A trajetória de um campeão

20/06/2015 | Cultura e Esporte

Resumo

Noam Guershoni é um herói pouco conhecido. Selecionado para o restrito curso de pilotos da Força Aérea Israelense, terminou aprovado por excelência. Durante a Segunda Guerra do Líbano, sobreviveu a um raro acidente: um choque entre dois helicópteros, a cerca de 1500 metros da superfície. Quase foi considerado morto e teve que ficar internado em um hospital durante seis meses.

Seis anos após o acidente, Noam conquistou a medalha de ouro nas Paralimpíadas de Londres 2012, em um dos esportes mais disputados: o tênis de cadeirantes.

Uma vida de muitos acontecimentos para alguém com menos de trinta anos de idade.

Estes já seriam ingredientes mais do que suficientes para valer a pena conhecer a sua história em detalhes. Mas para quem já teve a oportunidade de assistir uma palestra sua, fica claro que estes fatos são apenas coadjuvantes. O que de fato fascina é a forma como Noam se comporta frente a eles.

Tive a oportunidade de escutá-lo três vezes. Relato aqui um pouco desta experiência.

A história

Poucas pessoas são aceitas para o curso de pilotos da Força Aérea Israelense, conhecido por ser um dos mais seletivos e complicados do exército. Menos ainda são aqueles que conseguem seguir até o fim. Raros são os que terminam o curso com excelência.

Noam Guershoni foi um deles. Tornou-se piloto de helicópteros de combate, após passar pelo difícil e exaustivo período de treinamento. Como costuma dizer em seus relatos, apesar de sonhar ser parte de uma unidade de elite do exército, nunca pensou em tornar-se piloto: “Pilotar é uma atividade individual, e eu sempre gostei mais de atividades em grupo”.

Noam afirma, com uma exagerada dose de humildade, que nunca foi o melhor em nada que fez. Em esportes como basquete, voley, boliche, ele nunca foi referência entre os amigos, e nem nunca teve isso como objetivo. O mais importante sempre era se divertir.

Por falar em competição, Noam acredita que existem dois tipos de pessoas: aqueles que competem com os demais, e aqueles que competem com si mesmos. Ele se inclui no segundo grupo. Não se importa em perder, caso tenha certeza de que fez o melhor de si.

O acidente

Durante a Segunda Guerra do Líbano, no episódio que ficou conhecido como “o choque dos helicópteros”, Noam sofreu um grave acidente. Após cair de uma altura de aproximadamente 1500 metros da superfície, os médicos não conseguiram estabilizar a sua situação num primeiro momento.Seu estado foi considerado como gravíssimo.

Por sorte, um dos médicos resolveu não desistir da sua vida. E após uma semana em coma, e alguns milagres da medicina, Noam “acordou” novamente.

Se já não bastassem a dor e o trauma do acidente, Noam teve que conviver com outras duas trágicas notícias. Seu companheiro de vôo, Ron Kochba, faleceu de imediato no momento do acidente e um de seus melhores amigos no exéricto, Tom Farkash, também morreu, em outro episódio triste desta mesma guerra.

Hospital

Durante dois meses, Noam teve que ficar deitado, sem poder abrir a boca, por conta de fraturas no maxilar. Não podia nem sentar, nem comer nada sólido.

Nesses momentos, ele lembra que muitos pensamentos começaram a entrar na sua cabeça: “Por que eu?”, “O que fiz para merecer isso?”,” Sempre fui uma pessoa boa, porque mereço isso?”  “E se eu tivesse escolhido outro caminho que não a Força Aérea, será que estaria saudável?”, “E se não tivesse passado nos cursos?” .

Por sorte, Noam explica que, em seu caso, estes pensamentos passaram rapidamente e transformaram-se em outros: “Porque eu sobrevivi, e meus colegas não?.” “E se minha familia tivesse que me enterrar agora?”.

Durante estes momentos de pensamentos difíceis, Noam relata ter percebido que a vida lhe foi dada de presente novamente. E a partir disso, duas coisas ficaram muito claras: 1) ele não se arrependeria de nenhuma de suas decisões passadas. 2) Ele passaria a fazer coisas que dessem prazer, e que fossem significativas.

Em suas palavras, ele explica: “Se eu pudesse voltar no tempo, não mudaria nenhuma das minhas decisões. Quando as tomei, estava consciente de todas elas. Estou feliz que escolhi ser piloto, estou feliz que passei pelo curso e que pude ajudar meus colegas durante meu serviço. Em nada mudaria o que passou. Há coisas que dependem de mim, e outras que não. Alguns chamam de deus, outros de destino, de força invisível ou o que quer que seja. Sobre estas, eu não tenho controle.”

Noam encarou o acidente e o período de recuperação como uma nova chance de viver. E se essa nova chance foi dada, ele deveria aproveitá-la da melhor forma possível. Decidiu dedicar-se apenas às coisas que gostava e deixar de fazer atividades que fazia apenas por obrigação ou pressão social.

Mas ter uma vida pacata não era o suficiente para ele. “Eu poderia passar a vida inteira sentado no sofá vendo televisão e comendo sorvete, mas uma vida assim não teria nenhum tipo de satisfação verdadeira.” Ele resolveu então começar a dar aulas de matemática para jovens em situações de risco. Há cinco anos, ele dá aulas semanalmente para estes jovens.

Além disso, ele começou a buscar diversões que fossem adaptáveis a seu novo status de deficiente físico. E foi assim que conheceu o tênis em cadeira de rodas.

