A liberdade de Sião

Um número.
Um número é o que você precisa para ser identificado em Israel.
A teudat zehut, carteira de identidade, distintivo do israelense.

Um.
Um número, um Deus, uma nação, um companheiro, uma vida.
Uma vida inteira vivendo como um, ansiando pelo primeiro.
Pelo um, um único
E seus dez mandamentos.

 

O Estado de Israel comemorou 66 anos. Uma jovem nação formada por representantes de um povo homo/heterogêneo que perdura na diáspora por dois milênios. O Estado de Israel se orgulha em afirmar que é o Estado Judeu, o denominador comum dos membros desta nação que abriga uma sociedade tão heterogênea quanto as sociedades americanas que vêm absorvendo imigrantes de todo o mundo durante séculos.

A sociedade israelense moderna comemora 66 anos. Uma sociedade formada por imigrantes, filhos e netos de imigrantes que vieram buscar Sião para suas famílias. Sião que para essas pessoas significa(va) a liberdade, a liberdade de Sião. Além daqueles que vieram para Israel, muitos judeus ajudaram a criar ou encontraram sua Sião nas sociedades americanas, dentro da lei e dos princípios morais e democráticos do novo continente.

Prutah da Grande Revolta Judaica contra os Romanos (66-70 d.C.) com a inscrição "Liberdade de Sião"
Prutah de bronze cunhada durante a Primeira Grande Revolta Judaica contra os Romanos (66-70 d.C.) com a inscrição “Liberdade de Sião”. Folha e óleo de unção.

 

Flor e folha de 7 pontas. Moeda de bronze cunhada durante a Segunda Revolta Judaica (132-135 d.C.)
Flor e folha de 7 pontas. Moeda de bronze cunhada durante a Revolta Judaica de Bar Kochva (132-135 d.C.) com a inscrição “Pela liberdade de Jerusalém”

 

A mesma liberdade de Sião já era ansiada durante os anos de revolta contra os Romanos que culminou na destruição do Segundo Templo. Roma exerceu a sua influência e destruiu a Sião do povo judeu, excluiu aquele povo da sua liberdade e extraiu dele a sua identidade e costumes. O povo do livro foi colocado a prova, retirado da sua zona de conforto. E o povo continuou ansiando por Sião, pela liberdade de Jerusalém.

O movimento pela criação de um Estado Judeu autônomo em Israel surge em meados do século XIX, junto com o movimento global de nacionalização e teve como intuito garantir a soberania do povo judeu em Sião, de garantir a liberdade do povo judeu em Jerusalém – o sonho coletivo de todos os judeus ao redor do globo por milênios.
Mas quem seria esse povo judeu depois de dois milênios de diáspora? Quais são as liberdades que devemos garantir para o recém formado povo de Israel? Somos realmente livres em Sião?

 

Com 66 anos na cara, podemos afirmar que o Estado de Israel garante a nossa liberdade como indivíduos?

 

Comentários    ( 13 )

