A falácia de um conflito religioso

18/05/2015 | Conflito

Tenho escutado e lido cada vez mais gente dizendo que o conflito entre Israel e os palestinos é um conflito religioso. Isto, escrito ou falado desta forma, não passa de uma falácia. Esse nunca foi e continua não sendo um conflito cujas principais motivações são religiosas. Não se trata de um choque de civilizações e culturas, através do qual uma das duas prevalecerá, e até que isto aconteça não haverá solução. Não. Pelo menos em relação ao conflito entre Israel e os palestinos, esta categorização não se encaixa. Nem mesmo o conflito árabe-israelense (se é que ele ainda existe) é de cunho primordialmente religioso. Caso contrário, talvez se chamasse conflito judaico-islâmico, algo sobre o qual, diga-se de passagem, nunca ouvi falar. Sei que você, leitor, já leu ou escutou o contrário. Sei que alguns discordam de mim. Neste espaço esmiuçarei minha opinião, frente ao que tenho lido e escutado. Desejo provar que esta não é apenas a minha visão, mas que estou certo.

Antes de mais nada, preciso dizer que rejeito quase todos os determinismos. Portanto, a princípio de conversa, admitirei: há, sim, influência religiosa no conflito. Às vezes ela se manifesta em maior grau, outras vezes se vê menos. Mas ela existe. E onde não há? Por acaso há alguma sociedade em qualquer lugar do planeta na qual a influência da religião é insignificante? Acredito que não. A história da humanidade tem a religião como fator determinante desde sempre, e somente no século XIX as filosofias de vida e ideologias não-religiosas triunfaram. Algumas delas preencheram através de seus rituais e crenças o papel antes ocupado pela religião, de modo que seja até difícil diferenciar uns dos outros. Mas isto, de nenhuma forma, é suficiente para superdimensionarmos a religião, a ponto de transformar este conflito em um conflito religioso.

Ao longo da história, judeus e muçulmanos consolidaram uma relação bem mais pacífica do que a judaico-cristã. Mesmo assim, parte dos críticos alegam que o Alcorão tem trechos antissemitas, e utilizam isto como argumento para incriminar a religião muçulmana e julgá-la judeofóbica. Ora, são poucas as incitações antissemitas no Novo Testamento? Basta passar os olhos pelos evangelhos (sobretudo o Livro de Atos) e verá que as incitações contra os judeus são diversas. Judeus são acusados de crucificar Jesus, tentar matar Paulo, rejeitar a palavra divina conscientemente… Não refuto a ideia de que o Corão tenha trechos comparáveis. Mas a julgar pelos livros, nem mesmo a Torá (Pentateuco) escapa da incitação ao ódio contra os povos não escolhidos em diversas ocasiões. Repare nesta passagem do Êxodo:

27 E disse-lhes: Assim diz o Senhor Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa; e passai e tornai pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu vizinho. 28 E os filhos de Levi fizeram conforme à palavra de Moisés; e caíram do povo aquele dia uns três mil homens. 29 Porquanto Moisés tinha dito: Consagrai hoje as vossas mãos ao Senhor; porquanto cada um será contra o seu filho e contra o seu irmão; e isto, para que ele vos conceda hoje uma bênção.

Nós, não fanáticos (assim espero), sabemos que obras religiosas estão repletas de contradições e incongruências. Todas elas. Julgar, portanto, que apenas um de dois povo é capaz de fazer uma leitura interpretativa capaz de filtrar as partes negativas de seu livro sagrado, é partilhar do mesmo princípio que os antissemitas medievais: diziam eles que os judeus tinham escrituras profanas, e justificavam seus argumentos baseando-se nos trechos violentos do Talmud, sobretudo. Ora, sejamos razoáveis: eu, pelo menos, acredito que a grande maioria dos leitores dos livros sagrados sequer pensa em por em prática todas as leis e recomendações religiosas dos profetas que ali se expressam. Os fanáticos que optam por seguir a incitação ao ódio são minoritários. Não se pode culpar a religião islâmica pelo conflito, como não se pode culpar a cultura judaica. Ou, pelo menos, suas escrituras.

O conflito iniciou-se, tal qual o vemos hoje, na década de 1920, após a conquista britânica da região. Não havia conflito antes da década de 1920, desafio qualquer um de vocês a contra-argumentar. O entendimento por parte dos árabes de que o imperialismo britânico era aliado do nacionalismo judaico, sobretudo após a Declaração Balfour (1917), gerou animosidade entre as partes, e deu origem ao conflito. É, no entanto, curioso notar que o primeiro motim de cunho nacionalista árabe contra o sionismo (em Jaffa, 1921), foi organizado por árabes cristãos. A primeira incitação contra a colonização judaica na Palestina Otomana também foi de árabes cristãos, em 1891[ref]Ver Walter Laqeur: “A History of Zionism”. 1972. Holt. New York[/ref], assim como os primeiros jornais árabes que condenavam o sionismo (como o Al Karmel, de Haifa). Já em 1905, Naguib Azoury, árabe-cristão, foi o primeiro a afirmar que a existência dos árabes na Palestina estava condicionada ao fim do movimento sionista. Os árabes cristãos também estavam na dianteira do nacionalismo Sírio-Libanês, em combate contra outros… cristãos! Em outras palavras, fica difícil culpar o islã pelo princípio do conflito, já que o nacionalismo árabe iniciou-se por meio de cristãos, e jamais por princípios religiosos. Não seria mais razoável supor que a questão tem cunho mais nacional que religioso?

