Acordo, você faz falta

08/11/2014 | Conflito, Política, Sociedade.

*Por Breno Carvalho, Luísa Newlands e Vivian London – chaverim do Hashomer Hatzair Brasil

 

Chozrim LaKikar (Voltamos à Praça), realizado nesse primeiro de novembro, foi mais um dos encontros no qual a presença se fez válida. Ele contou com a presença de jovens, senhores e senhoras que acreditam na paz através do diálogo. Milhares de pessoas encheram, no último sábado, a Praça Rabin – local onde o ex-primeiro ministro foi assassinado há 19 anos. O ato, organizado pela família de Yitzhak Rabin, contou com a presença do partido israelense Meretz, ativistas da ONG Paz Agora e outras organizações, como Mulheres Fazem Paz, Amigos da Terra e Futuro Azul e Branco.

Certos aspectos do ato nos chamaram a atenção. Artigos, matérias em jornais e publicações no Facebook, nas semanas que antecederam o evento em memória a Yitzhak Rabin, transmitiam a sensação de tristeza. No entanto, percebemos que se tratava de muito mais que uma concentração em homenagem ao ex-primeiro ministro. Tratou-se de uma manifestação em prol da paz, que só será alcançada com o retorno das negociações, legado que Rabin nos deixou.

image (2)Para ilustrar o clima de esperança – e não de tristeza – houve apresentações de artistas israelenses famosos, como Avraham Tal e Mashina, no decorrer do evento. Fomos surpreendidos também pela presença do grupo de hip-hop Hadag Nachash. Além do hit – e praticamente novo hino da esquerda – Zman Lehitorer (Hora de Acordar), a banda tocou uma das suas músicas mais famosas: Shirat Hasticker (Canção dos Adesivos). A letra mostra as diferentes correntes de pensamento da sociedade israelense através de adesivos, em sua maioria políticos, e cita, em muitos momentos, lemas da extrema direita no início dos anos 90. Entre eles, escutamos o peculiar “morte aos valores”. O trecho gera uma reflexão: a quem o crime de Ygal Amir foi direcionado, afinal? Somente a Rabin ou também aos valores que ele defendia?

Nesse aniversário de 19 anos do assassinato de Yitzhak Rabin, sentimos a obrigação de ir ao lugar no qual três tiros foram disparados: um contra o primeiro ministro, um contra a democracia e outro contra a paz. O primeiro projétil foi fatal. Apesar de debilitadas pelo conflito cada vez mais sólido entre israelenses e palestinos, as duas outras vítimas perduram na sociedade.

Por mais complexo que o conflito possa ser, uma questão é evidente: Israel e Autoridade Palestina (AP) têm falhado na busca por um acordo. Enquanto Israel, por exemplo, não interrompe a construção de novos assentamentos, temos uma AP que consente com a permanência de ramos extremistas no poder, principalmente em Gaza.

Como ativistas do movimento juvenil Hashomer Hatzair e como moradores do país desde fevereiro deste ano, tivemos muito contato com temas como paz, justiça social, respeito e irmandade entre os povos. Presenciar a operação Margem de Proteção tornou mais evidente para nós a necessidade de se firmar um acordo de paz que suspenda as trocas de fogo que tanto flagelam. Os cartazes do partido Meretz levantados na manifestação não nos permitem mentir: “Se não há paz, vem a guerra”.

Nesse sentido, oradores da manifestação nos deram uma perspectiva positiva acerca da resolução desse doloroso e complexo conflito. Shimon Peres, ex-presidente, lembrou a todos na praça: “Melhor uma paz fria do que uma guerra quente”. Caso seja firmado um acordo – objetivo principal exigido do atual governo de Israel no evento – presume-se que esse não seja perfeito de imediato.

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Assim como a educação que o movimento Hashomer Hatzair defende como meio de alcançar a paz, um acordo não criará utopias repentinas. Exigirá esforço e compromisso de ambas as partes e funcionará como disparador de um processo evolucionário e gradual em direção à paz. O primeiro passo, para o governo israelense é encontrar a parcela do povo palestino que está disposta a dialogar e a fazer um acordo.