O tênis

Antes do acidente, Noam havia feito cinco aulas de tênis na vida. Longe de ser um tenista nato, ele conta que o tênis de cadeirantes era uma das coisas que ele poderia fazer e que foram sugeridas por seus médicos. Ele resolveu começar a jogar porque era divertido. E o novo Noam fazia apenas coisas que gostava.

Noam_Gershony

A ascensão no tênis tomou um tempo. No início, ele não quis participar de competições. “No tênis há muitos perdedores, e apenas um vencedor”. Em sua palestra, Noam mostra uma foto de quando perdeu a semi-final de um torneio muito importante. Ele aparece sorrindo, com pose de satisfeito. Seu treinador, nem um pouco contente, perguntou: “Porque voce está feliz com a derrota? Voce acabou de perder o jogo mais importante da sua vida!” e então Noam respondeu: “eu fiz um jogo excelente. Mas o adversário esteve melhor hoje. Fazer o que? A minha parte eu fiz. Tem coisas que não dependem de mim. Eu me diverti jogando.”

A possibilidade de viajar pelo mundo venceu a aversão à competitividade e, gradativamente, Noam foi melhorando seu ranking no circuito mundial e ganhando experiencia.

As Olimpíadas de Londres

O auge da breve carreira como tenista foi a conquista da medalha de ouro nas Olimpíadas de Londres. No início, tudo conspirava contra ele. O sorteio da chave foi complicado, a cadeira que ele costumava usar foi quebrada no início da competição e seu treinador não pode comparecer ao evento.

Superados todos os problemas, Noam chegou à grande final. E a final foi contra o número um do ranking, que já o havia vencido duas vezes em confrontos anteriores.

Mas o momento era de Noam. Menos pressionado e jogando mais solto, ele venceu o jogo e vivenciou um dos momentos mais marcantes de sua vida: escutar o hino de Israel na cerimônia de recebimento das medalhas em Londres. Veja o video abaixo (caso a legenda não abra automaticamente, clique no botão CC )

No final de sua palestra, Noam lembra que junto de si em pensamento, estavam seus amigos, Tom Farkash e  Ron Kochba, e exalta a importância de sua familia e amigos durante o processo de recuperação,

Noam Gershoni é um herói nacional. Sua emocionante história, nos mostra que tudo na vida deve ser levado em proporções. Que devemos fazer coisas que dão prazer, competir contra nós mesmos, e buscar uma vida de realizações e de ajuda ao próximo, mesmo quando também precisamos ser ajudados.

Afinal, o que importa quem vai ganhar? A vida de Noam mostra que existem coisas muito mais importantes que a vitória. Ele mostra que nem tudo depende de nós, mas o que realmente depende deve ser feito da melhor maneira possível. Seja qual for o fim, devemos estar realizados com o caminho que estamos seguindo. E assim segue Noam o seu caminho.

Matérias sobre Noam Guershoni:

http://www.paralympic.org/feature/no-16-israeli-war-veteran-turned-national-hero (inglês)

http://www.mako.co.il/pzm-magazine/Article-631e1624fc9a931006.htm (hebraico)

 

Comentários    ( 5 )

5 comentários para “A trajetória de um campeão”

  • Sheila Tellerman

    20/06/2015 at 14:55

    Amir querido,gostei muito de ter conhecido Noam através de vc,que escreve tão lindamente!!Essa é uma lição de vida,e das boas!!!Um grande beijo pra vc da tua sempre morá,Sheila.

  • Alex

    20/06/2015 at 16:08

    Amir, se o seu propósito era fazer a gente chorar de emoção, conseguiu.
    Orgulho, emoção e lição de vida.
    Obrigado,
    Alex

  • Marcelo Starec

    20/06/2015 at 21:55

    Oi Amir,

    Lindo texto!…Parabéns a você e a toda a Equipe do Conexão por nos trazer artigos que realmente “conectam” os leitores com a sociedade israelense!…Assim como o Alex, a Sheila e tantos outros, fiquei emocionado ao ler o artigo e ver o vídeo! Acredito que todo judeu tem, lá no fundo, um pouquinho de Noam Guershoni dentro de si…Um povo que foi tão perseguido e discriminado ao longo do tempo, que pela lógica “normal” nem deveria mais existir, está aqui – firme e forte!…Um povo que três anos após sofrer o Shoá, perdendo 6 milhões de almas, estava reconstruindo o seu Estado – e não “chorando” e exigindo do mundo que ficasse com pena…mas caminhando para a frente!….Assim como fez, de forma brilhante, o nosso herói Noam Guershoni !!!…..

    Abraços,
    Marcelo.

  • Isabel

    21/06/2015 at 14:28

    Amir, se o seu propósito era fazer a gente chorar de emoção, conseguiu. (2)

    Lindo Lindo !!!!

    Kol a Kavod !

    Pelo texto
    e Para o Noam !!!

  • maria lucia

    25/06/2015 at 00:49

    Shalom, Amir, obrigada por seu lindo artigo. Realmente…é muito…muito emocionante!! Conheço um piloto da Força Aérea também e sei o quão dificil é este exame.. Que bom que tive a oportunidade de ler este seu emocionante relato….. ouvindo algo tão fortalecedor. Seja para ti e para todos os bravos guerreiros da IDF, principalmente Noam, dias maravilhosos na presença do Eterno de Israel!!. Como bem disse Isabel acima, a gente chora mesmo de tanta emoção.

Você é humano? *