Entre os que caracterizam o conflito como religioso, alguns culpam o judaísmo, e não o islã por todos os males. Alguns ignorantes desconhecem que o sionismo tem raizes seculares. Quem teve acesso às obras dos principais teóricos do movimento, verá que até os anos 1920, absolutamente nenhum deles baseia-se em escrituras sagradas, no Tanach (Antigo Testamento), ou em qualquer fonte religiosa quando estabelece os princípios do nacionalismo judaico. Nem Theodor Herzl, que sequer conhecia qualquer destas fontes, nem Achad Ha’am, pai do sionismo espiritual, que as conhecia mas não sustentava seus argumentos nelas. Nem Ze’ev Jabotinsky, direitista radical, nem Ber Borochov, teórico marxista (sim caro leitor, há correntes sionistas marxistas). O único dos grandes pensadores sionistas que baseou-se em ideias religiosas foi o rabino Kook, cuja corrente jamais foi majoritária no movimento sionista.

De poucos anos para cá, alguns decidiram considerar que um conflito de cunho nacional seria, na realidade, um conflito religioso. Alegam que há uma disputa territorial entre dois povos que reivindicam o mesmo pedaço de terra. Que, como se trata de um pequeno pedaço de terra, a ideia de dividi-la entre os dois é extremamente problemática, no sentido técnico. Mas o suposto aspecto cultural-religioso entre o oriente islâmico e o ocidente seria a chave para a manutenção deste conflito. Dizem que mundo árabe islâmico, no qual os palestinos estão inseridos, enxerga Israel como o país vê a si mesmo: um posto avançado do ocidente em uma área muçulmana e como invasão de infiéis na presença judaica autônoma e soberana no Oriente Médio. Israel e o sionismo seriam vistos pelo mundo árabe islâmico como um movimento ilegítimo. Esta seria a raiz, ou a causa do conflito em curso. Caso fosse reconhecida a legitimidade do povo judeu sobre este território ou uma fraçao pequena dele estaríamos diante de um conflito passível de ser solucionado. Atualmente, dada a mentalidade religiosa exposta direta e indiretamente nos discursos e documentos do movimento nacional palestino, não é. Absurda generalização, tocando a islamofobia. Primeiramente, por fazer o “mundo oriental” uma generalização, metendo “árabes”, “palestinos”, “muçulmanos” e etc no mesmo saco de gatos. Depois, por julgar que o cerne da questão é o não reconhecimento do Estado judeu. Os palestinos já reconheceram o Estado de Israel através dos Acordos de Oslo, em 1993. E, se não reconhecem Israel como um Estado judeu, não são excessão: absolutamente nenhum país, não importa a religião prodominante, reconhece Israel como um Estado judeu, mas nem por isso estamos em conflito com todos os outros. O terceiro problema é considerar que é a ideologia religiosa islâmica que impede qualquer entendimento, e não a leitura de uma minoria radical sobre a mesma, e que, na verdade, não impede nenhum acordo, pois, como já foi dito, os radicais são minoria.

Nenhum dos dois lados possuem lideranças religiosas efetivamente, e assumidamente apontam o território e questões nacionalistas como impasse: as fronteiras do futuro Estado palestino, a divisão de Jerusalém, a questão dos refugiados palestinos e o reconhecimento mútuo são as principais causas. O que há de religioso aí? Não lhe parece, caro leitor, que as questões são muito mais nacionais do que religiosas? Por acaso o fato de os palestinos passarem por check points para irem de suas casas ao trabalho todos os dias se deve a alguma questão religiosa? Acho que não.

Alguns podem alegar que eu estou retirando toda a importância do Hamas da história. Claro que não. Simplesmente o estou reduzindo ao que ele realmente é: uma casca de banana, na qual políticos israelenses e palestinos insistem em escorregar. A influência do Hamas e do Conselho de Judeia e Samária[ref]Órgão criado pelos colonos judeus, inicialmente com o intuito de fazer lobby pró-colônias, hoje funcionando praticamente como um estado dentro do Estado[/ref], por exemplo, são ínfimas. Nenhum deles é ator principal no espetáculo, longe disso. Às vezes atuam em cenas importantes, mas na maior parte do tempo, figuram sem destaque. Ambos seriam personagens principais, a ponto de transformar o conflito em religioso, caso a situação fosse uma das duas seguintes: (1) Um dos grupos passa a controlar Israel ou a Autoridade Palestina (AP); (2) Israel e a AP chegam a um acordo, mas nenhum dos grupos se rende. Neste caso, eles passariam a ser os atores principais do conflito. Enquanto o conflito se chamar israelense-palestino, enquanto milhões de palestinos não possuírem nenhuma nacionalidade e forem obrigados a cruzar por checkpoints todos os dias, enquanto milhares de palestinos seguirem relembrando a nakba como uma catástrofe nacional, enquanto a Autoridade Palestina, comandada pela Fatah, que reconhece e coopera com o Estado de Israel for considerada uma adversária, e não uma aliada, o conflito não será primordialmente religioso. O conflito não é entre Israel e o Hamas, é entre Israel e o povo palestino como um todo. Israel é um Estado nacional, e o povo palestino é o símbolo da autodeterminação nacional. A religião não encontra espaço no aspecto majoritário do conflito. Hamas e colonos são pequenezas. Alguém aqui duvida que, caso Israel e a AP cheguem a um acordo, seria fácil desarmar o Hamas em Gaza?

