Al-Jazira: os limites da revolução

Nos primeiros artigos desta série, comentei sobre o surgimento dos canais de televisão comercial via-satélite no Oriente Médio, fenômeno relativamente recente na região, em particular sobre a história do canal catariano Al-Jazira, seu principal expoente. Neste último artigo, analisarei o impacto da Al-Jazira na sociedade árabe do Oriente Médio e do norte da África e traçarei algumas conclusões.

Alguns dos programas da Al-Jazira ganharam relevância por trazerem o poder do debate para o Mundo Árabe, o que é uma revolução por si só. Temas locais, regionais e mundiais passaram a receber detalhada análise, com convidados incentivados a falar abertamente sobre assuntos polêmicos como as relações entre os diferentes países árabes uns com os outros, assim como com os Estados Unidos e demais potências ocidentais. O apresentador de um dos talk shows, considerado o debate político mais acalorado na região, narra este processo de transformação. Nascido na Síria e tendo cursado o ensino superior na Grã-Bretanha, Faisal al-Qasim conta que no início era difícil até mesmo para encontrar especialistas que aceitassem  vir ao estúdio e falar abertamente sobre temas políticos em seu programa “A Direção Oposta”.

Ao contrário da maioria dos canais de televisão árabes, que apenas transmitem conteúdo religioso que contenha pregações, a Al-Jazira é famosa por seus debates sobre o Islã sob uma perspectiva mais ampla. Por exemplo, “Religião e Vida” é um talk show apresentado pelo acadêmico catariano Yusif al-Qardhawi, que rompe com todas as concepções prévias sobre programação com temática islâmica ao abordar a interferência religiosa em questões como sexualidade e política. O programa é famoso por debater a relação entre os costumes religiosos e a modernidade de uma maneira nunca antes feita, usando um vocabulário e apresentando opiniões que não estão normalmente presentes na sala de estar árabe.

A Al-Jazira também tem sido revolucionária em sua cobertura do conflito israelense-palestino, ainda que seja considerada enviesada pelo governo de Israel. A Segunda Intifada Palestina, durante a primeira metade dos anos 2000, recebeu uma cobertura bastante detalhada, com um alto número de horas de transmissão, como era de se esperar de qualquer canal de notícia em idioma árabe, especialmente um que é amplamente assistido nos Territórios Palestinos. A grande inovação do canal, a atitude que mais o diferenciou das demais fontes de notícias no Mundo Árabe, foi permitir que as opiniões israelenses também fossem transmitidas. A Al-Jazira foi pioneira ao trazer à população árabe declarações israelenses, vídeos produzidos pelo governo e pelas Forças de Defesa de Israel e, acima de tudo, ao entrevistar autoridades israelenses e figuras públicas do país.

Tanto os debates políticos quanto os debates religiosos conquistam grandes audiências para o canal, mas também levantam animosidades, especialmente dos setores mais tradicionais e religiosos da população árabe, que recusam-se a aceitar a inserção de qualquer conceito ocidental em sua sociedade. Paradoxalmente, a Al-Jazira vem do conservador Catar, localizado no Golfo Pérsico, a área mais tradicional do Mundo Árabe. Muitos vêem a Al-Jazira – a península, em árabe – como uma ilha liberal que estranhamente recebe apoio político e econômico do governo catariano.

Este apoio e esta liberdade são muitas vezes vistos como um meio do Catar compensar sua reduzida área e pequena população, ao usar o poder econômico para impor sua agenda política ao público árabe em geral através da programação atrativa do canal, mesmo que ao custo de a Al-Jazira não transparecer os padrões culturais e sociais que prevalecem no país. Os regimes árabes que sentem-se desafiados pela programação do canal – especialmente, por suas entrevistas com dissidentes políticos, algo que inexistia anteriormente na televisão do Oriente Médio – têm constantemente apresentado queixas às embaixadas catarianas em seus países, alguns chegando a fechar os escritórios locais da Al-Jazira ou até mesmo convocar seus embaixadores no Catar para consultas.