Yigal Amir, há 19 anos, cometeu um atentado contra Rabin, mas seus ideais sobreviveram. Mesmo que o processo de paz tenha permanecido congelado por anos, os valores de Rabin persistem cada vez mais fortes. Muki Tsur, renomado historiador israelense, nos deu essa certeza em uma palestra do programa Shnat Hachshará: “ideias não são pessoas. Elas não nascem e não morrem. Passam, de geração em geração, com a possibilidade de serem reinterpretadas e renovadas. E a ideia da paz nunca esteve tão viva”.

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “Acordo, você faz falta”

  • Marcelo Starec

    08/11/2014 at 15:28

    Bom artigo…Eu gostaria de ressaltar esse trecho: “O primeiro passo, para o governo israelense é encontrar a parcela do povo palestino que está disposta a dialogar e a fazer um acordo.” Sim, esse é o primeiro passo – sem isso, tudo o mais é, digamos, chover no molhado!…E também gostaria de acrescentar – estaremos próximos e sim chegaremos a um acordo quando você verificar também árabes palestinos fazendo essa mesma manifestação lá em Gaza, exigindo do Governo Palestino que renuncie ao terrorismo e busque o diálogo!…Infelizmente, os interessados na paz, do lado de lá, tem de ficar calados, por motivos óbvios!….
    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    08/11/2014 at 17:06

    Que a situação atual é insustentável parece óbvio, e também que melhor uma paz fria do que uma guerra quente. O problema, por enquanto insolúvel é que esse tipo de manifestação só ocorre em um dos lados.
    “contou com a presença do partido israelense Meretz, ativistas da ONG Paz Agora e outras organizações, como Mulheres Fazem Paz, Amigos da Terra e Futuro Azul e Branco.” TODOS israelenses.
    Tenho certeza de que no dia em que algo ao menos parecido acontecer na Cisjordânia ou em Gaza, a paz estará próxima.

  • Raul Gottlieb

    09/11/2014 at 19:05

    É isto mesmo! Continuamos a querer um acordo, trágica e infelizmente sem Rabin z’l, esperando que do lado de lá haja um movimento que faça duas pazes:

    – a primeira é a indispensável paz que a cultura árabe tem que fazer com os valores democráticos e iluministas que permitem o convívio entre diferentes.

    – a segunda é a paz com os israelenses, que vai “cair de madura” quando a primeira for feita.

    este duplo Shalom Achshav é o que precisamos.

  • Daniel Cohen

    07/12/2014 at 08:09

    Marcelo e Raul,

    Seus comentários aqui no Conexão a respeito do Conflito quase sempre estão recheados de exigências de “reciprocidade” por parte de outro lado, reciprocidade a qual carece nos seus comentários. Vocês gostariam de sentir confiança que existem palestinos dispostos à paz e ao diálogo mas afirmam não reconhecer isto em nenhum deles…

    Primeiro que sim, existem palestinos e grupos de palestinos que buscam a paz, diálogos e os acordos.

    Segundo, temos que ser a mudança que queremos ver no nosso entorno, devemos ser o exemplo, não adianta querer poder contar com a confiança no próximo, quando nosso discurso é pautado em não crer que isto seja possível, a não ser que eles deem o primeiro passo, façam isso, aquilo…

    Terceiro, Israel vive uma economia estável, governo extremamente democrático e sem problemas sociais, se comparado a situação vivida em Gaza e Cisjordânia. São eles que tem as melhores condições de enfrentar seus radicais e dar o primeiro passo para que assim nós (os pobres coitados) possamos confiar que eles também tem boas intensões assim como nós (embora não tenhamos mostrado nossas boas intensões porquê ainda não podíamos confiar neles)? A responsabilidade deve realmente ficar com eles?

Você é humano? *