A Espanha e sua Segunda Inquisição

15/07/2015 | História; Opinião

Você, descendente de judeus espanhóis expulsos há 500 anos, aceita o pedido de desculpas na forma de um passaporte europeu? Ótimo. Agora só falta investir em curso de espanhol, viajar à Espanha e provar a ela que sua família vem de lá. Ninguém perguntou para seus tatatatatataravós se eles queriam sair, mas você terá de provar por quê tem direito a voltar.

Está certo que ninguém nunca disse que ser judeu é fácil. Mas a Espanha exagerou. Depois de noticiar a aprovação da lei que garante cidadania a descendentes dos judeus expulsos em 1492, divulgou o preço dessa regalia. Basta aprender o espanhol e passar por um teste de avaliação de sabe-se lá o quê, dar pelo menos uma passadinha na Espanha para apresentar-se a um tabelião, pagar umas taxinhas e trazer documentos comprovatórios de sua notória origem, inclusive de rabinos que atestem que seus familiares viviam por lá no ano da expulsão. E isso tudo no prazo de três anos, de outubro de 2015 ao mesmo mês de 2018.

Facinho, facinho.

Portugal fez o mesmo em março desse ano, oferecendo cidadania a judeus expulsos em 1524. Mas foi bem mais camarada: aos descendentes lusitanos, basta comprovar a origem e está feito. Já a Espanha está, pelo menos para mim, de sacanagem. O preço dessa “restituição histórica” está meio caro demais. Para não dizer que está próximo do impossível.

Estima-se que 200 mil de fato tentarão usufruir dessa lei, muito embora o número real de candidatos possa chegar a mais de três milhões de pessoas. Destes, cerca de 2 milhões são cidadãos israelenses. Essa é a estimativa de Leon Amiras, presidente da organização OLEI de apoio a imigrantes de língua espanhola em Israel, segundo reportagem publicada no jornal Haaretz. Ele estima que o custo do esforço do candidato a cidadão espanhol deva chegar a cinco mil dólares e levar cerca de dois anos para se concretizar. Ou seja, precisa ser abastado e paciente, duas características raras e pouco compatíveis, ainda mais entre os possíveis aspirantes espano-israelis.

Muitos vêem na atitude espanhola um pedido de desculpas. Eu vejo uma certa cara-de-pau, porque esse “buraco é mais embaixo”: o que os judeus experimentaram na Espanha durante sua permanência passada nesse país não será compensado. Ainda mais dessa forma, meio inquisidora, meio folgada. Uma pincelada de história ajuda a entender o porquê.

Para começar do começo, há duas versões para a chegada dos judeus na Espanha. Uma aponta a travessia do Mediterrâneo na época do reinado do rei Salomão, aproximadamente em 1000 AC. Já Isaac Abarbanel relatou em livros que o primeiro grupo de judeus teria sido enviado pelo rei Nabucodonosor, logo após a destruição do Primeiro Templo, em 586 AEC. Durante a expansão dos romanos, sabe-se que muitos seguiram os legionários daquele poderoso império, e acabaram parando por essa “tierra de reyes”.

Ao longo dos séculos seguinte, passaram pela Espanha diferentes povos alternando o poder, como o visigodos, ostrogodo e berberes. Aí foi a vez dos muçulmanos. Quem não conhece história vai se surpreender em saber que a época conhecida como Era de Ouro, no século X, aconteceu enquanto os povos judeu e muçulmano conviveram ali pacífica e harmoniosamente. A verdade é que a chegada dos islâmicos permitiu um renascimento do judaísmo – antes deles, a perseguição era tamanha que não havia um único judeu praticando abertamente sua fé. O Califado de Córdoba transformou-se na terra mais próspera do planeta e comunidades judaicas se desenvolveram em 44 cidades espanholas. Os regentes, califas omíadas, eram governantes liberais e contrários a qualquer tipo de descriminação contra os judeus.

