Amir, Lipatin, Fedato – Craques Macabeus

15/08/2017 | Cultura e Esporte

Macabíadas. Jogos olímpicos do povo judeu. A edição mundial ocorre a cada quatro anos, em Israel. Existem versões continentais e nacionais, em várias partes do planeta. O Brasil também possui esta tradição esportiva.

1932. Tel Aviv. Período do Mandato Britânico. 390 atletas de 18 países vieram confraternizar. Em 1935, foram 1.350, de 28 nações. O evento seguinte veio somente em 1950, dois anos após a independência de Israel.

Recentemente, durante competições internacionais, existiram casos de participantes pedirem asilo político, por várias razões, inclusive fugindo de ditaduras, como a cubana, por exemplo. Durante a década de 1930, os ingleses mantiveram em vigor os chamados “Livros Brancos”, que restringiam a imigração judaica. Portanto, muitos aproveitavam o “visto esportivo” para se instalar ilegalmente no futuro Estado de Israel.

Esta história foi lembrada durante a Macabíada Mundial de 2009. Amir Szuster, com 23 anos, desembarcava no Aeroporto Ben Gurion, tendo dupla missão. Representar o futsal brasileiro e realizar a grande mudança de sua vida: morar em Israel.

O programa de esportes da rádio Reshet Bet, de grande audiência aos finais de tarde, recebeu Amir para entrevista especial. Além de craque, com passagens por categorias de base, campo e salão, de Fluminense, Vasco e Flamengo, tratava-se de um jovem judeu, que realizava seu ativismo sionista.

Diferente de 1932 e 1935, ele veio com cidadania garantida. O Brasil perdeu a final do futsal para Israel por 7 a 6. Amir fez o dele. Um petardo do meio da quadra, rasante, certeiro, no cantinho. A torcida explodiu no ginásio Zisman, em Ramat Gan.

O técnico da seleção israelense treinava o ASA-Beer Sheva. Sabendo que o brasileiro tinha vindo para ficar, convidou-lhe para atuar na equipe, que disputaria a Liga Nacional. E assim foi. Partidas, inclusive, com transmissão pela televisão. Certa feita, o comentarista afirmou: conversei com o Amir. Ele fará mestrado em Jerusalém. É muito inteligente. Precisamos acompanhá-lo.

2017. Mesmo após oito anos em Israel, recebeu convocação para vestir a camisa amarela novamente. Com seu talento, ajudou na campanha, até as semifinais.

Amir Szuster não é o único craque brasileiro macabeu. Houve vários.

Quero destacar o centroavante Marcelo Lipatin, campeão com o Brasil no futebol de campo, categoria Open – 1997. Na época, atuando pelo time B do Paris Saint Germain, foi liberado pelos franceses através de carta da União Brasileira Macabi.

Lipatin nasceu no Uruguai, mas cresceu no Paraná. Prata da casa do Coritiba, destaque desde cedo e negociado com o exterior. Voltou ao Coxa em 2000. Depois, foi para Portugal, passou pelo Grêmio em 2005, dentre outros clubes. Hoje, é empresário de futebol.

Amir Szuster e Marcelo Lipatin são judeus, criados dentro de comunidades judaicas. Seus talentos trouxeram-lhes oportunidades em grandes clubes. Então, quando há macabíada, dirigentes sempre vão querer chamá-los.

Acontece que, às vezes, por amizades e conhecimentos, alguns macabeus convidavam amigos, de fora da comunidade, para treinar e jogar com eles. Vamos a Curitiba, 1958. Centro Israelita do Paraná. Aroldo Fedato tinha 34 anos. Sete vezes campeão estadual pelo Coritiba, era ídolo da torcida. Até hoje, considerado um dos melhores da história alviverde.

Em fim de carreira, topou representar o CIP na macabíada nacional, em São Paulo. Para manter o nome do craque sem suspeitas, registraram na inscrição Fedatovitch. Naquele tempo, não havia internet. As comunicações eram locais. O reinado de Fedato ficava restrito ao estado das araucárias. Favor não confundir com o Fedato, ex-Palmeiras.

O amigo Rodrigão Rotenberg me contou o seguinte detalhe: reza a lenda de que o Fedato teria feito o sinal da cruz ao entrar em campo. Houve mal estar, o pessoal olhou estranho, mas conseguiram enrolar, dizendo que era outra coisa.

O prazer de jogar bola com amigos trouxe o craque para a competição. O ídolo de todos eles. Seria como se hoje o Rogério Ceni aceitasse defender o Brasil nos jogos realizados há poucas semanas por aqui.

Amir, Lipatin e Fedato são os meus craques macabeus. Deve haver mais. Já ouvi papo de que o argentino Sorín, ex-Cruzeiro, disputou macabíada em Israel. Conto com vocês para novas histórias e causos.

Links: https://www.youtube.com/watch?v=sHNQFbAnFgU&fref=gc
https://www.youtube.com/watch?NR=1&feature=endscreen&v=FSoyshm3Yjs
https://pt.wikipedia.org/wiki/White_paper
http://torcedores.uol.com.br/noticias/2017/07/voce-sabia-olimpiadas-exclusivas-judeus-conheca-macabiadas

Foto da capa: Arquivo Conexão Israel.

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Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Amir, Lipatin, Fedato – Craques Macabeus”

  • Caio

    26/08/2017 at 00:30

    Sei de algumas lendas da natação que já participaram das Macabíadas.
    Mark Spitz participou de duas macabíadas antes de ganhar 7 ouros nos Jogos Olímpicos de 1972.
    Jason Lezak, o homem com o parcial mais rápido da história nos 100 metros livre, nadou em 2009. Se não me engano, ele ainda é o dono do recorde macabeu nos 100 livre.
    Essa última edição teve a participação do Anthony Ervin, campeão olímpico do 50 metros livre nas olimpíadas do Rio e de Sydney.
    Lezak e Ervin acenderam a tocha na cerimônia de abertura quando participaram