A bomba-relógio ortodoxa

20/05/2015 | Economia; Sociedade

Artigo de Merav Arlozorov, publicado no The Marker, em 13/05/2015. Tradução de Yair Mau.

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As previsões para 2060 podem parecer absurdas, e não obstante, o Instituto Central de Estatística (ICE) divulgou há três anos previsões demográficas a longo prazo em Israel. O cenário ao qual foi atribuída a maior probabilidade de tornar-se realidade prevê que até 2060 os árabes de Israel cresçam de 21% da população para 24%. Pode-se perceber que a parcela de cidadãos árabes na população mais ou menos está se estabilizando, por causa da diminuição da taxa de natalidade dos árabes de Israel, que se aproxima muito à taxa de natalidade da população geral. Em contrapartida, com relação a dois outros grupos centrais — os ortodoxos e os judeus não-ortodoxos — mudanças drásticas são previstas.

A parcela de judeus não-ortodoxos na população deve despencar de quase 70% hoje para apenas 50% em 2060. O motivo é o enorme crescimento da parcela da população ortodoxa, apesar de que, segundo o ICE, a taxa de natalidade dos ortodoxos cairá de uma média de 6.4 crianças por mulher hoje para 4.7 crianças por mulher em 2060.

Devemos lembrar destas previsões do ICE quando lemos os acordos de coalizão que o Likud assinou com os partidos ortodoxos — o Judaísmo da Torá e o Shas. Estes acordos não são apenas caprichos políticos, como um devido “salário de prostituta” que todo Primeiro-Ministro do Estado de Israel sempre pagou. Estes são acordos que põem em risco a existência do Estado de Israel. E isto porque eles ignoram o problema demográfico e estratégico que o país enfrenta: a existência de uma população importante, que dentro de cinco décadas passará a ser um quarto da população, e que sofre de um profundo atraso em questões de emprego e educação.

[Proporção de pessoas que trabalham no público ortodoxo e árabe, idades 25 a 64 anos. Azul escuro: ortodoxos; azul claro: árabes; verde: resto da população. Homens no gráfico da esquerda, mulheres no gráfico da direita.]

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Preciso esclarecer: também os árabes de Israel sofrem de um atraso de emprego e educação, e portanto eles também merecem uma atenção estratégica (infelizmente, não vimos sequer um pingo de atenção neste sentido nos acordos de coalizão). Mas diferentemente da população árabe, que quer melhorar sua situação e precisa de ajuda do Estado para tanto, com os ortodoxos o problema é o oposto — e portanto muito mais grave.

Os ortodoxos fazem parte do jogo político, e eles aproveitam disso para manter seu atraso por muitos anos. Em termos atuais: enquanto que os acordos de coalizão ignoram os grandes problemas dos árabes de Israel, em tudo o que diz respeito aos ortodoxos há uma atenção redobrada — mas justamente no sentido oposto ao desejável. Os acordos de coalizão pioram muito os problemas da população ortodoxa.

A proporção de mulheres ortodoxas que trabalham aumentou

Em uma apresentação da presidente do Banco Central de Israel, Karnit Flug, percebe-se claramente a piora: a proporção de mulheres ortodoxas que trabalham aumentou muito nos últimos anos, e chega quase aos 70%, não muito distante dos 80% das mulheres judias não-ortodoxas.

Deve-se tirar o chapéu às mulheres ortodoxas, que muitas delas criam seis ou sete filhos e também trabalham (mesmo que muitas trabalhem em empregos de período não integral ou não remunerados), mas seus esforços não conseguem compensar a baixa proporção de homens ortodoxos que trabalham. Estes ainda consistem em apenas 44%, quase metade da proporção de homens judeus não-ortodoxos que trabalham (85%). O pior de tudo — a melhora na proporção de homens ortodoxos que trabalham é muito pequena. Enquanto que as ortodoxas já passaram das metas estabelecidas pelo relatório da comissão de emprego (Comissão Eckstein) de 2010, os ortodoxos não estão perto de chegar lá.

A baixa proporção de trabalhadores reflete tanto a escolha dos ortodoxos em não trabalhar quanto sua falta qualificações — baixa educação, porque estudam em sistemas educacionais separados que não ensinam o currículo elementar [ciências, história, inglês, etc]. As ortodoxas, que sim trabalham, justamente estudam o currículo elementar. Uma minoria delas até mesmo participa dos exames internacionais Pisa.

[Cerca de 46% das famílias ortodoxas são pobres. Porcentagem de pobres, segundo setores da população e segundo número de pessoas que trabalham. Gráfico da esquerda: nenhuma pessoa (41.3%), uma pessoa (24.6%), duas pessoas (5%). Gráfico da direita: árabes (54.4%), ortodoxos (46.6%), resto da população (12.5%).]

