A oposição trabalhista

16/07/2013 | Política.

O relativamente jovem Estado de Israel já passou por 19 eleições para a Knesset e outros três pleitos diretos para a eleição do Primeiro Ministro[ref]Pleitos ocorridos nos anos 1996, 1998 e 2000, esta tentativa de separar as eleições legislativa da executiva não foi considerada bem sucedida pelo parlamento israelense.[/ref], e já contou com 12 diferentes primeiros ministros, três deles regressaram ao cargo após deixá-lo[ref]Ben-Gurion, entre os anos de 1948 a 1963 ficou de fora somente por 14 meses, de 1953 a 1955; Itzhak Rabin substituiu Golda Meir em 1975 e renunciou em 1977, retornando em 1992 até o seu assassinato em 1995; e Binyamin (Bibi) Netanyahu foi derrotado nas eleições de 1999 e voltou a ocupar o cargo em 2009, onde permanece até hoje.[/ref]. Nestes 65 anos de existência, o país foi governado por apenas três grupos políticos: os trabalhistas, seja através do Mapai ou do Avoda,[ref]No ano de 1968 o Mapai (sigla de Partido Trabalhista de Israel) juntou-se aos partidos Achdut HaAvoda (União dos Trabalhadores) e aos ex-dissidentes do Rafi (sigla de Lista dos Trabalhadores de Israel) criando o Partido Avoda (tradução literal: Partido do Trabalho, mas em geral traduzido como Partido Trabalhista).[/ref], o Likud[ref]Maior bloco da direita israelense, resultado da fusão dos partidos Herut (dos sionistas revisionistas) e Partido Liberal[/ref] e o Kadima[ref]Partido criado em 2005 por Ariel Sharon e outros dissidentes de Likud, Avoda e dos centristas do Shinui, contestando a bipolaridade política do país até então representada pelos dois grandes partidos que haviam governado o país até então.[/ref]. Por 35 anos os trabalhistas estiveram no poder, contra 22 do Likud e quatro do Kadima[ref]De 1984 a 1988 os trabalhistas e o Likud formaram um governo de união nacional.[/ref]. De 1949 a 2005 foram raríssimos os parlamentos eleitos que não tivessem ou os trabalhistas ou o Likud entre os dois partidos mais votados. Ambos sempre foram muito mais fortes que os demais partidos, de modo que, com raras exceções, a grande maioria dos partidos históricos da Knesset ou foram incorporados por eles ou foram dissidência dos mesmos[ref]Faço menção aqui aos atuais Meretz (união dos sionistas socialistas – Mapam – com o Ratz – pacifistas – e a primeira leva do Shinui – laicos), Bait HaYeudi (união do Mafdal – sionistas religiosos – com os nacionalistas do Ichud HaLeumi),  Chadash (antigo Maki – Partido Comunista), Yahadut HaTora (fusão de Agudat Israel com o Deguel HaTora – partidos ultraortodoxos, o primeiro de linhagem chassídica e o segundo lituana). O Shas (ortodoxos sefaraditas) é uma dissidência do Agudat Israel[/ref].

O Likud (sobretudo através do Herut) acostumou-se a liderar a oposição desde antes da criação do Estado, tendo em vista que os trabalhistas eram maioria nas principais organizações sionistas do Ishuv[ref]Nome hebraico que se dá à Palestina judaica antes de 1948.[/ref]. Sua maior referência política, Menachem Begin, foi o maior ícone da oposição desde os anos 1940 até 1977, quando finalmente tornou-se o Primeiro Ministro do país. Begin praticamente criou e consolidou o conceito de oposição em Israel, e, sem saber, tornar-se-ia até os dias de hoje referência no comportamento de quem ocupa o cargo de Líder da Oposição[ref]Cargo assumido quase que invariavelmente pelo líder do partido com mais votos dentre os que não compõem a coalizão.[/ref]. Dentre os mais famosos atos oposicionistas de Begin estão: a contestação ao governo provisório formado por Ben-Gurion em 1948, quando o mesmo arbitrariamente declarou o Estado de Israel tendo a sua figura como líder sem que fosse eleito; a feroz oposição ao recebimento da Compensação Alemã pelos judeus vitimados pelo Holocausto; e a forte crítica ao tratamento dado aos imigrantes judeus de origem oriental em detrimento aos europeus, sobretudo nos anos 1970. Mas não só de críticas se fez a atuação de Begin na oposição: o líder do Likud, conhecido como um grande estadista até mesmo por parte de seus inimigos, deixou as diferenças de lado e ingressou à coalizão governista em momentos cruciais, como as guerras de 1967 e 1973. Os mais de 30 anos chefiando oposição que deram a Begin o status de maior referência de oposicionista no país, também nos indicam algo mais: a não alternância de líderes no comando do Likud. De 1948 a 1982 Begin foi o líder máximo do partido com pouquíssima contestação.

