Além do Realismo Mágico

17/10/2015 | Conflito

O primeiro capítulo do recém-lançado seriado “Narcos” define a corrente artística do Realismo Mágico da seguinte forma:

“Realismo mágico é o que acontece quando um cenário realista, altamente detalhado, é invadido por algo muito estranho para ser verdadeiro” (1)

“Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez é a obra referencial do Realismo Mágico. Os personagens da história se deparam com elementos mágicos ou fantásticos, eventos impossíveis, que no entanto, são percebidos por eles como “normalidade”. (2),(3).

Por exemplo, a morte e retorno à vida de um cigano, um filete de sangue que escorre pelas ruas para avisar que um crime foi cometido, ou mesmo, uma epidemia de insônia e de esquecimento que atinge as pessoas de uma cidade inteira. (4),(5). Todos são encarados pelos personagens como fatos corriqueiros, e não há desconfiança sobre a real viabilidade dos eventos.

Essa corrente literária ficcional parece cada vez mais próxima da realidade do cidadão israelense. Eu seria até mais radical. Estamos indo para além do Realismo Mágico.

A mistura entre ficção e realidade, neste últimas dias, tem sido tão complexa, que dificilmente os mais criativos escritores conseguiriam reproduzí-la.

Por exemplo, uma criança de treze anos e outra de quinze, esfaquearam uma criança de treze anos. (6). Uma semana depois, o presidente da Autoridade Nacional Palestina acusou Israel de ter matado o autor do ataque (7). A mídia israelense respondeu prontamente mostrando fotos da criança sendo tratada em um hospital israelense. (8)

Pare para pensar por um momento nesta série de eventos.

Se você não acha que apenas o primeiro ultrapassa o limite do “muito estranho para ser verdadeiro”, pode ser que já tenha se convertido num personagem do G.G.Marquez.

Este, infelizmente, é apenas um exemplo de uma série de casos. Vejamos outros. Em todas as mídias de Israel, nas redes sociais e e-mails, recebemos uma série de vídeos de como devemos nos defender de um ataque de faca (9). Sim. Isso também já não beira mais a ficção. O prefeito de Jerusalém recomendou às pessoas a saírem de casa armadas. (10).

Vídeos de líderes do Hamas incitando o ódio e explicando como um judeu deve ser esfaqueado também estão disponíveis na internet.

Um judeu atacou um outro judeu, por achar que ele era árabe. (11)

Em Tel Aviv, um árabe foi chamado para um interrogatório em seu prédio para que ficassem claras as suas intenções. Um morador do prédio escreveu “ Eu acho que nós não podemos ser indiferentes e não fazer nada sobre o fato de que há um morador árabe no prédio”.(12)

E a mídia internacional?  A primeira frase do texto do Independent (Reino Unido) diz que: “um menino de dezesseis anos se tornou o sétimo palestino morto por tiros pelas forças de segurança de Israel nas útilmas 24 horas como continuação da onda de violencia.(13)” Veja aqui outros exemplos que distorcem a realidade.(14).

Ou seja, a normalidade dos ataques já está completamente internalizada. É a lógica de que ataques de facas a civis aleatórios simplesmente acontecem. Ponto final. O foco passou a ser suas consequencias e reações. Realismo mágico.

E quem nos salvará desta crise? Se já não bastasse esta coleção de eventos, uma pesquisa com a população israelense mostrou que o mais indicado para combater o terrorismo é o ex-Ministro do Exterior, Avigdor Liberman (15).

Eu não sei vocês. Mas o realismo mágico me parece muito mais plausível do que o que anda acontecendo neste país nestas últimas duas semanas. Gostaria que Jerusalém fosse apenas como Macondo.

