A esquerda perdeu a chave de casa

23/12/2012 | Conflito; Eleições; Política

Texto de 10/04/2011

A esquerda israelense entrou em forte decadência após o impasse nas negociações de Camp David, em 2000. Ela está em depressão, estagnada há dez anos e regularmente perdendo espaço para um grupo político que não está comprometido com a paz. Depois dos acordos de Oslo, nos anos 90, quem poderia imaginar que a próxima década seria palco de um retrocesso tão grande no jogo político israelense e nas relações com os palestinos e os países árabes?

A esquerda é tão culpada pela situação quanto a direita que, mal ou bem, pragmaticamente ou não, cumpre seu papel de representar aqueles que escolheram serem representados por esses partidos. Liebermans, Yishais e Netanyahus que aprovam leis que minam as minorias do país e tentam tirar a liberdade das organizações de esquerda.

Em 2000, após a falta de acordo entre as partes, a esquerda deu um tiro no pé. Ehud Barak, então primeiro-ministro de Israel, deu o famoso discurso em que afirmava não haver com quem negociar do lado palestino. Naquela época Barak e sua equipe diziam que estavam dispostos a dar tudo em Camp David. “Nós demos tudo e não ganhamos nada em troca”, esse é o clichê criado pelos líderes da esquerda de então. Uma mentira que infelizmente até hoje é dada como verdadeira. Não teríamos um parceiro do lado palestino e por isso não negociamos com seriedade. Falácia criada pela própria esquerda, uma campanha de auto-flagelamento que teve um impacto devastador sobre sua atuação. Ehud Olmert e Netanyahu afirmaram que Abbas era um parceiro para a paz. Documentos revelados pela Al-Jazeera confirmaram que o líder palestino estava disposto a seguir um caminho de paz. No entanto, até hoje o discurso da falta de parceiros é lei no jogo político israelense e no psicológico do público.

Esse discurso se tornou regra em Israel. A esquerda fez um serviço aos partidos de direita israelenses: só vocês poderiam fazer a paz. Admito, eu mesmo já pensei que isso fosse verdadeiro. Após Camp David a esquerda israelense entrou numa crise que não pode ser explicada pelo esquema da democracia. Ao invés de realizar a derrota de 2000 e seguir em frente para atingir a maioria novamente, como deveria acontecer, a esquerda deu ao campo da direita um trunfo. Enquanto a direita nunca parou de trabalhar pela maioria, a esquerda não saiu do buraco em que caiu e se dedicou à sua própria destruição política. Ehud Barak é o exemplo maior do que aconteceu. Durante dez anos foi o líder da esquerda israelense e no final não fez mais do que se vender para compor o governo do Likud como Ministro da Defesa. Criou a idéia da falta de parceiros palestinos para se salvar e depois pulou para o barco da direita, para quem deu as chaves do país.

 

Ehud Barak, Clinton e Arafat durante as negociações de Camp David.
Ehud Barak, Clinton e Arafat durante as negociações de Camp David.

 

O fato é, a direita não está fazendo a paz e a década sabática tirada pela esquerda formou uma democracia sem oposição relevante. Netanyahu prometeu a paz em 1996, mas ao invés disso matou os Acordos de Oslo. Sharon prometeu estabelecer a paz, mas fez uma retirada unilateral de Gaza que tinha receita pronta de desastre (provavelmente um dos maiores erros israelenses nos últimos anos). E com esses discursos eles ganharam maioria. O discurso de estabelecimento da paz é propriamente da esquerda, mas é usado pela direita para dissuadir a população. Atuando quase sozinha, a direita começou a limitar a atuação de grupos de esquerda, aprovar leis que ferem as minorias e manter uma política social fraca, enquanto organizações de direita atuam livremente e a distribuição de renda piora no país, apesar do crescimento econômico (http://english.themarker.com/economy-is-growing-but-so-is-inequality-1.341494).

Um outro fato é, se por um lado Sharon e Netanyahu falaram da desocupação e da solução de dois estados, nos quadros da direita e do próprio Likud políticos falam livremente da não-solução ou da solução de um estado binacional. Em círculos da direita se fala livremente sobre uma solução de um estado com cidadãos árabes de segunda classe, uma realidade não diferente do apartheid sul-africano. Aliás, qualquer aumento nos assentamentos só pode ter este propósito.