As ásperas reações vindas de governos autoritários de outros países árabes são a prova inegável do alcance e da influência que a Al-Jazira ganhou no Oriente Médio e no norte da África ao longo destas quase duas décadas. O canal tornou-se um agenda-setter da maior magnitude, não apenas ao expandir o espectro de opiniões disponível para o público árabe atualmente sobre uma ampla gama de assuntos, como também por levantar questões não eram discutidas antes de sua chegada. Alguns destes assuntos que hoje são comuns já se libertaram da programação da Al-Jazira e chegaram aos lares e aos cafés, formando uma esfera pública[ref]Inspirado na efervescência dos cafés europeus no século XIX, o filósofo alemão Jürgen Habermas define a esfera pública como uma dimensão do social que atua como mediadora entre o Estado e a sociedade, na qual o público se organiza como portador da opinião pública. Para que esta seja formada, há de existir liberdade de expressão, de reunião e de associação. Por conseguinte, o acesso a tais direitos deve ser garantido a todos os cidadãos.[/ref]não-religiosa sem precedente nos países árabes. Este debate aberto e democrático pode ser identificado como a grande contribuição social de Al-Jazira à sociedade no Oriente Médio e no norte da África.

Nos últimos anos, a Al-Jazira serviu de referência para manifestantes e rebeldes em muitos protestos no Oriente Médio e no norte da África, na onda de movimentos sociais que foi instantaneamente rotulada como “A Primavera Árabe”. O canal criticou duramente os ditadores árabes, inflamando o que se costuma chamar de “a rua árabe” e influenciando os responsáveis pela derrubada de regimes em países como o Egito e a Tunísia. Governos autoritários foram desafiados e, em alguns poucos casos, até substituídos. Tudo isso ocorreu, entretanto, exclusivamente nos regimes árabes que se auto-declaram repúblicas.

Exceto por alguns casos mal-sucedidos – como o levante no Bahrein, que foi rapidamente sufocado com a ajuda saudita – as monarquias árabes, não menos autoritárias que as repúblicas, não foram desafiadas pela Primavera Árabe. Cabe ressaltar que não se trata de monarquias constitucionais à européia, mas absolutismos baseados no direito divino. Alguns dos regimes monárquicos, como a Jordânia, não obstante, concordaram em adotar algumas da medidas que o Catar aprovou na primeira década do século XXI e anunciaram eleições para um órgão parlamentar consultivo. Nenhum processo mais avançado de democratização, com a envergadura do que ocorreu no Egito e na Tunísia foi conduzido por nenhuma monarquia árabe de maneira geral, nem pelo Catar especificamente.

Conclusões

A televisão via-satélite em geral, e a Al-Jazira em particular, balançaram indubitavelmente a opinião pública no Mundo Árabe. A independência delegada ao canal pelo governo catariano lhe permite transmitir sem censura, trazendo estilo e conteúdo que o público no Oriente Médio e no norte da África jamais viram antes. Mais do que isso, a Al-Jazira é uma fonte de orgulho para os árabes, sendo um serviço de notícias reconhecido internacionalmente por prover cobertura independente dos fatos da região, transmitindo para o mundo, no idioma árabe, a partir do Oriente Médio e produzido por uma equipe árabe.

A revolução política em direção à ampla democracia ainda está por alcançar o Oriente Médio – sendo o Catar o perfeito exemplo de um regime conservador, disposto a fazer evoluções meramente cosméticas. Mesmo assim, pode-se concluir que a televisão via-satélite, tendo a Al-Jazira como sua principal referência, deu à população de idioma árabe o acesso a idéias e movimentos dissidentes, e temas para debate.

Assistindo debates de cunho social, política, econômico e até mesmo religioso em idioma árabe, com participantes árabes, o público árabe ganha consciência de que nenhum assunto pode ser considerado tabu e entende que o sistema democrático não é uma estranha idéia ocidental. Isto pode levar à próxima onda de mudanças.

Comentários    ( )

One Response to “Al-Jazira: os limites da revolução”

  • Marcelo Starec

    15/04/2015 at 17:56

    Oi Claudio,
    Esse artigo é muito esclarecedor e demonstra que existem, forças, dentro do mundo árabe que querem fazer mudanças, ainda que tímidas ou mesmo “cosméticas”. Em meu entender, essas transformações são necessárias até mesmo (e talvez muito por isso!) para a manutenção do poder por forças conservadoras, como monarquias ou “repúblicas” que muito pouco tem de “democráticas”, mas que sabem que, se não caminharem nesse sentido, tenderão a ser, em algum momento, repentinamente levadas pelo vento, não por algum “inimigo externo”, mas pela própria “Rua Árabe”…..
    Um abraço,
    Marcelo.