 

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Foto 1: Menachen Begin

 

No outro grande bloco a situação não era tão parecida. Nem mesmo Ben-Gurion, maior referência política do país, teve paz no seu partido. Alguns podem alegar que o ego do ex-Primeiro Ministro era grande demais, e que era ele quem não dava paz aos seus “aliados”. Mas o fato é que Ben-Gurion teve de realizar algumas manobras políticas (nem sempre bem-sucedidas, diga-se de passagem) para manter seu prestígio em alta dentro do partido, como a renúncia ao poder em 1953 e a criação do Rafi para concorrer contra seus antigos aliados. Apesar dos quase 14 anos no poder, o líder desde meados dos anos 1960 já não era mais a referência no(s) seu(s) partido(s) tal qual Begin era do outro lado. De 1948 a 1982, enquanto o Likud teve só um líder, os trabalhistas tiveram seis[ref]Ben-Gurion, Moshe Sharet (1953-55), Levi Eshkol (1963-69), Golda Meir (1969-74), Itzhak Rabin (1974-77) e Shimon Peres (1977-92).[/ref]. Curioso? Fica mais interessante quando temos em conta que Golda Meir e Rabin não suportavam Shimon Peres, e tampouco se davam bem entre si. Ben-Gurion rompeu com Meir e outros líderes dos trabalhistas em 1963, como Itzhak Lavon e Abba Eban. O famoso Ministro da Defesa Moshe Dayan era inimigo político de praticamente todos os líderes trabalhistas, tendo, inclusive, feito parte do governo Begin. Enfim: apesar de sempre formarem o governo, não havia consenso entre os trabalhistas nos anos 1960/70.

 

Os anos 1980 ficaram marcados por lideranças fixas dos dois lados: Shimon Peres, no Avoda, e Itzhak Shamir, no Likud, lideraram tanto seus partidos quanto o Estado revezando-se, entre 1984-88. O fim desta estabilidade se deu quando Peres tentou romper com Shamir em segredo (estratégia fracassada conhecida como “Manobra Suja”): o fracasso de Peres levou Rabin a postular e conquistar o cargo de líder do partido, enquanto o isolamento de Shamir o fez ser derrotado nas eleições de 1992 e abandonar definitivamente a política. Rabin conseguiu por três míseros anos unificar as forças do partido na sua pessoa, enquanto no Likud, após 10 anos de liderança de Shamir, outros líderes surgiam: Netanyahu e Sharon. O primeiro venceu a disputa interna, mas sem se livrar do rival. O Likud teve um breve período de Avoda, enquanto o Avoda viveu anos de Likud.

 

O assassinato de Rabin acabou com o relativo período de paz dos trabalhistas Uma história curiosa se inicia no seio dos trabalhistas após 1995: todos os que foram eleitos líderes trabalhistas desde Rabin abandonaram o partido para participar (ou liderar) a criação de outros partidos[ref]Peres em 2005 deixou o Avoda rumo ao Kadima após perder as eleições internas para Amir Peretz. Este teve a mesma atitude no ano passado após ser derrotado por Shely Iechimovitch, migrando para o HaTnua de Tzipi Livni. O mesmo destino teve Amran Mitzna, líder trabalhista entre 2001-04. E Barak, para manter-se na coalizão, abandonou o Avoda em 2011 para fundar o já extinto HaAtzmaut.[/ref] (e de Israel), mas não deu tranquilidade ao Likud e Netanyahu venceu Peres, elegendo-se Primeiro Ministro, mas sofria com a oposição de quase metade da Knesset e não tinha a confiança do seu partido por não ser um homem com experiência militar como eram Begin, Shamir e Sharon. O Avoda elegera Barak como seu líder, militar mais condecorado da história do exército israelense, e a este foi incumbida a missão de derrotar Netanyahu. Barak não permaneceu por muito tempo nem como Primeiro Ministro nem como líder do partido: em 2001 assumiu a chefia Amran Mitzna, que renunciou em 2005. Após Mitzna assumiu Amir Peretz (2005-07), que deu lugar a Ehud Barak (2007-11), sucedido por Shely Iechimovitch (desde 2011).