Meu ponto é o de que tais analistas são na realidade políticos, e desejam transformar o conflito em religioso para passar a culpa para o outro lado. Os determinismos de ambos os lados da crítica são até parecidos: alguns islamofóbicos julgam que os muçulmanos jamais aceitarão a presença de Israel, pois estão comprometidos com o princípio corânico do Dar-al-Islam: todas as terras que já foram antigos califados islâmicos deverão voltar a ser regidas pela Sharia (lei islâmica). A mesma premissa vale para os antissemitas: dizem que os judeus baseiam-se na promessa divina da Grande Israel (Eretz Israel Ha’Shlema): tudo o que o Todo Poderoso prometeu a Abraão, desde o Nilo até o Eufrates. O que vale para um, vale para o outro. Os princípios sobre os quais a interpretação fundamentalista religiosa se aplica, são igualmente interpretações. Há judeus fundamentalistas (parte dos colonos), que, de fato, desejam toda esta terra, assim como há muçulmanos, como o grupo Hamas, que não admitem a presença judaica na Palestina histórica. Mas julgar que estas são as causas ou que sãs reais motivadores do conflito é desmerecer as maiorias e dar razão aos fundamentalistas. Só minorias admitem estas ideologias, e justamente não são estas minorias que comandam os governos. Benjamin Netanyahu e Mahmmoud Abbas já poderiam ter chegado a um acordo há tempos, caso fosse esta a razão do conflito. Nenhum dos dois há décadas defende tais ideias fundamentalistas.

É verdade que tais fundamentalistas atrapalham (e muito!) o processo de paz. O Hamas hoje controla parte dos territórios, e utiliza-se deste controle para boicotar a paz de toda forma. Os colonos israelenses radicais também seguem construindo suas casas na Cisjordânia, de modo que cada vez é mais difícil separar os territórios em dois países. As ideologias fundamentalistas chegaram ao ápice em Israel em 1995, quando um destes extremistas assassinou o primeiro-ministro, e entre os palestinos em 2007, quando Hamas e Fatah entraram em uma guerra civil. Por isso, volto ao segundo parágrafo: não descarto a influência da religião neste conflito.

O que não podemos aceitar é que esta influência se torne regra. Os dois governos são comandados por seculares, podem ter traços radicais, mas nada que impeça uma mudança de opinião. Quando categorizamos um dos dois como fundamentalistas, e determinamos a sua postura política como resultado de uma mentalidade religiosa radical, não há como esperar por nada de bom. Quando culpamos os fundamentalistas pelos fracassos nas negociações, tiramos a responsabilidade de quem realmente a tem. Hoje em dia, nem a maioria do governo israelense, nem a Autoridade Palestina, são fundamentalistas religiosos, por mais que alguns nos tentem enfiar goela abaixo tal máxima. Ambos explicam seu impasse em relação ao conflito baseando-se em pressupostos circunstanciais, de cunho bem mais nacional que religioso. Hamas, Jihad Islâmica e grupos radicais religiosos judeus fazem parte do conflito, mas não o determinam. Talvez tenhamos um conflito religioso no dia em que os líderes moderados dos dois lados entrarem em acordo, e criarem o Estado palestino. Neste momento, restarão só os radicais dos dois lados, que talvez tentem sabotar a coexistência. Enquanto isso não acontece, eles são tangentes, apenas participam do processo de forma marginal. Não possuem força para impedir um acordo, apenas para tentar desestabilizar as (hoje inexistentes) negociações. Os únicos que lhes atribuem força são justamente os que hoje não estão interessados em chegar à paz. Estes, em sua maioria, não são fanáticos. Apenas estão equivocados, e tentam transformar o conflito de cunho nacional em algo que não é. Espero que nunca consigam.

Comentários    ( 26 )

26 Responses to “A falácia de um conflito religioso”

  • Raul Gottlieb

    18/05/2015 at 11:36

    João

    Em qualquer texto importa mais o uso que se faz dele do que aquilo que o autor queria escrever. Ou seja, a leitura é mais influente do que a escrita.

    Assim é também com os textos ditos religiosos.

    Em consequência, o fato da Torá, dos Evangelhos e o Corão conterem textos violentos ou antissemitas ou xenófobos é secundário e eu penso que você não precisava ter perdido tempo com isto. O que importa é o uso que se faz destes textos hoje.

    E aí não há como deixar de notar que existe uma vertente violenta e xenófoba do Islã que propõe a morte de todos os não aderentes e que esta vertente se baseia nestes textos. É também muito fácil de observar que esta vertente está operando com muita animação em muitos quadrantes do mundo.

