Alef Bet – Curtinhas 1

Em hebraico, “antes” se diz “à frente” (lifnei =לפני) e “depois” se diz “atrás” (acharei = אחרי). Será que no passado distante os primeiros falantes do hebraico imaginavam assim a passagem do tempo? Provavelmente… Aliás, hoje em dia temos o Norte como direção de referência, mas segundo o hebraico, antigamente o Leste era a referência. Uma palavra para oriente é “para frente” (kadima = קדימה), conforme aparece no hino israelense. Sul se dizia Teyman, que é derivado de direita (yamin = ימין), e hoje significa Yemen. O Mar Mediterrâneo é chamado de “mar de trás” em Deuteronômio 11:24 (hayam haachori = הים האחורי). Esta forma de localização espacial também aparece na língua portuguesa: quando alguém está perdido, dizemos que está “desorientado”, perdeu o oriente.

Route_ninety

Em hebraico existe uma expressão única, que é usada quando alguém compra ou ganha algo novo. Diz-se à quem ganhou: “renove-se” (תתחדש = titchadesh). A expressão pode ser usada para todo tipo de bem material, desde algo pequeno como uma camiseta, até algo grande como um carro ou apartamento. É como dizer um “parabéns” por estarmos felizes com a novidade material de outra pessoa.

Falando em parabéns, em hebraico a expressão é mazal tov (מזל טוב), que literalmente significa boa sorte. Como se diz boa sorte então? Behatzlacha (בהצלחה), que significa “com sucesso”. Em hebraico ninguém precisa de sorte antes de uma prova, apenas de sucesso. E se dá tudo certo, então sim a pessoa recebe boa sorte!

Em hebraico não se toma uma decisão. Decisões se recebem (lekabel hachlata = לקבל החלטה). Se recebe de quem?? Isso já é uma discussão filosófica, senão teológica. Resfriados também “se recebem” (השפן קיבל נזלת). Recebi um resfriado. Isso pelo menos é mais lógico que em português, porque você não precisa querer algo para recebê-lo (uma multa, por exemplo), mas não é muito óbvio por que alguém queira “pegar” um resfriado.

שפן

Quando um pai oferece água para seu filho, ele não diz “você quer beber água”, nem “você quer água”. A frase mais comum mesmo é “você quer beber?”. Cada vez que estou na rua e escuto isso, leva um tempo pro choque inical passar.

A palavra mais versátil da língua hebraica é “isto” (ze = זה). Sempre que você não encontra a palavra certa no fim de uma frase, pode-se dizer “isto”, e as pessoas balançam a cabeça como se tivessem entendido. “Eu fui à festa com o João, Maria e… e isto”. “Na faculdade estudei economia, sociologia e… isto”. Lembra um pouco o “trem” mineiro.

זהו זה
“Mesmo que” em hebraico é “afilu im” (אפילו אם). Afilu é uma junção de duas palavras: Af (também) e ilu (se). Ilu por sua vez, é uma junção de im (se) e lu (se). No final das contas, quando se diz “mesmo que” , se está dizendo na verdade “também se se se”. Exemplos assim são comuns em várias línguas. Por exemplo, “hoje” em francês se diz aujourd’hui, que é uma junção de au +‎ jour +‎ de +‎ hui, literalmente “no dia de este dia”. O francês que disser “no dia de hoje” (au jour d’aujourd’hui), está na verdade dizendo “no dia do dia deste dia”.

Expressões com origem nas partes do corpo humano:
“por causa de” se diz “da face” (mipnei = מפני),
“ao lado” se diz “sobre a mão” (al yad = על יד),
“na ocasião de” se diz “à perna” (leregel = לרגל),
“anteriormente” se diz “da cabeça” (merosh = מראש),
“de toda forma” se diz “sobre toda face” (al kol panim = על כל פנים),
“vivo” se diz “alma em seu nariz” (neshama beapo = נשמה באפו),
“escrito preto no branco” se diz “escrito preto nas costas do branco” (katuv shachor al gabei lavan = כתוב שחור על גבי לבן),
“unanimamente” se diz “uma boca” (pe echad = פה אחד),
“em sua imaginação” se diz “nos olhos de seu espírito” (beeinei rucho = בעיני רוחו),
uma coisa “falsa, inventada” se diz “chupado do dedo” (matzutz min haetzba = מצוץ מן האצבע),
“escapar a duras custas” se diz “escapar com a pele de seus dentes” (lehimalet beor shenav = להימלט בעור שניו),
“estou de saco cheio” se diz “meu pinto quebrou” (nishbar li hazain = נשבר לי הזין). Mulheres podem dizê-lo, tanto em português como em hebraico.

זין


 As imagens não tem explicação mesmo, ficam de desafio para os leitores descobrirem o que significam.

Foto de capa: Flickr

Comentários    ( 16 )

16 Responses to “Alef Bet – Curtinhas 1”

  • Mila Chaseliov

    07/10/2013 at 20:24

    Yair,
    עברית שפה קשאסה.
    Vicia e muitas vezes você (eu, ola chadahsa) não fala coisa com coisa. 🙂
    Ótimo texto.
    bjs

  • Diogo Bercito

    07/10/2013 at 21:35

    Caro Yair, hebraico é uma língua muito interessante. O árabe também. Precisamos nos encontrar, um dia, para conversar sobre estudos semíticos. Há muitos detalhes nessas línguas que deixam a gente enxergar um pouquinho da história social. Sobre os tempos verbais, se não me engano um professor da USP, talvez o Marcelo Rede, estudou essas relações entre passado e futuro na língua acádia. Dá uma olhada no CV dele –http://historia.fflch.usp.br/docentes/marcelorede. Abraços, Diogo.

