A Solução do Conflito

camelos

Escrito por: Marcelo Treistman


Um velho homem encontrava-se a beira da morte. Era chegada a hora de escrever seu testamento dividindo a sua propriedade entre os três filhos. Tudo o que possuía em sua vida eram 17 camelos. O documento foi escrito e era claro: “
A minha herança será dividida da seguinte forma: o meu filho mais velho receberá a metade de tudo o que possuo. O meu filho de meio receberá 1/3 do meu espólio. O caçula terá direito a 1/9 de minhas posses“.

 Após sua morte, quando os herdeiros tiveram acesso às palavras do testamento ficaram muito confusos. Afinal de contas, como poderiam dividir os camelos segundo o desejo do pai? – 17 não era divisível por 2, por 3 ou por 9. A demora na divisão dos camelos acabou gerando um profundo mal-estar familiar. Brigas foram iniciadas, junto a acusações e palavras de ameaça. A união da família estava à beira de um colapso.

Após um período de angústias, decidiram procurar um sábio seguindo o conselho de um parente próximo. Ele seria, segundo o parente, a única pessoa capaz de resolver a dolorosa questão. Os filhos fizeram uma longa viagem até a casa daquele que poderia resolver o grande problema. Foram recebidos com grande hospitalidade e contaram então sobre a questão que os afligia. Após alguns minutos de reflexão, o sábio pronunciou:

“Infelizmente, eu não tenho como solucionar este problema. Queiram por favor aceitar um dos meus camelos como compensação por sua longa viagem. É tudo que posso fazer por vocês.”

Ao perceber que possuíam agora 18 camelos, os filhos se abraçaram alegres: o problema havia sido solucionado e o desejo do falecido pai havia sido contemplado.

a)      O filho mais velho ficou com metade dos 18 camelos = 9 camelos

b)      O segundo filho ficou com um terço dos 18 camelos = 6 camelos

c)       O terceiro filho ficou com um nono dos 18 camelos = 2 camelos

E o incrível aconteceu: nove + seis + dois = 17 camelos.

O último camelo, aquele que há pouco fora presenteado, foi devolvido com grande emoção para aquele senhor tão inteligente. Um problema que antes parecia indecifrável foi solucionado de forma extremamente simples. Tudo o que os filhos precisavam era do 18º camelo.

Ao redor do mundo, e inclusive em Israel, a estória acima (com o perdão aos matemáticos de plantão que identificaram logo no enunciado que a soma das parcelas ditadas no testamento não corresponde a um inteiro) é utilizada como exemplo de mediação inteligente de conflitos em muitos dos cursos e palestras que versam sobre o tema. O “camelo” seria uma grande metáfora para informar aos alunos, ouvintes ou leitores, que não há enigma que não possa ser decifrado e não há problema que não se possa encontrar a solução. O 18º camelo sempre poderá ser encontrado.

Na última semana, assisti ao documentário israelense Shomrei Hasaf (traduzido para o inglês como: “The Gatekeepers” – ainda sem tradução em português), dirigido pelo cineasta Dror Moreh e candidato ao Oscar de melhor documentário em 2013. Recomendo fortemente o filme a todos aqueles que se interessam pelo enigma do Oriente Médio.

Desde já advirto: se decepcionará aquele que buscar informações sigilosas sobre o processo de paz ou de guerra, ou aquele que espera assistir um filme de espionagem à la 007.

A história conta sobre a formação e atuação do Shin Bet (serviço secreto de Israel) no cenário do conflito entre israelenses e palestinos. A narrativa é elaborada através da perspectiva de seis chefes do serviço secreto, combinando entrevistas com a exibição de documentos e fotografias trabalhadas digitalmente.  Analisa com profundidade o papel desempenhado pelo Shin Bet, desde a Guerra dos Seis Dias em 1967 até os dias de hoje.

A novidade e grandeza do cineasta é o fato dele ter tido sucesso em reunir – pela primeira vez na história – seis chefes do serviço de inteligência israelense expondo as suas visões do conflito. Em frente à câmera, portanto, estão seis indivíduos que representavam (e ainda representam) o Estado de Israel no dia a dia da mediação com os palestinos. Não acredito que existam muito mais pessoas vivas hoje que conheçam a realidade e o cotidiano do conflito pelo lado israelense do que estes seis indivíduos.

Israel - ConexaoIsrael - The Gatekeepers
Site oficial do filme: http://www.thegatekeepersfilm.com/

Gostaria de dividir com vocês apenas os pontos de convergência entre eles, expondo algumas frases que simbolizam as unanimidades:

  1. O terrorismo islâmico não será solucionado com operações militares. A força e capacidade técnica em nosso país é – de fato – algo indescritível. Mas enquanto Israel desenvolve aviões não tripulados, o fundamentalismo se especializa em convencer um número cada vez maior de jovens a se explodirem em um supermercado com um cinto recheado de bombas.