    Ao mesmo tempo não existem vertentes com este viés nas outras duas religiões monoteístas.
    Então, João, apesar de eu concordar contigo que a origem do conflito não é religiosa e também concordar com a essência do teu texto, penso que igualmente não é possível negar que há um forte componente religioso na negativa dos árabes em aceitar o Estado de Israel hoje em dia.

    O conflito não nasceu religioso, mas está sendo sequestrado por uma vertente religiosa antimoderna do Islã.

    Os políticos árabes não conseguem ser imunes à influência crescente desta vertente. Eles sabem que qualquer assinatura de acordo com Israel exigirá a neutralização do elemento religioso Jihadista que floresce em suas sociedades. Eles têm vivo na cabeça que aquilo que aconteceu com Sadat, há mais de 30 anos atrás é muito mais provável hoje.

    O que não significa que toda a resistência a Israel é feita pela vertente Islâmica Jihadista. Mas ela está presente sim, ela é religiosa sim e ela faz parte da equação.

    Enfim, o conflito árabe israelense é efetivamente político. Mas não dá para dizer que a religião não o influencie cada vez mais fortemente.

    Abraço,
    Raul

  • Raul Gottlieb

    18/05/2015 at 11:42

    Caro João, mais uma coisinha:

    De onde você tira que Herzl, “sequer conhecia qualquer destas fontes [religiosas]”?

    Herzl nao era um judeu inculto ou assimilado ou ignorante de judaismo.

    A biografia dele por Josef Fraenkel (1946) o retrata como oriundo de uma familia muito consciente de sua heranca judaica e como uma pessoa muito consciente de sua “judaidade”.

    Abraco, Raul

    • João K. Miragaya

      18/05/2015 at 14:55

      Oi Raul.

      Minhas fontes são da autobiografia dele. Ele admitiu não ter o mínimo conhecimento nem se importar com as fontes.

      Um abraço

    • Raul Gottlieb

      19/05/2015 at 10:55

      Já a biografia que eu citei mostra como Herzl é filho de uma família profundamente inserida na comunidade judaica e com fortes preocupações e ativismo a respeito dos direitos dos judeus.

      Ele tem, dentro de outras coisas, um avô que coletava dinheiro para ajudar os judeus que viviam em Israel.

      Além disso, Herzl sempre se definiu como judeu e comprou brigas em seu tempo de estudante com antissemitas.

      Uma pessoa com este contorno pode não ter conhecimento profundo de judaísmo e até mesmo achar que este conhecimento é desimportante, mas acho impossível que não os tivesse entranhado em si. Talvez até mesmo de forma inconsciente.

      E talvez o sionismo político de Herzl tenha sido produto da reação deste inconsciente frente a realidade política antissemita da Europa.

  • Alex Strum

    18/05/2015 at 18:49

    João, o conflito é multi-fatorial. A religião é um dos fatores e, como voce mostra, não é o principal.
    A questão a meu ver é que nos dois lados os moderados (maioria) são reféns dos radicais (minorias), sejam eles radicias religiosos, nacionalistas, políticos.
    Desatar este nó envolve riscos reais de vidas que, a meu ver, nenhum dos dois lados está disposto a correr. Nem os israelenses estão dispostos a aumentar os riscos de atentados e nem os líderes palestinos estão dispostos a correr o risco de serem assassinados como foi o Sadat.
    Penso que a solução se dará de baixo para cima, com comunidades judias e palestinas aprendendo a conviver em paz e construindo, passo a passo, um ambiente de confiança mútua.
    Mas este processo, infelizmente, é demorado e todos queremos a paz agora.

  • Fábio Koifman

    18/05/2015 at 19:18

    Caro João, esse assunto é complexo e renderia um longo comentário. O farei de maneira muito breve. Penso que o conflito não é religioso. Aliás, nenhum conflito essencialmente o é e nunca foi religioso. A religião e o discurso religioso sempre foram e são apropriados pelas lideranças por várias razões. Conceder unidade, identidade, legitimidade, motivação etc etc estão nas bases dessa apropriação. As razões reais sempre foram as relacionadas a busca pelo poder, razões econômicas, por terras, ou por todos eles e mais alguns.

    Só discordo do seu uso da palavra “fundamentalista/fundamentalismo”. Sei do uso corrente do termo, especialmente pela imprensa. Mas ele implica em um reconhecimento de que esses fanáticos (de todas as religiões e seitas) de fato estariam voltando ao “fundamento”, as origens de suas respectivas religiões. E o que eles fazem não é isso, eles são (em todos os casos) interpretes ao modo particular deles das escrituras. Considerando a forma como interpretam e os absurdos que propõem, são muito mais deturpadores do que fundamentalistas. Eu não concedo a eles o reconhecimento de que voltam ao fundamento. E vejo todo o discurso e a motivação deles como político (e não religioso) e com um fim específico de busca pelo controle e pelo poder.

    Por fim, penso que basicamente a implementação cada vez maior dos valores estabelecidos a partir da Revolução Francesa que essencialmente separaram o Estado das religiões (e dos ditos religiosos) seja o melhor remédio para fanatismos e discursos autoritários intolerantes de muitos pseudo-religiosos/ortodoxos.

    Com um abraço, Fábio.

    • João K. Miragaya

      18/05/2015 at 22:14

      Oi Fabio! Um prazer a sua presença aqui!