13 Responses to “A liberdade de Sião”

  • Marcelo Starec

    30/08/2014 at 22:08

    Oi Gabriel,
    A minha resposta a sua questão derradeira é SIM. Israel é o único Estado Judeu do mundo, é uma democracia vibrante onde existe uma maioria judaica. Aliás, é o único País do mundo cuja maioria dos habitantes pertence ao povo judeu. Assim, é o único País do mundo onde os judeus podem livremente escolher o seu destino! Claro, essa é uma resposta simples, pois ser um povo livre na sua pátria não significa deixar de ter todos os tipos de desafios, tais como enfrentar inimigos, fazer alianças e eventualmente também ser obrigado a ceder a respeito de algo que uma maioria gostaria que fosse feito de um jeito mas, devido a necessidade de enfrentar desafios e sobreviver enquanto País, não é possível de ser feito, exatamente como gostaríamos. Um exemplo bem simples: seria bom se os israelenses não precisassem gastar tempo, dinheiro e arriscar as suas vidas no exército, em guerras, mas infelizmente não há alternativa, é preciso sobreviver antes de tudo!…E Israel acabou também por enfrentar um outro desafio, o qual acredito que não passava nas mentes brilhantes de Theodor Hertzl e dos primeiros sionistas, o de herdar, injustamente, o mesmo preconceito antissemita, também atribuído, sem sentido, aos judeus, antes da reconstrução do novo Estado Judeu. Israel conseguiu ser um País normal como qualquer outro, como imaginava Hertzl, mas ainda assim continua sendo analisado e criticado com um óbvio viés, por muitas pessoas e esse viés encontra a sua explicação no antissemitismo e não em relação a justa correlação entre alguma atitude de Israel vis à vis a dos demais países. Entretanto, Israel venceu, em seus 66 anos, conseguiu conquistas incríveis, quase que milagrosas, em quase todos os campos de atividade e é hoje um orgulho para todo o povo judeu e um grande exemplo para o mundo, em termos de tolerância para com as minorias, desenvolvimento econômico e tecnológico, plantio de novas árvores, respeito aos direitos humanos, dentre tantos itens que fica até difícil enumerar.
    Abraço,
    Marcelo.

    • Gabriel Guzovsky

      30/08/2014 at 23:48

      Oi Marcelo,

      Israel é o único país democrático do mundo que não reconhece o direito civil de um judeu reformista ou conservador, por ex., se casar por casamento judaico da sua maneira e ter o casamento reconhecido pelo estado. Aqui em Israel a “ortodoxia” (uma corrente ortodoxa da Europa Oriental para ser mais preciso) tem monopólio sobre o judaísmo e esse é um problema muito maior que qualquer problema com nossos vizinhos.

      De resto, concordo contigo.

      Abraço,
      Gabriel

    • Raul Gottlieb

      01/09/2014 at 12:12

      Uma corrente ortodoxa (anti-reformista seria mais preciso) da Europa central e oriental que foi voluntariamente adotada pelos sefaradim religiosos.

      O tema da aliança entre os ortodoxos da Europa com os religiosos sefaradim em Israel ainda não foi bem contada e é muito interessante.

      Os sefaradim evoluíam com muito mais naturalidade que os ashkenazim ortodoxos, mas em Israel decidiram aderir ao imobilismo anti moderno.

      Os ashkenazim ortodoxos resolveram pelo imobilismo anti moderno para se distinguir da Reforma.

      A história do pensamento religioso judaico nos últimos 200 anos é largamente ignorada (existiram temas mais urgentes – nazismo, sionismo) e, repito, me parece muito interessante.

  • Gabriel Guzovsky

    30/08/2014 at 23:33

    Acredito que assuntos civis em Israel ainda devem ser resolvidos, especialmente entre judeus – ortodoxos, convervadores, reformistas, tradicionalistas, ashkenazim, sefaradim, seculares, pósmodernos, tatuados, etc. – que agoram são israelenses. Na minha opinião, o judeu ficou na diáspora e todos aqui somos israelenses. O judaísmo foi/é uma condição do nosso povo na diáspora, uma forma de proteger nossos costumes e tradições. Agora que temos Israel novamente, devemos aplicar isso a nível nacional e respeitar todas as correntes sem distinção, acabar com a segregação e doutrinação que a ortodoxia promove por motivos políticos.

    Israel é a Sião de todo o povo judeu, sem excessões.

    • Raul Gottlieb

      01/09/2014 at 12:16

      Sim, Gabriel.

      Assuntos civis não deveriam ser misturados com a afiliação religiosa.

      Na sociedade democrática a religião é uma opção e a ortodoxia anti moderna não consegue aceitar isto.

      A questão religiosa é a maior falha da democracia Israelense.

      Abraço, Raul

  • Otávio Zalewski

    01/09/2014 at 11:11

    Por favor, há a necessidade de artigos com linhas de pensamento diversas, apresentando o contraditório. Pelo amor de Deus, Israel dá a liberdade para todos os judeus que a desejem. Vejo uma confusão com a relação entre a Revolta contra os Romanos em 66 E.C. e a busca de liberdade atual. A busca nas revoltas da Antiguidade e não foram poucas (uma estimativa apresenta em mais de 60 revoltas a partir do início do domínio romano) eram contra o domínio estrangeiro em Judá, não só no sentido de defesa da identidade, mas também da liberdade da exploração econômica. A liberdade buscada pelos judeus com a criação do moderno Estado de Israel foi a de poder viver sem medo de perseguições.

