Ainda me fascina

15/04/2013 | Política

“Político é tudo igual” – Talvez. E aqui também existem as promessas não cumpridas, os votos comprados nas primárias partidárias e os escândalos de uso indevido do dinheiro público. Ninguém é santo.

Mas ainda me fascina, depois de uns bons quinze anos acompanhando os processos eleitorais israelenses e o jogo político das legislaturas que os sucederam, o fato de que os partidos tenham suas bandeiras e sejam minimamente fiéis a estes ideais.

Me fascina o fato ser possível traçar a tênue linha que separa o Likud do Israel Beiteinu (ainda que atualmente estejam coligados), ou entre a direita sionista e HaBait HaYehudi. E o mesmo vale para o outro lado do espectro: uma simples análise detecta as diferenças entre o Partido Trabalhista e o Meretz, ou entre este e o Chadash.

Me fascina que Yair Lapid prometeu “igualdade na distribuição do fardo”[ref]Expressão usada para demonstrar a necessidade de inclusão dos ultra-ortodoxos no serviço militar e no mercado de trabalho[/ref], um governo enxuto[ref]Lapid prometeu um máximo de 18 ministros, mas aceitou 22 ao final das negociações. Um significativa redução em relação aos 29 ministros do governo anterior.[/ref] e maior atenção à educação[ref]O novo ministro da educação é Shai Piron, do partido Yesh Atid[/ref] e foram exatamente estas as questões que emperraram por um mês e meio as negociações para a formação do atual governo. Mais ainda: fiquei boquiaberto quando, ainda que liderasse o maior partido do bloco de centro-esquerda e pudesse matematicamente formar o próximo governo, Lapid se manteve fiel à reforma política que seu partido propõe[ref]O líder da maior bancada deve necessariamente ser o primeiro-ministro segundo a proposta do partido Yesh Atid.[/ref] e indicou Benjamin Netanyahu para primeiro-ministro.

E o mesmo vale para os partidos considerados “perdedores” na última eleição. Zehava Galon e Shelly Yachimovitch, líderes do Meretz e do Partido Trabalhista, respectivamente, se mantiveram fiéis às suas promessas e não se juntaram ao governo liderado por Bibi Netanyahu. Diametralmente opostos do ponto de vista ideológico, os rabinos que comandam as legendas ultra-ortodoxas, Yahadut HaTorá e Shas, saíram de suas posições de conforto e sentaram-se na oposição diante de um governo que promete convocar os jovens estudantes de yeshivot[ref]As escolas rabínicas[/ref] para o serviço militar.

É natural que os dois grandes partidos históricos, Trabalhista e Likud, que encabeçaram praticamente todos os governos até o momento, tenham inúmeras correntes ideológicas internas. É natural também serem puxados para o centro quando no governo. Mas ainda é fascinante que tenham se inscrito trinta e quatro listas de candidatos nas últimas eleições para a Knesset, e seja possível afirmar que em sua maioria, tinham propostas claras e era difícil identificar um partido que fosse “descartável”, por simplesmente ser igual a outro já existente.

Por fim, me fascina o parlamentarismo de coalizão, sobre o qual escrevi em meu primeiro artigo no ConexãoIsrael.org, que força a formação de um governo que reúna mais da metade dos parlamentares, representando mais da metade dos eleitores. O partido no qual você votou pode não fazer parte do governo, pode nem ter conseguido se fazer representar na Knesset, mas são poucos os casos em que a coalizão que governa o país não reflita em linhas gerais as vontades e prioridades do eleitorado que a elegeu.

Se não representa com precisão as vontades da maioria da população do país, é porque um terço dos eleitores[ref]A participação nas últimas eleições foi de 67,78%[/ref] optou por não votar. E isso é uma pena, pois tem muito povo por aí querendo um sistema que o represente melhor e não tem.

A política israelense ainda me fascina, seu jogo de poder feito às claras é bastante interessante e até mesmo surpreendente. É mais um dos inúmeros aspectos que me fazem orgulhoso de ser israelense.

Desejo a todos um belo Yom HaAtzmaut e parabéns ao Estado de Israel por seus 65 anos!

Foto de capa: http://fromdorothea.files.wordpress.com/2013/02/pikiwiki_israel_7260_knesset-room1.jpg

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Ainda me fascina”

  • Raul Gottlieb

    15/04/2013 at 23:34

    Cláudio,

    Suspeito que um político em Israel que resolva trair miseravelmente os seus eleitores, como acontece aqui no Brasil sem te espantar, não conseguirá votos na próxima eleição com muita facilidade. Por isto eles andam mais na linha.

    Você ainda se fascina com isto porque é mais fácil uma pessoa sair do Brasil do que o Brasil sair de dentro da pessoa.

    Abraço, Raul

  • Claudio Daylac

    18/04/2013 at 01:17

    Olá, Raul.

    Por incrível que pareça, o grande campeão das promessas quebradas é o nosso primeiro-ministro. E já em seu terceiro mandato!

    Seu partido se utiliza da eterna posição anti-esquerda da população mizrahi para eleger-se há quase 40 anos. E suas políticas econômicas liberalizantes apenas prejudicam esta mesma parcela da população, que é mais pobre.

    Mas não entremos na questão econômica. Neste vídeo http://www.youtube.com/watch?v=1qX4gaY61V0 podemos ver o então líder da oposição, Bibi Netanyahu, criticando o governo do Kadima por não ter derrubado o Hamas em 2009. Eleito primeiro-ministro alguns meses depois, Bibi ignorou o sofrimento dos seus próprios eleitores no sul do país, e só resolveu fazer algo às vésperas das eleições de 2013.

    Novamente, não derrubou o Hamas. E sobreviveu às eleições.

    Mesmo assim, ainda é notável sua fidelidade às posições ideológicas do partido no que toca o processo de paz e a economia de mercado.

    Mas quando comparo o sistema parlamentarista israelense, pra falar a verdade, muitas vezes o comparo à democracia americana, com seu sistema bi-partidário, onde mal se distinguem democratas de republicanos, alienando metade da população que opta por não ir às urnas.

    O multi-partidarismo brasileiro é, sem sombra de dúvidas, frustrante, mas o voto obrigatório acaba por gerar uma participação minimamente informada/instruída/engajada de muitos cidadãos que, não fossem obrigados, jamais sairiam de casa.

    Um abraço.

  • Raul Gottlieb

    18/04/2013 at 10:01

    Tenho cá minhas dúvidas se o voto obrigatório gera uma participação informada ou engajada. Suspeito que a esmagadora maioria dos brasileiros não saberia dizer em quais deputados votaram últimas 3 eleições.

    Tenho a impressão que peso decisivo na votação no Brasil é o clientelismo: “o que o político prometeu fazer para o meu grupo, independente das consequências para a nação”.

    Em Israel isto existe, mas é menos forte do que aqui, até porque a questão existencial em Israel é uma questão forte, que inexiste aqui.

    Já sobre os USA não sei opinar bem.