Então se a direita, que detém a maioria, não está comprometida com a paz, o povo israelense não estaria comprometido com a paz? Essa não é a realidade.Em pesquisa realizada no fim de 2010, a extensa maioria os israelenses apoiou a entrada do governo em negociações de paz (http://www.imra.org.il/story.php3?id=49796). Os votantes de centro não são propriedade da direita e estão dispostos a abdicar para obter a paz. A idéia de que a ocupação é imoral mas a expulção de judeus é ainda mais imoral cega a população de centro que está sendo enganada por extremistas, esses que apoiam e promovem a construção de mais assentamentos com o dinheiro de organizações de direita que atuam livremente e sem fiscalização no país. Estes estão passando a perna na população sem ela perceber.

A esquerda é a culpada. Foi ela quem abdicou de atuar ativamente nos últimos anos e mostrar a realidade para o público. Entrou em depressão, não formou novos líderes, caiu na sua própria armadilha. Ao contrário, teve como líder um Ehud Barak narcisista que sempre pensou em salvar sua pele em detrimento do grupo que representava. O povo merece o líder que tem, a esquerda parece ter merecido esse futuro. No entanto, Israel tem sede por um futuro melhor que o que está sendo proposto e a esquerda deve acordar para essa realidade. A depressão muitas vezes está ligada à mente que engana a si mesma, afirmando uma falta de capacidade que não é real. O ponto central é se levantar dessa situação de impotência que se arrasta ano após ano no caso dos partidos de esquerda. A questão é: a esquerda poderá se levantar?

Comentários    ( 9 )

9 Responses to “A esquerda perdeu a chave de casa”

  • Gabriel Levy

    24/12/2012 at 16:34

    Realmente a crise existencial da esquerda em Israel é muito séria. Comparando bem grosseiramente com o Brasil até pq não moro em Israel, me parece mto com o processo pelo qual o PSDB passa. Por exemplo, o avodá perdeu sua bandeira historica, nao renovou quadro com figuras fortes e nao tem propostas claras e q caiam na cabeça das pessoas. A direita por pior q seja, tem discurso q atrai votos. Virou um “PT” às avessas. Falta a esquerda perceber um discurso q atraia votos. Afinal, é voto q decide.

  • Raul Gottlieb

    24/12/2012 at 20:57

    Caro David, existem pelo menos três atores principais no conflito israelense palestino: os isralenses, os palestinos e o resto do mundo. Cada um destes atores se divide em uma série de correntes, todas elas com influência no processo e muitas delas em conflito interno. A tua análise contém uma grave omissào: ela foca exclusivamente no lado israelense como se a responsabilidade pela solução do conflito dependesse apenas do ator israelense. Eu acredito que tanto a direita como a esquerda israelense já teriam resolvido o conflito se houvesse sabedoria e disposição pelos outros dois atores (inclusive o ator que defini como “resto do mundo”, que passa a mão na cabeça dos Palestinos independente do desatino que cometam e que aceita a singular definição de refugiado de guerra para os descendentes dos que foram deslocados sem limite de quantidade de gerações – uma definição que faz de todos nós refugiados do Gan Eden…). A minha observação é diferente da tua: penso que no que diz respeito à paz com os árabes tanto a esquerda como a direita israelense tentam as mesmas estratégias. Se a esquerda perdeu a chave da casa não foi na questão da paz. Um abraço, Raul

  • David Gruberger

    25/12/2012 at 01:57

    De fato Raúl. A esquerda perdeu a chave de casa, não por causa da paz, mas porque entrou em depressão pós-acordos falidos de 2000. Não discordo de você: falta honestidade para a liderança palestina nesse processo, mas é irreal pensar que Abu Mazen não é parceiro, principalmente depois das revelações de que Olmert chegou a conversações avançadas enquanto ocupava o cargo de Primeiro Ministro e de suas afirmações de que confia no líder palestino como parceiro para a paz (e Olmert nem é de esquerda!).