Fontes / comentários:

– A imagem de capa foi retirada do website: http://www.spi-global.com/blog/innovation-lab/let-literature-creep-into-your-dreams-4-best-magical-realism-books/

  1. Tradução livre da sentença presente no primeiro capítulo da série Narcos
  2. http://www.estudopratico.com.br/realismo-magico-caracteristicas-obras-e-autores/
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Realismo_m%C3%A1gico
  4. http://www.infoescola.com/literatura/realismo-magico/
  5.  https://universofantastico.wordpress.com/2008/07/18/o-realismo-magico/
  6. http://www.reuters.com/article/2015/10/12/us-palestinians-israel-violence-idUSKCN0S60ER20151012
  7. http://www.foxnews.com/world/2015/10/15/abbas-erroneous-claim-that-palestinian-boy-was-killed-by-israel-fuels-new/
  8. http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4711817,00.html
  9. http://www.ynet.co.il/articles/0,7340,L-4710375,00.html
  10. http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/.premium-1.679383
  11. http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/1.680298
  12. http://www.huffingtonpost.com/entry/palestinian-israel-racism-humor_561e84c0e4b0c5a1ce616c8b
  13. http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/israel-unrest-seventh-palestinian-killed-by-security-forces-after-jerusalem-stabbing-as-wave-of-a6688781.html  
  14. http://www.mediaite.com/print/after-palestinians-murder-innocents-media-somehow-makes-israel-the-villain/, http://www.wsj.com/articles/israeli-police-kill-palestinian-man-for-allegedly-attempting-to-stab-an-officer-1444638536 , http://www.aljazeera.com/news/2015/10/israel-accused-deliberately-killing-protesters-151011103555813.html 
  15. http://www.timesofisrael.com/73-of-israelis-dissatisfied-with-netanyahu-amid-terror-upsurge/

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Além do Realismo Mágico”

  • Raul Gottlieb

    17/10/2015 at 13:59

    Multo interessante a tua visão, Amir.

    Ela coincide com a de Leil Leibovitz, que escreve na excelente revista eletrônica Tablet.

    Veja a análise dela aqui: http://www.tabletmag.com/jewish-news-and-politics/194219/big-knives-and-bad-ideas/?print=1

    Ela diz que existem 3 atores nesta trama:

    Os palestinos educados para odiar os judeus, para acreditar que nós somos a imundice da terra e que profanamos a atmosfera com o ar que exalamos dos pulmões. Ao mesmo tempo eles pensam que se nós ficarmos aterrorizados vamos voltar para os nossos países de origem – o que é uma peça fabulosa de realidade mágica,

    Os israelenses – que lutam para manter a sociedade sadia, evitando que os nossos extremistas se tornem main stream, tanto na ação como na reação.

    E finalmente os drogados que também vivem no mundo mágico que você descreve onde uma droga não química toma conta da mente deles e age tal qual as drogas químicas, dando ao mundo uma coloração formidável que os impede de perceber minimamente a realidade, além de exigir cada vez mais droga para ofuscar o mundo tal como ele é.

    Estes terceiros atores da trama são uma boa parte dos governos e da imprensa internacional, que acredita mais em slogans e em frases feitas do que em fatos e em análise. Que acha que toda a violência é uma reação à opressão, não admitindo jamais a hipótese (cada vez mais visível) de que a violência pode ser fruto de doutrinação intencional, que existem culturas baseadas em ódio e segregação, que buscam a “pureza” pelo afastamento dos diferentes.

    Neste mundo de realidade mágica, um Mahmoud Abbas pode dizer que os judeus profanam os lugares sagrados do Islã com os seus pés (ou seja, com a sua simples presença) sem ser taxado de racista pelos que vivem na realidade mágica que você descreve e sem ser responsabilizado pela violência que a ideologia dele provoca.

    Leia o artigo da Leil. Você vai gostar, eu suponho.

