A história do oficial nazista que se tornou agente do serviço secreto israelense

30/08/2016 | História.

Por Gabriel Toueg

Não é segredo pra muita gente que o Mossad, serviço secreto israelense, é um dos melhores ativos de inteligência do mundo. Há inúmeras histórias ao redor dos feitos do Mossad – como a icônica caça aos responsáveis pelo massacre de 11 atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique. Há filmes, livros, séries de TV (a mais recente delas, Mossad 101, do Canal 2 israelense e exibida mundo afora pela TNT) e inúmeras referências no mundo das artes. E por mais surreal que seja, há um episódio que poderia ter saído das telas porque não parece inspirado em fatos, mas é: a história do oficial nazista que se tornou, anos depois da Segunda Guerra Mundial, agente do Mossad.

Seu nome era Otto Skorzeny. Nascido em 1908 na Áustria, Skorzeny tinha 25 anos quando Hitler subiu ao poder no país. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi tenente-coronel da tropa Waffen-SS. Mais do que um posto militar no Exército nazista, Skorzeny era considerado pelo ditador um de seus homens favoritos. Foi ele o responsável, em 1943, pela exitosa operação de resgate do aliado italiano de Hitler, Benito Mussolini, em uma colina dos montes Apeninos, no norte da Itália. Sem disparos, o grupo que Skorzeny comandava desarmou os guardas que mantinham Mussolini em custódia e o levou para a capital austríaca, então sob domínio nazista.

O “Cara Cortada”, como Skorzeny era conhecido graças a uma cicatriz que tinha no rosto, herança de uma luta de esgrima, foi premiado pela operação que libertou Mussolini com a “Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro”, a mais prestigiosa condecoração do exército nazista. Foi ainda promovido por Hitler, que também entregou a ele o controle das forças especiais.

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Dachau, crimes de guerra e fuga

Ao fim do conflito, Skorzeny se rendeu a um esquadrão norte-americano. Mesmo com sua atuação no campo de concentração de Dachau, perto de Munique, foi considerado inocente por crimes de guerra em 1947. Mesmo assim, foi mantido preso porque enfrentava outras acusações, mas acabou fugindo com a ajuda de companheiros nazistas um ano mais tarde. A partir desse momento, uma história revelada pelos jornalistas Yossi Melman e Dan Raviv sugere que a fuga poderia ter sido facilitada pela Agência de Serviços Estratégicos, que precedeu a CIA, o serviço de inteligência dos EUA.

Anos mais tarde, em 11 de setembro de 1962, um cientista alemão desapareceu. Conhecido por viajar frequentemente para o Egito, Heinz Krug era um dos diversos cientistas alemães contratados pelo Cairo para desenvolver mísseis e armas avançadas – em uma época em que o país árabe ainda não tinha assinado um acordo de paz com Israel. Como contam Melman e Raviv, um jornal israelense descontinuado, HaBoker, apareceu com uma explicação para o desaparecimento de Krug: ele havia sido sequestrado pelos egípcios para evitar que fizesse negócios com Israel.

A verdade, entretanto, apareceu décadas depois, em meio a uma investigação da dupla de jornalistas. Krug havia sido morto pelo “Cara Cortada”, o ex-nazista Otto Skorzeny que, na época do desaparecimento do cientista, trabalhava para o Mossad. A história revelada pelo HaBoker era uma tentativa de Israel de desviar o foco dos investigadores no caso. Krug, na realidade, foi morto em meio a uma trama de espionagem de Israel para intimidar cientistas alemães que trabalhavam para o Egito. O intento de dissuadir os alemães de trabalhar para o Egito era, como revelam Melman e Raviv, uma das prioridades máximas do Mossad.

A morte do cientista

Como poderia ocorrer em um filme sobre o Mossad, o assassinato de Krug ocorreu em circunstâncias no mínimo interessantes. Como contam Raviv e Melman, o ex-militar nazista, morando à época na Espanha, foi procurado pelo cientista na esperança de se livrar da perseguição do serviço secreto israelense. Ele sabia que as ligações telefônicas que recebia no meio da noite quando estava na Alemanha vinham de agentes do Mossad. Outros cientistas alemães, no Egito, eram mortos com cartas-bomba. E o “Cara Cortada”, que recebera o título de “o homem mais perigoso da Europa” das inteligências norte-americana e britânica, era considerado pelos alemães, como Krug, um herói. Recorrer a ele poderia ser uma forma de se salvar do cerco cada vez mais apertado dos israelenses.

Mas ele não sabia em que estava se metendo. “Os dois estavam no Mercedes branco de Krug, dirigindo para o norte de Munique, e Skorzeny disse que, como um primeiro passo, tinha arranjado três guarda-costas que estavam em um carro logo atrás e que os acompanhariam a um lugar seguro em uma floresta para uma conversa. Krug foi assassinado ali mesmo, sem uma acusação formal”, relatam os jornalistas, reproduzindo o que teriam ouvido de fontes confiáveis no Mossad com acesso aos arquivos da entidade. “O homem que puxou o gatilho não era outro senão o famoso herói de guerra nazista”.

