A criminosa

Israel - Nofrat Frenkel, a Criminosa

 

Nofrat Frenkel não é mais uma jovem israelense comum.

Estudante de medicina, 25 anos, auto definida como praticante do judaísmo ortodoxo foi detida pela policia no Muro das Lamentações no dia 18 de novembro e levada para uma estação policial, onde foi interrogada durante 90 minutos. No ato de sua prisão, algumas pessoas amontoaram-se ao seu redor para lhe ofender moralmente.

Uma ficha criminal foi aberta e, se condenada, pode receber uma pena privativa de liberdade de seis meses, ou multa no valor equivalente a cinco mil reais. Foi banida por duas semanas das imediações do Muro. O crime definido pela policia: perturbação da ordem.

Mas Nofrat não praticou nenhum ato de vandalismo. Não agrediu. Não roubou. Não se despiu – muito pelo contrário, o seu “crime” foi estar vestida em demasia. A jovem, “perturbou a ordem” por estar coberta com o Talit e por carregar um Sefer Torá.

O local onde o muro esta localizado é um local público. Foi recuperado pelas Forças de Defesa de Israel na unificação de Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias. É um símbolo de identidade nacional. O Muro pertence a todo o povo judeu. Ou pelo menos, deveria pertencer…

Neste espaço, Israel recebe milhares de turistas de diversas religiões e etnias que o visitam vestindo e portando seus trajes e objetos religiosos típicos: batas e caftãs, crucifixos e tefilin, mantas e cristais…

Nofrat Frenkel é a primeira judia em Israel detida, interrogada e processada por vestir e portar objetos religiosos. Este fato nos leva a uma triste constatação: O Estado Judeu é o único país democrático do mundo onde não se pode praticar livremente o judaísmo.

Confesso que não me sinto confortável com a visão de uma mulher de talit e kipá. Não tenho um argumento lógico para isto e não tento fazê-lo através de dogmas religiosos. Porém, entendo e respeito, que em uma democracia há pessoas que pensem diferente de mim. Entendo e respeito a necessidade desta jovem de praticar o “seu” judaísmo da maneira pela qual se sente confortável, num local de tantos significados ao povo judeu.

Nofrat Frenkel é uma mensagem de alerta. Não podemos ceder a pressão e a violência de um grupo que deseja tornar Israel uma teocracia. Não podemos nos tornar reféns dos que garantem serem os únicos a saber os desejos de Deus. O governo israelense deve coibir a ação dos “exércitos da castidade” judaica.

As pessoas que concordam com a punição, alegam que a jovem perturbou a ordem do local ao praticar uma conduta ofensiva a uma determinada corrente religiosa.

Certamente, esta mesma corrente religiosa pratica diversos atos, que aos olhos da jovem Nofrat, também são condutas ofensivas: ofensa ao valor da mulher como ser humano, ofensa aos ideais iluministas que criaram a idade moderna, ofensa a liberdade conquistada pelo povo judeu libertados da opressão dos grupos majoritários, ofensa aos princípios da tolerância e da coexistência.

Porque então estas pessoas não são detidas e interrogadas? Afinal de contas, porque apenas este grupo deve ter sua sensibilidade respeitada?

A verdade é que os lados não estão empatados. A maior diferença é que esta jovem aceita o regime democrático – onde “o outro” – não apenas é tolerado como também é parte. Já aqueles que a acusam defendem um regime onde ela não pode existir. Não que a jovem seja individualmente melhor ou tenha mais méritos do que seus opressores. A verdade é que ela se encontra em um estágio distinto de civilização.

Nofrat Frenkel não é mais uma jovem israelense comum. Por praticar o judaísmo, tornou-se uma criminosa.

 

(Video em Inglês sobre o Movimento “Mulheres do Kotel”)

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “A criminosa”

  • Gustavo Mizrahi

    01/01/2013 at 19:21

    Atos de proibição e aplicação da regra judaica (como entende tal ou qual corrente) não é nenhuma novidade. Há sinagogas, por exemplo, que consideram conversões realizadas por outras invalidas. O maior dos problemas da notícia não é a discriminação em si, mas é ela como uma política de Estado. Quando o Estado intevem na vida privada para impor uma regra religiosa, sem sombra de dúvidas, ocorrerá uma limitação da liberdade religiosa dos indivíduos.
    A grande novidade, no entanto, é que a questão religiosa passa a ser tratada pelo Estado como uma questão de polícia, devendo ser regulada pelo Direito Penal, mesmo que camuflado por uma regulação genérica, como é o exemplo do crime de distúrbio da ordem. Ou seja, além do Estado filiar-se a uma das correntes da religião, obriga que os indivíduos sigam os seus preceitos, sob pena de aplicação da legislação criminal, com todo o rigor que ela tem a oferecer.
    O pluralismo é preceito básico de qualquer democracia e sem ele não se pode construir uma sociedade livre. Agora, pior do que isso, é vedar o pluralismo através do Direito Pena, tido pelos próprios penalistas como a última forma de controle.

    • Marcelo Treistman

      02/01/2013 at 00:53

      Obrigado pelo comentário Gustavo.Concordo integralmente com você.

  • Rita Burd

    04/01/2013 at 19:28

    Em primeiro lugar, quero relatar a minha surpresa e indignação.
    O que aconteceu com a Nofrat Frenkel é um absurdo.
    Taxá-la de criminosa pelo simples fato dela expressar o seu judaísmo paramentada com o Talit e abraçada num Sefer Torá não tem cabimento
    Nofrat Frenkel segue o judaísmo ortodoxo. Quantos são os ortodoxos?
    Eu, Rita Burd, sigo e me identifico com o judaísmo liberal. Quantos são os liberais?
    Não importa o número. Importante é o respeito e a aceitação.

  • Experimento em Democracia - Conexão Israel

    07/04/2013 at 19:59

    […] das Lamentações usando talit. O grupo é conhecido como “mulheres do Kotel”, e o Marcelão já escreveu sobre o assunto em um post nesse site. Concordo com cada palavra escrita por ele, e neste dia resolvi escrever um […]