    “Não estamos produzindo nenhuma estratégia, estamos apenas desenvolvendo táticas” Yuval Shalom Diskin – Chefe do Shin Bet de 2005 a 2011

    A paz não será alcançada através de ofensivas do exército. A paz deverá ser construída em um sistema de confiança. Alguém como eu, que conhece tão bem os palestinos, digo que não deverá ser um problema a criação deste sistema entre nossos povos” Avi Dichter – chefe do Shin Bet de 2000-2005.

  2. A defesa do país é necessária. Existem grupos fundamentalistas que objetivam destruir Israel e atingir alvos civis. Esta defesa exige de Israel um questionamento moral, ético e legal constante que é inexistente em outros países do mundo. Cada um dos seis entrevistados tinham a responsabilidade de decidir sobre a vida e a morte de indivíduos. Eram eles que davam a palavra final para a execução dos assassinatos  de terroristas envolvidos no planejamento de ataques ao país e tortura de presos para a obtenção de informações que contrubuíram para prevenir dezenas de  atentados e mortes do lado israelense.

    “Ainda que você saiba que você autorizou o assassinato de um terrorista que planejava atentados terroristas em seu país, com todas as comprovações e evidências… Ainda que a operação tenha sido um sucesso, que o resultado tenha sido estéril e sem danos colaterais a inocentes… Ainda assim, você pensa: há algo que não é natural nesta história… o poder de decidir sobre a vida ou a morte de um terrorista é algo que te influenciará pelo resto de sua vida” Amihai “Ami” Ayalon – Chefe do Shin Bet de 1996 a 2000 

    “Não me pergunte sobre moralidade quando estamos conversando sobre o combate ao terrorismo. Antes de me fazer esta pergunta, você deverá encontrar a moral que existe nos terroristas. No combate ao terror, esqueça esta palavra”. Avraham Shalom – Chefe do Shin Bet de 1980 a 1986.

  3. A negociação com os palestinos não é só possível como necessária. Todos os seis chefes da inteligência de Israel nos ultimos 30 anos, negam a minha crença pessoal de que não existem parceiros para a paz do lado árabe. Eles deixam claro que o diálogo é possível até mesmo com grupos como o Hamas e Jihad.  E ainda expressam que a não obtenção de um processo verdadeiro de paz se origina em grande parte na omissão de governos de direita e esquerda israelense ao longo de todos estes anos.

    “Se os palestinos decidem que não há diálogo com Israel, realmente não há o que fazer. O problema é quando o governo de Israel decide não mais sentar na mesa de negociação…”Carmi Gillon – Chefe do Shin Bet de 1995 a 1996.

  4. A ocupação sobre os territórios conquistados na Guerra dos Seis Dias em conjunto com a crescente expansão de colonos e assentamentos possui consequências nefastas na sociedade israelense com influência direta na cultura e educação de todo o povo. A desocupação dos territórios e criação de um Estado Palestino é urgente para garantir uma sociedade saudável.

    “O futuro é negro. A ocupação provoca uma mudança na natureza da população. Nós colocamos a maioria de nossos jovens em um exército que é uma contradição em termos… Ao mesmo tempo ele atua para a defesa de nosso povo, ele também promove – por diversas vezes – uma cruel ocupação”.Avraham Shalom – Chefe do Shin Bet de 1980 a 1986.

Após assistir um filme como Shomrei Hasaf saímos todos um pouco mais confusos. Afinal de contas: devemos combater o terrorismo ao mesmo tempo que devemos ter em mente que nenhuma intervenção militar solucionará a questão. Devemos estar preparados para o diálogo com grupos que deixam claro em sua ideologia a impossibilidade de convivência com o que não é Islãmico.

E ainda, existem perguntas retóricas que – obviamente – não poderão ser respondidas: caso Israel se retirasse hoje dos territórios, o país estaria mais ou menos seguro? A paz, sairia ganhando ou perdendo? O mundo estaria mais perto ou mais longe da única solução possível para o impasse, a saber: “Dois povos, dois estados”?

Sinto muito decepcioná-los. Como vocês podem perceber, o filme não traz nenhuma solução para o fim do conflito. Eu também não possuo nenhuma resposta. É a minha vez de dizer a vocês: – “Infelizmente, eu não tenho como solucionar este problema. Queiram por favor aceitar um dos meus camelos como compensação por sua longa viagem…”

O presente dado por seis mediadores do conflito com os palestinos nos últimos 30 anos é a certeza de que a “vitória” é simplesmente a criação de uma realidade política melhor, frutífera e uma sociedade saudável.