A festa acabou em 1147, com a invasão de fanáticos muçulmanos almóadas pelo norte da África. Para os judeus, restou a conversão, a morte ou a fuga, e muitos migraram para o norte cristão da Espanha. Ficou ruim, mas nada como o que viria no começo do século XIV, com a reconquista da Espanha pelos cristãos. As comunidades judaicas passaram a ser saqueadas e suas sinagogas, destruídas. Judeus eram sobretaxados ou vendidos como escravos. A partir de 1380, foram proibidos de ocupar cargos públicos, praticar a medicina ou viver entre os gentios. Eram obrigados a viver em áreas separadas das cidades – as juderias.

Como sempre há como piorar: no século XV, Fernando II, príncipe de Aragão, casou-se com Isabel I, meio-irmã do rei Henrique IV de Castela, e a partir desse evento foi unificado o reino estritamente cristão da Espanha. A caça às bruxas ganhou fôlego. A prática da delação anônima abriu as portas do inferno. Quem fosse observado vestindo-se diferentemente ou comendo mais do que o normal durante o Shabat, por exemplo, ou rezasse de pé e em direção ao leste, estava frito. Essas e outras atitudes judaicas levavam à denúncia e ao encarceramento, seguidos por tortura e condenação.

Por fim, em março de 1492, decretou-se que todos os judeus, homens, mulheres e crianças, teriam o prazo de quatro meses para abandonar o país levando consigo apenas objetos que não fossem de ouro ou prata – estes iam, claro, para o tesouro real. Mansões, campos e vinhedos foram vendidos a valores irrisórios ou simplesmente abandonados ou confiscados.

Com a expulsão de 300 mil judeus, a Espanha pôde finalmente atingir a uniformidade religiosa. Desses, 100 mil emigraram para Portugal, o país mais próximo. Mas, em 1536, a Inquisição foi introduzida também ali. Depois desses eventos, as comunidades judaicas da Península Ibérica desapareceram quase que por completo por muitos séculos.

Eu acredito na expressão “de boas intenções o inferno está cheio”. Meu ponto de vista está muito mais de acordo com a matéria publicada no site Algemeiner  do que nas declarações entusiasmadas de políticos espanhois e de líderes judaicos publicadas por aí. É uma pegadinha, que nada tem a ver com a correção de crimes ou injustiças, mas sim com uma articulação muito pouco nobre para ganhar um rosto bonito frente à opinião pública internacional. Como já disse no meu artigo sobre a mesma lei aprovada em Portugal, não tenho dúvidas que o dinheiro está por trás de tudo. Convenhamos: não é preciso ser um gênio para perceber que a história se repete – judeus são expulsos e convidados cada vez que países atrevidos sentem-se ricos ou pobres (nessa ordem).

Olé!

Comentários    ( 14 )

14 Responses to “A Espanha e sua Segunda Inquisição”

  • Clara Rachel Gandelman

    15/07/2015 at 13:40

    Para que tudo isto?
    Para ter um passaporte europeu e aliviar um pouco o sentimento de culpa que não sei se existe?
    Para mim é esmola.
    Sou ahskenazi, meus pais sairam da Russia, fiquei tentada a pedir esta cidadania, mas resisti em respeito a memória deles, que aqui no Brasil reconstruiram suas vidas. Em memória também de todos que não conseguiram sair e foram trucidados pelos nazistas. Recompensa material no meu modo de ver, para nós que não passamos por tudo isto é ridiculo e desrepeitoso para com a memória de todos os judeus que ao longo dos séculos foram humilhados, perseguidos, desterrados , assasinados…

    • Miriam Sanger

      15/07/2015 at 14:12

      Oi, Clara!

      Pode dar essa sensação mesmo, de esmola. Mas eu não vejo a coisa assim. Para mim, há interesses que desconhecemos por trás dessa bondade.

      Abraço e obrigada pela mensagem,
      Miriam

  • Marcelo Starec

    15/07/2015 at 13:49

    Oi Miriam!

