A natureza não conhece fronteiras

por Rafael Stern

Depois de terminar meus estudos de graduação em geografia, estava procurando uma forma de ir para Israel e seguir trabalhando na área ambiental. Tive a oportunidade de ser madrich do Taglit, e trocando ideias com o guia do meu grupo sobre meus planos futuros, ele disse: “cara, vai conhecer o Machon Aravá. As pessoas de lá não são pessoas, são anjos. E eles estão salvando o mundo.”

aravaUm ano depois eu estava sentado numa sala de aula como aluno do Machon Aravá. A proposta do Instituto é grandiosa, mas afinal, não é de propostas grandiosas que o mundo está precisando? O meio ambiente está seriamente ameaçado – aquecimento global, destruição da biodiversidade, poluição, falta de acesso à água… E no Oriente Médio, há um conflito que já dura décadas, acumulando fracassos de negociações. A solução desse conflito não parece iminente, mas em paz ou não, querendo ou não, os povos do Oriente Médio compartilham o ar, a água e o solo. Então, a proteção do meio ambiente de forma a permitir uma vida saudável é um interesse dos povos da região. Se Israel já sofre com escassez de água, o caso da Jordânia é muito pior. O dos palestinos tampouco é confortável. E as fontes de água para os três povos são as mesmas. Devido à proximidade, a poluição do ar e do solo tem consequências para todos.

Campo de captação de energia solar no deserto.
Campo de captação de energia solar no deserto.

O Machon Aravá, fundado por jovens idealistas do kibutz Keturá, isolado no vale da Aravá, sustenta que não podemos esperar um acordo de paz para começar a cooperar para proteger o meio ambiente. É urgente! E mais, a própria cooperação ambiental pode ser um disparador de cooperações mais profundas, coexistência, paz. Para por em prática esse ideia, fundaram um instituto de pesquisa e ensino (Machon Aravá), filiado à Universidade Ben Gurion (os créditos acadêmicos e as provas são da universidade), com excelentes pesquisadores e professores (todos com doutorado), localizado dentro do kibutz. Os alunos e os professores são israelenses, palestinos e jordanianos, além de alguns alunos de outras partes do mundo. Nós moramos dentro do kibutz, juntos, compartilhando alojamentos e quartos. Temos aulas que vão desde recursos hídricos, geologia e ecologia até as relações entre as sociedades e o meio ambiente que as rodeiam, de um ponto de vista bem antropológico. Por essas disciplinas, recebemos crédito (que podem ser de graduação ou mestrado) da Universidade Ben Gurion, e temos a opção de desenvolver projetos de pesquisa. Além da parte acadêmica, temos sessões semanais de debates diretos sobre o conflito, política, e notícias da região. Temos trabalhos de campo, e aulas de hebraico e árabe. O idioma oficial do instituto é inglês.

Tamareira de 2000 anos na Cisjordânia
Tamareira de 2000 anos no kibutz Ketura
Trabalho de campo para coletar insetos em acácias, Nahal Tzukim.
Trabalho de campo para coletar insetos em acácias, Nahal Tzukim.

Eu demorei quase um ano para começar a escrever sobre a minha experiência lá. Como o deserto, com quase nenhuma cobertura, que se expõe desnudo e vulnerável ao Sol e às estrelas, também nós temos os aspectos mais íntimos da nossa identidade constantemente testados e questionados. Marcamos juntos datas como o Yom haShoá[ref]Dia de lembrança do Holocausto[/ref], Yom haZikaron[ref]Dia de Lembrança dos soldados que morreram em defesa de Israel, e das vítimas de atentados[/ref], Yom haAtzmaut[ref]Dia da Independência de Israel[/ref],  Nakba[ref]Em árabe, “tragédia”. É como os palestinos se referem ao dia da independência de Israel, considerado o dia da tragédia nacional palestina.[/ref], o Dia da Terra[ref]No dia 30 de Março de 1976, em protestos contra a desapropriação de terras palestinas por Israel na região da cidade palestina de Sachnin, para expandir a cidade de Carmiel, 6 palestinos foram mortos e centenas presos.[/ref],… É difícil se manter firme, o tempo todo, as lágrimas muitas vezes são a única maneira de aliviar a tensão. É claro que teatro, jogos, trilhas e festas às vezes também ajudam.

