(Alguns dos) Mitos da Terra Santa

07/03/2016 | Sociedade

Depois de duas semanas pesquisando Jerusalém para um trabalho, foi quase um despertar entender que, há séculos, a cidade é envolta em uma bruma permanente. E esta nada tem de climática: Jerusalém repousa, generosamente, sobre uma montanha de mitos que parecem condensar a história da humanidade em uma nuvem celestial. É lugar onde Deus habita entre os homens, onde Abraão quase sacrificou seu filho Isaac, onde Maomé subiu as céus, onde Jesus quis inaugurar o reino celestial. O lugar para o qual todos se voltam e veneram, mesmo que baseados em uma única fonte “histórica”: a Bíblia. No entanto, assoprada a bruma, tendo à frente a mundana Jerusalém, resta uma cidade complicada, usada e abusada, degenerada e regenerada dezenas de vezes. Tão desejada como lar divino ou como capital… E, por isso mesmo, tão assustadora e tão especial. Jerusalém, mito é teu sobrenome.


Terça-feira, uma ambulância esperava, na frente do predinho de três andares sem elevador em que vivemos aqui em Raanana, pela senhorinha do primeiro andar. Na quarta, soubemos que ela estava de volta ao seu apezinho, com sua assistente filipina. Na quinta, acordamos todos com o anúncio de seu falecimento pregado na sua porta e no hall do prédio. Esse é um costume por aqui: morre-se, imprimem-se folhetos, que são pregados em prédios e pelas ruas da vizinhança. A porta da casa do morto permanece semiaberta por sete dias, o período de luto judaico (shivá). Entra-se, come-se uma coisinha, se faz uma bênção pelo alimento, e ela haverá de ajudar na elevação da alma do morto. A família direta permanece ali, com álbuns de fotos por todo lado, contando as façanhas do ente perdido. Mazal Fortuna, soube por fim, ela se chamava. Dupla “sorte”, pelo menos no nome. Viveu 93 anos, 60 deles em Israel, para onde emigrou, sozinha, de Damasco. Nessa hora, sentada ali com meu marido e minha filha, quase senti que o povo de Israel pode ser mesmo um. Povo escolhido, mito é teu sobrenome.


O filho mais velho de meu marido chegou excitado em casa, na última sexta, para jantar com a gente. Vinha da praia, uma “só de franceses”, conforme descreveu. Meu marido estranhou: como assim? Ele disse: “Parecia a minha sala de aula”.  Ele está vivendo na pele o fenômeno da imigração francesa em Israel e, especialmente, em Raanana. Nos últimos 2 anos, foram cerca de 15 mil deles (contando os que emigraram oficialmente, sem contar os que podem ter “retornado”, ou seja, já haviam obtido anteriormente a cidadania, ou que chegaram para dar uma assuntada antes de se decidir). É bem bonito ver essa onda de gente chegando, mas nem tão bonito entender o porquê: fuga do antissemitismo na França e usufruto da liberdade concedida aos novos imigrantes de trazer volumes inusitados de dinheiro, sem precisar explicar muito de onde vem (antes que me joguem pedras, CLARO que há entre eles aqueles motivados por sionismo). Há gente de todo nível social, mas aqui em Raanana concentram-se os abastados, em casarões recém-construídos que ganham muros cada vez mais altos. Meu marido, legítimo israelense, crescido em uma então pobre Ramat Gan (ao lado de Tel Aviv), acha isso um horror – não os franceses, mas os muros. Mesmo apreciando essa onda crescente de imigração, ele mantém um pezinho atrás. Depois de levar seu filho para uma tarde de piscina, na mansão de um desses franceses, entrou em casa dizendo: “Só espero que não façam o que os russos fizeram, criando um novo país dentro do nosso país” (e silenciosamente pensei se não foi isso que seus pais fizeram ao chegar do Iraque nos anos 50 e se estabelecer no reduto iraquiano em Israel, que era Ramat Gan). Essa coisa toda de retorno à terra dos ancestrais é toda muito linda, mas olhando de perto cheira a mito. Aliá[1], mito é teu sobrenome.


Uma das coisas com as quais sonhava, quando decidi vir para cá, foi a ilusão da igualdade social. Um lugar que oferece ensino e saúde pública cultiva, certamente, uma sociedade mais equilibrada do que outras. O exército, obrigatório pra todos, também ajuda a promover uma certa homogeneidade aos grupos. Afinal, não tem jeito: pode até ser milionário, mas dos 18 aos 21 vai estar respondendo às ordens de um oficial; pode ser um promissor corredor de maratona, mas vai gastar suas articulações caminhando dezenas de quilômetros em uma madrugada com 20 quilos nas costas para criar musculatura. Mas isso não quebra a natureza humana: como em todo lugar, as pessoas aqui se amontoam em grupos, incluem uns, excluem outros. Não há reza que dê jeito nisso. Há uma disputa que a princípio parece invisível, mas que o tempo infelizmente acaba trazendo à luz (que delícia seria viver na ilusão de que há tolerância no relacionamento entre diferentes, ao menos na Terra Prometida). E nem estou falando de árabes e judeus, mas de yekes (ashkenazitas) x sefas (sefaraditas), e chilonim (laicos) x datiim (religiosos). Terra dos Judeus, mito é teu sobrenome.

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