A moral em dias de conflito

09/12/2012 | Conflito

(Originalmente publicado em 09.3.2010)

Em um de seus livros, o escritor israelense Amoz Oz compartilha com os leitores uma de suas experiências no exército israelense.

Ele conta que numa noite, antes de uma grande batalha, todo o pelotão estava sentado em volta de uma fogueira. Em um certo momento, o general se aproxima e começa a instruir os soldados sobre a estratégia da ação iminente.

Depois de quatro frases, foi interrompido por um cabo que disse muito educadamente: “Desculpe, general, o senhor já leu guerra e paz de Tolstoi?”. O general prontamente responde: “É claro que li, que pergunta! Já li várias vezes”. O cabo emenda: “O senhor está ciente, general, que está prestes a repetir o mesmo erro conceitual que, segundo Tolstoi, foi cometido na Batalha de Borodino?”.

Imediatamente – prossegue o escritor – todo o pelotão estava envolvido numa discussão ruidosa e feroz sobre Tolstoi, estratégia de literatura, tradução, poesia, ética… Ao final, descobre-se que o cabo era professor de literatura russa na Universidade de Tel Aviv e o general era doutor em filosofia da Universidade de Jerusalém.

Esta pequena história nos faz entender um ponto crucial e importante da sociedade israelense: não é o exército que forma a sociedade, é a sociedade que forma o exército. Se Israel “produz” bons homens, com valores éticos e morais, com conhecimento e inteligência, assim o nosso exército será conduzido.

No dia 15 de setembro de 2009, o juiz Richard Goldstone apresentou ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, um relatório de 575 páginas sobre o mais recente conflito entre Israel e os Palestinos na Faixa de Gaza em janeiro do mesmo ano.

O relatório, aprovado pelo Conselho, afirma que o Exército de Defesa de Israel cometeu crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Acusa Israel de assassinato deliberado de civis palestinos, de destruir as fundações da vida civil em Gaza sem propósito militar, como por exemplo: infraestrutura industrial, produção de comida, instalações de água e esgoto, casas e plantações, bem como o uso de munições proibidas pelo direito internacional.

O relatório recomenda que seja instaurado um processo no Tribunal Penal Internacional contra os autores de tais condutas.

Estas acusações e recomendações “abriram uma ferida” no país. O exército que autointitula-se e é reconhecido como o “exército mais moral do mundo”, talvez não seja digno de tal rótulo. O que estaria acontecendo conosco? Estes absurdos realmente aconteceram? Matamos pessoas inocentes?

O governo israelense prontamente produziu uma resposta, apontando diversas controvérsias e falsas conclusões. Ataca o Relatório Goldstone de um ponto de vista legal e conceitual.

Em primeiro lugar, é interessante saber que uma Comissão de Direitos Humanos da ONU é formada por países exemplares em assuntos de liberdades e garantias civis como Cuba, China, Gabão, Bangladesh e outros.

Em segundo, Israel comprova que o relatório viola normas explícitas de recolhimento de dados, com o favorecimento sistemático de testemunhas e relatos anti-Israel. O relatório contém numerosas digressões gratuitas em questões que ultrapassam a alçada de uma Comissão de Averiguação, que são imprecisas e profundamente hostis a Israel e aos judeus. Em seguida, Israel demonstra que a “investigação” subestima e ignora provas substanciais no que se refere aos crimes do Hamas. Omite-se, por exemplo, o uso da população civil palestina como escudo; a falta de uniforme que diferencia um combatente de um civil; o armazenamento de armas e munições em mesquitas; a utilização de escolas e hospitais como centrais de comando do Hamas; minimiza os oito anos de ataques com mísseis em áreas civis de Israel;

Mas do que a resposta israelense, nós devemos analisar a grande dificuldade de adaptação das normas de guerra para um campo de batalha não-tradicional, como o último conflito em Gaza. Em uma guerra tradicional, as difíceis escolhas morais são feitas pelas elites políticas e do alto comando, como a bomba que destruiu Dresden ou Hiroshima. Mas neste novo tipo de micro-guerra, cada soldado é um tipo de comandante, um agente moral. Cada soldado deve decidir se o indivíduo em pé diante dele, vestido de jeans e tênis, é um combatente ou não. Que tipos de riscos deve assumir um soldado para evitar a matança de civis?

Na última semana, Israel decidiu abrir uma investigação independente sobre as alegações concretas existentes no relatório. Não tenho dúvidas de que o país esclarecerá essas questões, refutando o que pode ser refutado e admitindo os erros quando comprovados. Assim, Israel poderá estabelecer a legitimidade da sua auto-defesa, bem como lidar honestamente com os seus próprios fracassos.

O Estado Judeu comprovará desta maneira aquilo que eu e Amoz Oz já sabemos: que não há equivalência moral entre o nosso exército e um grupo terrorista como o Hamas.

Que não há equivalência moral entre o Estado democrático de Israel e tiranias como Cuba, China e Bangladesh.