A Solução do Conflito

camelos

Escrito por: Marcelo Treistman


Um velho homem encontrava-se a beira da morte. Era chegada a hora de escrever seu testamento dividindo a sua propriedade entre os três filhos. Tudo o que possuía em sua vida eram 17 camelos. O documento foi escrito e era claro: “
A minha herança será dividida da seguinte forma: o meu filho mais velho receberá a metade de tudo o que possuo. O meu filho de meio receberá 1/3 do meu espólio. O caçula terá direito a 1/9 de minhas posses“.

 Após sua morte, quando os herdeiros tiveram acesso às palavras do testamento ficaram muito confusos. Afinal de contas, como poderiam dividir os camelos segundo o desejo do pai? – 17 não era divisível por 2, por 3 ou por 9. A demora na divisão dos camelos acabou gerando um profundo mal-estar familiar. Brigas foram iniciadas, junto a acusações e palavras de ameaça. A união da família estava à beira de um colapso.

Após um período de angústias, decidiram procurar um sábio seguindo o conselho de um parente próximo. Ele seria, segundo o parente, a única pessoa capaz de resolver a dolorosa questão. Os filhos fizeram uma longa viagem até a casa daquele que poderia resolver o grande problema. Foram recebidos com grande hospitalidade e contaram então sobre a questão que os afligia. Após alguns minutos de reflexão, o sábio pronunciou:

“Infelizmente, eu não tenho como solucionar este problema. Queiram por favor aceitar um dos meus camelos como compensação por sua longa viagem. É tudo que posso fazer por vocês.”

Ao perceber que possuíam agora 18 camelos, os filhos se abraçaram alegres: o problema havia sido solucionado e o desejo do falecido pai havia sido contemplado.

a)      O filho mais velho ficou com metade dos 18 camelos = 9 camelos

b)      O segundo filho ficou com um terço dos 18 camelos = 6 camelos

c)       O terceiro filho ficou com um nono dos 18 camelos = 2 camelos

E o incrível aconteceu: nove + seis + dois = 17 camelos.

O último camelo, aquele que há pouco fora presenteado, foi devolvido com grande emoção para aquele senhor tão inteligente. Um problema que antes parecia indecifrável foi solucionado de forma extremamente simples. Tudo o que os filhos precisavam era do 18º camelo.

Ao redor do mundo, e inclusive em Israel, a estória acima (com o perdão aos matemáticos de plantão que identificaram logo no enunciado que a soma das parcelas ditadas no testamento não corresponde a um inteiro) é utilizada como exemplo de mediação inteligente de conflitos em muitos dos cursos e palestras que versam sobre o tema. O “camelo” seria uma grande metáfora para informar aos alunos, ouvintes ou leitores, que não há enigma que não possa ser decifrado e não há problema que não se possa encontrar a solução. O 18º camelo sempre poderá ser encontrado.

Na última semana, assisti ao documentário israelense Shomrei Hasaf (traduzido para o inglês como: “The Gatekeepers” – ainda sem tradução em português), dirigido pelo cineasta Dror Moreh e candidato ao Oscar de melhor documentário em 2013. Recomendo fortemente o filme a todos aqueles que se interessam pelo enigma do Oriente Médio.

Desde já advirto: se decepcionará aquele que buscar informações sigilosas sobre o processo de paz ou de guerra, ou aquele que espera assistir um filme de espionagem à la 007.

A história conta sobre a formação e atuação do Shin Bet (serviço secreto de Israel) no cenário do conflito entre israelenses e palestinos. A narrativa é elaborada através da perspectiva de seis chefes do serviço secreto, combinando entrevistas com a exibição de documentos e fotografias trabalhadas digitalmente.  Analisa com profundidade o papel desempenhado pelo Shin Bet, desde a Guerra dos Seis Dias em 1967 até os dias de hoje.

A novidade e grandeza do cineasta é o fato dele ter tido sucesso em reunir – pela primeira vez na história – seis chefes do serviço de inteligência israelense expondo as suas visões do conflito. Em frente à câmera, portanto, estão seis indivíduos que representavam (e ainda representam) o Estado de Israel no dia a dia da mediação com os palestinos. Não acredito que existam muito mais pessoas vivas hoje que conheçam a realidade e o cotidiano do conflito pelo lado israelense do que estes seis indivíduos.

Israel - ConexaoIsrael - The Gatekeepers
Site oficial do filme: http://www.thegatekeepersfilm.com/

Gostaria de dividir com vocês apenas os pontos de convergência entre eles, expondo algumas frases que simbolizam as unanimidades:

  1. O terrorismo islâmico não será solucionado com operações militares. A força e capacidade técnica em nosso país é – de fato – algo indescritível. Mas enquanto Israel desenvolve aviões não tripulados, o fundamentalismo se especializa em convencer um número cada vez maior de jovens a se explodirem em um supermercado com um cinto recheado de bombas.

    “Não estamos produzindo nenhuma estratégia, estamos apenas desenvolvendo táticas” Yuval Shalom Diskin – Chefe do Shin Bet de 2005 a 2011

    A paz não será alcançada através de ofensivas do exército. A paz deverá ser construída em um sistema de confiança. Alguém como eu, que conhece tão bem os palestinos, digo que não deverá ser um problema a criação deste sistema entre nossos povos” Avi Dichter – chefe do Shin Bet de 2000-2005.

