Ah, não: entendendo a crise nas relações Brasil-Israel

26/07/2014 | Conflito, Opinião, Política.

O lamentável episódio do atrito entre o Itamaraty e a chancelaria israelense evidencia dois fenômenos interessantes. Primeiramente, no campo teórico, fica clara a diferença existente entre as escolas de Relações Internacionais. No âmbito prático, notam-se erros de condução da política externa de ambos os lados.

A principal doutrina de relações internacionais é o realismo, que acredita que há anarquia na arena global e que o principal objetivo de cada Estado é a sua própria sobrevivência. O realismo é a mais antiga teoria, fruto de uma época em que os países mais guerreavam que cooperavam, e defende que, acima de tudo, cada Estado busca aumentar seu poder dentro de seu sistema regional e, se possível, da arena global.

A política externa de Israel é realista, o que se deve principalmente à sua condição de Estado isolado em meio à vizinhança hostil. Um dos principais exemplos desta postura é o famoso “poder de dissuasão”, sobre o qual falarei no Anexo deste artigo.

A doutrina concorrente com o realismo no mainstream das relações internacionais é o liberalismo. Típico, mas não exclusivo, do Hemisfério Ocidental, o liberalismo defende que a política externa de um país não está focada em sobreviver e acumular poder na arena internacional, mas sim em propagar suas ideologias. Acredita-se que no poder do comércio multilateral como mantenedor da paz. Um país estaria disposto a abrir mão de certo poder em prol da criação de um sistema internacional mais organizado, de acordo com suas prioridades políticas. Um grande exemplo desta corrente é a formação da União Européia.

Historicamente, o Itamaraty é uma dos maiores exemplos de chancelaria liberal, com sua constante preferência pelo multilateralismo, seu pioneirismo em organizações internacionais e sua disponibilidade para cooperar em iniciativas coletivas. O Brasil é membro-fundador da Organização das Nações Unidas, por exemplo, sustenta quase sozinho o Mercosul – onde ganha muito pouco em relação a seus vizinhos – e está sempre envolvido em missões de paz.

Alternativamente, entre algumas opções disponíveis, há a leitura marxista das relações internacionais, criada por Vladimir Lênin em seu Imperialismo, fase superior do capitalismo, que importa o conceito de luta de classes pelo poder para dentro da teoria realista. A população de cada país divide-se entre as classes de capitalistas e proletários, cujos laços de lealdade expandem-se internacionalmente e são mais fortes que os laços nacionais.

As nações, por sua vez, são divididas entre imperialistas e colonizadas, estando os países periféricos eternamente amarrados às potências segundo a Teoria da Dependência, ironicamente expandida por Fernando Henrique Cardoso em sua época de sociólogo.

Esta teoria deu à luz o Movimento dos Países Não-Alinhados, muito forte entre nações subdesenvolvidas africanas e asiáticas, mas do qual o Brasil é apenas membro-observador, muito em função da predominância histórica do liberalismo no Itamaraty. Recentemente, há uma guinada na política externa brasileira em direção à divisão dos países entre desenvolvidos e subdesenvolvidos (ou “em desenvolvimento”), sendo o Brasil considerado líder natural deste segundo grupo.

Esta é a principal discrepância entre as políticas externas de Brasil e Israel. Muitas vezes, mesmo em episódios anteriores, parece que cada lado é sequer capaz de entender a leitura que o outro faz do sistema internacional de relações. Tanto a chancelaria quanto a população brasileira, ambas acostumadas com o liberalismo, a coexistência e a cooperação, têm dificuldades de entender a obsessão israelense pela sobrevivência.

Por outro lado, a chancelaria israelense e, em grande parte a população local, também não absorvem inteiramente as idéias liberais – não apenas brasileiras, mas também européias – considerando que são países que enfrentam outra realidade no tema da segurança e jamais entenderiam as nossas prioridades. O israelense médio costuma repetir a frase do ex-primeiro-ministro trabalhista Ehud Barak, que resumia a arena regional comparando o Estado de Israel a uma mansão em meio à selva.

