Abu Mazen e palavras ao vento, direto de Ramala

13/01/2017 | Conflito; Política

Fui lá para Ramala (Cisjordânia) esses dias. Minha segunda vez, de novo um passeio “chapa branca”, a convite do Escritório de Representação do Brasil na Palestina. Enquanto não existe um Estado formalizado, isso é tudo ao que os 5 mil brasileiros que vivem ali têm direito. Mesmo sem status de embaixada, o simpático pessoal de lá trabalha à beça, provavelmente até mais do que os funcionários da Embaixada do Brasil, que fica na minha vizinha Tel Aviv.

Vou escrever aqui umas coisas meio soltas, uma reunião de impressões que, no fim das contas, são só isso mesmo: impressões. Nada de análises sobre a situação palestina, a paz que nunca chega, a vergonha dos muros que nos separaram ou os motivos de existir.

Você recebe o convite para cruzar a “fronteira” e precisa preencher uma ficha de segurança para o exército. Em ambas as vezes, passei para o “lado de lá” pelo checkpoint de Qalandiya.

Na primeira passei a pé, na contramão de umas três centenas de pessoas que se aglomeravam esperando sua vez para passar pelo controle de documentos. Dessa última vez, semana passada, eu estava dentro do carro do Escritório de Representação. Há uma fila grossa de veículos para entrar e para sair que, segundo descrevem, é perpétua. Era um dia de frio, então não pareceu durar muito nossa espera; já na primeira vez era verão e foi uma de uma lonjura temporal inesgotável.

A área da barreira militar é feia de doer. Para construir aquele muro, tudo indica, esforçaram-se ao máximo para que fosse o mais horroroso possível, de um cinza tristonho. Tipo parede de prédio abandonado. Torres de controle altíssimas e, mesmo lá em cima, aquelas grandes de ferro de proteção. Será que alguém já tentou escalá-las?

No nível do chão, um caos de carros, um “terrenão” bem abandonado cheio de pequenos e grandes lixos. A ilustração perfeita da terra de ninguém. Trânsito, trânsito, trânsito, fora um pó dos infernos.

A viagem de carro, de 15 ou 20 minutos até Ramala, passa pela tal Qalandiya. Não sei se dá para chamar de cidade, uma vez que é terra de ninguém. De ninguém mesmo: é parte de Jerusalém, mas não é. Palestina, também não. Ali não há serviço público e a população faz o que pode. Curiosa é a altura dos prédios: quase sempre altos, com pelo menos dez andares. Malucamente, seus moradores chegam até eles por caminhos de terra batida, sem asfalto. Não há licença para construção, não há alvará, não há controle. Terra de ninguém, mas com um monte de gente morando lá.

Você percebe que chegou em Ramala quando tudo parece um pouco mais organizado e os prédios diminuem de altura. Muitas ruas de chão batido, mas com alguns hotéis bacaninhas, bons restaurantes – e preços geniais, devido a uma economia achatadíssima: por exemplo, sopa ou omelete por 18 shekels e coca-cola por 4 (em Israel custariam 30 e 11 shekels, por aí). É ali que fica o Escritório de Representação do Brasil, onde um grupo de brasileiros passam dias, e às vezes noites, tentando livrar conterrâneos de encrencas diversas.

Eles mudarão de endereço em breve, em função do sem número de problemas estruturais do prédio. Para completar, rolou um incêndio ali há pouco tempo. O curioso é que as chamas pouparam o escritório se alastrando para cima e também para baixo do terceiro andar, danificando, no que os diz respeito, tão somente uma impressora. Para mim, essa é a comprovação final de que Deus é mesmo brasileiro.

Sobre as mesas daqueles jovens funcionários brasileiros, acumulam-se casos curiosos, que demonstram um pouco o choque cultural entre os dois povos – ou talvez não, já que a miséria humana pode ter a mesma cara em todos os pontos do globo. Mulher escravizada pelo marido que busca voltar para sua família no Brasil; marido que some do mapa deixando dívidas e família de muitíssimos filhos; pais que ligam desesperados para saber para onde foram levados seus filhos presos em situações diversas de confronto, já tão corriqueiras que passaram a ser parte do dia-a-dia também dos brasileiros palestinos.

Mas tudo isso nada tem a ver com o que eu estava fazendo lá: fui para acompanhar, como jornalista, o encontro do presidente palestino Mahmoud Abbas com representantes da esquerda israelense. Cheguei mais cedo, no entanto, para participar de encontros com ativistas palestinos. O tema foi o nó duplo em que a atual geração de israelenses e palestinos vive, apesar de não conviver. Hoje, o problema está longe de estar só na cabeça dos dirigentes e gerenciadores do conflito, pois infiltrou-se, obviamente, pela população, com destaque para jovens e crianças. Há décadas eles nascem e crescem vendo uns nos outros seu pior inimigo.