Fizemos um trabalho de campo para conhecer a bacia hidrográfica que é a principal fonte de água para israelenses, palestinos e jordanianos, a bacia do rio Jordão (e lago Kineret). Vimos como os drusos estão inseridos nesse contexto, em Majdal Shams. Vimos como a Barreira de Separação não impede que uma cidade judaica em Israel e uma cidade árabe na Cisjordânia cooperem no tratamento do esgoto. Vimos como a dessalinização da água do mar está alterando alguns componentes desse balanço hídrico. Fomos à Jerusalém Oriental, onde almoçamos numa casa palestina que já foi demolida (por Israel) e reconstruída (por uma ONG israelense) algumas vezes, às margens do Vale Kidron[ref]Rio que só tem água na época das chuvas, e que drena a água que choveu em Jerusalém, levando-a até o Mar Morto.[/ref]. Fomos tomar chá com palestinos que se recusam a sair de Silwan, a Cidade de David. Vimos uma escola onde já estudam juntos judeus e árabes.

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Almoço numa casa palestina no vale do Kidron, Jerusalém Oriental.

Depois de ter ficado mais amigo de um palestino, fui com outras pessoas passar um fim de semana na casa dele, em Nablus. Estava tomando chá na varanda, quando começaram a cair flores em mim. Olhei para cima e duas crianças, sem querer saber quem éramos ou da onde vínhamos, nos jogavam flores. Por outro lado, tivemos que criar nomes fictícios para nossos amigos israelenses, para não sermos percebidos ao sairmos à rua. Fomos a um campo de refugiados palestinos, onde presenciei um debate riquíssimo, em inglês, entre dois palestinos, carregado de auto-crítica às ações palestinas, e de reconhecimentos de coisas positivas feitas por Israel. Passei por um checkpoint. Vi um soldado israelense espancando e retendo um palestino desarmado diante de sua mulher e dois filhos. Fomos ao túmulo dos patriarcas e matriarcas em Hevron, não sei pra que, pois naquele momento a visita me pareceu desprovida de qualquer sentido. Hoje entendo que possui tanto para mim, quanto para eles. Fui guiado em Hevron por um palestino que se lamenta até hoje que sua ex-namorada judia, colona (a menina mais linda que ele já conheceu), se casou com um judeu, mas seus amigos colonos judeus são bons de futebol, pelo menos.

Até hoje, recebo Shabat Shalom de alguns desses palestinos.

Alguns dilemas: Um dia, um grande amigo israelense que conheci lá me confidenciou: “cara, se eu for chamado pro miluim[ref]Serviço dos reservistas do exército.[/ref] talvez eu reviste no checkpoint os pais ou irmãos de alguém que estuda com a gente.” Achei esse dilema complicado, mas não tanto quanto esse outro. Um israelense do curso foi convocado pro miluim para a operação Coluna de Fogo[ref]Operação que ocorreu em Novembro de 2012, para tentar acabar com o lançamento de foguetes de Gaza contra Israel.[/ref], no final de 2012. Seu namorado da Jordânia, assim como 60% dos jordanianos, tem origem palestina…

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Visita a uma casa palestina em Silwan.

Conheci um jordaniano que acha Tel Aviv a melhor cidade do mundo. Uma jordaniana se encantou pelo estilo de vida do kibutz. Alguns palestinos achavam muito boas as nights do kibutz. Preciso levá-los pra Lapa um dia.

Muitos palestinos não conseguem ainda entender por quê o KKL[ref]Fundo Nacional Judaico. Fundado em 1901, com o objetivo de cuidar do solo da Terra de Israel para a imigração sionista, hoje se encarrega principalmente da preservação do meio ambiente[/ref] é um dos principais patrocinadores do instituto, e se questionam sobre receber essa ajuda.

Tive aulas com um professor judeu sul-africano naturalizado israelense, que tem projetos de cooperação com palestinos de Gaza para construir dispositivos domésticos de dessalinização da água do mar. Um professor palestino é o diretor de pesquisas de um centro de energia renovável, e agora o instituto abriga o maior campo de captação de energia solar do Oriente Médio. Uma pesquisadora judia norte-americana naturalizada israelense e membra do kibutz fez germinar uma semente de tamareira encontrada em Massada, preservada pela secura do deserto por quase 2 mil anos. Agora tem uma tamareira da época do rabi Akiva e do rabi Yochanan ben Zakai crescendo no kibutz. Infelizmente, ela é macho, não dará tâmaras. Se bem que as tâmaras modernas da Árava não deixam nada a desejar. Enfim, ela entrou no livro dos recordes, até que um gaiato fez germinar uma semente ainda mais antiga, congelada na Sibéria.