 

No Likud, Ariel Sharon venceu o pleito de 2000 e governou o país por cinco anos. Seu mandato só foi interrompido por problemas de saúde. Sua permanência no Likud, no entanto, foi interrompida anteriormente. Sharon não contou com o apoio do partido quando deu início ao Plano de Desconexão de Gaza, e o deixou para criar o Kadima. Netanyahu retornou ao comando do Likud há quase 10 anos, onde permanece até hoje. Bibi é o quarto líder de toda a história do Likud. Quatro é o número de líderes que o Avoda teve desde que foi governo pela última vez, em 2000 (excluo desta lista os provisórios). E caminha para mais uma troca de comando.

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Foto 2: Begin, Sharon e Shamir com o ex-presidente egípcio Sadat.

Shimon Peres foi o líder trabalhista a ocupar a cadeira de líder da oposição por mais tempo, e não ficou conhecido como um grande oposicionista. Os poucos meses que antecederam às eleições de 1992 fizeram de Rabin o mais marcante oposicionista dos trabalhistas na história, suficientes para derrubar o Likud do poder após quase 15 anos. De 1992 a 1995, Netanyahu construiu sua imagem como um fortíssimo oposicionista ao governo Rabin, atuação esta repetida quando Olmert (Kadima, 2006-09) chefiou o governo. O cargo de líder da oposição, apesar de muito prestigiado, não deu destaque a ninguém que não Sharon e Netanyahu de 1992 até os dias de hoje. Peres, Barak e, especialmente Tzipi Livni, possuem uma rejeição muito alta à forma como desempenharam seu cargo de líder da oposição. E é aonde chegamos.

 

A líder da oposição hoje é Shely Iechimovitch, do Avoda. Jornalista de profissão e parlamentar desde 2006, a trabalhista venceu Amir Peretz nas plenárias do partido em 2011 e teve a chance de encabeçar a lista trabalhista nas últimas eleições. O baixo número de 15 assentos (o segundo menor da história dos trabalhistas) abalou a moral de Iechimovitch. A líder foi responsabilizada pelo fraco desempenho eleitoral, e sua estratégia de disputa foi duramente criticada por militantes do partido, cientistas políticos e jornalistas. Shely foi acusada de negligenciar determinados pontos, como o processo de paz, e não mostrar-se uma liderança forte o suficiente para enfrentar o governo. O Avoda, pela segunda vez consecutiva, não figurou entre os dois partidos mais votados. E o partido que mal saíra de uma crise, novamente se via afundado em outra.

 

Eu, particularmente, não votei nos trabalhistas. E concordo com as críticas sofridas pela líder em relação à campanha do partido. Não deixei de votar nos trabalhistas por causa de sua campanha nem de sua líder, mas compreendo os que o fizeram. Iechimovitch, no entanto, teve a chance de ingressar na coalizão e abocanhar um bom ministério durante o impasse que se deu na formação do governo atual. A líder recusou mais de uma vez convites do Primeiro Ministro, demonstrando que, pela primeira vez desde 1999, os trabalhistas estavam contrários à forma de comandar o país. Shely afirmou que entre fazer parte do governo e liderar a oposição, seria mais coerente assumir a segunda alternativa. E foi o que fez. Desde março Shely Iechimovitch é a Líder da Oposição de Israel. E segundo a minha avaliação, ela vem desempenhando o seu papel muito bem.