Logicamente, se eu confio nos chefes do serviço secreto de Israel quando existe a afirmação de que atuação de nosso exército objetiva unicamente a defesa do país e a constante preocupação na preservação de vidas inocentes em ambos os lados do conflito, creio que devemos prestar atenção na dura crítica lançada sobre as decisões dos governos de Israel nos últimos anos.

Se não temos a solução para o conflito, é necessário que fique claro:

O 18º camelo é a percepção de que os caminhos que temos escolhido para encontrar a resposta de um grande enigma, têm-se mostrado ineficazes. Apesar de nossas escolhas terem garantido a sobrevivência do país, as “cabeças” da inteligência israelense afirmam que estamos pavimentando um futuro político pior e construindo uma sociedade debilitada.

Espero que o próximo governo e a nova coalização, sejam inteligentes o bastante para receber este presente de braços abertos, e que tomem as decisões necessárias para que deixemos de ganhar somente as batalhas (todas elas), nos conduzindo de uma vez por todas a vitória verdadeira e a solução de um conflito que parece indecifrável.

Comentários    ( 21 )

21 comentários para “A Solução do Conflito”

  • Fernando

    20/02/2013 at 01:55

    Muito bom o texto! Parabéns!

  • Mario Silvio

    20/02/2013 at 16:37

    “E ainda expressam que a não obtenção de um processo verdadeiro de paz se origina em grande parte na omissão de governos de direita e esquerda israelense ao longo de todos estes anos.”
    Acho que não entendi, e se entendi é impossível concordar. Essa é uma discussão que mantenho há muito tempo com os anti-Israel e geralmente, quando existe a possibilidade de diálogo, cito Camp David e Taba

    “Se os palestinos decidem que não há diálogo com Israel, realmente não há o que fazer.”
    Tudo indica que suas lideranças, atuais e passadas, decidiram isso.
    “O problema é quando o governo de Israel decide não mais sentar na mesa de negociação…”
    Se aconteceu, e temos indicações de que aconteceu, foi nos últimos anos, como consequência do que escrevi acima.

    • Marcelo Treistman

      20/02/2013 at 18:30

      Olá Mario,

      Sim. Os exemplos que você deu também me auxiliam/ram muito em certas discussões com aqueles que não aceitam a existência de Israel. Uma das informações que recebemos no Filme, apenas a título de exemplo, é que o único 1o ministro realmente disposto ao acordo com os palestinos (de 1980 até hoje) foi Itzhak Rabin (assassinato por um fundamentalista judeu). Eles fazem questão de deixar claro que Ehud Barak em Camp David (para minha surpresa!) não estava preparado para assinar um acordo de paz na mesma medida que o Arafat.

      Obviamente, eu não coloco a solução do conflito apenas nos ombros de Israel. A questão é se estamos -de fato – interessados em encontrar um caminho para solucioná-lo. A pergunta é retórica.

      O filme contém declarações alarmantes daquilo que é o produto que mais nos orgulhamos de Israel – a nossa “inteligência”. Quando estes 6 mediadores do conflito com os palestinos nos últimos 30 anos, declaram as frases que eu destaquei no texto, acho que devemos parar para refletir um pouco.

      Logo depois do filme, fui na internet procurar algo que me indicasse que o cineasta havia manipulado, direcionado o filme e tirado aquelas frases de contexto. Tinha certeza de que encontraria em alguma entrevista com os seis agentes do Shin Bet algo que acusasse Dror Moreh de ter “ludibriado” o público com uma versão esquerdista de um discurso de indivíduos “de direita”. (In)felizmente, não encontrei.

      Um grande abraço e obrigado pela sua participação.

    • Mario Silvio

      20/02/2013 at 19:28

      “acho que devemos parar para refletir um pouco.”
      É sempre bom

      “Um grande abraço e obrigado pela sua participação.”
      É um prazer. Esqueci de comentar: esta é uma das fotos mais impressionantes que já vi.
      um abraço

  • Mario Silvio

    20/02/2013 at 16:50

    “A negociação com os palestinos não é só possível como necessária.”
    Necessária sem dúvida, já possível…
    ” Eles deixam claro que o diálogo é possível até mesmo com grupos como o Hamas e Jihad.”
    Eles explicam porque no filme Marcelo?

    Voltando aos camelos. Até a divisão tudo bem, o problema começaria se um dos irmãos dissesse:
    OK, assunto resolvido, só que eu tenho mais 30 camelos e quero que eles pastem nas terras de vocês.
    Como eu vou ter a maioria deles, “claro” passarei a decidir como elas serão administradas.

    • Marcelo Treistman

      20/02/2013 at 18:18

      Olá Mario,

      Eles dizem que a parte mais surpreendente do trabalho foi o contato com as lideranças palestinas – inclusive com líderes de organizações terroristas nas diversas vezes que Israel sentou a mesa de negociação. Segundo as afirmações dos seis chefes da inteligência israelense, a surpresa era perceber que eles não eram “monstros que comiam crianças” e ver nos olhos deles a surpresa em perceber que israelenses “não eram monstros que comiam petróleo”. E ainda, existe a afirmação de que entre eles há indivíduos realmente interessados na paz com Israel.

