A televisão via-satélite no Oriente Médio

Até o final da década de 1980 e o início da década de 1990, a televisão aberta era um monopólio estatal no Oriente Médio – ao menos teoricamente, mas também legalmente em muitos países. Reproduzindo o ocorrido com as estações de rádio nas décadas anteriores, os canais de televisão eram controlados pelos respectivos governos, e usados como meio de propaganda política e controle social. O principal objetivo das ditaduras autoritárias e das monarquias absolutistas da região sempre foi a criação e a manutenção da coesão nacional, ainda que às custas de coação religiosa, social e sectária.

Além disto, em vista da heterogeneidade social, econômica e política da população de língua árabe no Oriente Médio e da existência de um grande número de países com área reduzida, centenas de milhões de pessoas em vários países conseguem sintonizar transmissões de rádio e televisão uns dos outros. A estação de rádio Voz dos Árabes, usada pelo então presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, é um excelente exemplo de uso da comunicação de massas por um regime desejoso de conquistar o apoio da opinião pública regional para suas aspirações políticas.

Foi devido a duas guerras que canais de televisão comercial e via-satélite ganharam espaço no Oriente Médio. Durante a longa Guerra Civil Libanesa, quando o Estado libanês já não tinha recursos para manter seu canal oficial de televisão, o primeiro canal de televisão privado foi criado – the Lebanese Broadcasting Corporation (LBC). Como a LBC estava alinhada aos cristãos, outros canais foram criados pelos diferentes setores da população libanesa e pelos vários partidos políticos do país. Esta variedade de canais relativamente independentes, entretanto, não representava uma televisão comercial independente segundo o modelo ocidental, uma vez que eram controlados por partidos políticos e até mesmo por governos estrangeiros através de laços comerciais e pessoais com os acionistas formais.

Após alguns anos, quando a população no Oriente Médio sentia que a Guerra do Golfo não estava sendo coberta de maneira isenta pelos canais estatais locais, um grande número de famílias adquiriu antenas para sintonizar canais de televisão via-satélite e passou a acompanhar as notícias através da CNN (Cable News Network, dos Estados Unidos). Este fenômeno levou à fundação, em Londres, da Middle East Broadcasting Corporation (MBC), outro canal que era independente apenas de maneira formal, pois seus proprietários estavam intimamente ligados à família real saudita.

Nos anos seguintes, canais comerciais como a Arab Radio and Television (ART) e a Orbit Satellite Television and Radio Network entraram no mercado, assim como um número considerável de canal estatais via-satélite. O fato da região ser composta por uma série de pequenos países, cada um com suas particularidades sociais, culturais, econômicas e religiosas, como Qatar, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Bahrain, Líbano, influenciava a criação de um novo canal por cada uma das elites dominantes. Desta maneira, ao final do século XX, o número de emissoras internacionais de televisão na língua árabe só era inferior às de língua inglesa.

Esta nova realidade causou profundas mudanças na programação televisiva e nos hábitos dos telespectadores no Oriente Médio. Muitos dos aspectos destas mudanças, entretanto, não eram vistos com bons olhos por setores da população da região. Primeiramente, mais canais significavam mais tempo a ser preenchido e, ainda que uma parte relevante da programação consistisse em produções locais, havia muitos programas e formatos importados, principalmente do Ocidente, que traziam o medo da perda dos valores árabes tradicionais. A centralidade da família na sociedade árabe, por exemplo, estava sendo desafiada pela primeira vez pelo individualismo ocidental.

Outro aspecto interessante foi a ascensão do consumismo. Até a década de 1990, a maioria dos canais era mantida pelos Estados, mantendo-se focados em propaganda política e livre de publicidade comercial. Com a chegada da televisão comercial, o lucro tornou-se uma necessidade e o público de língua árabe no Oriente Médio foi exposto pela primeira vez a intervalos comerciais e publicidade. Isto levou a fenômenos interessantes, com os publicitários explorando uma população “virgem”, cujos hábitos de consumo podiam ser forjados aos seus interesses.

Mesmo que muitos países ainda mantenham um Ministério da Informação que é responsável pelos canais de televisão estatais, um canal controlado por um governo estrangeiro pode parecer tão independente aos olhos locais quanto um canal comercial – o governo egípcio, por exemplo, não tem nenhuma influência sobre a emissora catariana Al-Jazira. Os regimes começam a usar seus canais nacionais de televisão via-satélite para atacar rivais regionais, expondo suas fraquezas às suas respectivas populações, que jamais teriam acesso a este tipo de informação através da mídia oficial.

Culturalmente, além da influência ocidental, os novos canais via-satélite tiveram um importante impacto ao enfatizar tanto as similaridades regionais quanto as diferenças entre as várias sociedades. As correntes às quais pertencem as diversas personalidades religiosas islâmicas que cada canal convida para seus debates e entrevistas são grande exemplo desta diversidade, assim como o fato de que alguns canais têm liberdade para entrevistar os porta-vozes das Forças de Defesa de Israel, o que para outros ainda é tabu. Por fim, há o tema da sexualidade, com canais de países mais liberais, como o Líbano, exibindo mulheres com roupas mais sensuais, o que é condenado nas sociedades árabes mais conservadoras.

O fato de que centenas de milhões de cidadãos compartilham o mesmo idioma e hábitos e visões de mundo razoavelmente comuns, entretanto, permitiu o surgimento de um grande mercado consumidor em língua árabe, com empresas locais conseguindo alcançar consumidores em potencial por toda a região e até nas comunidades diaspóricas em outros continentes. Conforme os anos vão passando e o mercado televisivo regional se consolida, pode-se observar até mesmo os vários dialetos locais perdendo espaço para um único vocabulário pan-árabe.

Nos próximos artigos da série, analisarei o caso específico da emissora catariana Al-Jazira.

Imagem de capa: http://www.eveandersson.com/photos/morocco/marrakech-medina-place-jemaa-el-fna-satellite-dishes-2-large.jpg

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “A televisão via-satélite no Oriente Médio”

  • Marcelo Starec

    22/12/2014 at 20:45

    Oi Claudio,
    Muito interessante o seu artigo…Eu tenho a plena convicção de que, no mundo atual, é virtualmente impossível evitar que a população tenha acesso, ainda que básico, a informações mais plurais. Por maior que seja o esforço nesse sentido, por parte de lideranças, a informação termina de algum modo atingindo o povo e isso em regra é bom!…e soma-se a isso a internet, que creio ser impossível de ser inteiramente controlada por algum regime autoritário, por mais que tentem…A médio prazo, terá com certeza um efeito positivo sobre as populações árabes….
    Abraço,
    Marcelo.

    • Claudio Daylac

      23/12/2014 at 00:36

      Olá, Marcelo.

      Obrigado pela visita e pelo elogio.

      Um fato deve ser notado: enquanto que a internet requer infraestrutura e mínimo conhecimento sobre computador, a televisão via satélite requer apenas uma antena e a capacidade de operar um controle remoto.

      Seu potencial de alcance nos países do Oriente Médio é infinito!

      Um abraço!

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