As divergências de opinião acentuaram-se mais ainda nos últimos anos, quando o governo brasileiro inseriu uma pitada de marxismo ao seu liberalismo e, em paralelo, o ministério israelense das relações exteriores foi ocupado pelo partido Israel Beyteinu. Avigdor Lieberman, nascido na Rússia, importou uma mentalidade realpolitik como só os governantes de seu país de origem sabem fazer.

Esta conjuntura permitiu que, quando o Brasil optou por convocar seu embaixador em Israel para consultas baseadas em noções imprecisas de falta de proporcionalidade e desrespeito pelas vidas civis (leia, no Anexo deste artigo, porque o Brasil está equivocado) a chancelaria israelense respondesse de maneira agressiva.

A nota oficial israelense acusa o Brasil de irrelevância diplomática, o que em absoluto não é verdade. Mas evidencia que a opção liberal do Brasil por posicionar-se como líder do mundo subdesenvolvido, em lugar de país de potência econômica emergente, é vista como um sinal de fraqueza ao olhos de analistas puramente realistas.

O uso do termo “anão” pelo porta-voz da chancelaria israelense foi certamente indelicado. Mas é provável que tenha sido escolhido a dedo para contrapor-se às manias brasileiras de “maior do mundo” e “gigante pela própria natureza”. A decisão brasileira foi um claro abandono do liberalismo em prol do marxismo pois abriu mão de ser intermediador para tomar um partido, mas a resposta do ministro brasileiro das relações exteriores foi um exemplo clássico de liberalismo, dizendo que o Brasil prefere não escalar este atrito com um país amigo, com o qual há bastante cooperação e comércio.

No final, entretanto, com a língua na bochecha e um meio-sorriso, o chanceler Luiz Alberto Figueiredo demonstrou que a chancelaria israelense havia acertado na mosca: frisou que o Brasil é um dos poucos países que mantém relações diplomáticas com todos os Estados-membros das Nações Unidas. Ou seja: o Brasil é o “maior do mundo” nisso também.

A cobertura midiática deste fenômeno instantâneo seguiu a doutrina comum em cada país. A mídia israelense, realista, exibiu o que acreditava ser apenas mais um exemplo de país que se posiciona contra Israel, provando sua necessidade de sobreviver a todo custo. A imprensa brasileira, liberal, ficou chocada com um país que nem sempre opta pela simpatia, além de acusar o golpe embutido no uso específico da palavra “anão”.

Israel não consegue absorver a idéia de que nem todo país visualiza uma ameaça externa iminente à sua existência e, por isso, não está disposto a tolerar ações militares poderosas e recorrentes. Esta é a principal falha do esforço de “diplomacia pública” que o país conduz.

O Brasil, por sua vez, não consegue enxergar que sua tradicional opção pela cooperação e pelo multilateralismo nem sempre é a solução imediata a todas as questões e, em sua simpatia pelo sofrimento do povo palestino, analisou de maneira amadora a postura das Forças de Defesa de Israel no atual conflito em Gaza.

Pode-se concluir que há um choque de idéias entre duas chancelarias, que claramente não sabem como reagir a políticas externas que seguem diretrizes distintas das suas.

Artigos relacionados

Ver mais artigos

Comentários    ( 9 )

9 Responses to “Ah, não: entendendo a crise nas relações Brasil-Israel”

  • Eduardo

    26/07/2014 at 22:41

    Reinaldo Azevedo também disse que foi uma opção bolchevo-lulista da diplomacia brasileira…

    • Claudio Daylac

      26/07/2014 at 22:47

      Eduardo,

      Eu menciono a opção brasileira por uma leitura marxista das relações internacionais sem deboche. Acho que cada país pode optar por seus caminhos.

      Não é só porque Reinaldo Azevedo concorda comigo dessa vez que eu estou automaticamente errado.

      Acho que você está escolhendo opiniões por quem as emite e não por seu conteúdo.

      É uma pena.

      Um abraço.

    • Eduardo

      27/07/2014 at 05:27

      Até a carta do Bolsonaro já trouxeram aqui pra corroborar com o artigo…

    • Mario S Nusbaum

      28/07/2014 at 00:41

      E como você explica essa atitude completamente sem sentido Eduardo?