    • Gabriel Guzovsky

      01/09/2014 at 16:30

      Oi Otávio,

      No dia de hoje, 01 de Setembro de 2014, Israel é um oásis no Oriente Médio. Não há dúvidas que se trata de uma nação que garante sim a liberdade para todos os seus cidadãos – judeus ou não – especialmente em comparação com os países vizinhos. No entanto, existem alguns temas que são ignorados e que podem fazer com que esse oásis seque rapidinho – se não soubermos ver onde está o vazamento.

      A relação que faço com a revolta contra os romanos não é segundo o seu contexto histórico, mas entre o que nós consideramos ser judaico hoje em dia e o que foi considerado judaico naqueles tempos.
      Depois de dois mil anos de diáspora, quem é o judeu que volta para Israel? Ele aspira pela mesma liberdade? Qual é a liberdade que devemos aspirar?

      Se é como você disse, “a liberdade buscada é viver sem medo de perseguições” – talvez não estejamos fracassando? Eu nunca tive tanto medo de perseguições e terroristas antes de vir viver aqui em Israel.
      Para mim, assim como muitos israelenses que emigram do país, a América atende muito melhor essa “liberdade”.

      Enquanto o status quo charedi (temeroso) for mantido neste país, ele nunca será realmente livre.
      Aqui somos todos israelenses, nós vivemos a história judaica em formação e não segundo a história judaica.

      Abraço,
      Gabriel

  • Mario Silvio

    01/09/2014 at 23:26

    “e esse é um problema muito maior que qualquer problema com nossos vizinhos.”
    Gabriel, sou 100% contra a mistura de religião e Estado, no Brasil, em Israel, nos EUA ou em qualquer país do mundo. Dito isso, ninguém corre o risco de ser despedaçado por não poder casar no civil.

    • Gabriel Guzovsky

      01/09/2014 at 23:39

      Oi Mario,

      Corre risco de despedaçar a motivação dos cidadãos que lutam para manter este país de pé de continuarem lutando. Afinal de contas, lutamos para sobreviver aqui para quê? Para depois nos dizerem que não somos judeus suficientes pois não nos “ajoelhamos” para a rabanut(autoridade religiosa oficial)?

      Buscamos qual liberdade? O que é Sião?

      Abraço,
      Gabriel

    • Raul Gottlieb

      02/09/2014 at 02:57

      Amigos,

      Porque juntar duas questões que não se relacionam numa só?

      De fato existe um problema de liberdade religiosa em Israel, mas ele não tem relação alguma com o assalto que sofremos dos nossos vizinhos.

      Então eu sugiro não misturar as questões. Não me parece produtivo. Me dá a impressão de ser mera retórica.

      Diferente do eterno problema com o mundo árabe, esta questão está integralmente nas mãos do público israelense. Basta votar contra os que apoiam a ortodoxia como religião de Estado que o problema desaparecerá.A ortodoxia é uma opção válida para a vida de qualquer um, mas ela não pode ser imposta para ninguém.

      No momento em que o israelense entender melhor o que é o judaísmo a liberdade religiosa será conquistada. Eu sou muito otimista. O crescimento dos movimentos religiosos não ortodoxos em Israel é muito consistente. Creio que em 5 a 10 anos teremos um outro perfil nesta questão.

      Abraço, Raul

  • Mario Silvio

    03/09/2014 at 15:18

    ” Basta votar contra os que apoiam a ortodoxia como religião de Estado que o problema desaparecerá.A ortodoxia é uma opção válida para a vida de qualquer um, mas ela não pode ser imposta para ninguém.”
    Concordo plenamente.
    Isto dito, tenho uma opinião que provavelmente muitos vão achar estranha. Acho pior não haver transporte público aos sábados do que a questão do casamento. Explico.
    É muito mais visível, acontece todas as semanas e causa problemas maiores. Não que sejam graves, muito pelo contrário, mas é um incomodo que se repete. Enfim, acho um absurdo, surreal.