      Entendo a sua crítica. Que termo você sugere para o lugar de “fundamentalistas”? Fanáticos? Radicais?

      Um abraço

    • Fábio Koifman

      19/05/2015 at 04:39

      Caro João, até onde sei não temos ainda um bom, preciso e definitivo termo. Ou ainda não se chegou a um consenso em relação a isso. Academicamente a turma (especialistas em islamismo, como o mais competente e consistente deles aqui no Brasil, o Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto) tem se referido aos islâmicos ditos “fundamentalistas” usando a tradução do inglês, “islã político”. Soa estranho, mas dá precisão (me parece) correta e coerente aos grupos.

      E os demais, judeus, cristãos, hinduístas etc “fundamentalistas”? Já li algumas pessoas fazendo uso dos termos “judaísmo político” ou “cristianismo político” (caso por exemplo do português Boaventura de Sousa Santos, que propõe a destruição de Israel…), mas o risco de incompreensão da audiência ou do leitor é grande.

      O termo “islã político” é também problemático pois pode causar confusão e só o compreende, por enquanto, os familiarizados.

      Minha sugestão é, por enquanto, usar “fundamentalistas” entre aspas na primeira referência/citação e logo a seguir contar ao leitor que boa parte dos estudos tem se referido a esses grupos/pessoas como “islã político” (ou a religião que for…) e dali em diante, só usar o termo no restante do texto. Ou então escrever logo o termo e em um pé de página explicar o significado.

      Com um abraço, Fábio.

    • Raul Gottlieb

      19/05/2015 at 10:43

      Não há como deixar de concordar com o Fábio. Além do que ele falou todo o pensamento tem um fundamento, Eu também não gosto do termo “fundamentalista”, porque ele não diz quase nada.

      Eu sugiro usar termos que definam cada uma das facetas da ideologia dos grupos.

      No que diz respeito aos não muçulmanos os jihadistas seriam “supremacistas” (os muçulmanos têm mais direitos que os demais) e “sanguinários” (matam os opositores e os não aderentes).

      No que diz respeito à organização interna da sociedade são meros totalitários.

      E assim por diante. Dar o nome certo aos bois é o ponto de partida para o entendimento.

    • Fábio Koifman

      19/05/2015 at 15:09

      Caro Raul:

      Possivelmente, a essencial diferença entre o islã-político (popularmente chamado de “fundamentalismo”) e as similares expressões nas demais religiões não sejam exatamente as respectivas escrituras, mas sim os contextos históricos.

      Grupos como esses das mais diferentes religiões adorariam tomar o poder de um Estado e impor a ferro e fogo (na forma mais autoritária possível) tudo que consideram como “preceitos originais” de sua fé.

      Me parece que é só uma questão de oportunidade. Em vários países de maioria islâmica, em decorrência de múltiplos fatores, esses camaradas tem o espaço e as condições que seus pares de outras religiões não tem onde estão.

      Observa-se o que eu digo nos micro-universos nos quais os ditos “ortodoxos” (não islâmicos) obtiveram algum poder, mesmo que limitado, em suas sociedades. Agem de maneira impositiva aos demais, discricionária, arbitrária e nem um pouco democrática.

      É uma questão de espaço e possibilidade e não de escrituras.

      Com um abraço, Fábio.

    • Fábio Koifman

      19/05/2015 at 14:55

      Caro João, postei ontem um comentário relacionado a sua pergunta. Pelo jeito, ele não foi enviado. Eu o repito.

      Até onde sei, ainda não se estabeleceu consenso em relação ao termo para designar o que se tem chamado de “fundamentalista”. Os especialistas em islã (entre eles, o mais consistente e erudito deles aqui no Brasil, o Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto) tem usado uma tradução do inglês, “islã político”.

      O termo soa estranho mas o sentido é preciso, mais próximo ao que penso ser de fato o objetivo de grupos como esses.

      Entretanto, que termo utilizar em relação aos “fundamentalistas” judeus, cristãos, hindus etc? Alguns acadêmicos (entre eles, o Boaventura de Sousa Santos que propõe a destruição de Israel…) utilizam a mesma forma: “judaísmo político”, “cristianismo político”. etc.

      Do mesmo modo, o termo soa estranho e pior, pode causar confusão.

      Penso que o melhor a fazer enquanto ainda há uma certa indefinição semântica é colocar na primeira citação do texto a palavra fundamentalista entre aspas e informar ao seu leitor (ou a audiência) que fará uso de outro termo mais preciso. Ou então usar “islã politico” e explicar o sentido no texto ou por meio do uso de nota de pé de página.

      Com um abraço, Fábio.