    Muito bom o seu artigo!…Mostra muito da história judaica, a partir do exemplo espanhol. E ainda é interessante no sentido de desmistificar algumas coisas – é verdade que os judeus foram melhor tratados em épocas de domínio islâmico – mas só uma parte do tempo!…Há um dogma histórico de que judeus eram sempre bem tratados pelos muçulmanos, até Israel existir…Ao contrário do que muitos pensam, isso é uma meia verdade – houve muçulmanos tolerantes que coexistiram bem com os judeus, mas também outros islâmicos radicais,ao longo da história, que eram brutalmente intolerantes com os judeus, cristãos e todos os diferentes…Infelizmente, hoje os muçulmanos que estão formando opinião e detém o poder na maior parte dos países islâmicos são das vertentes mais intolerantes, infelizmente para nós e para todo mundo que não se encaixa na linha de pensamento deles, ainda que sejam islâmicos também. Outra coisa que achei interessante foi o que você coloca no final – “Convenhamos: não é preciso ser um gênio para perceber que a história se repete – judeus são expulsos e convidados cada vez que países atrevidos sentem-se ricos ou pobres (nessa ordem).”…O fato é que os judeus para onde foram levaram com eles uma cultura de produção intelectual, crescimento, desenvolvimento e criação de riquezas – todos os países que foram tolerantes ao longo da história e aceitaram a presença judaica (Sem todos os direitos!) mas deixavam os judeus viverem em paz foram muito beneficiados por isso, mas vez por outra se voltaram contra os judeus e sua cultura e acabaram também sendo prejudicados – Portugal e Espanha são grandes exemplos – de potencias econômicas abastadas,após “matar a galinha dos ovos de ouro” (a cultura judaica tão influente por lá) se transformaram em países que, mesmo com tanta riqueza adquirida das colônias, acabaram se tornando pobres.

    Abraços,

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      15/07/2015 at 14:15

      Oi, Marcelo, nosso leitor atentíssimo 🙂

      Parece que se foi o momento em que os dois povos, muçulmano e judeu, podiam viver em paz. Ou não. Nunca se sabe. Mas, de fato, é maravilhoso ler a respeito da Era de Ouro, em que o conhecimento floresceu em boa parte impulsionado por esse bom relacionamento temporário. Enfim, torçamos para algo parecido volte a acontecer. Cooperação e aceitação são fundamentais para a humanidade, em todas as épocas e locais.

      Abraço!

      Miriam

  • Clara Rachel Gandelman

    15/07/2015 at 16:50

    Miriam
    Obrigada pela resposta. Fiquei lisongeada.
    Excelente o seu artigo.
    Um olhar mais atento mostra que há interesse por trás deste “nobre” gesto, tanto de Portugal quanto da Espanha.
    Mas isto não invlida nossa cumplicidade nisto tudo. E para que?

  • Raul Gottlieb

    15/07/2015 at 23:46

    Miriam e Clara,

    Quem não quiser ir que não vá. Não vejo nada demais na oferta espanhola e portuguesa.

    Também não vejo que o atual governo e o atual povo da Espanha sejam responsáveis pelas ações políticas e pelas crenças religiosas dos Reis Fernando e Isabel e seus súditos. Além do Rei Manuel I e os portugueses.

    500 anos são 500 anos. Se nós podemos nos arrepender durante a vida e ficar limpos, tanto mais um descendente de um descendente de um descendente, 20 vezes.

    Para recuperar as propriedades da minha família, expropriadas por nazistas e comunistas, meu tio teve que aprender tcheco. Ele aprendeu a fazer a prova que mostrava que ele falava tcheco, nós preenchemos 58 papéis, pagamos 124 taxas e dois advogados. No final, recuperamos a nossa herança, vendemos as propriedas para uns tchecos simpáticos e a vida segue com eles morando (espero que muito bem) na casa da vovó.

    Eu fiz fila as 6 da manhã em 5 dias diferentes na frente do consulado da Itália, no centro do Rio, para conseguir o passaporte europeu que o meu filho queria. Hoje tenho cidadania italiana e recebi um livrinho com a constituição italiana que começa assim: “La Italia é una Reppublica fondada sul lavoro”. Fiquei feliz em saber. Realmente o meu nonno e a minha nonna trabalharam muito!

    Não tenho raiva dos filhos e netos dos nazistas. Cada um é cada um.

    Eu não gostava da Igreja Católica da Idade Média, mas depois do Nosta Aetate a coisa mudou. O Papa atual fala asneiras anticapitalistas, mas a Igreja hoje é supimpa com os judeus. O que não quer dizer que vá ser amanhã.