  • Mario S Nusbaum

    26/07/2014 at 23:38

    Não consigo enxergar a “complexidade” da questão. A diplomacia lulo-petista, enfiada goela abaixo do Itamarati desde que o [Lula] assumiu o poder, baseia-se em alguma premissas básicas.
    1) Ser contra tudo o que os EUA forem a favor e vice-versa, Por exemplo: se os EUA financiarem a busca de uma vacina contra a AIDS, o Brasil será a favor do vírus HIV
    2) Sempre que uma ditadura entrar em conflito com uma democracia, apoiar a primeir
    3) Danem-se os interesses do pais, dane-se nosso povo, o que importa é apoiar todo e qualquer ditador “de esquerda” ou que seja apoiado por elas
    4) Progresso ruim, atraso bom, liberdade ruim, dirigismo bom

    Vamos falar sério? Entre um país que tem uma parada gay e outro em que dissidentes são assassinados e tem seus cadáveres arrastados pelas ruas, é ÓBVIO que a [presidenta], ex-terrorista, e seu patrão vão sempre apoiar os fundamentalistas.

  • Luiz Eduardo

    27/07/2014 at 01:41

    Na verdade sabemos que quem decide a posição do país frente aos acontecimentos do mundo é a Presidência e, de novo, a nossa representante se mostrou despreparada para isso e lembrou seu histórico passado a todos os brasileiros, a favor do comunismo e com atos, como lembrou o DF Jair Bolsonaro, de terrorismo. Triste ! Fico com medo desta Urna eletrônica, que pode reelege-la e seus aliados e transformar o Brasil em um país comunista em 1964 e que os militares fizeram o contra-golpe ao comunismo. Leiam a história é melhor que pesquisem do que eu ficar falando. Leiam a carta do Bolsonaro. http://goo.gl/PIL9bE

  • Sami

    29/07/2014 at 12:28

    A P. Dilma nao disse nem uma palavra sobre o lancamento de milhares de raquetas a cidades israelenses.
    Ela tambem nao comentou os tuneis que o Hamas cavou de Gaza a territorio israelenses com a meta
    de possibilitar a entrada de guerilheiros do Hamas para matar cidadaos israelenses.(incluindo criancas e
    mulheres).
    Por isso a conduta da Dilma e vista como puro apoio a essas acoes do Hamas.
    Acho que Israel tambem tem que chamar seu embaixador no Brasil a Israel para verificar esses pontos.
    Talvez deste modo o Brasil podera entender melhor o que fez.( nem um pais fez o que o Brasil fez incluindo Egito e Jordania !!! ).
    Tel Aviv , Israel.