      Acho que vale a pena você conferir este filme. Um grande abraço!

    • Mario Silvio

      20/02/2013 at 19:30

      “E ainda, existe a afirmação de que entre eles há indivíduos realmente interessados na paz com Israel.”
      Disso eu nunca duvidei, como acredito que existam políticos brasileiros interessados no bem do país (em número bem menor do que palestinos na paz)
      Quanto ao filme vou procurar assistir, sem dúvida

  • Dodô

    21/02/2013 at 19:53

    Excelente texto! Vou procurar esse filme para assistir, com certeza! Tem alguma dica de onde encontro? Youtube?

    Não sei, mas eu tenho a impressão de que ao contrário da estória, não há uma real vontade (governamental, de ambas as partes) de se encontrar o 18º camelo.

    Grande abraço!

  • Raul Gottlieb

    21/02/2013 at 23:40

    Querido Marcelo,

    Parece-me que a metáfora dos camelos quer dizer que é sempre possível resolver um conflito. Que se ainda não houve uma solução é porque ainda não se reuniu a competência ou a vontade política necessária para a sua solução.

    Então, se eu tiver entendido bem, a metáfora é infalível. Porque ela propõe que tudo o que não foi resolvido até hoje o será no futuro – assim que os players reunirem competência e ou vontade. Tudo tem solução sempre. Se ainda não foi resolvido, logo mais adiante no tempo o será.

    É uma metáfora poderosa e que guarda semelhança com as doutrinas de certas vertentes teológicas (não apenas judaicas) que garantem que Deus é o fazedor de todo o bem que há na Terra e que Deus sempre faz o bem. Para os seguidores deste pensamento, o mal é explicado pelo Olam Habaá (ou Reino dos Céus, conforme a coloração religiosa da pessoa) onde os ruins são castigados e os bons recompensados (todos divinamente).

    Para eles o mal não existe – o mal é apenas uma percepção momentânea, percepção esta que existe porque a pessoa ignora o futuro justo, brilhante e compensador que há de vir.

    E para o consultor que vende seu curso de solução de conflitos baseando na metáfora do camelo para garantir a infalibilidade do processo de apaziguamento, os conflitos são apenas uma situação momentânea da paz que há de vir.

    Na minha percepção tanto o vendedor do curso de negociação que garante haver solução para tudo, como o religioso que garante que o mal não existe, pois Deus faz tudo e – por definição – faz tudo bem, são charlatões.

    Porque o mal existe – e é feito pelos homens, que foram feitos por Deus – assim como existem os conflitos insolúveis.

    Claro que a minha crença no mal e nos conflitos insolúveis tem que ser colocada dentro de um parâmetro de tempo. Eliminar o mal mil anos depois de feito ou resolver um conflito em 20 séculos não tem valor algum para as sucessivas gerações que sofreram nos tempos da amargura.

    Para ser válida para nós, a solução do conflito com os árabes tem que acontecer nos próximos 20-30 anos (um tanto mais para você, mas ainda assim antes dos 100 anos),

    E eu não vejo isto acontecendo! Mesmo com os seis chefes do SB jurando de pés juntos que é possível. E a minha percepção é baseada em raciocínio e não em crença, veja:

    1. Não basta Israel ter a visão estratégica de que a paz é desejável, é preciso que o outro lado também a tenha, não é mesmo? Um acordo só existe se os dois lados se convencerem de querem ter um acordo. Veja que não estou falando da qualidade do acordo (quantos camelos cada um vai ter), mas da conveniência de buscar um acordo (a vontade de empreenderem juntos a viagem para procurar o sábio).

    2. Os chefes do SB perceberam por experiência própria que é possível negociar com os líderes palestinos, incluindo os que defendem o viés terrorista em sua luta. Creio que este é um fato incontestável.

    3. Mas eles só negociaram com eles aspectos táticos, jamais se sentaram para falar de estratégia. Não sou eu quem está inventando isto – foram os chefes do SB que disseram isto.

    4. Logo eles não têm experiência para dizer se os palestinos querem a paz. Neste aspecto eles são tão leigos como eu e você. Você diz que a experiência deles os credencia para falar sobre o assunto. Mas a verdade é que os chefes do SB não têm experiência no jogo da negociação estratégica – que eles dizem nunca ter sido jogado. São jogadores de golfe escolhendo qual o melhor taco a ser usado fazer cestas num jogo de basquete.

