A Dona da Bola

O futebol é um ambiente masculino. A modalidade feminina existe há muitos anos, sempre foi praticada, e cada vez mais, mas ainda falam (de modo absurdo) em “ser coisa de homem”. Em Israel, há exemplo interessante de sucesso, comandado por uma mulher.

Alona Barkat nasceu em 1969. A Ashkelon de sua infância era pequena e atrativa. Aos 14, foi para Jerusalém estudar dança. Voltou, com 18, para realizar o serviço nacional, equivalente ao exército. Formou-se e fez mestrado em História do Oriente Médio, pela Universidade Hebraica, de Jerusalém.

Aos 27, mudou-se para os Estados Unidos com o marido, empresário conceituado, e o cunhado, o atual prefeito jerusalmita, Nir Barkat. Fizeram fortuna, com a indústria BRM, de rolamentos de automóveis. Importante citar também participação na IVN – Israel Venture Network.

Voltaram a Israel em 2004. Três anos depois, os Barkat resolveram expandir os negócios da família, comprando o glorioso Hapoel Beer Sheva.

Aqui, vivem a cultura do clube-empresa. Os proprietários administram as paixões dos torcedores com muita responsabilidade, pois qualquer prejuízo é sentido em suas contas bancárias.

O Hapoel estava na série B nacional. Não havia dinheiro. Com profissionalismo, o clube voltou à elite e nunca mais saiu. E mais. Disputou torneios internacionais, foi vicecampeão nacional e da Copa de Israel. Trouxe jogadores da seleção, que estavam no estrangeiro, como Barda (artilheiro do Campeonato Belga), Buzaglo e Ben Saar.

Alona é a rainha de uma torcida apaixonada. Certa vez, há alguns anos, a facção fanática gritou palavrões aos jogadores, pedindo mais raça e força de vontade. A presidente ouviu alguém na multidão citar seu nome de modo desrespeitoso e decidiu largar o barco. Houve comoção em Beer Sheva.

Na partida seguinte, várias faixas inundaram o velho estádio Vasermil: “Slicha, Ha´Malka”. Ou seja, “Perdão, Rainha”. Os fãs gritam mais por ela do que pelos craques.

A mais recente obra de sua gestão foi a conclusão do Estádio Turner, na área norte da cidade. O Vasermil, de tantas glórias, foi trocado por arena moderna, seguindo o padrão europeu-UEFA.

Não é fácil atuar no futebol, onde as emoções costumam guiar as ações de milhões de aficionados. Alona Barkat conseguiu com competência, talento e dinamismo conquistar os corações de uma grande cidade.

Conversando com um zagueiro brasileiro, que passou pelo Hapoel Beer Sheva, em 2007-08, ele me revelou: “Pagam tudo direitinho. Existe boa estrutura no clube. Mas, principalmente, os diretores são muito legais. Certa vez, indo jogar fora, paramos antes na casa deles, tomamos café e nos contaram da confiança que depositavam nos atletas. Assim, ganharam nosso respeito”.

Alona Barkat está muito perto de realizar o sonho de levantar uma taça, no gramado. Ainda trabalha, e muito, para isso. No entanto, já escreveu seu nome na história do futebol israelense. Ela é, literalmente, a Dona da Bola.

Foto da capa: Daniela Feldman Niskier.

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Comentários    ( 4 )

4 Responses to “A Dona da Bola”

  • Marcelo Starec

    26/10/2015 at 21:17

    Oi Nelson,

    Que artigo bom!…Gostei de conhecer um pouco mais sobre o futebol israelense…E acredito que há uma característica que realmente faz diferença…A administração competente e séria do setor público, das empresas e dos clubes de futebol do País…É isso que faz um país ir para a frente!…Infelizmente, quando comparamos isso com outros lugares, quanta diferença!…Enfim, concluindo, com certeza sempre há algo para melhorar, mas tudo isso é o reflexo de uma sociedade que preza a democracia, o bom senso, o interesse público e a eficiência na gestão de seus recursos…e assim se desenvolve!…Um exemplo para o mundo e também, claro, para os vizinhos que até hoje em sua maioria não enxergam ou não querem enxergar!….

    Abraço,

    Marcelo.

    • Nelson Burd

      26/10/2015 at 21:39

      A responsabilidade faz a diferença. Muitos clubes de futebol foram à falência, sem que os dirigentes fossem responsabilizados. Aqui, são as contas bancárias deles que pagam por tudo. Abraço.

  • Rita Burd

    01/11/2015 at 15:09

    Excelente a tua matéria.
    Acabo de conhecer “A Dona da Bola”, por quem simpatizei logo. Mulher competente e que vence pelo seu trabalho feito com honestidade e paixão.
    Abraço

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