    Voltando mais atrás, é sabido que Rabin foi assassinado por um judeu israelense, da direita, revelando que os problemas internos eram tão fortes quanto os externos na época dos Acordos de Oslo. O processo de enfraquecimento da esquerda está altamente ligado à sua inabilidade de fechar o tal acordo de paz definitivo nas vezes em que lhe foi dado poder para tal. No lugar de paz veio a Intifada, a Segunda Guerra do Líbano, os mísseis de Gaza. A última vez que a esquerda negociou foi com Arafat, não com Mazen. Depois vieram Sharon, Olmert e Netanyahu. Rabin foi assassinado; Barak recebeu a Intifada nas costas (erro grave de Arafat); Sharon tentou unilateralmente, não deu certo; Olmert tentou conversando, teve que sair no meio; Bibi não tentou seriamente. Com Mazen, ninguém avançou…

    O artigo que escrevi foi mais perto da época em que Ehud Barak abandonou o Avodá, por isso me concentrei em Camp David. Estou de acordo que o problema do conflito é a ponta do iceberg dos problemas da esquerda, mas é aquele que o público votante mais enxerga. A centro-esquerda sofre com péssimos líderes e problemas sérios nos seus quadros internos e por isso vai às eleições dividida…

    Quanto à estratégia da direita para a paz, eu a desconheço. Quando foi que Bibi sentou para negociar paz de verdade? Pelo contrário, anuncia construção de mais e mais assentamentos e está arruinando Israel diplomaticamente. Ao contrário de Olmert, que também foi à guerra, mas sentou com Abu Mazen em uma mesa de negociações de verdade.
    Veja notícia de capa hoje: Education minister says establishment of independent Palestinian state was ‘never part of Likud’s platform.’ (http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4323882,00.html).

    Forte abraço,
    David

  • Raul Gottlieb

    25/12/2012 at 17:36

    Caro David,

    Tenho muitas dúvidas se, de fato, o resultado das eleições de Israel está diretamente relacionado com a questão do convívio com os Palestinos e demais vizinhos. Creio que muitos outros fatores influenciam fortemente, mas que a imprensa (principalmente a internacional) bate exaustivamente no conflito.

    Não percebo muitas diferenças entre esquerda e direita na questão do conflito hoje em dia. Claro que no passado as divergências foram profundas, mas desde que o governo trabalhista de Levi Eshkol deu sinal verde para os assentamentos e que o governo do Likud de Menachem Begin fez a paz com o Egito as posições começaram a convergir e chegaram a ser coincidentes hoje em dia.

    Um abraço, Raul

    • David Gruberger

      26/12/2012 at 02:51

      Raul,
      acredito que minha resposta anterior seja suficiente para determinar que temos visões diferentes. A meu ver, a campanha e as listas para o próximo Knesset são suficientes para saber que a esquerda tem uma posição e prioridades diferentes da esquerda quanto ao conflito com os palestinos. Infelizmente, posso dizer que a direita já não tem muitos idealistas iguais a Menachem Begin, que trabalhava, dentro de suas fronteiras ideológicas, para o bem maior do país. Ainda assim, prefiro acreditar que a direita pode me trazer surpresas (mesmo que seja por pressão internacional).

      Abraço
      David

  • Mario Silvio

    25/12/2012 at 22:01

    “Nós demos tudo e não ganhamos nada em troca”, esse é o clichê criado pelos líderes da esquerda de então. Uma mentira que infelizmente até hoje é dada como verdadeira.”
    Por TUDO o que se sabe é verdade. Ou melhor, Israel OFERECEU praticamente tudo, e nem resposta obteve com o que o Clinton concorda. Será que ele é parte do esquema de auto-flagelação da esquerda israelense? E ainda houve Taba.
    “o famoso discurso em que afirmava não haver com quem negociar do lado palestino.”
    E tem? Quem?

    • David Gruberger

      26/12/2012 at 02:56

      Mario, a discordância faz parte. Eu acredito que Abbas é um parceiro, assim como Ehud Olmert apresentou. Veja minha primeira resposta ao Raul, onde exploro o assunto.
      Abraço
      David

    • Mario Silvio

      26/12/2012 at 13:32

      Claro que faz David, um abraço e um excelente 2013 para todos nós e para Israel (infelizmente isso está difícil).