    5. E eu não consigo perceber que vantagem os Palestinos teriam com a paz. O povo seria obrigado a viver sob um governo tipo Síria, Irã, Líbano, Líbia, Gaza, Egito, Yemen, Arábia Saudita etc. Duvido que eles queiram isto! Você sabe quantas pessoas emigram do mundo ocidental para o Yemen nos últimos 30 anos achando que lá seria um lugar melhor para viver? Somando todos, até o último, o total chegou a zero. Em outras palavras, a ocupação é ruim, mas sem a ocupação é Gaza!

    6. Ao mesmo tempo os líderes teriam que arrumar as ruas, varrer o lixo, desenvolver a economia sem a ajuda da ONU e de outros doadores. Dá trabalho! Não é uma tarefa excitante para quem já tem todos os benefícios do governante sem ter o desconforto de ter que governar.

    7. Tudo isto tem que ser tomado em consideração ao vermos o filme. E eu ainda desconfio que dizer: “a ocupação é ruim para Israel” faz com que os grupos que querem destruir Israel (eles existem sim, leia a carta dos grupos Palestinos) passem a ser, por razões estratégicas (e não táticas), os maiores interessados na continuidade da ocupação.

    Então eu creio que a coisa vai se alongar por um bom tempo. Tomara que eu esteja errado, mas este meu desejo é, como todos os demais desejos, uma manifestação do lado irracional e sentimental que existe em mim. Ao pensar com a lógica, concluo que o acordo ainda vai levar algumas gerações.

    Israel tem “culpa” na não solução do conflito? Talvez alguma. Mas esta “culpa” é acessória (tática) não há nada que Israel possa fazer para reverter o quadro.

    Abraço,
    Raul

    PS eu não chamaria a morte de um combatente inimigo de “assassinato”. Numa guerra existencial os soldados não precisam de mandatos para executar o inimigo.

    PS2 o meu comentário ficou quase do tamanho do texto! Mas é porque o assunto é interessante. Parabéns pelo texto.

    • Mario Silvio

      22/02/2013 at 23:17

      Uau! A medida em que ia lendo o seu post ficava pensando: será que eu escrevi isso e esqueci? Estava concordando 100% com tudo até que cheguei ao item 5.
      Não que eu discorde totalmente dele, mas tenho algumas observações a fazer.

      “5. E eu não consigo perceber que vantagem os Palestinos teriam com a paz.”
      Teriam várias, mas não é o caso de cita-las aqui.
      “O povo seria obrigado a viver sob um governo tipo Síria, Irã, Líbano, Líbia, Gaza, Egito, Yemen, Arábia Saudita etc”
      Verdade, mas aparentemente boa parte dele não se importa com isso, como vimos nas eleições egípcia, libanesa e de Gaza.

      Aí passei ao 6 e voltei a concordar 100%.
      “Ao mesmo tempo os líderes teriam que arrumar as ruas, varrer o lixo, desenvolver a economia sem a ajuda da ONU e de outros doadores. Dá trabalho! Não é uma tarefa excitante para quem já tem todos os benefícios do governante sem ter o desconforto de ter que governar.”
      Estes sim, farão o possível e o impossível para evitar o acordo.

      um abraço

    • Marcelo Treistman

      23/02/2013 at 07:57

      Caro Raul,

      Obrigado pelo comentário que possui questionamentos importantes.
      A interpretação que você você faz da parábola do camelo é – de fato – possível. Esta interpretação acabou por direcionar o seu comentário. Gostaria de te convidar para uma outra interpretação que acho ambos poderemos concordar. Da mesma forma que você utiliza a teologia judaica para embasar a sua visão da parábola do camelo, assim eu farei com a minha.

      A solução do enigma, o 18º camelo, fala também sobre a busca pela resposta de algo indecifrável. É o pensamento “fora da caixa” em busca de uma solução para um problema complicado.
      Um grande amigo me contou certa vez sobre um Midrash muito antigo, que versa sobre o passuk Lech Lechá.

      “um homem que estava viajando de um lugar para outro lugar, quando viu¬¬¬ um palácio em chamas.
      Ele pensou: Será possível que esta mansão não tenha ninguém para tomar conta dela? Neste momento o dono da mansão apareceu e disse: “eu sou o dono desta mansão!
      ”.

      Da mesma forma, Avraham estava conjeturando. Será possível que o mundo não tenha ninguém para cuidar dele? Neste momento, o Eterno apareceu para Avraham e lhe disse: Eu sou o proprietário do mundo!

      A parábola (midrash) acaba de forma inesperada e parece misteriosa. Mas dá para entender. As imagens desta parábola são: o palácio (a mansão), que é o mundo (a natureza) – perfeito, bonito, bem acabado, tudo funciona, e as chamas que destroem o mundo, ou seja: A injustiça, o terror, a destruição que é semeada.

      [continuacao do midrash]
      Abraão percebe que o mundo é algo belíssimo e como tal tem que ter um criador, uma força superior que o criou. Mas percebe também que o homem taca fogo no mundo e se pergunta: “como é possível que o dono do mundo não apague este fogo? Como é possível que o criador do mundo não controle o homem, que ele também criou?”