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Os seus resultados nos exames, em todas as categorias (leitura, matemática, ciências), são significativamente mais baixos que o das alunas do sistema público. Ou seja, a ideia de que os ortodoxos têm uma capacidade de aprendizado fenomenal, e num piscar de olhos podem completar, aos 25 anos (depois de terem saído da yeshiva) tudo o que não estudaram durante os 12 anos de escola — não é nada mais que uma lenda. Quem perdeu o currículo elementar durante 12 anos, ou os aprende num nível mais baixo e sem a devida supervisão — conforme acontece com as ortodoxas — terá muitas dificuldades de completar depois o que falta. A pessoa permanecerá sem as qualificações exigidas pelo mercado de trabalho moderno, o que causará que ela trabalhe em empregos piores, de baixa produtividade e de salário baixo.

Este é o futuro que os acordos de coalizão prevêem a 25% da futura população de Israel. A euforia da vitória dos ortodoxos é agora nada mais que uma vitória pírrica [que prejudica mais o vitorioso que o derrotado] — porque com tal vitória, estão destruindo o futuro de sua população. Mais ainda; a euforia da vitória de Netanyahu não é nada mais que uma vitória pírrica, pois tendo assinado estes acordos de coalizão, Netanyahu assinou a certidão de óbito do Estado de Israel.


O artigo de Merav Arlozorov continua, trazendo dados dos últimos acordos de coalizão entre Netanyahu e os partidos ortodoxos. Farei disto um artigo separado, aguardem!

Foto de capa: Flickr de Raw Herring, segundo a seguinte licença Creative Commons.

Comentários    ( 13 )

13 Responses to “A bomba-relógio ortodoxa”

  • Marcelo Starec

    20/05/2015 at 06:38

    Oi Yair,
    Muito interessante o artigo e a sua tradução!…Sobre isto, gostaria de fazer algumas observações que, em meu modesto entender, são pertinentes: Conhecendo um pouco de história do mundo, pode-se comprovar que quase todas as projeções no estilo deste artigo não se concretizam – isto pelo simples motivo delas partirem de um pressuposto de que não haverá nenhuma mudança drástica, mas apenas pequenos ajustes e projeta tudo em linha reta. Se isto fosse verdade, só como exemplos, o mundo estaria passando fome hoje (vide Malthus) e os árabes israelenses seriam hoje maioria em Israel…Nada disso ocorreu!…No primeiro caso,a tecnologia tratou de aumentar a produção de alimentos (hoje há fome no mundo, mas não pela impossibilidade de produzir alimentos para todos!) e no segundo caso os árabes israelenses, ao se integrarem progressivamente na sociedade e na cultura de Israel, tiveram uma taxa de natalidade muito reduzida, chegando hoje a níveis próximos do resto dos israelenses (algo impensável em 1948!), além do fato de que Israel recebeu muitos imigrantes, como os judeus expulsos de todo o Oriente Médio, pela intolerância que vem prevalecendo até hoje (E isso por enquanto não mudou, infelizmente!…). Assim, acho tudo isso um mero exercício de futurologia que faz sentido, mas que muita coisa nova deverá ocorrer até lá…Aliás, quem garante que os filhos de ultra-ortodoxos seguirão os país, só como um simples exemplo….Para concluir, apenas mais uma observação…A questão dos ortodoxos e a sua influência no governo é algo muito antigo em Israel e foi fartamente usado pelos trabalhistas, quando estes governavam – acho que nada há de novo nisso….
    Abraços,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    20/05/2015 at 21:25

    Yair,
    Concordo plenamente com o Marcelo, essas previsões baseadas em extrapolações raramente se realizam.
    Uma delas se tornou famosa: ” Em 1894, o Times de Londres estimava que até 1950 todas as ruas da cidade ficariam soterradas em 2.7 metros (9 pés) de profundidade de estrume de cavalo. “

  • Rafael Stern

    20/05/2015 at 22:16

    A diferença entre o profeta e o oráculo é que se o oráculo fala sobre o futuro e isso não se realiza, ele fracassou. Se o profeta fala sobre o futuro e o que ele disse acontece, ele fracassou (tirei isso de algum texto de centenas que li do rabino Jonathan Sacks). A tradição judaica é profética. Que essas previsões sirvam de alerta e sejam inspiração para um aprimoramento, e não um causador determinista de pânico.

  • Gilson Honigman

    21/05/2015 at 01:12

    Boa observação do Marcelo, Já rubricada pelo Mario.

    Mas de curiosidade, Yair, no gráfico “Porcentagem de pobres”, gostaria de saber qual o parametro utilizado para se determinar o que é ser pobre.

  • Raul Gottlieb

    21/05/2015 at 10:51

    A meu ver, taxa de natalidade dos árabes em Israel é semelhante a dos judeus por razões econômicas. Já não é fácil sustentar uma família de dois-três filhos, o que dirá uma com seis ou oito. Então, eles se adequaram a famílias de tamanho sustentável.

    Mas os ortodoxos tem outra realidade, pois o Estado incentiva economicamente que eles tenham mais filhos, pelos subsídios que paga.