“A agência de espionagem israelense tinha conseguido transformar Otto Skorzeny em um agente secreto para o país”, contam. O plano inicial, de matar o ex-oficial nazista, tinha sido substituído pelo então diretor do Mossad, Isser Harel, em um plano para recrutá-lo. E tinha dado certo. Depois de baleado, o corpo do cientista foi coberto com ácido. Em seguida, segundo o relato da fonte anônima, os três israelenses que acompanhavam o “Cara Cortada” enterraram o corpo em um buraco que já tinham aberto no local. Para não deixar rastros, “cobriram a sepultura improvisada com cal, para que cães de busca – e animais selvagens – nunca pudessem farejar o cheiro de restos humanos”.

A morte do ‘Cara Cortada’

Antes de se tornar um agente do Mossad, Skorzeny teve atuação como consultor para o presidente argentino Juan Domingo Perón e para o governo egípcio – o mesmo que empregava cientistas como o que ele mataria mais tarde. O fato de ele ter se estabelecido na Espanha e de transitar entre governos ditatoriais chamou a atenção de Israel. O Mossad, então, montou uma operação de observação ao redor dele. Certa noite, como descrevem os jornalistas, o “Cara Cortada” estava com a esposa em um bar de Madrid quando foi apresentado pelo garçom a um casal de turistas alemães que haviam acabado de passar por um assalto “angustiante” na rua. Ele era, na realidade, um agente israelense. Ela, uma “ajudante”. Depois de alguns drinks e de criar confiança com o casal que estava sendo observado, os dois foram convidados para a casa em que Skorzeny e a esposa viviam – afinal, não tinham dinheiro, passaporte ou bagagem, roubados no falso assalto.

Quando parecia que tudo se encaminhava para uma festa a quatro, Skorzeny sacou uma arma para o casal israelense e disse: “Eu sei quem vocês são e sei por que estão aqui. Você são do Mossad e vieram me matar”. “O jovem casal nem sequer pestanejou”, relatam os jornalistas israelenses. O diálogo a seguir parece um daquelas cenas em que, armas apontadas, os personagens têm tempo e disposição para conversar antes de puxar o gatilho:

– Você está parcialmente certo. Se tivéssemos vindo te matar, você estaria morto semanas atrás.
– Ou talvez eu prefira apenas matar você.
– Se você nos matar, quem vier a seguir não vai perder tempo tomando uma bebida com você –a voz feminina da “ajudante” sentenciou–, você sequer vai ver o rosto deles antes de eles estourarem seus miolos. Nossa oferta é apenas para você para nos ajudar.

Depois de um longo minuto, “que pareceu uma hora”, o homem da cicatriz no rosto, ainda apontando a arma, perguntou de que tipo de ajuda eles precisavam. O agente do Mossad ofereceu dinheiro e se surpreendeu com a resposta que ouviu:

– Dinheiro não me interessa, tenho bastante.

A proposta que ele fez então surpreendeu ainda mais o israelense: “Quero que Wiesenthal remova meu nome de sua lista”. A lista do caçador de nazistas Simon Wiesenthal elencava criminosos de guerra, mas Skorzeny insistiu que não havia cometido crime algum. Diante do pedido e mesmo não acreditando, o agente, cujo nome nunca foi revelado aos jornalistas, prometeu cuidar do assunto. E foi assim que o homem foi levado para Israel, onde foi interrogado e recebeu instruções. Os jornalistas contam que houve na ocasião uma visita ao Yad Vashem, o museu em memória ao Holocausto em Jerusalém – e que um sobrevivente apontou para Skorzeny, que fazia a visita silenciosamente e em sinal de respeito, e o chamou de “criminoso de guerra”. Yosef Raanan, que dirigia a operação do Mossad na Alemanha (e ele mesmo um sobrevivente do Holocausto), respondeu à acusação dizendo que o nazista era, na verdade, seu parente.

Quanto à promessa de remover o nome do nazista da lista de criminosos de guerra, houve uma tentativa. Wiesenthal, entretanto, se recusou. O jeito, então, foi forjar uma carta do caçador de nazistas para Skorzeny segundo a qual o nome dele não mais estava sob a sua mira. De uma forma ou de outra, o austríaco conseguiu o que esperava com o pedido inusitado: um seguro de vida – o Mossad nunca o matou. Em julho de 1975, em Madrid, no entanto, ele morreu de câncer, aos 67 anos, sem nunca ter contado a história, nem sequer em sua biografia, em que não menciona a palavra “Israel”. Dois funerais foram realizados. Um deles na capital espanhola e outro em Viena, onde suas cinzas foram enterradas. Raanan, que era seu contato com o Mossad, compareceu secretamente ao funeral em Madrid.

Escrevem os jornalistas: “O Mossad não enviou Raanan ao funeral de Skorzeny; ele decidiu participar por conta própria e às suas próprias custas. Foi um tributo pessoal de um guerreiro austríaco para outro, e de um velho contato de espiões para o melhor e mais repugnante agente com que ele já lidou”.

Gabriel Toueg é jornalista. Viveu sete anos (2004-11) em Israel e atualmente mora no Chile.

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