      Deus chega para Abraão e diz: você viu bem o palácio que Eu criei, realmente o mundo tem um criador. Mas Eu, o criador do mundo não vou apagar as chamas que os homens atearam em Minha criação, eu não vou intervir.

      E Deus deixa totalmente em aberto a questão de quem tem que ser o bombeiro e até mesmo se é preciso que haja um bombeiro. Entao, Abraão percebe o Lech Lechá (ou em português claro: “sacuda-se!”, “te manca!”): Deus está sugerindo que ele (o homem) seja o bombeiro do mundo. O homem que apague as chamas que ele mesmo criou.

      E assim surge o judaísmo. Assim é a gênesis do judaísmo

      A teologia judaica nos ensina, portanto, que Deus espera de nós a busca pelo 18º Camelo. Espera de nós que possamos combater o fogo com inteligência.

      O Filme Shomrei Hasaf tem o único objetivo de nos mostrar que estamos perdendo a guerra para o fogo. Estamos jogando álcool ao invés de água. Nossa estratégia está errada, apesar de nossa tática ter nos possibilitado a sobrevivência até o dia de hoje.

      Ao ler o seu comentário me parece que você diz o seguinte: EU não acredito que o fogo queira ser apagado. Não é possível dialogar com o fogo. O Fogo não está interessado em sentar para conversar com o bombeiro. Bem… É verdade…

      Note – no entanto- que não estou preocupado com o fogo. Me preocupa muita mais (neste artigo) analisar o que nós estamos fazendo para buscar uma solução para apagá-lo… O Filme nos mostra que estamos indo mal… Entendo que você – racionalmente – aponte para a impossibilidade da resolução do conflito nos próximos anos. É uma opinião perfeitamente aceitável. A questão central do artigo não é essa… Estou discursando sobre as nossas escolhas para “combater o fogo”.

      Desta forma, eu não me preocupei em fazer uma análise da Cisjordarnia pós-ocupação. Talvez exista a possibilidade de que ela se torne Gaza… A probabilidade existe e é real. A questão é que a ocupação (vista pelo nosso lado) está transformando toda uma sociedade em algo pior, debilitado, racista… Acho que isso pode ser tão perigoso para Israel, quanto o terrorista que se explode em um supermercado.

      Apenas a título de curiosidade, gostaria que você desse uma olhada na Constituição escrita pela ANP (eu ainda falarei mais sobre isso). – http://en.wikisource.org/wiki/Constitution_of_Palestine_(2003). Você veja que curioso: É uma constituição escrita pelos próprios palestinos e que discorre sobre “Estado de Direito, divisão de poderes, direitos e garantias fundamentais, direitos humanos, liberdades democráticas”.

      O que isso diz? Não muita coisa… Apenas a certeza de que existem “bombeiros” do lado palestino também. Se existe alguma responsabilidade de Israel em toda esta história, é a certeza de que a nossa atuação contra o “fogo” está ajudando a construir uma realidade política pior, um futuro infrutífero e uma sociedade debilitada.

      Está na hora de pensar em novos caminhos para encontrar o 18º camelo.

      Obrigado mais uma vez pelo comentário.

  • Carlos A

    22/02/2013 at 01:45

    Ao ler o texto, lembrei das palavras de Golda Meir, sobre a diferença da mãe judaica x mãe àrabe! No discurso dos Gatekeepers, o 18º camelo… ‘parece bem mais indecifrável’…

  • Raul Gottlieb

    23/02/2013 at 14:41

    Caro Mario,

    Há alguns anos assisti na TV um filme divertido mas ao mesmo tempo bastante irritante sobre dois amigos que tentam conquistar a mesma moça (nada de novo até aí), sendo que um dos dois era um jovem rabino e o outro um jovem padre (a grande sacada do filme).

    Os 3 (os dois rapazes e a mocinha) eram amigos de infância. O filme se desenvolve sob um pano de fundo em que a diferença entre o rabino e o padre era apenas a paisagem em que transitavam – que a diferença entre a sinagoga e a igreja era apenas cosmética (imagens, idioma da reza, coreografia do ritual, etc.).

    Fiquei irritado com o filme porque – mesmo dentro de sua despretensão intelectual de comédia romântica, ele mostra uma percepção de mundo, que imagino prevalecer nos USA, que o mundo é todo igual é só o que muda são usos e costumes. Americanos comem hamburger e árabes comem kibe, mas é tudo a mesma coisa – é tudo trigo com carne.

    E, a meu ver, esta percepção de mundo é tragicamente equivocada. Além das evidentes diferenças de colorido existem profundas diferenças de valores entre as sociedades. Não é o caso aqui de dizer se o conjunto de valores x são melhores que o conjunto de valores y, mas de entender que valores existem, que são diferentes e que orientam escolhas.