Eu traduzi o tekes[ref]Termo hebraico para cerimônia[/ref] de Yom haShoá do kibutz para um palestino, que se emocionou e prestou o mesmo respeito que eu às vítimas da Shoá[ref]Holocausto[/ref].

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Varanda da casa em Nablus

Duas anedotas: o melhor amigo que fiz no Machon Aravá foi um judeu argentino naturalizado israelense. Um dia, conversava com ele no gramado do campus, quando passa um palestino e diz: “vejam, um brasileiro e um argentino ficaram amigos. Esse Machon Aravá faz mesmo milagres. A paz no Oriente Médio agora é fácil.” Em outra ocasião, numa discussão política sobre o Estado Palestino, eu defendia que aos colonos judeus poderia ser dada a opção de se tornarem cidadãos palestinos, ao que um palestino retrucou: “De jeito nenhum! Isso é inconcebível! Como imaginar os palestinos tendo que viver com pessoas que serviram no exército de Israel e que podem ter matado alguém da família deles?”. De pronto, rebati numa ironia bem ácida: “Pois é, os israelenses não tem esse problema, pois quem matou a família deles se explodiu, não existe mais!” Depois de dois segundos (longuíssimos) de um silêncio muito tenso, todos, israelenses, palestinos e internacionais caíram na gargalhada, e não conseguimos mais voltar à discussão. Um pouco de humor ajudava às vezes.

Não sei se despertados para a urgência de querer tentar ajudar a resolver o problema, ou se porque depois de passar por uma experiência forte como essa é difícil voltar a viver uma vida burguesa em algum país ocidental, só sei que a maioria dos internacionais que fizeram o curso e que são judeus, fizeram aliá. E isso apesar de toda a crítica a Israel que escorreu deles durante o curso, e apesar também do eterno sentimento de culpa de conseguir uma cidadania tão automaticamente, enquanto que para muitos dos palestinos que estudaram conosco pode ainda demorar muitos anos para ter até mesmo um país.

O profeta Isaías disse que um dia o lobo e o cordeiro viverão juntos, e que as pessoas plantarão vinhedos e comerão seu fruto. Miquéias (cap. 4; vers. 4) disse que no tempo vindouro, de paz, cada pessoa se sentará à sombra do seu vinhedo e da sua figueira[ref]Por ser uma das árvores nativas de Israel que fornecem a melhor sombra, se sentar à sombra de uma figueira é uma expressão do tempo do Tanach que simboliza tranquilidade, paz.[/ref]. Talvez os profetas tenham utilizado essa metáfora com elementos da natureza para nos dar uma pista do caminho a seguir. Lobos da estepe ou da aravá, cordeiros, todos devemos nos unir para plantar vinhedos ou tamareiras de 2 mil anos de idade, sentarmos juntos à sombra de uma figueira ou de uma acácia[ref]Única árvore que cresce de forma selvagem na aravá, e que tem relativamente boa dispersão na região. É a árvore que está no símbolo do Machon Aravá.[/ref], e apreciarmos a paz que isso nos trará.

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Rafael Stern é formado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense, e atualmente faz mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Durante o ano de 2012 viveu em Israel, quando estudou no Machon Aravá, e depois ficou trabalhando no Instituto Weizmann.

“A natureza não conhece fronteiras” é o lema do Instituto Arava.

Comentários    ( 25 )

25 Responses to “A natureza não conhece fronteiras”

  • Mila Chaseliov

    29/06/2013 at 22:08

    Rafael,
    obrigada por compartilhar sua experiência com a gente. Seu texto me faz ter um pouquinho mais de fé na humanidade.
    abraços!

    • Rafael Stern

      01/07/2013 at 04:06

      Mila, a humanidade merece a nossa fé incondicional! Obrigado pela honra de vocês terem cedido o espaço para a divulgação do texto aqui.
      Abraços!

  • Mario Silvio

    30/06/2013 at 16:19

    ” onde almoçamos numa casa palestina que já foi demolida (por Israel) e reconstruída (por uma ONG israelense) ”

    A paz estará muito próxima quando soubermos de algo como isso:

    ” onde almoçamos numa casa israelense que já foi demolida (por um atentado terrorista) e reconstruída (por uma ONG palestina)

    É como dizem, um cachorro morder um homem não é notícia, um homem morder um cachorro sim.