  • Marcelo Starec

    19/05/2015 at 07:02

    Oi João,
    Seu texto é interessante e quero elogiar também aqui o alto nível dos comentários publicados até o momento em que escrevo este. Em meu entender, o conflito é realmente multifacetado, como tudo no mundo e também acho que a religião quase sempre, ao longo da história, foi utilizada por lideranças como fonte de poder, nada mais, nada menos. Aliás, sobre isso, lembro que a ideia de que o poder emana do homem é moderna na história (até pouco tempo atrás seria impossível para alguém obter o poder sem o devido respaldo de alguma divindade – e isso a história comprova!), mas cabe aqui também ressaltar que é fato o que o Raul escreveu acima, que hoje o mundo islâmico é infelizmente o lugar onde o fundamentalismo e o radicalismo, respaldados pela fé, está no poder exatamente com esse viés. Felizmente, entre cristãos e judeus hoje nada parecido ocorre – isso é fato!…Claro que em outros tempos isso já foi diferente, mas estamos aqui debatendo sobre o conflito atual e não sobre toda a história…e nesse ponto concordo contigo. Sim, a coexistência é possível – e ela é uma realidade hoje em Israel, onde existe tolerância, a qual infelizmente está faltando hoje no mundo árabe e islâmico em geral…Com certeza, árabes e judeus podem e vão,acredito, chegar a uma paz – e isso é possível e viável, mas em meu entender o problema em relação ao Estado Palestino está nos detalhes acerca de um acordo, mas como dizem “o diabo mora dos detalhes” e o difícil é negociá-los (milhões de supostos agregados e descendentes de refugiados querendo ou sendo usado para “destruir Israel pela via democrática”, garantia de que um grupo fundamentalista islâmico não irá “sequestrar” o futuro Estado Palestino, ou seja, de que este Estado terá um conjunto de valores compatível com a plena coexistência com Israel o que é indispensável devido a tamanha proximidade física, controle de fronteiras e garantia de segurança aos judeus que viverem lá – em meu entender, acho importante judeus poderem viver lá em paz e coexistência também, do mesmo modo que árabes vivem em Israel – enfim, nada tão simples mas também nada que não seja plenamente possível de atingir!…).

    Abraços,
    Marcelo.

    • Raul Gottlieb

      19/05/2015 at 19:58

      É isto aí mesmo, Marcelo.

      Tivesse o mundo árabe uma propensão para a construção de estados baseados na declaração universal dos direitos do homem e na democracia a solução seria muitísimo mais fácil.

      Se é que neste caso haveria um problema …

  • Carlos Cohen

    19/05/2015 at 11:07

    Um dos maiores problemas que vejo no lado palestino é a corrupção doentia de seus líderes, isso nada tem de religioso, desde Arafat o que estas lideranças, tanto da AP quanto do Hamas, acumulam riquezas enquanto se fazem de “vítimas” e embolsam todo o dinheiro desviando das doações que recebem do mundo inteiro, estão virando todos bilionários às custas da miséria de seu próprio povo, e para eles interessa a manutenção do Status Quo por isso.

  • Mario S Nusbaum

    20/05/2015 at 21:13

    “Não havia conflito antes da década de 1920, desafio qualquer um de vocês a contra-argumentar” O que você chama de conflito João? Pode-se até admitir que pela disparidade de forças não haviam lutas, mas os judeus eram perseguidos e muitas vezes massacrados.
    “When Jews were perceived as having achieved too comfortable a position in Islamic society, anti-Semitism would surface, often with devastating results. On December 30, 1066, Joseph HaNagid, the Jewish vizier of Granada, Spain, was crucified by an Arab mob that proceeded to raze the Jewish quarter of the city and slaughter its 5,000 inhabitants. The riot was incited by Muslim preachers who had angrily objected to what they saw as inordinate Jewish political power.
    Similarly, in 1465, Arab mobs in Fez slaughtered thousands of Jews, leaving only 11 alive, after a Jewish deputy vizier treated a Muslim woman in “an offensive manner.” The killings touched off a wave of similar massacres throughout Morocco.20” “Other mass murders of Jews in Arab lands occurred in Morocco in the 8th century, where whole communities were wiped out by the Muslim ruler Idris I; North Africa in the 12th century, where the Almohads either forcibly converted or decimated several communities; Libya in 1785, where Ali Burzi Pasha murdered hundreds of Jews; Algiers, where Jews were massacred in 1805, 1815 and 1830; and Marrakesh, Morocco, where more than 300 Jews were murdered between 1864 and 1880.21
    Decrees ordering the destruction of synagogues were enacted in Egypt and Syria (1014, 1293-4, 1301-2), Iraq (854­-859, 1344) and Yemen (1676). Despite the Koran’s prohibition, Jews were forced to convert to Islam or face death in Yemen (1165 and 1678), Morocco (1275, 1465 and 1790-92) and Baghdad (1333 and 1344)”

    Avancemos alguns séculos:
    “in 1679, some 10,000 Yemeni Jews were expelled to the hot and arid Plain of Tihama, where 90 percent of them died from exposure;
    recurring anti-Jewish violence – including pogroms and forced conversions – throughout the 17th, 18th and 19th centuries rendered large areas of Iran Judenrein;
    in the 1834 pogrom in Safed, raging Muslim mobs killed and grievously wounded hundreds of Jews;
    in 1888, hundreds of Jews were massacred in Isfahan and Shiraz, Iran;
    1907 saw the pillage and destruction of the Jewish ghetto in Casablanca, Morocco;”

    Na minha opinião mesmo assim não se trata de um conflito religioso, mas sim racial. E falácia por falácia, uma muito maior é que judeus e muçulmanos vivam em harmonia antes da criação de Israel.