    Com base neste modelo de pensamento as pessoas enxergam eleições (e também pesquisas de opinião) em diversos países e julgam que todas elas são iguais. Mas elas não são! O entorno em que a eleição se dá modifica completamente a sua validade e eficácia.

    No Brasil onde 99% da imprensa depende de verba oficial o eleitor é fortemente influenciado pelo governo.

    Nos países não democráticos onde o eleitor tem o direito à livre escolha entre votar a favor do poder ou ser morto, a eleição é fortemente influenciada pelo instinto natural de sobrevivência dos seres vivos.

    Em países de forte estrutura tribal (como Jordânia, Arábia Saudita, Afeganistão e Palestina) a lealdade à tribo induz a escolha de forma determinante,

    E assim por diante.

    Não quero dizer as eleições nos USA e nas democracias ocidentais sejam perfeitas, porque é certo que não são, mas estão muitos (bota muitos nisso!) degraus acima do que a eleição em Gaza, Yemen, Marrocos, Egito e assim por diante.

    Todo este raciocínio vale também para as pesquisas de opinião. Fizeram uma pesquisa de opinião para saber qual era o povo mais feliz do mundo e, num certo ano, o país mais bem colocado foi Cuba. O cubano tinha duas opções na enquete: “você é feliz ou quer morrer?”. O resultado da pesquisa surpreendeu a todos e coroou a ilha dos Castro como o local mais próximo do Gan Eden à disposição dos humanos nos dias de hoje…

    Em resumo: não se deixe enganar pelos resultados eleitorais dos países árabes. O pessoal que mora na Palestina olha para o lado de lá (Israel) e para o lado de cá (Egito, Síria, etc.) e prefere ser governado pelo modelo israelense. Mas entre isto e colocar uma fitinha azul e branca na camisa há um abismo.

    Abraço, Raul

    • Mario Silvio

      24/02/2013 at 21:34

      Caro Raul,
      Também assisti esse filme e concordo com a sua crítica, mas discordo de o problema seja
      uma percepção de mundo americana. Essa é uma “visão” (já explico as aspas) politicamente correta, uma das maiores pragas de nossos dias.
      As aspas são porque não verdade não se trata de visão, mas sim de um, sei lá, slogan: no fundo todos são iguais, apesar das evidências contrárias.

      É óbvio que valores existem, que são diferentes e que orientam escolhas, e para enxergar isso nem precisamos recorrer a exemplos extremos como haredim e fundamentalistas islâmicos. Italianos e alemães, franceses e ingleses, brasileiros e argentinos bastam.

      Verdade, o entorno em que a eleição se dá modifica completamente a sua validade e eficácia, mas o maior problemas das brasileiras não é a imprensa, apesar de que também é verdade que a maioria (eu chutaria uns 80%) da imprensa depende de verba oficial, e sim
      o paternalismo e o assistencialismo (bolsas, cotas, empreguinhos e empregões, etc)

  • Raul Gottlieb

    23/02/2013 at 14:47

    Querido Marcelo,

    Muito boa a tua citação, que suspeito tenha sido tirada do livro “Radical Then Radical Now” do Rabino Jonathan Sacks. Recomendo a leitura do livro a todos!

    Acho que o teu raciocínio está perfeito. Independente dos incendiários temos que continuar tentando apagar o fogo, mas será que estamos tentando?

    Não discordo nada disso. Nada mesmo.

    No entanto não me agrada nada atribuir a existência do fogo aos bombeiros e não aos incendiários. Mesmo quando os bombeiros são preguiçosos ou incompetentes ou as duas coisas ao mesmo tempo.

    A meu ver, assumimos (Israel) mais culpa do que temos,

    E talvez isto seja um traco muito positivo da nossa escala de valores.

    Abraco,
    Raul

    • Mario Silvio

      25/02/2013 at 16:06

      “A meu ver, assumimos (Israel) mais culpa do que temos,”
      BEM mais
      “E talvez isto seja um traco muito positivo da nossa escala de valores.”
      Não sei se é positivo, mas perigoso com certeza é.

  • Mario Silvio

    23/02/2013 at 15:58

    “Apenas a título de curiosidade, gostaria que você desse uma olhada na Constituição escrita pela ANP (eu ainda falarei mais sobre isso). – http://en.wikisource.org/wiki/Constitution_of_Palestine_(2003). Você veja que curioso: É uma constituição escrita pelos próprios palestinos e que discorre sobre “Estado de Direito, divisão de poderes, direitos e garantias fundamentais, direitos humanos, liberdades democráticas”.
    O que isso diz? Não muita coisa… Apenas a certeza de que existem “bombeiros” do lado palestino também. ”

    Você está falando sério Marcelo? Me aponte UMA Constituição que não seja maravilhosa. Dizem (nunca li) que a da ex-URSS era uma obra-prima, descrevia um paraíso.
    Mas, mesmo assim, chamo sua atenção para alguns itens da dos palestinos:

    Palestine is part of the large Arab World, and the Palestinian people are part of the Arab Nation. Arab Unity is an objective which the Palestinian People shall work to achieve.
    Jerusalem is the Capital of Palestine.
    The principles of Islamic Shari’a shall be the main source of legislation. (só essa já me faz tremer)
    Você sabia que a Suiça vendeu, por encomenda, constituições para vários países africanos?