    Shabbat Shalom,
    Raul

  • Marcelo Starec

    17/10/2015 at 21:19

    Oi Amir,

    Parabéns!…Um artigo excelente de uma revista que está a cada dia melhor!…Em meu entender, uma visão genial mesmo, para as reações que as pessoas tomam – e o claríssimo e indiscutível viés da mídia em geral o qual, só não vê quem não quer!…O “realismo mágico” está muito no fato de uma aceitação geral que – 1) Judeus que moram na Judeia e Samaria são todos terroristas e não tem direito a viver!…2) ´Palestinos muçulmanos e seus líderes podem fazer o que bem entendem, sob a aceitação geral e hipócrita do mundo; 3) Os judeus são culpados desse cenário devido à “ocupação” – a qual justificou as revoltas árabes de 1936/7 – com assassinatos em massa de civis judeus; a tentativa explicita e clara de “jogar os judeus ao mar” em 1948, 1967 e 1973…Felizmente, os judeus venceram, caso contrário (Nem precisa dizer, não é…) e por fim, hoje Israel está mais forte e mais bem armada que os países árabes vizinhos – que hoje não tem interesse em tentar destruí-lo mas “armam” todo um sistema para destruir Israel via a sua ponta de lança – palestinos!…Criam toda uma regra de torná-los párias em todos os países árabes, conseguem da ONU uma “bolsa refugiado” para gerações de pessoas que, segundo a própria ONU – seus antepassados estiveram por lá por dois anos” – sem muita necessidade de comprovar mesmo esse período exíguo e mantem essas supostas 5 milhões de pessoas por gerações, em campos de refugiados, sem direitos básicos e educadas para o ódio – fato!…E para o mundo os transformam em vítimas dos opressores judeus – que “ocuparam” as suas terras!…E sempre que se tenta negociar algo, na hora H, seus líderes se recusam a fazer concessões, na prática!…Concluindo é isso, precisamos sim “pensar fora da caixa” e tentar encontrar uma alternativa viável e justa para esse imbróglio, sem contar com a ajuda de nenhuma atual liderança palestina, pois esses até hoje não demonstraram o real interesse em construir um país pacífico e viável, ao lado de Israel !…Espero que possamos em algum momento encontrar uma solução viável, nesse contexto!…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    17/10/2015 at 21:57

    Li o artigo recomendado pelo Raul e vi exemplos de realismo mágico extremo:

    ” If you get your wisdom from the mainstream American—and, often, Israeli—press, the answer, naturally, is the Occupation”
    A imprensa israelense repetir esse mantra é realismo mágico masoquista.
    “Israelis do their best to deflect the attacks without responding in kind”
    Esse eu classifico como realismo mágico suicida
    “an Israeli civil rights group insisting , amid crests of violent attacks, that the police be prohibited from using deadly force,”
    Idem

    Não sei a opinião de vocês que moram a aí, mas a minha é que o maior risco para Israel é esta quinta-coluna

    • Raul Gottlieb

      18/10/2015 at 13:50

      Não moro em Israel, mas concordo contigo. O maior perigo não apenas de Israel, mas do mundo todo é esta visão distorcida da realidade que atribui às democracias capitalistas o insucesso das sociedades que não deram tão certo, sejam elas teocráticas, totalitárias, comunistas, clepto-socialistas e afins.

  • Mauricio Peres Pencak

    18/10/2015 at 11:10

    Setores do Mundo Ocidental resolveram se suicidar ou se imolar no altar do sacrifício diante das crescentes ameaças do mundo árabe islâmico. A concepção do “politicamente correto”, da inclusão, da tolerância avassalou sua percepção e aboliu qualquer mecanismo de instinto de sobrevivência.
    Acredito que Israel não deva e não queira acompanhar essa caminhada ao precipício.
    A repressão deve ir num crescendo até que as mentes doentias -agentes que perpetram os atos, mentores, autoridades legais- percebam que pagarão um preço insuportável.
    Sei que é antipático afirmar, mas parece que o convívio com essa gente é EXTREMAMENTE DIFÍCIL e a separação é o melhor caminho.