    • João K. Miragaya

      21/05/2015 at 20:16

      Caro Mario,

      Falemos então do “conflito racial” que havia entre judeus e cristãos, responsável por, pelo menos, 50 vezes mais vítimas que o que “tínhamos com os muçulmanos”.

    • Raul Gottlieb

      23/05/2015 at 11:56

      João,

      O fato do cristianismo ter ido mais letal para os judeus do que o islamismo não anula a letalidade deste último, conforme o Mario ressaltou.

      O mito da ausência de perseguição religiosa aos judeus (e a outros grupos) no Islã é mentiroso, Li em algum lugar (que não saberia precisar agora) que foram os reformistas do seculo 19 na Alemanha que criaram este mito (com base na intensidade menor de perseguição religiosa no Islã do que na Europa cristã) para postular que a convivência com a sociedade maior era possível.

      Talvez o que você tenha querido dizer é que a partir do sionismo e ate 1920 não tenha havido perseguicão religiosa aos judeus na região do Imperio Otomano (que acabou em 1917-18) que hoje corresponde ao Estado de Israel.

      Ai, nesta janelinha de tempo e lugar, me parece que você está certo sim.

      Abraço,
      Raul

    • João K. Miragaya

      23/05/2015 at 12:24

      Não foi o que eu quis dizer. Eu apenas refuto a ideia de que um conflito com os muçulmanos possa ter raizes mais antigas, e uso a relação do judaísmo com o cristianismo como referência. Se não se fala em um conflito judaico-cristão, não se pode falar em um conflito judaico-muçulmano.

      Houve perseguição, ninguém nega. Mas, sem dúvidas, foi nas sociedades islâmicas onde os judeus encontraram mais tolerância durante as idades média e moderna.

      Abraço

  • Bernard Kuperman

    21/05/2015 at 23:23

    Excelente texto João!
    Você falou que uma minoria do povo palestino acredita no princípio do Dar el Islam. Você pode me mandar dados que comprovem isso?
    Agradeço desde já!

    • João K. Miragaya

      22/05/2015 at 00:50

      Eu não disse que uma minoria acredita no preceito, disse que os grupos que pleiteiam a terra baseados nestes valores são minoritários. É difícil saber quantos palestinos interpretam o Corão de determinada maneira, assim como não há pesquisas semelhantes em relação aos judeus e sua interpretação da Tora ou de outros textos. Podemos, no entanto, basear nossas conclusões no tamanho e na importância dos grupos que representam tais populações. Ainda assim, isto é impreciso quando desejamos conhecer informação tão reduzida.

      Um abraço

    • Bernard Kuperman

      22/05/2015 at 22:06

      Tirando gaza e os assentamentos, pode ser que os players no conflito com ideal declaradamente religioso sejam supostamente minoritários, principalmente por tal pensamento ser amplamente rejeitado no mundo ocidental. Contudo, será que não há possibilidade de existir um ideal radical da dar el aqsa por trás?

      Quanto à pesquisa, consegui uma do instituto pew com posicionamentos de muçulmanos de diversos países quanto a vários posicionamentos sobre a shaaria.

      http://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2013/04/daily-chart-20

      Se os palestinos tem esse posicionamento radical quanto a várias doutrinas muçulmanas radicais, o que os impede de ter também com relação ao preceito dar al aqsa?

      Podemos cair no ceticismo com relação a pesquisas neste determinado assunto. Não obstante, se decidirmos por acreditar em tais estatísticas ainda aguardo alguma que demonstre o posicionamento da população palestina quanto ao preceito do dar al aqsa, e outros assuntos referentes a outras religiões.

      Aguardo uma resposta João!

      Grande abraço e no aguardo para aulas online sobre tnuot e pós modernidade!

    • João K. Miragaya

      23/05/2015 at 12:22

      Oi Bernard.

      Não sei a que você se refere com dar el aqsa, não conheço este conceito. Não sou especialista em cultura islâmica, não posso avaliar cada preceito da religião.

      Pode ser que a maioria dos palestinos queira viver de acordo com a Sharia. Eu conhecia esta pesquisa, é de certa forma preocupante. É também preocupante a última pesquisa do Instituto Israelense de Democracia sobre a opinião dos israelenses sobre o caráter judaico do Estado: os radicais vêm crescento assustadoramente. E nem por isso você supõe que por trás do sionismo está a ideia da Grande Israel.

      Por enquanto podemos apenas supor tais afirmações. Obviamente, temos que lidar com a possibilidade de Abu Mazen e Erekat estarem mentindo todo o tempo, que no fundo são extremistas religiosos. Mas ainda seria uma suposição.

      Quanto às aulas online, quem sabe num futuro?

      Grande abraço

    • Fábio

      24/05/2015 at 05:24

      Caros, “Al Aqsa” todo mundo sabe, é grande mesquita de Jerusalém.
      Mas “dar el aqsa” é o nome de uma mesquita no Cairo (14 Rd. 162, Maadi, Cairo Tel: 02-25264802 ou 14 ش 162، المعادي، محافظة القاهرة‬،)
      “Dar Al-Aqsa” é uma empresa saudita de segurança. “Dar Al Aksa” é também o nome de (pelo menos) duas empresas na Síria, de engenharia e trabalhos em alumínio (ou eram…).
      Essa transliteração do árabe “dar el aqsa” está correta?

