A origem do Sevivon

Se você não gosta de ter seus mitos quebrados, não leia este texto, porque vou contar como o Sevivon não tem nada a ver com a festa de Chanuka. E o milagre na verdade foi lá, não aqui.

Origens

Tudo começou na região onde hoje é a Alemanha, no século 16. As crianças, tanto cristãs quanto judias, usavam um cubo especial como “roleta” de um jogo de apostas. O cubo tinha um espeto atravessando duas faces opostas, de forma que a parte mais longa era usada para se girar com os dedos, e o cubo rodava sobre a pontinha do outro lado. Nas outras quatro faces estavam escritas quatro letras.

  • Nun = נ = Nisht em yidish, Nada acontece. A vez passa para o próximo.
  • Gimel = ג = Gantz em yidish significa cheio/tudo, o jogador ganha tudo.
  • Hei = ה = Halb, o jogador leva metade.
  • Shin = ש = Shtel Ain, o jogador coloca uma moeda no monte.

Não se sabe bem de onde o jogo surgiu, talvez tenha sido trazido ainda antes à Alemanha da Irlanda ou Inglaterra. Obviamente, originalmente as quatro letras eram latinas, indicando as mesmas regras. Em sua pintura “Jogos de Crianças” de 1560, o artista flamengo (não o time, flemish em inglês) Pieter Bruegel nos dá uma ideia de como o pião se parecia.

O que Chanuka tem a ver?

Nada. Quando o jogo chegou a comunidades judaicas com menos intimidade com o yidish, tentou-se encontrar boas explicações para as quatro letras. Alguns diziam que teria a ver com as quatro civilizações que tentaram destruir os judeus (babilônios, persas, gregos e romanos), mas claro que as letras não combinam, então esta é uma explicação furada. Uma outra explicação é que a soma do valor numérico das quatro letras (gematria) é 358, o mesmo valor de Mashiach, o messias. Não, fraco também. Próxima.

A melhor explicação mesmo, a que pegou forte e fundo, é que as quatro letras seriam da frase Nes Gadol Haya Sham (נס גדול היה שם), ou seja, “um grande milagre aconteceu ali”, o slogan máximo da festa de Chanuka. Junte-se a isso o fato de que durante a festa a molecada não tem aula, e ficam todos jogando e apostando com piões, e pronto, um símbolo está formado.

Em Israel o pessoal ri quando descobre que os judeus de fora da terra santa tem piões defeituosos, aqueles que dizem que um milagre aconteceu ali (Sham, com a letra Shin), e não aqui (Po, com a letra Pei). Que incultos, viu?

Claro que foi o contrário, no começo do século 20, educadores judeus na Palestina adaptaram o pião para a geografia local. Comparem as duas versões na imagem abaixo.

O nome

Em hebraico o pião se chama Sevivon (סְבִיבוֹן), mas muita gente também diz Svivon. Como é de se esperar, vem da milenar raiz hebraica SVV que significa girar, rodar. O nome Sevivon, contudo, é recente. Itamar Ben Avi, filho de Eliezer Ben-Yehuda, diz que foi ele mesmo quem inventou a palavra, com apenas 5 anos de idade. Contudo, o escritor e jornalista David Yeshaya Silberbusch diz que foi ele quem inventou, em um artigo no jornal Hatzfira, em 1897 (quando Itamar Ben Avi já tinha 15 anos). Treta.

Os judeus dos Estados Unidos usam o tradicional nome yidish para o pião, Dreidel, derivado do verbo Dreyen, girar.

Não importa

E daí que na verdade o Sevivon não tem nada a ver com a vitória dos Macabeus ou com o milagre do óleo que durou 8 dias? O sevivon é um símbolo indiscutível da festa de Chanuka, e nenhum chato como eu vai conseguir tirar a diversão da molecada. Fico por aqui.


Fontes: Forward, Wikipedia.
Imagem de capa: adaptação minha (Yair Mau) de uma imagem do Flickr de Taymaz Valley, segundo a seguinte licença Creative Commons.