    • Rafael Stern

      01/07/2013 at 04:10

      Mario, se o cachorro tem “raiva”, é sim notícia se ele morder um homem.

    • Mario Silvio

      01/07/2013 at 15:34

      Parabéns pela resposta Rafael, é um enfoque sobre o qual eu não havia pensado! E concordo, é notícia sim. Se uma sociedade se torna belicista, o que não me parece ser o caso da israelense (ainda acredito que a imensa maioria quer um acordo), pacifistas são notícia. Mesmo assim ainda considero a situação muito assimétrica. Existem várias ONGs israelenses (e movimentos isolados) contra os assentamentos e NENHUMA palestina contra o terror. Você já deve ter ouvido falar no documentário Budrus, da brasileira Julia Bacha, se (e para quem) não ouviu: ““Budrus” conta a história de um organizador de base palestino, Ayed Morrar, que uniu membros do Fatah, do Hamas e apoiadores israelenses num movimento desarmado para salvar sua aldeia da construção do Muro de Separação de Israel. Símbolo da resistência, a luta, vitoriosa, aconteceu em 2003.” O Shalom Achshav ? Israelense. “Do lado de lá” o máximo que se vê é: We are a national Palestinian non-partisan activist group which seeks to end Israeli colonization activities in Palestine (building and expanding settlements) through non-violent popular struggle and civil disobedience. Muito provavelmente existem exceções… que confirmam a regra. Um abraço

    • Rafael Stern

      02/07/2013 at 03:50

      Mario,

      Existem sim diversos problemas na sociedade palestina. A partir do contato que tive com membros bem distintos dela (ainda que aqueles que decidiram vir estudar em Israel. Ainda que um setor restrito, era um grupo bem heterogêneo), e presenciando discussões riquíssimas (quando eram em inglês) entre eles, percebi algumas coisas. O que mais me incomodou foi a falta de auto-crítica. Tinha vezes que eu não me aguentava com a verdadeira “cara-de-pau” de não admitir um errinho sequer. Não sei se isso tem a ver com a honra na cultura árabe… Outra coisa é o exacerbado senso de vitimização, com o qual me identifiquei muito, devido a algumas abordagens que tive do judaísmo na escola e que encontro até hoje um pouco pela comunidade judaica. Um povo que se enxerga como uma eterna vítima impotente começa a se corroer por dentro, e foi muito difícil para mim conviver com essa postura que percebi muito nos palestinos, sem poder criticar muito. Uma coisa é eu, no movimento juvenil, questionar os valores do meu povo. Era muito delicado eu “meter o bedelho” na identidade deles. E, além disso, eu não os percebia como frágeis. Pelo contrário. Conheci palestinos muito esclarecidos, com muito acesso a estudo, informação, conteúdo. Uma sociedade avançada em muitos aspectos mesmo! Grandes mentes, grandes personalidades, grandes potenciais…
      Não vi esse documentário, mas o nome me soa conhecido. Obrigado pela dica. Vai entrar na minha lista de prioridades, junto com “Gatekeepers” e “5 Broken Cameras”, que quero ver há um tempo mas não encontro oportunidade (já que sou contra a pirataria).
      Abraço

    • Mario Silvio

      02/07/2013 at 19:57

      ” O que mais me incomodou foi a falta de auto-crítica. Tinha vezes que eu não me aguentava com a verdadeira “cara-de-pau” de não admitir um errinho sequer. Não sei se isso tem a ver com a honra na cultura árabe… Outra coisa é o exacerbado senso de vitimização, com o qual me identifiquei muito, devido a algumas abordagens que tive do judaísmo na escola e que encontro até hoje um pouco pela comunidade judaica. Um povo que se enxerga como uma eterna vítima impotente começa a se corroer por dentro, e foi muito difícil para mim conviver com essa postura que percebi muito nos palestinos, sem poder criticar muito.”
      Eu nunca fui otimista em relação ao conflito, muito pelo contrário. Acabei de ficar mais pessimista ainda.

    • Luiz Salama

      04/07/2013 at 17:21

      Quem é o cachorro, quem é o homem?

    • Mario Silvio

      01/07/2013 at 15:36

      Esqueci de dizer: não incluo no meu raciocínio organizações judaicas fora de Israel nem árabes fora daí.

