaico caso bloqueie aos cidadãos palestinos plenos direitos.

É claro que podemos optar em manter a situação atual por um tempo indefinido, justificando esta opção por uma daquelas nossas verdades absolutas: falta de vontade política do atual governo, falta de parceiros palestinos para o diálogo, falta de uma liderança forte, falta de confiança… Escolha leitor a “falta” que lhe for conveniente, mas saiba que enquanto você decide, mais um assentamento é construído. E mais perto nós estamos daquele ponto sem volta em que a democracia e judaísmo se encontrarão em lados opostos. Não há para onde correr.

Isso me preocupa demais. A você, não?  Como esse pensamento não está martelando a cabeça de todo israelense comprometido com o futuro de seus filhos? O historiador israelense Shabtai Teveth escreveu um excelente livro sobre o início das políticas de construção assentamentos , dando-lhe o título de (em tradução direta) “A benção maldita”. Nos últimos dez anos o termo recebeu um novo significado. Justamente por causa da “benção” que recebemos, Tel Aviv, hi-tech, a nossa bela e confortável vida, perdemos a capacidade de observar o que ocorre ao nosso lado. Justamente porque é demasiado bom viver em Israel, – com a super-torres, os restaurantes, as praias, a juventude vibrante, não conseguimos internalizar o fato de que o chão cede sob os nossos pés. Tornamo-nos vítimas de nosso sucesso.

Há exatos dez anos, como uma nação responsável, tomamos uma díficil decisão e tentamos com muito esforço salvar a maioria judaica e a soberania israelense no que ficou conhecido como o Programa de Desconexão de Gaza em 2005. Diversos erros foram cometidos durante o planejamento, mas o projeto essencial carregava em sua raiz o ideal sionista. O que o direitista Ariel Sharon entendeu como ninguém naquele momento, é que se não dirigimos o nosso destino e se não definimos as nossas fronteiras com as nossas próprias mãos, a “indústria dos assentamentos” nos enterrará vivos.

Este entendimento é muito mais valioso hoje do que era no verão de 2005. É necessário identificar os acertos e a razão por trás da decisão unilateral da saída de Gaza, e impedir com força e inteligência que grupos terroristas construam uma base de lançamento de foguetes na Cisjordânia. Entretanto, é nossa obrigação retornar a ideia fundamental e – por ora completamente esquecida – da divisão da terra.

Ao meu filho e seus amigos me recuso a fazer quaisquer promessas de paz. Aproveito os dias anteriores ao Yom Kippur para fazer a minha confissão e reconhecer os meus erros. Depois de me retirar da creche me pego pensando em nós – os pais. As gerações anteriores trabalharam muito duro para construir um país, uma economia em alto crescimento e uma cultura que floresce, é diversa e fascinante. Mas estamos nos omitindo de construir um Estado desejado pelo movimento sionista. O sistema democrático que herdamos dos fundadores do Estado Judeu está sendo abandonando.

É apenas uma ilusão acreditar que podemos viver bem, sem lutarmos por uma política e um sistema público associado a democracia. Estamos pecando contra nós mesmos.

É necessário extremo cuidado. Não compreender o dano causado pela manutenção de políticas de construção nos territórios é tão grave quanto ignorar os perigos do extremismo islâmico. Entretanto, há uma grande diferença entre eles: existe um que nós podemos interromper agora. Hoje. Sem mais demora. Caso contrário, o nosso presente inebriante – e tão querido aos amigos da dispersão judaica – destruirá o nosso futuro e a maldição consumirá a benção que a nossa geração recebeu – e, prestem atenção – será até o último pedaço.

Comentários    ( 8 )

8 comentários para “A benção maldita”

  • Mario S Nusbaum

    18/09/2015 at 01:36

    Adorei o artigo Marcelo! Três observações:
    1) Os assentamentos são um erro enorme
    2) Não há parceiros palestinos COM PODER para o diálogo
    3) Conclusão a partir das duas primeiras: ocupação militar até que a 2 não seja mais verdade

