A rua do pecado

Sexta à tarde. Jerusalém. A cidade começa a adormecer. Vem o Shabat, dia de descanso. Tudo, ou quase, fecha. Pois, em seis dias, Deus fez os céus e a terra, e no sétimo terminou sua obra e foi repousar. Uma vez por semana, há um feriado na cidade santa, onde vivem muitos religiosos, que cumprem à risca os preceitos judaicos: Shabat e comida Kasher. Não misturar carne com leite e derivados. Não comer animais do mar, que não tenham escamas e nadadeiras. O livro Levítico, do pentatêuco, explica bem a questão.

Foto aérea da rua.
Foto aérea da rua.

Voltamos a Jerusalém. Está começando o dia do descanso. Sexta-feira, fim da tarde. Milhares rezam em sinagogas. Voltam para suas casas caminhando e vão jantar. Ficam tranquilos e desligados até sábado à noite, quando a semana recomeça.

Dentre os vários rabinos importantes da história, Hillel nasceu na Babilônia e foi para a Terra de Israel aos 14 anos, meio século antes da Era Comum. Tornou-se um dos responsáveis pelo estabelecimento da Halachá, conjunto de leis da religião judaica. Em sua homenagem, existe rua no centro da capital israelense.

Sexta-feira à noite. Estamos em pleno Shabat. Centenas de jovens transitam pelas ruas, em pleno coração de Jerusa. Chegam até a Hillel por baixo, ou descem o declive, vindo da King George. Um a um, lado a lado, estabelecimentos abertos, lotados de gente, oferecem de tudo. Desde o cheeseburguer, com muito queijo, a bares com shows e cerveja.

O primeiro Aroma de Israel foi na Hillel.
O primeiro Aroma de Israel foi na Hillel.

Dois mercadinhos 24 horas garantem compras de última hora aos moradores da região. O mar de pessoas ocupa as calçadas. A Chilli Pizza, meu local preferido, vende fatias, de sabor calabresa, ou pepperonni, aos borbotões. Tem tele entrega até altas horas da madrugada. Meu primo, Yoni Listik, mestrando em Filosofia, trabalhou lá e honrou a família.

São jerusalmitas que curtem, ou profanam, o Shabat aos seus modos. Eles nem dão bola quando, de hora em hora, um judeu ultraortodoxo, de sobretudo preto, desce a rua, olhando para os lados, procurando alguma “ovelha desgarrada”. Vira e mexe, pode-se ver alguém escondido, atrás de uma pilastra.

Chilli Pizza, o alvo dos jovens da Hillel.
Chilli Pizza, o alvo dos jovens da Hillel.

Hillel, o sábio, o justo, o rabino, deu nome à rua do pecado. Da profanação do Shabat, da comida não-kasher. Aliás, a Chilli Pizza se encarrega de vender calabresa até em Pessach, Páscoa Judaica, quando não se deve consumir farinha fermentada.

É verdade que não trata-se da única via da capital, com opções no Shabat. Entretanto, é por lá que os jovens se espalham, ocupam seus espaços, fazem o que der na telha. A rua Hillel é de todos. Do pecado, do religioso, de Jerusa e do mundo.

Foto da capa: Marcos Gorinstein

Comentários    ( 17 )

17 Responses to “A rua do pecado”

  • Marcelo Starec

    04/03/2015 at 20:28

    Oi Nelson,
    Muito bom o seu artigo!…Gostei da história do Hillel e entendo que Israel deve ser um País de todos, Judeu e Democrático!…Devem ser totalmente respeitados aqueles que seguem a religião, mas não se deve obrigar ninguém a isso. Muitos ortodoxos, que fazem questão de cumprir os preceitos religiosos, com quem já conversei ao longo da vida, também acham isso, ou seja, que as pessoas devem ser convencidas a seguir a religião por vontade própria e não de modo coercitivo. Todos devem ser respeitados, até mesmo por que nem todos são judeus.
    Abraços,
    Marcelo.

  • Vando Neves

    08/03/2015 at 21:37

    Muito bom artigo Nelson.

    A muitos anos admiro o povo e a Nação Israelense, tanto que tenho filhos que se chamam Sara, Gabriel e Davi. Estudo hebraico a mais de 2 anos.

    Acredito que uma Nação moderna só sobreviverá se respeitar as individualidades e estas mesmas individualidades também respeitarem os valores da Nação.

    Israel é uma Nação milenar e também deve respeitar as minorias e as minorias também devem respeitar os valores e princípios que justamente mantiveram esta grande Nação unida e que influenciaram tantas pessoas ao redor do mundo, inclusive não Judeus como Eu.