  • anna stern

    30/06/2013 at 16:21

    Querido Rafinha
    Lemos com muita ateção atua experiência em Israel
    Maravilhoso como narrates, como escreves tão bem, e, aprendemos muito, tivemos uma grande lição.
    Cada vez mais nos orgulhamos de ti.
    Parabens, que D´us cada vez mais te proteja e abra teus caminhos te dando todo sucesso que es merecedor………
    Te amo muito, milhões de beijos
    Avó Anna

  • anna stern

    30/06/2013 at 16:29

    Rafael, orgulhoso e sensibilizado
    envio meus parabens a Conexão Israel, por esta divulgação, meu repeIto e admiração
    Aproveito para enviar uma mensagem que li hoje no jornal
    OS DESAFIOS SERVEM DE ESTÍMULO PARA CRESCER.
    A CONQUISTADO QUE PARECIA SER IMPOSSIVEL NEUTRALIZA AS ADVERSIDADES
    teu avô coruja
    Marcos

  • Raul Gottlieb

    01/07/2013 at 22:46

    Rafael,

    Parabéns pelo teu belíssimo relato. Eu penso que ele demonstra de forma muito clara que os contatos interpessoais entre grandes inimigos políticos são, normalmente, muito gratificantes. Eu mesmo tenho um genro de quem gosto muito e que vascaíno, vejam só!

    Eu acho que nem poderia ser de outra forma, pois o ser humano, antes de ser nacional de algum país, ou aderente a alguma cultura (incluindo religião dentro da cultura) é um ser humano e como tal é um animal gregário, que convive bem em grupo e que procura relacionamentos como forma de viver.

    O que me espanta é que estes contatos interpessoais muito raramente (escrevo assim para ser cauteloso, porque a verdade é que não conheço caso algum) resultem em conciliações políticas. Eles ficam quase sempre no nível pessoal mesmo e os acordos políticos são feitos apesar dos contatos interpessoais e não por causa deles.

    O Amos Oz falou muito sobre isto, principalmente depois dos acordos de Oslo, que fazem 20 anos (!) no mês que vem. Ele diz que os intelectuais Europeus ficaram encantados com a possibilidade de entendimento entre Israelenses e Palestinos e promoveram inúmero encontros entre intelectuais judeus e árabes. Mas que destes encontros nada de concreto do ponto de vista político avançou. Tudo o que os encontros fizeram foi estimular o consumo de litros e litros de café e o conhecimento interpessoal de gente interessante.

    Eu conheço o kibutk Keturá, que é efetivamente um encanto. Uma sobrinha minha se casou com um chaver deste kibutz, então eu passei uns dias lá. São pessoas maravilhosas. Da mesma forma existem pessoas maravilhosas em todos os cantos do mundo.

    Mas ao mesmo tempo existe tanto desentendimento político. Porque a política não consegue se humanizar? Não consigo entender.

    Obrigado pelo texto,
    Raul

    • Rafael Stern

      02/07/2013 at 03:38

      Raul,

      Acho que todos nós temos uma parcela de culpa nesse problema que você apontou. Já que vivemos num mundo governado e representado pela política, o fato de muita gente não querer se envolver com política gera imensos problemas. Pessoas muito esclarecidas, muito lúcidas e muito competente, muitas vezes se distanciam da política por ideologia. Quantas vezes ouvimos de grandes intelectuais (incluindo o próprio Amós Oz): “Não, eu sou um simples poeta, escritor, cientista, professor… Não me envolvo com política!” como se fosse algo sujo, algo mal visto, algo degenerante. A política é algo que deveria envolver todos nós. Me questiono inclusive sobre a figura de “profissionais políticos”. Por que os deputados, senadores, e membros do poder executivo fazem carreira e se dedicam exclusivamente a isso? Os dirigentes comunitários não largam suas carreiras para presidir uma sinagoga ou um clube, por exemplo.
      As pessoas, principalmente as inteligentes, as que tem tanto senso crítico, não deveriam se esquivar tanto da política, e sim colocar a mão na massa. Um dos fundadores do Instituto Aravá, o Alon Tal, fundou um partido político (Tnuá Yeruká), e faltaram poucos votos para conseguir uma cadeira no parlamento. Um israelense chamado Yehuda-Alain Schwartz, uma das pessoas mais lúcidas que já conheci, começou um movimento que defende um modelo de solução de um Estado só, para palestinos e israelenses, que seriam representados por unidades federativas supra-territoriais distintas. Escreveu uma constituição, atraiu seguidores, e está em vias de criar um partido político também. Estou em contato constante com ele. Recentemente, ele se dirigiu a mim com a proposta de fundarmos um assentamento na cisjordânia formado por palestinos e judeus, e que seria o primeiro lugar onde as leis da Confederação começariam a valer. Enfim, a política está aí, aberta. Se não quisermos dar as caras na frente da batalha, temos que pelo menos ajudar os que são mais interessados a chegarem lá.