    Encerro com um pequeno teste.

    Da Constituição de que país são os seguintes trechos?

    ” The State shall effectively guarantee genuine democratic rights and liberties as well as the material and cultural well-being of all its citizens”
    ” Citizens enjoy equal rights in all spheres of State and public activity.”
    “All citizens who have reached the age of 17 have the right to elect and to be elected, irrespective of sex, race, occupation, length of residence, property status, education, party affiliation, political views or religion”
    “Citizens are guaranteed freedom of speech, of the press, of assembly, demonstration and association. The State shall guarantee conditions for the free activity of democratic political parties and social organizations”.

    • Marcelo Treistman

      23/02/2013 at 23:06

      Caro Mario,

      Começo pela resposta a sua pergunta. Todas as frases – salvo engano – foram retiradas da Constituição da Korea do Norte.

      Mas você tem razão. Eu deveria ter frisado colocando em negrito a seguinte parte da minha resposta acima: “O que isso diz? Não muita coisa…”.

      Certamente, não é só de constituição que se faz uma democracia… Os valores estão acima de tudo.
      Como eu disse, ainda pretendo escrever um artigo dedicado a Constituição do Estado Palestino, que tenho a ligeira impressão, você achará interessante.

      Apenas a título de comparação e informação, a Constitução da Koreia do Norte foi elaborada em 1945, inspirado pelo fim da 2ª GM e os valores democráticos existentes naquela época. Em 1972, já com o novo governante “eleito”, houve uma revisão que manteve a maior parte do texto escrito em 1945, mas inseriu alguns artigos interessantes, como aquele que coloca o então líder como “presidente eterno”, e o artigo que declarava o país como uma “Ditadura da democracia popular” indicando a mudança de regime que ocorreu a época da revisão constitucional.

      A constituição da Palestina, foi estabelecida em 2002, logo após a 2ª Intifada. Há certamente artigos que – a priori – são contraditórios, como um “Estado democrático de direito” que será regido pela “Shaaria”.

      O que isso quer dizer afinal?
      Bem… “Não muita coisa…”.

      Grande abraço

    • Mario Silvio

      24/02/2013 at 21:24

      Bingo Marcelo, trata-se mesmo da República “Democrática Popular” da Coreia, mais conhecida como Coréia do Norte.
      Você tem razão em que siginifica ALGUMA coisa. Estou muito curioso para ler o seu artigo sobre a Constituição Palestina, fico no aguardo.
      um abraço

  • Ricardo Gorodovits

    25/02/2013 at 16:35

    Marcelo, obrigado pelo texto e pelos sucessivos refinamentos que os questionamentos acima suscitaram. O imobilismo frente ao problema insolúvel sempre esbarra, ao menos para mim, na facliidade com que se descarta os acordos de Oslo como inviáveis, inadequados, ou mesmo como prejudiciais a Israel, evidenciando-se, a partir deste descarte, a inexistência de soluções e alternativas. Essas análises normalmente não levam em conta o fato fundamental de que o principal fiador dos acordos foi assassinado, sem ter o tempo imprescindível à consolidação dos caminhos que em Oslo foram apenas sugeridos. Na época dos acordos, não menos do que hoje, a visão geral também era da impossibilidade do diálogo, a inexistência de confiança recíproca, a falta de representatividade dos líderes palestinos, e assim por diante. E no entanto, no curto período entre a assinatura dos acordos e o assassinato de Rabin, houve uma proliferação de iniciativas no âmbito econômico e político que, à época, caracterizavam Oslo como um ponto de inflexão na história. Não vejo hoje, infelizmente, lideranças à altura, corajosas o bastante para quebrarem paradigmas, mas não perco a expectativa de que surjam, porque a meu ver, isso já aconteceu.

    Abraço, Ricardo

  • Raul Gottlieb

    26/02/2013 at 12:03

    Ricardo, sem dúvida que o teu comentário é pertinente. Mas não devemos deixar de lado o fato (e isto é fato, não opinião) que depois do assassinato de Rabin os Palestinos empreenderam uma formidável onda de atentados contra as cidades de Israel. Não foi apenas o assassinato que tirou o acordo de Oslo dos trilhos. Abraço, Raul

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