A última carta

Sean Carmeli morreu no dia 20 de julho de 2014, junto com outros 12 companheiros combatentes da divisão Golani, durante uma batalha no bairro de Shejaiya, na faixa de Gaza. Sean nasceu nos EUA, filho de israelenses, e imigrou a Israel aos 16 anos para poder servir o exército. Apesar de morar com suas duas irmãs em Raanana, e apesar de seus pais passarem alguns meses por ano nos EUA, e o restante do tempo em Israel, ele era considerado pelo exército um “soldado sozinho” (חייל בודד). É assim que se denominam os soldados que imigraram sem a família.

A informação de que um soldado sozinho havia sido morto durante a operação em Gaza, e que possivelmente poucas pessoas compareceriam a seu enterro, se espalhou de forma viral no facebook e whatsapp. No fórum dos torcedores do Maccabi Haifa, seu time do coração, divulgaram o seguinte: “Esse é um enorme favor que nós pedimos de vocês, torcedores do Maccabi Haifa, e é a sua oportunidade de fazer uma grande mitzva [boa ação]. Sean Carmeli era um soldado sozinho e nós não queremos que seu enterro seja vazio. Venham honrar uma última vez um soldado que foi morto para que nós possamos viver. Este é o mínimo que podemos fazer por ele e por nosso povo.”

O chamado tocou no coração do povo, e cerca de 20 mil compareceram ao enterro. Esta foi uma clássica expressão israelense de solidariedade mútua, e do reconhecimento de que cidadãos do norte, centro e sul compartilham de um destino comum.

O cantor e compositor Ariel Horowitz também se comoveu com a resposta popular à morte de Sean, e escreveu a canção Vinte Mil Pessoas em sua homenagem. Parte da letra diz: “Vinte mil pessoas e você é o primeiro / Vinte mil pessoas atrás de você, Sean / Caminham em silêncio com flores / Duas irmãs / Vinte mil irmãos. / Os torcedores de futebol / Que vieram com os cachecóis do time / E uma garota com uma bandeira / Que não sabe bem por que ela chora tanto / Sem sequer te conhecer. / Vieram dizer obrigado e se despedir / Dizer que não existe “soldado solitário” / E também “esse povo não viverá sozinho” / Enquanto ainda houver no Texas, em Haifa, em Gush Etzion / Pessoas como você, Sean.”

Veja abaixo o clipe da canção, e os interessados podem aprender a letra em hebraico em meu blog Shirim em Português.

Canções sobre soldados caídos são muito comuns em Israel. Este é um dos jeitos usados para humanizar e personalizar a vida de alguns dos mais de 23 mil soldados mortos na história do país. Existe um projeto chamado “Daqui a pouco viraremos uma canção”, da rádio militar Galatz, no qual artistas famosos compõem melodias para poesias escritas pelos próprios soldados mortos, e assim “eternizam” sua memória. Às vezes algumas das canções chegar a fazer sucesso e são tocadas nas rádios ao longo do ano inteiro, e não apenas em Yom HaZikaron, como é de costume. Abaixo contarei um pouco sobre três soldados caídos e as canções de sucesso baseadas em suas poesias.

Reuven Politi morreu dois dias antes de completar 19 anos, durante a Guerra de Yom Kipur, em 1973. Ele gostava de teatro, era um esportista de talento, e gostava de escrever poesias. Sua poesia “Mãe, pai, e todo o resto” foi musicada por Idan Raichel, chegando a ser a quinta canção mais popular de 2011, segundo a rádio Galatz. O refrão da música diz: “Não somos heróis pois nosso trabalho é negro / Que o sol se ponha, venha a escuridão / Então dormiremos em nossas roupas na cama / Sim, mãe, é importante, é difícil e é terrível.” Aprenda a letra completa em hebraico aqui.

Nadav Harari chegou à sua unidade na divisão de tanques no dia 24 de outubro de 1973, cerca de uma hora antes do cessar-fogo da Guerra de Yom Kipur. Ele foi morto por snipers na cidade de Suez. Alguns meses depois, sua esposa Noga deu à luz a seus dois filhos, Ro’i e Gal. Sua poesia “Eu te amo forte” foi musicada por Yehuda Poliker, e Gidi Gov a canta. Foi a sétima canção mais popular de 2010 segundo a rádio Galgalatz. Aprenda a letra completa em hebraico aqui.

Moshe Ochayon tinha 20 anos quando morreu em um acidente, enquanto sua unidade combatia no sul do Líbano, em 25 de janeiro de 1995. Ele escrevia cartas a sua namorada, e em 2011 Idan Amedi fez um apanhado de algumas frases de suas cartas e compôs uma melodia para a canção que chamou de “A Última Carta”. Parte da letra diz: “Amada, como a neve caiu aqui de noite / Muito romântico / Quantos flocos queria lhe enviar / Na última carta. / Não chora por mim / Estou aqui sorrindo de verdade / Cuide-se bem por mim / Cuida do Yaron / Hoje o papai faz aniversário / Diz para ele que o amo muito / O seu Moshe / O filho perdido no Líbano.” Aprenda a letra completa em hebraico aqui.


 

Fontes:

Sean Carmeli: YNET, nana10, Haaretz, mako.
Reuven Politi: Galatz.
Nadav Harari: YNET.
Moshe Ochayon: Galatz.

Foto de capa: Flickr de Pimthida, segundo a seguinte licença Creative Commons. A foto foi levemente modificada, efetuei um “gaussian blur” [RLE] de 3px de raio.

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