A minha cidade

Ramat Gan (Jardim Planalto) foi fundada em 1921. Vizinha de Tel Aviv, nunca foi apenas uma cidade dormitório. Nela, encontram-se o primeiro shopping center de Israel, o maior estádio de futebol, o grande zoológico, a vila olímpica, estabelecimentos de Ensino Superior (a minha Bar Ilan, Shenkar, Faculdade de Administração e Negócios, Ramat Gan College, entre outras), a bolsa de diamantes, só para citar algumas das atrações.

Avraham Krinitzi nasceu na Bielorússia e veio para Israel em 1905, época do Império Otomano. Estabeleceu moradia em áera rural e praticava agricultura de subsistência. O pequeno povoado tornou-se um município. Este morador, seu primeiro prefeito.

Manequim do pioneiro Krinitzi, no museu que leva seu nome.
Manequim do pioneiro Krinitzi, no museu que leva seu nome.

Krinitzi governou de 1926 a 1969, quando morreu, aos 82 anos. Venceu doze eleições seguidas. É considerado o precursor da cidade.
casa krinitzi

Sua casa virou museu que leva seu nome, assim como a extensa rua onde fica. Krinitzi também batizou bairro residencial, entre o hospital Tel Hashomer e a Universidade Bar Ilan, referências nacionais.
museuplaca

Hoje, o coração da cidade, sua área central, é residencial e comercial. Tem de tudo. Desde sapateiro até empresas de high-tech. Nos anos 20, Krinitzi conduzia seu carro de boi até onde, hoje, encontra-se a rua Bialik (Homenagem a Chaim Nachman Bialik, o poeta nacional). A via comercial da atualidade era um descampado só.
placakrinitzi

Yair Mau, nosso especialista em língua hebraica, relata fato que eu, sinceramente, desconhecia. “Bialik morava em Tel Aviv e mudou-se para Ramat Gan em 1933. Com sua esposa, viveu em uma pensão, nos primeiros tempos, enquanto procuravam uma casa. O imóvel próprio, em Tel Aviv, foi alugado para uma família da África do Sul. Eles saíram de lá, porque muita gente chegava para visitá-lo o tempo todo, perguntando coisas, pedindo conselhos, etc. Visitavam sua casa, da mesma forma que judeus hassídicos procuravam o rabino. Para ter mais privacidade, optaram por Ramat Gan”, explicou.

De certa forma, Ramat Gan consegue manter o lado bucólico. Um quarto do território é de área verde. São vários parques que trazem os “ramatganim” para a natureza.

Outro ponto interessante é o fato do mapa ter o formato do número oito. Isto faz com que a cidade tenha limites com Tel Aviv, Bnei Brak, Guivataim, Kiriat Ono e Guivat Shmuel.

Se estás de carro pelo centro de Ramat Gan, chegas à Estação Central de Trem de Tel Aviv em poucos minutos (sem muito trânsito). Ben Gurion, a avenida onde moro, começa em Bnei Brak, passa por Ramat Gan e termina em Guivataim. São várias fronteiras pelas esquinas.

O Estádio Nacional de Ramat Gan, por exemplo, é ao lado de Bnei Brak e fica muito próximo de Tel Aviv. Dez minutos caminhando. Para quem não conhece a região parece passear pela mesma cidade.

Entretanto, quem é daqui vê bem a diferença. Bnei Brak é local de religiosos. No Shabat, tudo está fechado. Não há fluxo de veículos. Tel Aviv é a “Barcelona do Oriente”. Os jovens acham “cool” morar lá, mesmo pagando muito mais caro pelo aluguel de cubículos. Ramat Gan e Guivataim recebem famílias e jovens que não tem grana para conseguir os “apertamentos” da zona agitada da metrópole.

O pessoal do Rio de Janeiro que mora aqui costuma dizer “Ramat Gan é a Tijuca e Tel Aviv, com as praias, a Zona Sul”. Mas, as proporções são menores. Em quinze minutos de ônibus, ou 40 de caminhada, chega-se do centro de Ramat Gan até o mar.

No tempo do Krinitzi, as distâncias pareciam maiores. Ramat Gan era, realmente, um outro lugar, independente dos vizinhos. Hoje, ramatganim e telavivim orgulhosos tentam marcar diferenças quase imperceptíveis. Até na boemia, já existe certa equivalência.

O amigo Gabriel Paciornik morou sete anos em Ramat Gan e traz depoimento interessante. “Não existem estacionamentos livres. Nenhum. Nada. Nunca. Em nenhuma hora do dia ou da noite ou fim de semana. O Imposto Predial é um dos mais caros de Israel. E somando com o aluguel, fica quase tão caro quanto Tel Aviv. Não foi à toa que fomos para Hertzelia. Havia, até poucos anos atrás, uma das mais animadas zonas de baixo meretrício do país. Além disso, é uma das poucas cidades, além de Tel Aviv, que tem Moniot Sherut (lotações) no shabat”.

De fato, há “inferninhos” na região da Bolsa de Valores. O Arnona (IPTU) é mais elevado do que Tel Aviv. E Monit Sherut salva quem vai à praia no Shabat.

Ah, importante dizer, Ramat Gan e Rio de Janeiro são cidades-irmãs. A comparação acima procede. E, se lá, dividem a praia por postos. Em Tel Aviv, é pelos nomes de ruas (Gordon, Geula, Bograshov, Frishman, entre outras).

Viva Krinitzi! Viva a minha cidade! Viva Ramat Gan, onde trabalho, estudo, tenho mulher e cachorro.

