A ortodoxia e o cerco a Jerusalém

Era madrugada quando um grupo de soldados – apelidados de 3º batalhão – iniciou a marcha em direção a missão mais importante da guerra de independência, em 1948. Os 87 soldados haviam chegado cedo à base improvisada ao lado de um pátio de um antigo colégio inglês. Pouco a pouco, foram se despindo de seus trajes negros e do chapéu característico. Vestiram o uniforme do exército israelense, calcaram as botas e preparam suas armas. Ouviram com atenção as ordens do comandante, que na verdade se resumia a uma só: acabar com o cerco a Jerusalém. Rezaram o “shema Israel” em voz baixa e saíram em direção ao exército inimigo.

Este grupo de soldados representa apenas um, dos muitos exemplos, de batalhões compostos por soldados ortodoxos que lutaram na guerra de independência, há 60 anos, objetivando o estabelecimento do Estado de Israel e a cristalização do ideal sionista. Não seria incorreto afirmar que estes 87 soldados, que doaram suas vidas a uma causa, ajudaram a construir o nosso presente – uma Jerusalém livre e capital do Estado Judeu Democrático.

Poucas pessoas conhecem esta história. Passados todos estes anos, a ortodoxia mudou aos olhos da sociedade israelense. Considerados por muitos como “parasitas”, grande parte não trabalha, vivendo à custa do Estado. A maioria não serve o exército, exercendo um desigual direito legal. O monopólio do tribunal ortodoxo nas questões referente ao direito de família e status pessoal cria uma cisão na população que almeja, se não o reconhecimento das demais correntes judaicas, a total separação entre Estado e religião.

A crise que desejo relatar começou há pouco tempo. Em resumo: a comunidade ortodoxa de Jerusalém, organizada e com forca política, decidiu que Jerusalém deve se tornar ortodoxa. Em 2009 demandaram aos cofres do Estado o estabelecimento de linhas de ônibus “kasher”, onde homens sentam na frente e mulheres sentam atrás. Há ruas em mea shearim que começaram a estabelecer calcadas e pontos de ônibus divididos por gênero.

Na eleição para a prefeitura a empresa de transportes Egued se recusou a estampar a foto de uma candidata mulher com medo de represálias. Um grupo de mulheres que se reunia no muro das lamentações pela ocasião do rosh chodesh foi atacada violentamente por um grupo de 30 pessoas pelo “crime” de colocar o talit e rezar em voz alta.

No último mês, o novo prefeito da cidade – Nir Barkat – decidiu pela abertura no shabat do estacionamento publico localizado na praça Safra ao lado da cidade velha. Sua idéia era aproveitar o crescimento do turismo dos finais de semana proporcionando ao público um lugar seguro e perto das atrações da cidade. Esta decisão gerou uma insurreição ortodoxa como há muito não se via em Israel.

Acusando-o de profanar o dia santo judaico, dezenas de judeus ortodoxos manifestam o seu descontentamento, de forma violenta, agressiva e irresponsável. Queimando latas de lixo, agredindo fisicamente, jogando objetos variados, xingando e cuspindo os repórteres e policiais. Um porta-voz de um jornal comunitário afirmou que: – “esta e’ uma luta pela preservação da característica primordial da cidade e nos não iremos desistir.”

Na última sexta-feira, dia 7 de agosto, anoitecia quando o grupo se reuniu ao lado do estacionamento. Despiram-se pouco a pouco dos seus valores democráticos. Vestiram os trajes negros e o chapéu característico. Ouviram com atenção a ultima ordem: – cercar Jerusalém – Rezaram o “shema Israel” em voz baixa e saíram em direção ao exército inimigo.

Infelizmente, o inimigo da vez, era a liberdade.

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Comentários    ( 2 )

2 comentários para “A ortodoxia e o cerco a Jerusalém”

  • João Koatz Miragaya

    25/12/2012 at 14:48

    Belo artigo, Marcelao. Pode-se adicionar mais outras diversas manifestacoes violentas e intolerantes por parte do publico ultraortodoxo, como o apedrejamento do edificio na Intel na cidade santa, tambem. Deve-se recordar, no entanto, de que a maioria destes charedim nao se comporta de forma violenta, sobretudo fora de Jerusalem. Esta minoria agressiva faz muito barulho, mas nao eh hegemonica.

  • Flávio Rabinovici

    25/12/2012 at 17:00

    Belo artigo! Muito interessante também o que disse o João,deixando bem claro que há uma minoria ultraortodoxa muito barulhenta que complica muito a situação de uma maioria(talvez) religiosa que prega por uma sociedade justa,com religião e estado separado,e talvez com uma outra parte(talvez também minoria) que faz parte, intrinsecamente, da sociedade israelense,fazendo exercito,votando,PAGANDO IMPOSTOS, e trabalhando!
    seria interessante também, citando o João outra vez, observarmos o comportamento de comunidades charedim em outra partes de Israel que não em Jerusalém!
    Mais uma vez,excelente artigo!
    VAI TRICOLOR! RUMO A MARROCOS!

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