    • Bernard Kuperman

      25/05/2015 at 07:36

      Perdão, ao dizer dar al aqsa quis me referir ao preceito de dar al islam, fiz confusão com o jargão árabe.

      Será que o crescimento da opinião do caráter judaico do Estado é tão preocupante quanto o fato de mais de 50% dos palestinos muçulmanos terem posicionamentos tão radicais quanto executar fiéis que deixam o islã?

      Além do mais, você pode me explicar melhor a inferência de crescimento do pensamento de caráter judaico do Estado com o crescimento de adeptos à ideia de Grande Israel? não tenho certeza se essa relação é tão direta.

      Finalmente, Há várias correntes sionistas. O que me preocupa é o crescimento e manutenção da corrente revisionista radical, por exemplo. Neste caso por trás do sionismo está sim a idéia de grande israel. Da mesma forma, tenho muito medo de uma corrente ideológica muçulmana radical, e segundo dados que vi até agora, esse radicalismo religioso está presente na maioria dos habitantes muçulmanos da Judéia,Samária e Gaza.

      Será que é possível chegar a uma solução para o conflito com uma maioria declarada e extremamente radical em assuntos religiosos como esses?(me refiro a ambos os lados caso você me mostre dados de uma maioria radical religiosa israelense em níveis parecidos)

      Muito obrigado! e aguardo ansiosamente uma nova resposta!

      Grande abraço João!

    • João K. Miragaya

      25/05/2015 at 17:48

      Talvez no futuro eu escreva um artigo sobre este crescimento, mas em meu artigo “Os judeus e o judaísmo em Israel parte II” já evidencio determinadas alterações na linha de pensamento de grande parte da população que me preocupam. Além disso, o crescimento da população ultra-ortodoxa em Israel (Yair Mau mostra isso bem em seu artigo “A bomba-relógio ortodoxa”, da semana passada) é um agravante considerável.

      A relação que eu faço entre a radicalização da religiosidade do povo judeu com o conceito de Grande Israel é rigorosamente a mesma que você faz entre a radicalização do povo palestino e o conceito de Dar Al-Islam. Por que isso valeria só para um lado?

      Os revisionistas me preocupam menos no plano ideológico, e mais pela sua irresponsabilidade. Hoje em dia eles renunciaram à Grande Israel de Jabotinsky, mas ainda não à Grande Israel de 1967. Quem re-inventou o conceito de Grande Israel foram os sionistas-ortodoxos, que readaptaram um conceito bíblico para lá de esquecido às suas práticas colonialistas. É lamentável que esta corrente esteja se tornando, em grande parte, tão radical. Mas, repito, não são eles que dão as cartas do jogo.

      Eu acho que é plenamente possível chegar à paz com pessoas religiosas. Fui ao Egito e não vi, em 9 dias, absolutamente nenhuma mulher sem burca. O país se considerava laico, Mubarak é da mesma linha política que Abbas, mas a população é extremamente religiosa. Os egípcios rezavam no meio da rua, no trem, nos restaurantes. Levavam seus tapetes para ajoelhar-se, e isso não nos impediu que fizéssemos paz com ele. Por que com os palestinos, que, aliás, são bem menos religiosos, a paz seria mais difícil? A religiosidade não é um fator de impedimento quando a vontade política sopra a favor.

      Em geral, quem afirma que não se pode fazer a paz com os palestinos por questões religiosas, busca argumentos para sua verdadeira intenção: não devolver territórios.

      Abraço

  • Fábio

    24/05/2015 at 08:27

    A ser verdadeira a notícia abaixo e ter sido feita como se deve a pesquisa mencionada, esse é mais um bom argumento contra a teoria na qual a religião é o foco essencial do conflito na região

    Israel está entre os países menos religiosos do mundo
    Segundo pesquisa 57% dos israelenses não são religiosos e 8% são ateus

    A Terra Santa, local que atrai milhões de turistas todos os anos, está entre os países menos religiosos do mundo. É isso que mostra uma pesquisa internacional realizada pela Gallup International junto ao Worldwide Independent Network of Market Research.
    Segundo este estudo, 63% da população mundial se considera religiosa, em Israel esse número é de 30%. Em compensação, 57% dos entrevistados no país disseram não ser religiosos e 8% responderam que são ateus. Os outros 5% não quiseram responder.
    O jornal econômico israelense “Globes” divulgou a pesquisa e comparou com os demais países. Nos territórios da Cisjordânia e de Gaza, apenas 19% dos entrevistados disseram não ser religiosos.
    O número de não religiosos em Israel não é muito diferente do número encontrado na China onde 61% dos entrevistados se declararam ateus. Hong Kong tem 34% de não religiosos, o Japão tem 31%, a República Tcheca tem 30% e a Espanha 20%.
    A pesquisa foi realizada com 63.898 pessoas em 65 países e também anotou as nações mais religiosas: Tailândia, com 94%; Armênia, com 93%; Bangladesh tem 93%; Georgia também com 93%; assim como Marrocos 93%; Fiji tem 92% e África do Sul com 91%. Com informações Terra
    http://noticias.gospelprime.com.br/israel-paises-menos-religiosos/