  • Bruno Ruivo

    30/07/2014 at 10:21

    Algumas observações: primeiro, o Brasil escreveu uma nota de repúdio ao Hamas. Não tendo embaixador na Faixa de Gaza, não poderia chamá-lo para consulta. Aliás, chamar um embaixador para consulta de modo algum implica em qualquer tipo de rompimento diplomático, ou mesmo de repúdio. Chamar o Brasil de “anão diplomático” por ter feito a tal declaração é um equívoco que sugere que “gigante diplomático” é quem concorda com Israel. Gostemos ou não, isso não é nem remotamente o caso. Acreditar o contrário, aí sim, seria mania de grandeza. E mesmo acreditando, expressar esse delírio em comunicado oficial é uma burrice. Mostra o amadorismo da equipe do Avigdor Liebermann. Muitos países já romperam relações diplomáticas por ofensas de gênero. Estejam certos que o Brasil não o fará.
    Entendo que o Claudio precisou, para fazer um texto agradável, torná-lo o mais enxuto possível sem perda do sentido. Mas ficou faltando mencionar as outras dezenas de óticas e tradições das relações internacionais. E a descrição sobre a teoria leninista do assunto ficou superficial, não faz justiça à complexidade do livro citado.
    Não é exato dizer que o Brasil sustenta o Mercosul e que este pouco o beneficia.
    Por fim–e vale a pena me estender nesse ponto, visto o que se reproduz diariamente sobre o assunto–cabe explicar uma coisa: não há pitada de marxismo no tipo de política externa que vem sendo feita. Ela não difere ao que tradicionalmente foi chamado de “Política Externa Independente”, ou P.E.I.–é algo tão raro que no jargão virou até sigla. A regra é o alinhamento automático com os Estados Unidos, mas alguns governos brasileiros tentaram uma P.E.I. O primeiro foi o Governo Jânio Quadros, na gestão do chanceler Afonso Arinos de Melo Franco. Na época a paranóia anti-comunista também vociferou acusações absurdas contra ele. As figuras mais pândegas do País o esculhambaram impiedosamente: Padre Godinho, Armando Falcão, Amaral Netto, Carlos Lacerda, Gustavo Corção–muitos de seu próprio partido–entre outros bufões. Mas Afonso Arinos não tinha nada de esquerdista, quanto mais de marxista. Pelo contrário, era um conservador, um elitista assumido, um aristocrata, um homem da direita desde que entrou para a vida pública aos vinte e cinco anos até a morte aos oitenta e cinco. Fundou a UDN, o PFL, o PSDB e apoiou o Golpe de 64.
    A segunda P.E.I. foi tentada no Governo João Goulart, com o chanceler San Thiago Dantas, que também não era nada marxista. Na verdade, San Thiago fez sua fortuna como advogado de inúmeras empresas americanas no Brasil. Mas também foi vítima de acusações infantis de “comunista”. Sobretudo por parte de gente como Plínio Salgado e grupos da extrema-direita armada como o CCC e o MAC, berços de futuros torturadores da ditadura militar. Seu sucessor, João Augusto de Araújo Castro, tampouco era marxista, em absoluto. Tanto que no regime militar foi embaixador em Washington–coisa improvável para marxistas de qualquer naipe.
    A terceira P.E.I. veio no Governo Ernesto Geisel, que certamente não tinha nada de marxista e inclusive torturava e trucidava comunistas nas selvas do Bico do Papagaio e nos seu porões (inclusive comunistas completamente contrários à luta armada, como Vladimir Herzog, Marco Antônio Coelho, Davi Capistrano, Manoel Fiel Filho). Mas no Governo Geisel, a P.E.I. foi conduzida pelo chanceler Azeredo da Silveira, que adotou uma postura dissonante dos Estados Unidos em quase tudo. Em alguns momentos, com sabedoria, como no apoio ao MPLA na Guerra de Independência de Angola. Outras, com tolices, como quando comprou uma usina nuclear da Alemanha (Ocidental, diga-se de passagem). E outras no maior desastre, como quando votou a favor da Resolução da ONU equiparando sionismo a racismo. Mas entre erros e acertos, fez uma P.E.I. que não se encaixa no maniqueísmo simplório.
    Aliás, poucas coisas se encaixam num maniqueísmo simplório, seja no Brasil ou em Israel–motivo pelo qual esse site é tão importante. Por exemplo, o Brasil reatou relações diplomáticas com Cuba em 1985, quando o chanceler era Olavo Setúbal, o banqueiro proprietário do Itaú. No terreno das relações internacionais, os estereótipos não prosperam.
    Afora essas ressalvas, o texto do Claudio é ponderado e muito bem-escrito.

    • Claudio Daylac

      30/07/2014 at 11:34

      Olá, Bruno.

      Obrigado pela visita e pelos elogios.

      Quanto às suas ressalvas, acho que acabou colocando palavras em minha boca. Deixei bem claro no artigo que a política do Itamaraty não era historicamente marxista, ainda que relativamente independente em certos assuntos ou épocas – o que não caracteriza marxismo de maneira automático em hipótese alguma.

      Quanto ao momento atual, teremos de concordar em discordar: acredito, sim, haver uma pitada de marxismo que se recusa a reconhecer a ligação ancestral dos judeus com esta terra e os enxerga como colonizadores.

      Por fim, reitero que jamais disse que convocar um embaixador para consultas caracteriza rompimento de relações.

      Acho que estamos concordando a uma taxa de 95% em linhas gerais, mas você não chegou à mesma conclusão, o que pode indicar que, talvez, você esteja certo sobre eu ter reduzido demais os conceitos em prol da fluência do texto.

      Um grande abraço.

Você é humano? *