    O Islã já foi bonzinho e também muito mauzinho conosco. Hoje é terrível. Vale o hoje e eu acho que eles são horrorosos. Amanhã, vamos avaliar de novo.

    Bernard Shaw dizia que a pessoa mais sábia que ele conheceu foi o seu alfaiate. A cada nova roupa ele tirava as suas medidas, enquanto que os amigos intelectuais dele (Bernard Shaw) mediam as pessoas apenas uma vez na vida.

    Enfim, viva o hoje sem esquecer do ontem, mas sem deixar que ele atrapalhe o hoje e o amanhã. A tshuvá é o mais sublime dos valores judaicos.

    Enfim, não podemos deixar acontecer como o Yehuda Amichai diz nas mais belas linhas de poesia jamais escritas:

    “O passado joga pedras no futuro / E todas elas caem no presente”

    http://www.poemhunter.com/best-poems/yehuda-amichai/temporary-poem-of-my-time/

    Abraço,
    Raul

    • Miriam Sanger

      16/07/2015 at 09:38

      Olá, Raul.
      Também acredito na democracia: que vá atrás quem queira. Isso, no entanto, não invalida minha crítica. Quando propõe-se rendeção, que se faça de uma forma menos desafiadora.
      Que bom que você restitiu seus bens. Parabéns. Só acho uma pena ter sido tão burocrático e custoso. Não deveria ser assim. Bens roubados deveriam ser retornados a seus donos com pagamento de juros e um generoso pedido de desculpas, na minha modesta opinião.
      Abraço!
      Miriam

  • Clara Rachel Gandelman

    16/07/2015 at 15:48

    Querido Raul
    Não é minha natureza polemizar e nem dizer aos outros como agir, mas, já que comecei…
    são coisa diferentes. A sua familia lutou por herança a que tinha direito´Trata-se de passado recente, ou melhor trata-se de presente, não de um passado remoto.
    Gerações após, por um mísero passaporte europeu? Que beneficio isto trará á memória destas vítimas?
    Você tem razão. Democracia é isto.
    Cada um age de acordo com a sua conciência e os seus valores.
    Bjs
    Clara

  • Raul Gottlieb

    16/07/2015 at 19:15

    Amigas Miriam e Clara,

    Também acho ruim os processos custosos e burocráticos.

    Mas entre a burocracia e a “Segunda Inquisição” há um fosso intransponível se formos navegar no barquinho do bom senso.

    Não fico grato por ter conseguido restituir o que nos foi roubado. Mas sem a menor dúvida que acho melhor a atitude dos países que reconhecem os erros e tentam restituir as propriedades espoliadas dos que nada fazem (como por exemplo a França, Rússia, Egito e tantos outros).

    Então eu: (i) reclamaria do Egito, da França, da Rússia (e a lista não se esgota nestes) antes de reclamar de Portugal e Espanha; (ii) não usaria de forma alguma o termo “segunda inquisição”, até porque ele banaliza e desvaloriza a que realmente aconteceu.

    Abraço,
    Raul

    • Miriam Sanger

      19/07/2015 at 10:58

      Oi, Raul, tudo bem?
      Se Espanha e Portugal estivessem dispostos a restituir os judeus eu certamente não teria escrito a matéria. Acho que esse é um dos pontos fracos desse movimento de restituição de cidadania — ele é cru, sem substância. Cadê o dinheiro?
      Escrever uma matéria sobre os países que não fazem nada nesse sentido seria ótimo, mas para isso precisaríamos de um livro.
      Abraço e boa semana!
      Miriam

    • Clara Rachel Gandelman

      19/07/2015 at 16:06

      Raul
      Penso como você.
      Os paises dos quais os judeus foram expulsos, ou tiveram que sair por causa das perseguições sofridas (que é uma forma, embora mais sutil de expulsão) devem algum tipo de reparação aos próprios ou aos seus descendentes diretos
      abs
      Clara

    • Clara Rachel Gandelman

      19/07/2015 at 16:12

      Raul
      Concordo com você
      Os paises dos quais os judeus foram expulsos ou sairam devido às perseguições sofridas (que é uma forma mais sutil de expulsão), devem algum tipo de reparação a estes judeus ou aos seus descendentes diretos.
      abs
      Clara

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