Aí Já Era…

Fecho os olhos. Dias de silêncio, até parece sábado. Ouço a sirene. “Kipat Barzel* vai pegar mais esse”, penso confiante, ainda deitado. Tranquilamente, vou direto para as escadas. Tenho um diálogo longo com meus vizinhos. Um momento de estranha privacidade, afinal nos sentimos em casa mas nunca nos vemos. Não sei muito deles, acho que temos horários diferentes. Para os curiosos: os vizinhos se casaram a pouco e acabam de voltar da Itália. Não sei o que ele faz da vida. Ela entra em minha casa, que está com a televisão ligada. “Mísseis em Tel Aviv!”. O aplicativo já havia avisado. E veio a sirene, e então como o trovão que sucede o raio, a explosão. E o silêncio da noite anterior. Obrigado pela notícia, de qualquer maneira. (*Kipat Barzel ou Domo de Ferro é o nosso louvado sistema anti-mísseis de curta distância. São oito espalhados por todo o país.)

Volto à casa, preparo o primeiro café. Pensamento: o banheiro fica ao sul. Isto é, se um míssil viesse de Gaza (sul) para o meu prédio, provavelmente ele pegaria no prédio da Embaixada Brasileira antes. Essa informação me deixa feliz. Não pelo Brasil, mas pelo prédio. Essa eu realmente só pensei: o Hamas fica tentando nos machucar com suas catapultas. Poderia ser destrutivo, mas o nosso sistema de defesa é simplemente a mais bela invenção da engenharia e da modernidade. Chego a me empolgar. Um milagre, dizem os religiosos. Kipat Barzel já é mais popular que hummus aqui em Israel. Se fosse no Brasil já tinha gente batizando seus filhos: Kipat Barzel de Almeida.

Saio de casa. “O dia já não é mais o mesmo sem um desses hein!?”, diz o simpático vendedor. Há lojas no térreo. Sua loja não tem muito movimento, mas não é por causa dos mísseis. Os israelenses ficam mais unidos nessas épocas. Eles desejam coisas boas uns aos outros. É também uma boa época de mostrar que se importa com alguém, de maneira geral. Acho que é porque eles encontram seus vizinhos nas escadas dos prédios. É uma energia diferente. É interessante o que acontece quando todo um país é reduzido a um único patamar.

Atravesso a rua para cumprimentar um amigo. Com ele, um senhor que fala dos bombardeios de guerras passadas. Ouço com calma, mas tenho dificuldade de me integrar ao diálogo. Eles falam sobre o assunto com tom de voz diferente do que eu costumaria falar. Poderia dizer que é como misturar dois temperos muito diferentes num prato só. Israelenses são assim às vezes. Eles veem ironia nas mais estranhas coisas. Dias assim fazem lembrar que você vive no Oriente Médio.

Continuo o meu caminho. Chego no trabalho e reviso a Caixa de Entrada, marcando as mensagens mais importantes. A agenda toca no telefone avisando de uma reunião. Já!? Coloco no ‘Snooze’ de 10 minutos e vou preparar o segundo café do dia. O alarme da manhã não teve essa opção. Me pergunto se o Hamas tem email ou algum Serviço de Atendimento. Vou mandar um email para o info@hamas.org para pedir que me acordem meia hora antes amanhã. Cheguei atrasado no trabalho. Cada um com seus problemas? Aí já era…

Comentários    ( 2 )

2 comentários para “Aí Já Era…”

  • Mario S Nusbaum

    15/07/2014 at 01:19

    ” provavelmente ele pegaria no prédio da Embaixada Brasileira antes. ” Se não morresse ninguém seria muito engraçado. O que diriam os petralhas anti-semitas?

  • samara

    16/07/2014 at 06:10

    Jonja, muito bom!
    um toque de humor sutil e bem colocado e com uma bela construcao visual!
    pude me enxergar perfeitamente no seu texto!
    adorei!!

    obs: tem que fazer conta pra postar?? isso eh coisa do sr daylac, ne??

Você é humano? *