    • Mario Silvio

      02/07/2013 at 19:55

      ” Não me envolvo com política!” como se fosse algo sujo, algo mal visto, algo degenerante.”
      E quase sempre é.

      “As pessoas, principalmente as inteligentes, as que tem tanto senso crítico, não deveriam se esquivar tanto da política, e sim colocar a mão na massa.”
      Rafael, é só minha opinião, claro, mas com as regras atuais (no Brasil eu tenho certeza), não teriam a mínima chance.
      Einstein não se daria bem jogando na NBA. É por aí.

    • Mario Silvio

      02/07/2013 at 05:55

      “São pessoas maravilhosas. Da mesma forma existem pessoas maravilhosas em todos os cantos do mundo.
      Mas ao mesmo tempo existe tanto desentendimento político. Porque a política não consegue se humanizar? Não consigo entender.”
      Minha opinião? Por causa da regras do jogo. No Brasil por exemplo, com as que temos é praticamente impossível as pessoas maravilhosas serem eleitas ou assumirem cargos de 1º ou 2º escalão. No caso dos palestinos eu retiraria o praticamente da frase.

  • Raul Gottlieb

    02/07/2013 at 17:46

    Rafael,

    Não se pode culpar um escritor ou um engenheiro por gostarem mais de literatura e de engenharia do que da representação popular. O Amos Oz é um intelectual de primeira linha, mas não se enxerga com condições de ser um político.

    Faz política quem tem vontade de fazer e que acha que tem capacidade para fazer, assim como você está fazendo o que julga melhor para você neste momento.

    A meu ver é impossível retirar da equação a atuação dos eleitores. Numa democracia funcional eles elegem os políticos livremente e são os responsáveis pela representação que têm.

    Mas o quadro realmente não é muito favorável. Veja o exemplo dos USA – um país com cultura democrática muito evoluída: elegeu-se presidente um político profissional que construiu seu renome a partir de um discurso contra os … políticos profissionais.

    A democracia americana é muito evoluída e mesmo assim estas coisas acontecem por lá. Imagine então o que não acontece em países com cultura democrática menos evoluída onde os eleitores não dão a devida importância ao seu voto.

    Eu coloco o eleitor como a causa raiz da boa ou má qualidade dos políticos de um país. Numa democracia é assim que a coisa funciona, a meu ver.

    Um político “profissional” não é de forma alguma algo nefasto. Veja que Churchill, Ben Gurion e Lula são ou foram políticos em tempo integral por quase toda as suas vidas adultas e nem todos eles são ou foram nefastos para os seus respectivos países.

    Mas a minha questão não é esta. A minha questão é porque os contatos interpessoais não fluem com mais naturalidade para a política.

    Abraço, Raul

    • João K. Miragaya

      02/07/2013 at 23:08

      Só uma correção, Raul e Rafael. Amos Oz não fez carreira política, mas faz política intensamente. Nas duas últimas eleições fez campanha para o Meretz ativamente, gravando vídeos, dando declarações nos meios de comunicação e utilizando o seu prestígio para angariar votos ao que ele considera o melhor para o país. Não só durante as eleições sua opinião é compartilhada, Oz faz questão de que os outros saibam o que ele pensa. Assim como David Grossman, que dificilmente apoia um partido especificamente, mas não deixa de expôr suas críticas.

      O meio intelectual/artístico é representado aqui em Israel, tal qual os movimentos sociais e muitas minorias étnico-religiosas. Sarid Haddad, por exemplo, fez campanha para o Likud em 2009. Os tais intelectuais, não no sentido gramsciano, mas sim no que surgiu durante o Caso Dreyfuss no fim do século XIX, participam ativamente da política em sociedades democráticas ou não. E influenciam da sua forma. Qual deveria ser o seu papel vêm sendo discutido pela academia há décadas, mas não se deve ignorar que, cada um da sua forma, atua politicamente, inclusive quando opta pelo silêncio.