  • Marcelo Starec

    18/09/2015 at 06:52

    Oi Marcelão,

    O seu artigo é de fato digno de uma justa reflexão para o Yom Kippur que está chegando!…Eu me diverti muito com a sua confissão: ” Não diga a ninguém que eu escrevi isso, jamais admitirei em público, mas, apesar do governo Netanyahu – a qualidade da minha vida em Israel é extremamente satisfatória.”…Prometo que não vou contar a ninguém!…rs…mas a sua reflexão é de extrema importância – e como chegarmos a nossas fronteiras definitivas, mantendo a segurança do Estado, a maioria judaica e ao mesmo tempo a democracia? (Aqui é o meu resumo das suas colocações, por favor me corrija se eu não estiver aqui captando os seus pontos principais)…Bom, desde 1967, quando Israel foi atacada e venceu mais uma guerra existencial, ficamos com Territórios que então as lideranças e os militares entenderam ser vitais para a nossa segurança. Mas surgiram (ou se desenvolveram) grupos que também afirmam (com razão!) que essas terras são tão parte de Israel como o restante do País (Hebron, Schen…). É fato, no meu entender, que por uma razão mais do que justa, não podemos absorver essa população árabe e anexar esses Territórios. Assim, não me parece viável qualquer outra solução diferente da criação de mais um Estado Palestino. Mas nem tudo é tão simples como parece, infelizmente. Se a demanda deles continuar a ser enfiar 5 milhões de “descendentes de refugiados” para dentro de Israel, a questão que você colocou muito bem não seria resolvida, mas agravada!…Então, esse ponto é de pronto não negociável da forma como está colocado. Assim, em meu entender, sou a favor de uma solução que gere uma divisão com as seguintes condições: 1) O reconhecimento, durante a negociação, do justo direito do povo judeu a ter o seu Estado; 2) Israel é uma Nação de refugiados (e em boa parte de refugiados do próprio Oriente Médio, de onde foram expulsos – assim não faz sentido enfiar milhões de refugiados árabes em Israel (inclusive pelo reconhecimento justo do item 1 – pois caso contrário, não haveria motivo para querer “maioria judaica” – se queremos isso, é justamente em função do item 1 – que muitos tentam deslegitimar sem razão!…3) A aceitação do direito a um Estado para os habitantes dos Territórios que ainda não tem um Estado (Que pode ser chamado de Palestina) a ser somado à Jordânia e à Israel – para ser mais um Estado Palestino)…Enfim, há outros pontos mas entendo que devemos sim negociar, mas não há como fugir daquilo que é vital para nós enquanto povo judeu – o justo direito a ter a nossa autodeterminação devidamente reconhecida pelo mundo árabe, inclusive pelos palestinos, como um direito legítimo do povo judeu – um reconhecimento mútuo!…

    Abraço,

    Marcelo.

    • Mario S Nusbaum

      18/09/2015 at 13:57

      “. Se a demanda deles continuar a ser enfiar 5 milhões de “descendentes de refugiados” para dentro de Israel,” Quando eu disse que não palestinos COM PODER dispostos a dialogar, quis dizer, entre outras coisas, dispostos a abrir mão dessa exigência absurda.

  • Rita Burd

    18/09/2015 at 15:10

    Marcelão, Shaná tová Umetuká?????
    Depois de ler o teu texto eu pergunto, estamos pensando no doce mel para o futuro?
    Teu texto é intrigante e atual. Peço licença para que seja a nossa mensagem.
    Explico: faço parte do Grupo Maguen David, da WIZO/RS.
    Neste domingo, nosso Grupo se reúne para um Le Chaim..
    Encontrei aqui, no teu texto, a mensagem que eu procurava.
    Rita Burd

  • Raul Gottlieb

    18/09/2015 at 20:43

    Marcelo

    Quando os árabes ocidentalizarem a sua cultura teremos a solução do conflito. Enquanto isto vamos esperar, aparando a grama quando for necessário.

    É de extrema arrogância imaginar que nós, judeus, podemos resolver um conflito almejado e mantido pelos árabes. Não somos o centro do mundo e não conseguimos ditar os rumos da cultura árabe. Não temos o poder para interferir nela.

    Se tivéssemos não haveria guerra na Síria nem estupros nos abrigos de refugiados da Alemanha.

    Mas é claro que podemos e devemos interferir na nossa cultura. E neste caso é claro que a ocupação civil dos territórios é um equívoco grande.

    O que podemos fazer para resolver isto? A meu ver o começo é a deslegitimização da ortodoxia como única vertente religiosa do povo judeu.

    O caminho para desmontar as cidades de Yehudá e Shomron passa pelo desmonte da Rabanut. E depois pela legitimação das demais expressões religiosas judaicas. Um dia os israelenses vão descobrir isto.

    As cidades de Yehudá e Shomron são fruto de uma leitura equivocada da Torá. A promessa territorial de Deus foi condicionada a construção de uma sociedade não opressora.

    Quando a maior parte dos judeus fizer esta leitura os ditos “colonos” (um termo pejorativo que não me agrada) vão sair de lá. Porque é claro que numa democracia o que governa é a vontade do povo.

    Shabat Shalom e Chatimá Tová,

    Raul

  • Raul Gottlieb

    19/09/2015 at 10:02

    Um vídeo mimoso sobre a cultura árabe.
    http://www.memri.org/clip/en/0/0/0/0/0/0/5076.htm
    Não deixem de ver.

  • Carlos A

    21/09/2015 at 01:19

    Marcelo, tenho medo do Futuro… confesso… Imagino o Velho Continente, com milhões de véus, falando árabe… Seria este o plano ‘maldito’do EI?

  • Daniel Cohen

    13/10/2015 at 22:10

    Mario, Raul, Starec… enquanto vocês digitam… mais um assentamento é criado.

Você é humano? *