Em pouco mais de três meses Shely já está se destacando no seu cargo. A líder trabalhista baseou sua campanha em um programa de Estado de bem estar social (nos moldes da social democracia europeia), e fez disto a sua bandeira. Como não podia deixar de ser, Shely vêm atacando incessantemente o Ministro das Finanças Yair Lapid (Yesh Atid) por todos os cortes apresentados no orçamento dos próximos dois anos, já aprovado. Lapid, igualmente jornalista, tem como hábito o uso do Facebook para se comunicar com a população. Em uma de suas postagens, Lapid foi questionado por… Shely Iechimovitch! A líder da oposição o enfrentou justamente no canal mais apreciado pelo ex-apresentador de televisão. Mas Shely não parou por aí: apresentou dois projetos contendo contra-propostas, solenemente ignorados pelo governo. No dia da votação do orçamento, Shely, em seu discurso, disse a Lapid: “Você não é má pessoa, mas simplesmente não tem noção de onde vive. Sua política fiscal é depravada.” Iechimovitch participa de diversas comissões e não dá descanso ao governo. Recentemente ameaçou ir à Suprema Corte caso os direitos de exploração do gás natural encontrado no território israelense seja totalmente privatizado. Da mesma forma, no entanto, ela não se mostra intolerante: há duas semanas disse publicamente a Netanyahu que, caso ele volte a negociar a paz com os palestinos, terá o seu apoio. Enfim, Shely vem tendo o desempenho esperado de um líder da oposição que claramente se difere do atual governo por questões ideológicas. É tudo o que se espera de quem ocupa este cargo.

A maioria dos cientistas políticos está destacando a atuação de Shely. O seu nome é quase que diariamente citado nos principais jornais do país. Mais de 250 pessoas se filiaram aos trabalhistas nas duas últimas semanas de junho. Estão todos satisfeitos, certo? Errado. Desde as eleições, o parlamentar e sindicalista Eitan Cabel (número 3 da lista) vêm pressionando Iechimovitch para antecipar as primárias do partido, e já se lançou candidato a sucedê-la. Cabel não quer saber se Iechimovitch desempenha seu papel bem ou mal, apenas a responsabiliza pelas 15 cadeiras na Knesset e promete conseguir mais da próxima vez. Cabel apoiou Amir Peretz nas últimas primárias do partido contra Iechimovitch, e saiu derrotado. Seu grupo político não quer perder a oportunidade de retornar a liderar o partido, e transforma o bom momento de Shely em crise. A líder não resistiu e marcou as primárias para novembro deste ano, mas já ofereceu a Cabel o segundo lugar do partido para que desistisse de concorrer. Eu não acredito que ele aceite.

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Foto 3: Eitan Cabel

 

Podemos listar diversos motivos pelos quais os trabalhistas perderam força nos últimos anos: crise da esquerda mundial, fracasso nas negociações com os palestinos, assassinato de Rabin, sucessivas participações em coalizões governistas impopulares, e outros. Mas certamente uma das principais razões pelas quais o Avoda encontra-se nesta terrível situação é a oposição que cada líder encontra internamente. Ninguém nunca teve uma paz duradoura para comandar o partido, ao contrário dos principais rivais do Likud. É muito difícil fazer uma oposição consistente quando se está sofrendo uma forte oposição por trás. Com amigos assim, quem precisa de inimigos? Talvez por isso tantos líderes do Avoda tenham optado por formar  governos esquizofrênicos com adversários políticos: pelo menos afastavam um dos inimigos. E quem perde com isso é Israel, sobretudo os que desejam uma oposição consistente e ideologicamente coerente. Percebemos uma oposição trabalhista em duas direções: interna e externa. Até mesmo quando os trabalhistas são oposição, sofrem com a oposição. Esta última, diga-se de passagem, tem se mostrado mais forte do que a primeira.

Fotos retiradas dos sites:

Foto de capa: http://www.themarker.com/polopoly_fs/1.1565277!/image/261902391.jpg

Foto 1: http://www.nrg.co.il/images/archive/465×349/445/492.jpg

Foto 2: http://www.ynet.co.il/PicServer2/20122005/698742/D344-117_wa.jpg

Foto 3: http://msc.wcdn.co.il/w/w-700/140418-5.jpg

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