Se há razão nisso, pouco importa para esse meu texto. O fato nu e cru é que a demonização de ambos os lados corrói a esperança e as expectativas são funestas. O que hoje conecta mais fortemente crianças palestinas e israelenses não é a infância, mas o medo mútuo: de ambos os lados da barreira militar, elas choram e, à noite, fazem xixi na cama toda vez que são expostas ao “inimigo”. Para a criança palestina, o israelense judeu tem hoje a forma de um soldado fardado; já para a judia, facas e armas parecem ser a extensão natural do corpo do vizinho indesejado.

Mesmo que Abbas afirme e reafirme que a paz pode ser alcançada em um único dia, como fez em seu encontro com os israelenses naquela noite gelada, a conciliação e a mudança de paradigma das novas gerações precisarão certamente de algumas décadas para acontecer.

Encontro com o Presidente da Autoridade Palestina – Éramos parte das cerca de 250 pessoas, entre israelenses e palestinos, que chegaram ao palácio de governo, o Mukataa, para o encontro com Abbas. As informações estão aqui, na matéria que publiquei no site da Conib – Confederação Israelita do Brasil.

Venha comigo aos bastidores.

Antes de mais nada, telefones e câmeras não podem entrar no recinto, para nossa grande decepção. Abu Mazen, como Abbas é conhecido por aqui, entrou escoltado por seis seguranças com um bom atraso: o evento deveria começar às 18h, mas só iniciou-se depois das 19h. Por mais de uma hora, ex-parlamentares da esquerda israelense e ativistas pela paz dos dois lados falaram, com maior ou menor brevidade. Todos os discursos enalteciam a disposição em Abu Mazen em comparecer à Conferência de Paz em Paris, que acontece no dia 15 de janeiro. Tudo muito bonito e cheio de aplausos, algo para mim um tanto decepcionante — falta de novidades sempre derrubam o astral de um jornalista.

O líder palestino acompanhou em silêncio os discursos em árabe e em hebraico por meio de uma sofrível tradução simultânea – espero que a do hebraico para o árabe tenha sido melhor do que inversa, na qual ouvi mais silêncio do que palavras. Tive um surto de desconfiança, acreditando que o tradutor foi orientado a omitir informações importantes. Tentava encontrar a lógica dos discursos enquanto olhava os dois enormes banners com os rostos estampados de Abu Mazen e Arafat, exemplos típicos da estética kitsch nacionalista.

Quando finalmente chegou a vez do convidado de honra se pronunciar… ouvimos um discurso vazio. As mesmas palavras de sempre. “A paz virá quando Israel tomar a iniciativa de…”, “ambos os povos anseiam pela paz”, “agradecemos o apoio internacional”, “estamos prontos para o diálogo direto”. Blá blá blá. Nessa hora bateu uma certa desilusão, sabe? Pela certeza de, novamente, estarmos ouvindo palavras que não nos impulsionam para lado nenhum. Pelo contrário, nos enterram cada vez mais no mesmo chão e no mesmo lado da barreira militar.

Nesse momento, em que a política israelense está acuada por resoluções da ONU e pressões internas e externas, bem que Abu Mazen poderia ser melhor aproveitado em uma ação objetiva, que demonstrasse intenções realistas. Começar um discurso dizendo que tudo se resolverá quando Israel fizer justamente aquilo que não está disposto a fazer – quero dizer, COMEÇAR com isso sem acenar com nenhuma estratégia diferente –, é uma demonstração sinistra de falta de energia, de reatividade, de exaustão, de conformismo. E de criatividade, coisa que falta por aqui e que agregaria muito valor a toda essa negociação que, como nunca sai do lugar, nem sei se dá para chamar ainda por esse nome.

E separo um parágrafo para dizer claramente: nosso primeiro-ministro israelense, Bibi Netanyahu, não fez, faz ou faria algo melhor. Blá blá blá. Está certíssimo quem diz que não temos, no momento, líderes históricos para resolver essa pendenga desgraçada.

Terminado o encontro, eu estava com cara de banana enquanto viajava de volta para Jerusalém. Eu tinha que escrever uma matéria sobre o encontro e sabia que não tinha nada a noticiar além do evento em si. Eu voltei para casa com as palavras de um político cansado que não traziam nada de novo. Minha colega Daniela Kresch também. Davi Windholz, ativista brasileiro que nos convidou para o evento, ficou feliz por poder entregar nas mãos de Abu Mazen seu lindo projeto de Coral Virtual – Davi é um dos que lutam para diminuir o trauma e promover o relacionamento entre crianças dos dois lados do conflito (conquistando com suas ações a admiração de uns e o desprezo de outros). Como ele diz, está fazendo algo para deixar a esperança pela paz queimando em “fogo baixo”.

De resto, continuamos na lenga-lenga, com terras de ninguém, palavras ao vento e desilusão. Que venha Paris.

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