    Neste instante em vejo meu país mergulhado em corrupção e outras mazelas, como gostaria de viver e me dedicar a uma Nação como Israel.

    • Nelson Burd

      08/03/2015 at 23:16

      Vando, definiste o que eu acredito que deve ocorrer sempre em Israel. Obrigado pelo contato. Abraço, Nelson.

  • Otávio Zalewski

    09/03/2015 at 12:44

    Muito boa a sua coluna Nelson, como sempre. Apenas discordo, defendo que pelo menos em Jerusalém se respeite o Shabat plenamente, senão porque ter um país para o povo judeu. Abraços, Otávio Zalewski.

    • Nelson Burd

      09/03/2015 at 14:58

      Obrigado, Otavio. Esta questao do Shabat envolve as varias correntes religiosas existentes, alem dos direitos de ir e vir dos cidadaos. Jerusalem recebe o respeito devido de todos. Ha bairros com cancelas, por exemplo, onde nao entram carros no Shabat. Agora, ha lugares em que existe certa liberdade. Estes dois lados sao respeitados e devem ser. Sao as opcoes de vida dos moradores. Abraco.

    • Mario S Nusbaum

      10/03/2015 at 17:19

      Para, entre muitas outras coisas, ser fácil respeitar o Shabat plenamente Otávio

  • Rafael Stern

    10/03/2015 at 02:09

    O que é respeitar o Shabat plenamente?

    • Nelson Burd

      10/03/2015 at 10:35

      Seria segundo a Halacha, segundo a tradicao. Nao fazer nenhum trabalho. Abraco.

  • Fábio

    02/09/2015 at 15:44

    Caro Nelson, os urub…quer dizer, os ditos ortodoxos falam não em “trabalho” ou só trabalho, falam em “não transformar” nada. Riscar um fósforo ou acender a luz não é trabalho (entre tantos exemplos), mas transforma alguma coisa e isso é o que em tese, evitam. É certo que boa parte deles usam de recursos para driblar as restrições de maneira no mínimo curiosa, os “engana Deus”, como elevadores que funcionam de maneira intermitentes; dispositivos para ligar ar condicionados, luzes ou o que for automaticamente. Ou contradição ainda mais grave, contratam um “goy shabat” (que pode até ser judeu) para fazer tudo que consideram proibido, embora o texto original mencione que até os seus animais devem descansar no sábado. Com um abraço, Fábio.

    • Nelson Burd

      02/09/2015 at 16:45

      Cada um, cada um. O ideal, para mim, é cada um poder fazer o que bem entende, segundo sua crença e mente. Abraço.

    • Fábio

      02/09/2015 at 17:15

      Sem dúvida, mas a proposição desses supostos ortodoxos (como os demais supostos ortodoxos de *todas as religiões organizadas*) tem como projeto e agenda, em síntese, tomar o poder de modo a impor obrigatoriamente a sua visão particular do que entendem como crença a todos os demais seres humanos.

      A perspectiva deles não é a mesma que a sua. Idem a tolerância.

      Com um abraço, Fábio.

    • Nelson Burd

      02/09/2015 at 17:58

      Como eu te falei antes, cada um, cada um.
      Israel possui esta liberdade até em Jerusalém. Os ultraortodoxos incomodam e tentam impor muita coisa, é verdade. Mas, tem muitos que respeitam outras tendências.

    • Fábio

      02/09/2015 at 18:25

      Sim claro, pois não tem ainda o poder completo e impor a totalidade do que gostariam. Na maioria dos casos não me parece se tratar de uma postura tolerante, mas sim uma postura de adaptação dentro do que é possível impor. Basta dar mais oportunidade, espaço ou poder, que eles (“eles”, termo genérico, mas…) não terão limites quanto ao restante.

    • Nelson Burd

      02/09/2015 at 20:08

      É possível, mas trata-se de grupo muito restrito. Por outro lado, existe muito mais gente lutando pelos direitos civis.

    • Fábio

      02/09/2015 at 23:34

      Caro Nelson, gostaria de ter o seu otimismo. Eles tem aumentado exponencialmente o número de indivíduos, a participação política e a intenção de estender a sua perspectiva de judaísmo de forma impositiva a todos os demais judeus. Sem falar do fato que geram muito mais filhos e proporcionalmente tem índices de assimilação muito menores do que os demais judeus em qualquer comunidade. Tomara que você tenha razão e eu não. Com um abraço, Fábio.

    • Nelson Burd

      03/09/2015 at 08:49

      isto acontece com alguns ultraortodoxos, não são todos.