    • Mario Silvio

      03/07/2013 at 16:18

      ” Veja que Churchill, Ben Gurion e Lula são ou foram políticos em tempo integral por quase toda as suas vidas adultas e nem todos eles são ou foram nefastos para os seus respectivos países.”
      Lula foi, e muito. Se duvidar pergunte para a Dilma que está segurando as bombas relógio deixadas por ele.

  • Raul Gottlieb

    03/07/2013 at 17:33

    Perfeito, João.

    Não é preciso ser político para fazer política. Muito bem lembrado.

    Mas sempre acho curioso a fixação que a imprensa tem com as ditas “celebridades”. Volta e meia uma “celebridade” é convidada a falar sobre política, o que me parece bizarro, pois o ponto de vista deles é vendido como se fosse mais abalizado que o das “não-celebridades”. E muitas vezes são obrigados a falar sobre coisas que não entendem nada!

    Uma exemplo recente: no dia que morreu a Margareth Tatcher (a senhora que teve um papel fundamental na queda da ditadura argentina, que foi a primeira pedra do dominó que derrubou as ditaduras sulamericanas) a Globo fez um programa especial onde a primeira entrevistada foi a Merryl Streep! O que a excelente atriz tem a ver com o pensamento e o legado político da Tatcher? Atores são treinados para não deixar os seus próprios sentimentos interferir no dos personagens que representam. É muito engraçado.

    Ou seja, é certo que qualquer um pode fazer política sim – mas infelizmente a imprensa usa mal esta ferramenta, o que é uma pena, mas não desvaloriza o que o João colocou. Até porque o Amos Oz entende do que está falando – já vi ele passar numa pergunta cujo assunto não lhe interessava.

  • Raul Gottlieb

    03/07/2013 at 19:17

    Li agora e achei muito bom. Coloco aqui porque é o post mais recente sobre a convivência com os árabes que circundam Israel – não tem muito a ver com o texto do Rafael.

    Creio que é uma leitura importante por todos que pensam no conflito Israel – Mundo Árabe,

    http://www.israelhayom.com/site/newsletter_article.php?id=10309

    Não deixem de ler!

    • Luiz Salama

      04/07/2013 at 17:34

      Do texto citado pelo Raul Gottlieb:
      “You can achieve a temporary peace or truce, but it is not ultimate, not everlasting. It is not just about the territory. Because the territory does not belong to the people; it belongs to God. So for a Palestinian leader — even if he is secular, even an atheist — to leave the negotiating room with the announcement of a two-state solution would mean that he would be killed the minute he walks out.”

      E eu refresco a memoria: assim como aconteceu com o presidente do Egito que assinou o tratado de Paz com Israel…

  • Raul Gottlieb

    04/07/2013 at 12:01

    Ih Mario, a Dilma também semeou a sua parcela de bombas, relógio ou não. E quem está as “segurando” mesmo somos nós, que temos a felicidade de testemunhar estes tempos interessantes e estressantes. Para ela faltam apenas 18 meses de turbulência e logo vai entrar na nuvem dourada da aposentadoria presidencial.

    Eu coloquei Lula ao lado dos dois gigantes para deixar claro que ser político em tempo integral não muda nada. O resultado será péssimo ou excelente, conforme a sua capacidade, o caráter e a visão estratégica e não conforme o tempo de sua vida que dedica à política representativa, que é um questionamento do Rafael – o autor do excelente texto que comentamos.

    Outra coisa – não deixe de ler a entrevista que postei acima.Você vai gostar.

    Abraço, Raul

    • Mario Silvio

      06/07/2013 at 14:50

      Vou ler sim Raul, obrigado pela dica. Um abraço e um ótimo final de semana.

    • Mario Silvio

      06/07/2013 at 15:51

      Do texto:

      “I visited Israel for the first time in 1998 or 1999, and saw people in uniform with guns in buses, in the market, on the streets. My European friend who came with me found this so strange. You would never find this in Holland. Now all airports in Europe and the U.S. have security men, all wielding machine guns, just like I saw in Israel at the time. After the Boston marathon bombings, I think that on the Fourth of July this year there will be more security than spectators.

      So, as these liberal Western democracies are beginning to face the same challenges as Israel, or at least a tiny fraction of them — you see attitudes changing.”