    A questão é saber se o Estado de Israel vai se suicidar permitindo a manutenção ou até mesmo a ampliação (que Deus não permita!) das políticas de subsídios à população ortodoxa que não trabalha.

    Estados podem se suicidar, como mostra Barara Tuchman em “The March of Foly”.

    Hoje em dia o maior perigo para a existência do Estado de Israel é a sua população ortodoxa. Não todos os ortodoxos, é claro, representam uma ameaça ao Estado e, consequentemente, ao judaísmo, mas aqueles que não trabalham, que vivem dos impostos e donativos dos demais têm um enorme potencial destrutivo.

  • Yair Mau

    21/05/2015 at 16:34

    Acho que tanto o Marcelo quanto o Mario se focaram na coisa errada. Claro que uma extrapolação não leva em conta eventos imprevistos (por definição). O artigo não vem apostar dinheiro que o futuro será exatamente assim, ele nos vem alertar de que do jeito que as coisas estão caminhando, pode-se esperar um futuro terrível como o explicado no texto. Dizer que “coisas vão acontecer” pra mudar o cenário é varrer o que há de mais interessante para baixo do tapete. O artigo me causa um desconforto, e me instiga a ser a mudança necessária para evitar o pior. Neste sentido, usando as palavras do Rafael, o artigo é um exercício de profecia, não produto de um oráculo.

    Eu não sabia a definicão de “pobre” e fui verificar. Todo ano há um relatório da pobreza em Israel, feito pelo Instituto de Seguridade Nacional. Vejam aqui o relatório de 2013 (http://www.btl.gov.il/Publications/oni_report/Documents/oni2013.pdf), onde na página 10 vemos uma tabela, que mostra a definicão da “linha da probreza” para este ano.
    Número de pessoas na família — linha da pobreza (em shkalim)
    1 — 2989
    2 — 4783
    3 — 6338
    4 — 7653
    5 — 8968
    etc

    Concordo com o que o Raul escreveu, com excecão do 1o paragrafo. Pobreza não é um impedimento para se fazer filhos, veja Gaza. Eu atribuo o fenômeno à escolaridade e “ocidentalizacao”.

  • Raul Gottlieb

    21/05/2015 at 21:14

    Duas observações:

    No Brasil 2.350 reais mensais (aproximadamente 3.000 shekalim) é classe média. Em Israel é pobreza.

    Há um tempo, no governo Sharon, o “salário família” de Israel diminuiu de valor para as famílias com muitos filhos. A taxa de natalidade caiu. Ou seja, alguma influencia econômica tem sim. Não me lembro onde isto saiu publicado, pois faz um tempo, mas saiu sim em algum lugar.

    • Leo

      22/05/2015 at 04:23

      Não, Raul, no brasil da era lulista, a classe média começa em 291 reais.

    • Raul Gottlieb

      23/05/2015 at 23:48

      Sim, Leo.

      No Brasil de hoje uma renda familiar de mais de 8 mil é classe A. Entre 8 mil e 800 ml é tudo classe A. Elite golpista e privilegiada.

      Mas eu estou falando do Brasil abaixo da gosma fedorenta do lulismo. Antes dos luminares de extrema esquerda que nos governam decretar os patamares econômicos que merecemos, uma família com o equivalente a 2.350 reais era classe média.

    • Yair Mau

      22/05/2015 at 04:29

      justamente foi o Netanyahu, como Ministro da Fazenda do Sharon, que cortou parte da grana dos ortodoxos. E é verdade que o dinheiro do governo influencia o número de filhos. Contudo, o efeito é elástico: depois que a grana volta, o índice volta a subir.

    • Raul Gottlieb

      23/05/2015 at 23:50

      Então estou certo, Yair. A economia influencia na escolha do tamanho da família, mesmo entre os ortodoxos. Pru urbu, mas não deixe de verificar os incentivos. Chag Sameach!

  • Mario S Nusbaum

    23/05/2015 at 16:23

    “Acho que tanto o Marcelo quanto o Mario se focaram na coisa errada. Claro que uma extrapolação não leva em conta eventos imprevistos (por definição)” Aceito a crítica Marcelo, mas algumas extrapolações, como essa, não levam em conta eventos previsíveis.Exemplo: a História mostra que quanto maior a inserção das mulheres na força de trabalho maior a queda da natalidade.
    Eu sei que no caso em questão o fator religioso não permite uma comparação exata com o que aconteceu no Brasil ou nos EUA, mas que vai influir vai.
    Shabat Shalom.

  • Leandro Dessimoni

    13/04/2016 at 14:09

    Olá Yair,

    Muito bom seus textos. Sou protestante mas tenho como objetivo um dia escrever um livro sobre os judeus e suas contribuições em todas as áreas profissionais do mundo contemporâneo. O campo para pesquisas é amplo.

    Sabe dizer como vivem os ortodoxos em outros países? Como USA e UK por exemplo? Também recebem ajuda do governo?

    Obrigado

    Leandro