Links: http://www.ramat-gan.muni.il/RamatGan/sister-cities/About+Ramat-Gan/

Fotos: Any Dana

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Comentários    ( 13 )

13 Responses to “A minha cidade”

  • Marcelo Starec

    07/10/2015 at 22:07

    Oi Nelson,

    Muito bom o seu artigo!…Lendo, fiquei logo imaginando o sr. Krinitski andando pela cidade em seu carro de boi…Imaginando isso e conhecendo Israel, fica até difícil sequer pensar em algo assim…Como Israel se desenvolveu, construiu, produziu – desde o trabalho duro dos primeiros que drenaram pântanos até o que fazem hoje!…É quase que algo sem paralelo no mundo!!!…No mais, fico pensando, se o Arnona (IPTU) é elevado, talvez a cidade também forneça atrações aos seus moradores, tais como bons parques e outras, seria esse o motivo?…

    Um abraço,

    Marcelo.

    • Nelson Burd

      07/10/2015 at 22:12

      O Arnona ficou mais alto do que o de Tel Aviv, porque a prefeitura de Tel Aviv compensou a alta de aluguéis deles, baixando o imposto predial. Os impostos tem grande taxa de retorno. Existem shows à população, parques, eventos especiais, creches municipais, oficinas, etc. Não há muito do que se queixar. O que poderia ocorrer seria dar mais descontos para universitários. Iria atrair mais jovens. Participei de uma reunião do prefeito com jovens da cidade em 2010. Esta foi o grande pedido do pessoal. Até hoje, o assunto não foi resolvido.

  • JOEL RODRIGUES

    08/10/2015 at 01:07

    MUITO LEGAL! !

    INTERESSANTE! VOU LER. .!

  • Mauricio Peres Pencak

    08/10/2015 at 02:13

    Sou um forte candidato à ALIÁ resolvida minhas questões de aposentadoria e também gostei muito do artigo. Conheço RAMAT GAN de passagem e Givataim com maior familiaridade. No caso de RAMAT GAN, para um apartamento de uns 75m², dois quartos, em quanto fica em média o ARNONA? Agradeço antecipadamente a atenção.
    SHALOM!

    • Nelson Burd

      08/10/2015 at 06:54

      100 metros seria por volta de 800 shekel a cada dois meses, nesta faixa, sendo no centro. Em outros bairros, não sei exatamente.

    • Mauricio Peres Pencak

      09/10/2015 at 00:00

      Achei caro, mas imagino o retorno em termos de serviço.
      VALEU!

    • Nelson Burd

      09/10/2015 at 00:47

      Precisas fazer um somatório de valor de aluguel, arnona, taxas, distância até o trabalho, bons colégios, características das cidades, etc. Tem pessoas que moram em Gvataim, Bat Yam, Netanya, Modiin, Rechovot e conseguem trabalhar em Tel Aviv.

  • Raul Gottlieb

    09/10/2015 at 14:29

    Você esqueceu de mencionar que o melhor Shabich do mundo fica em Ramat Gan. No mais tudo perfeito.

    • Nelson Burd

      09/10/2015 at 14:49

      Na verdade, é em Guivataim, ao lado de Ramat Gan. Bem na fronteira. Duas quadras para baixo, já é Ramat Gan.

  • Davy Bogomoletz

    11/10/2015 at 22:05

    Olá, Nelson. Saudosismo também é uma arte. Minha infância passou-se, entre 1950 e 1956, em Nahlat Ganim, um pequeno bairro de Ramat Gan, Nossa rua era a Rechov Rashi, que terminava no Kvish Herzeliya. Estudei os 7 primeiros anos do fundamental no colégio Hamanchil. A rua começava num terreno baldio que mais tarde recebeu a estátua em homenagem a Dov Gruner (espero não estar errado). Do outro lado da rua que levava a Tel Aviv havia um prédio baixo que tinha sido uma delegacia de polícia no tempo dos ingleses. Escrevo isso tudo pra saber se você identifica algum desses lugares. Eu morava num conjunto residencial de 10 prédios para operários na esquina com Kvish Hertzeliya, e bem ali havia uma “macolet”. Do outro lado do Kvish Hertzeliya havia um pardés, um bosque onde a garotada ia comer amoras (tutim) nas três enormes árvores que havia lá. Quando passei por lá em 1967 (dez anos após minha “yeridáh” para o Brasil) não reconheci quase nada! A estrada que ia dar em Tel Aviv, que no início era quase deserta, estava toda ladeada de prédios e casas. O “bosque” depois do Kvish Hertzeliya transformou-se num novo bairro residencial. E de Krinitzi nem ouvi mais falar. Ao longo da minha infância o velho prefeito era motivo de gozação da criançada, que ria dele por considerá-lo “ganav”, o que hoje é chamado de “corrupto”. Bom saber que a cidade não o considerava assim, ao que tudo indica. É isso. Muito obrigado por me fazer lembrar dessas coisas todas. Foram bons tempos aqueles.

    • Nelson Burd

      11/10/2015 at 22:23

      Davy, sensacional a tua participação. A estátua do Gruner está na rua Jabotinsky esquina Rashi, a tua rua. A Rashi fica entre a Jabotinsky (era a derech Petach Tikva) e a Abba Hillel, que termina, acredito eu, no tal bosque que hoje é uma bairro. Atrás disso, há o parque (Ganei Yeoshua-Park Ayarkon). Os espaços vazios não existem mais. Pequenos prédios são demolidos para construírem novos. Ou fazem reformas de fachadas. De 1967 para cá, muita coisa mudou, sem dúvida. Abraço.

    • Bernardo K. Schanz

      14/10/2015 at 00:21

      Davy, o seu colégio segue existindo, com o mesmo nome. Você precisa vir visitar pra ver como estão as coisas agora.
      Realmente muito bacana o seu comentário. Saudações