  2. A defesa do país é necessária. Existem grupos fundamentalistas que objetivam destruir Israel e atingir alvos civis. Esta defesa exige de Israel um questionamento moral, ético e legal constante que é inexistente em outros países do mundo. Cada um dos seis entrevistados tinham a responsabilidade de decidir sobre a vida e a morte de indivíduos. Eram eles que davam a palavra final para a execução dos assassinatos  de terroristas envolvidos no planejamento de ataques ao país e tortura de presos para a obtenção de informações que contrubuíram para prevenir dezenas de  atentados e mortes do lado israelense.

    “Ainda que você saiba que você autorizou o assassinato de um terrorista que planejava atentados terroristas em seu país, com todas as comprovações e evidências… Ainda que a operação tenha sido um sucesso, que o resultado tenha sido estéril e sem danos colaterais a inocentes… Ainda assim, você pensa: há algo que não é natural nesta história… o poder de decidir sobre a vida ou a morte de um terrorista é algo que te influenciará pelo resto de sua vida” Amihai “Ami” Ayalon – Chefe do Shin Bet de 1996 a 2000 

    “Não me pergunte sobre moralidade quando estamos conversando sobre o combate ao terrorismo. Antes de me fazer esta pergunta, você deverá encontrar a moral que existe nos terroristas. No combate ao terror, esqueça esta palavra”. Avraham Shalom – Chefe do Shin Bet de 1980 a 1986.

  3. A negociação com os palestinos não é só possível como necessária. Todos os seis chefes da inteligência de Israel nos ultimos 30 anos, negam a minha crença pessoal de que não existem parceiros para a paz do lado árabe. Eles deixam claro que o diálogo é possível até mesmo com grupos como o Hamas e Jihad.  E ainda expressam que a não obtenção de um processo verdadeiro de paz se origina em grande parte na omissão de governos de direita e esquerda israelense ao longo de todos estes anos.

    “Se os palestinos decidem que não há diálogo com Israel, realmente não há o que fazer. O problema é quando o governo de Israel decide não mais sentar na mesa de negociação…”Carmi Gillon – Chefe do Shin Bet de 1995 a 1996.

  4. A ocupação sobre os territórios conquistados na Guerra dos Seis Dias em conjunto com a crescente expansão de colonos e assentamentos possui consequências nefastas na sociedade israelense com influência direta na cultura e educação de todo o povo. A desocupação dos territórios e criação de um Estado Palestino é urgente para garantir uma sociedade saudável.

    “O futuro é negro. A ocupação provoca uma mudança na natureza da população. Nós colocamos a maioria de nossos jovens em um exército que é uma contradição em termos… Ao mesmo tempo ele atua para a defesa de nosso povo, ele também promove – por diversas vezes – uma cruel ocupação”.Avraham Shalom – Chefe do Shin Bet de 1980 a 1986.

Após assistir um filme como Shomrei Hasaf saímos todos um pouco mais confusos. Afinal de contas: devemos combater o terrorismo ao mesmo tempo que devemos ter em mente que nenhuma intervenção militar solucionará a questão. Devemos estar preparados para o diálogo com grupos que deixam claro em sua ideologia a impossibilidade de convivência com o que não é Islãmico.

E ainda, existem perguntas retóricas que – obviamente – não poderão ser respondidas: caso Israel se retirasse hoje dos territórios, o país estaria mais ou menos seguro? A paz, sairia ganhando ou perdendo? O mundo estaria mais perto ou mais longe da única solução possível para o impasse, a saber: “Dois povos, dois estados”?

Sinto muito decepcioná-los. Como vocês podem perceber, o filme não traz nenhuma solução para o fim do conflito. Eu também não possuo nenhuma resposta. É a minha vez de dizer a vocês: – “Infelizmente, eu não tenho como solucionar este problema. Queiram por favor aceitar um dos meus camelos como compensação por sua longa viagem…”

O presente dado por seis mediadores do conflito com os palestinos nos últimos 30 anos é a certeza de que a “vitória” é simplesmente a criação de uma realidade política melhor, frutífera e uma sociedade saudável.

Logicamente, se eu confio nos chefes do serviço secreto de Israel quando existe a afirmação de que atuação de nosso exército objetiva unicamente a defesa do país e a constante preocupação na preservação de vidas inocentes em ambos os lados do conflito, creio que devemos prestar atenção na dura crítica lançada sobre as decisões dos governos de Israel nos últimos anos.

Se não temos a solução para o conflito, é necessário que fique claro:

O 18º camelo é a percepção de que os caminhos que temos escolhido para encontrar a resposta de um grande enigma, têm-se mostrado ineficazes. Apesar de nossas escolhas terem garantido a sobrevivência do país, as “cabeças” da inteligência israelense afirmam que estamos pavimentando um futuro político pior e construindo uma sociedade debilitada.

Espero que o próximo governo e a nova coalização, sejam inteligentes o bastante para receber este presente de braços abertos, e que tomem as decisões necessárias para que deixemos de ganhar somente as batalhas (todas elas), nos conduzindo de uma vez por todas a vitória verdadeira e a solução de um conflito que parece indecifrável.

Comentários    ( 21 )

21 Responses to “A Solução do Conflito”

  • Raul Gottlieb

    26/02/2013 at 12:03

    Ricardo, sem dúvida que o teu comentário é pertinente. Mas não devemos deixar de lado o fato (e isto é fato, não opinião) que depois do assassinato de Rabin os Palestinos empreenderam uma formidável onda de atentados contra as cidades de Israel. Não foi apenas o assassinato que tirou o acordo de Oslo dos trilhos. Abraço, Raul