    • Gabriel Guzovsky

      07/09/2014 at 10:07

      Oi Mario,

      A lei do ônibus no shabat, entre outras leis relacionadas ao dia do descanso, na minha opinião fazem mais sentido que a doutrinação relacionada com o casamento e a formação do núcleo familiar da sociedade israelense.
      Justo com relação ao transporte público, além de fábricas e outras atividades poluentes, acredito que um descanso forçado a cada ciclo de 7 dias possa ser beneficial ao meio ambiente e consequentemente aos seres humanos que habitam aquele ambiente. O mesmo com o ano de shemita (o sabático da terra), quando durante um ano não se planta nas terras de Israel (agricultura) para descansar o solo e melhorar o desempenho do mesmo.

      Um dia de descanso e com menos poluentes é algo positivo que desfrutamos muito aqui em Israel. O silêncio do shabat é algo impagável.

      O judaismo, antes de ser uma religião, foi uma forma de vida – e nesse sentido ele faz sentido, especialmente em tudo que se relaciona a natureza e agricultura.
      Inclusive aqueles que querem utilizar a religião para doutrinar e dominar sempre utilizam os exemplos de coisas “científicas” (reproduzíveis por métodos científicos) que encontramos na Bíblia (sim, o livro é um compilado místico de observação da realidade, portanto está cheio de observações corretas da realidade que ajudaram na vida daqueles indivíduos do deserto)

      O problema é a doutrinação e o intrometimento na vida pessoal de cada indivíduo, e o casamento é o marco central desse intrometimento.
      Na nossa sociedade, de acordo com as normas e convenções (judaicas), é necessário casar-se para reproduzir-se e reproduzir-se é o direito mais básico de cada indivíduo.
      Para casar-se em Israel é necessário “aprender a ser judeu” de acordo com os “cartolas” da nossa religião e isso para mim é inaceitável. Já o shabat, o dia do descanso, é parte do que é ser israelense.

      Abraço,
      Gabriel

  • Marion Vaz

    09/09/2014 at 03:03

    Quantas indagações??? Tanto o texto como o seu desdobramento através das opiniões e esclarecimentos é muito bom. Afirmo que cada dia conheço mais o povo judaico e o Estado de Israel através da Conexão. Olhando de “fora”, daqui do Brasil, confesso que “Uma sociedade formada por imigrantes, filhos e netos de imigrantes que vieram buscar Sião para suas famílias” – talvez sinta essa necessidade de se igualar aos países ocidentais em determinadas áreas. Mas o que seria Israel sem a sua cultura, sem o seu Shabat, sem os ortodoxos com seus aparatos religiosos, sem os demais seguimentos do Judaísmo, sem o seu legado de país judaico? Fico pensando que “ser igual as outras nações” já fazia parte do contexto desde a época do profeta Samuel, na era bíblica! Por isso tantas indagações e conceitos pré-estabelecidos por uma população moderna. E por que não? Quantos benefícios para Israel ao se equiparar as demais nações do mundo? Quantas conquistas na áreas de tecnologia, medicina, agricultura, etc. Mas… Por que ser igual quando se pode ser diferente? Quando se tem uma cultura milenar, uma religião que superou todas as demais ao enfrentar tanta adversidade? O que será de Israel no futuro se achar que todo “mundo” é bonzinho e respeitoso com AM ECHAD, seu D-us e seus Mandamentos? Talvez a saída seja mesmo manter uma Unidade judaica, seja ela através de casamentos, leis ou cultura ou da legitimação do vinculo com o território através da fé, da religião, ou da construção de moradias (O que alguns chamam de assentamentos) ou quem sabe, de uma consciência histórica tão presente na sociedade moderna quanto foi nos moldes dos primeiros colonos. Shalom.