    • Yair Mau

      07/10/2013 at 23:11

      Fala Diogo, se você se interessa por linguística, recomendo o livro
      The Unfolding of Language: An Evolutionary Tour of Mankind’s Greatest Invention
      by Guy Deutscher
      é de pirar. tem um capítulo que ele explica um provavel desenvolvimento do conceito de raizes de 3 consoantes, quem são encaixadas em “templates” verbais, como é o caso do hebraico, arabe, acadiano, etc.
      falei a respeito do autor em outro texto sobre o hebraico:
      http://www.conexaoisrael.org/prisioneiro-x-foi-suicidado/2013-02-14/yairmau
      talvez você se interesse…
      abraço!

  • Mario Silvio

    08/10/2013 at 00:41

    Dúvida Yair: adoro a música “Siman Tov u’Mazal Tov”. Pois bem, o que significa Siman? E a expressão toda?

  • Raul Gottlieb

    08/10/2013 at 14:19

    Yair

    A Torá usa muitas formulas para os quarto pontos cardeais. Eu me lembro de algumas:

    Leste é quase sempre Kedma , ou algo desta raiz (significando que está de frente quem olha para onde o sol nasce).

    Já Oeste é chamado em alguns lugares de Yama (em direção do mar), mesmo sem dizer que fica atrás. Mas também é chamado de Maarav como se chama hoje? Não tenho certeza. Mas se for é interessante, pois deve derivar de erev – noite – ou seja, o lugar onde o sol se põe.

    O Norte é chamado de Tzafon (misterioso). O que havia de mistério no norte? Será que os cedros do Líbano pareciam a morada de seres misteriosos para os habitantes do deserto de horizonte aberto? Pode ser, não é?

    E o Sul é chamado algumas vezes de Negba (em direção ao Negev, ao seco) e algumas vezes de Yemina (direita, ou seja, na mão direita de quem está olhando para o sol nascente). Daí vem o nome do país Yemem.

    Outra palavra que acho curiosa é “abençoar” que vem de “berech”, joelho. Quem recebe uma benção se ajoelha.

    Na Torá a expressão para “se sentiu humilhado” é “caiu sobre a sua face”(nafal al panav). Muito interessante a associação entre a humilhação e o ato de olhar para o chão. Infelizmente as traduções dos chumashim que usamos no Brasil usam a expressão críptica “descaiu-lhe o semblante”, que é tecnicamente correta, porém infiel ao texto.

    E tem muito mais! Tenho pena de não ter tempo de estudar mais isto. O assunto é interessantíssimo. O idioma é o primeiro veículo de transmissão da cultura e a transformação do significado das palavras, a criação de novas palavras e o seu desuso demonstram mais do que qualquer outro fenômeno os caminhos que a civilização está tomando.

    Por exemplo, quando no Brasil se decretou que a economia à margem da lei era a “economia informal” e não a “economia ilegal” se sinalizou claramente que a lei era algo a ser tomado de forma relativa. Passaram-se uns 20 anos e a coisa se confirmou com a clareza do sol.

    A linguagem vem na frente por que a imaginação sempre antecede a ação. Há um livro magnífico sobre a linguagem na Alemanha Nazista (LTI, de Victor Klemperer) que mostra como o nazismo mudou o idioma alemão para acomodar a sua ideologia.

    E, evidentemente, há a maravilhosa profecia de Orwell em 1984 que demonstra como a esquerda precisa mudar o significado das palavras para ser palatável (“caixa dois de campanha” parece ser um descuido –algo que ficou por acaso na gaveta errada – e não um crime).

    Tendo em vista tudo isto, me pergunto para onde vai a civilização no momento em que os mais jovens (mas não apenas eles) renunciam à expressão escrita e verbal mais sofisticadas recorrendo a mensagens numa linguagem que se aproxima aos grunhidos animais.

    Gostei muito do teu texto. Mas isto não é bem uma novidade.

    Abraço,
    Raul

  • Mario Silvio

    08/10/2013 at 15:36

    ” na língua portuguesa: quando alguém está perdido, dizemos que está “desorientado”, perdeu o oriente.”
    Verdade, mas também se diz desnorteado.

  • Rafael Stern

    11/10/2013 at 06:34

    Tem também o “nariz na minha boca” (אף על פי), que quer dizer “embora”.

  • Almeida

    17/10/2013 at 18:14

    A primeira vez que ouvi titchadesh,não entendi,foi quando comprei uma mala de mão em uma transversal da ben yehuda.
    O vendedor me explicou o que significava,será que ele era sabra ? lol
    Existe uma expressão em yidish bem semelhante,quando se dá algo para uma pessoa,mas preciso conferir qual o shoresh,não deve ser o mesmo

  • Mario Silvio

    18/10/2013 at 15:49

    “preciso conferir qual o shoresh,não deve ser o mesmo”
    Por que não seria Almeida?

  • dudamonte

    11/02/2016 at 18:42

    sou um estudante da lingua hebraica, estou começando a aprender alef bet, e assimque encontrei este artigo e site me cadastrei,muito bom

Você é humano? *