Ano novo, gente nova

11/10/2014 | Sociedade

No dia 22 de setembro, às vésperas de Rosh Hashana, o ano novo judaico, o diário governista Israel HaYom (Israel Hoje), distribuido gratuitamente pelas ruas do país, anunciava a situação demográfica do país, enfatizando que 66 anos após a criação do Estado de Israel, o país finalmente iniciava um ano com seis milhões de judeus. O uso simbólico de termos relacionados à Shoá[ref]Não simpatizo com o termo Holocausto pelo seu significado. Opto pelo termo hebraico Shoá para referir-me ao genocídio de seis milhões de judeus na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.[/ref] não é à toa: o periódico, principal fonte de divulgação impressa da direita nacionalista, de forma recorrente amedronta a população com os riscos de uma nova shoá, ou simpatizantes da anterior. O problema é que durante a matéria, o diário reconhece que o número de judeus citado (6.104.000) representam o número do ano passado. Hoje a população judaica certamente excede este número (o número de árabes do país, no ano passado, era de 1.683.000, e os que não eram nem árabes nem judeus eram 347 mil). Mas, na falta de uma boa chamada nacionalista, o erro proposital se justifica. Pelo menos neste tabloide.

Ignorando todo o simbolismo fajuto que os jornalistas deste infame periódico utilizam em grande parte de suas matérias, artigos, resenhas, ou reportagens, agarro a informação seca utilizada, a traduzo, e às vezes a analiso neste artigo. Acredito que possa ser do interesse de vocês, leitores.

(Para saber mais sobre os números de Israel, leia aqui e aqui. Se quiser informação sobre os judeus e o judaísmo no país, clique aqui e aqui.)

O título do artigo é Tash’a Milion (תשע”ה מיליון), um trocadilho entre o nome do ano judaico que está por vir (Tash’a é a sigla correspondente ao ano 5775) e o número nove (Tish’a, em hebraico), que representa o número de habitantes que deverão viver no país neste ano (hoje seriam 8.904.373, segundo o jornal[ref]Outras fontes dizem ser este o número de cidadãos israelenses pelo mundo, enquanto o número de habitantes do país é de cerca de 8,2 milhões de pessoas[/ref]). O número de judeus no ano anterior era de aproximadamente 6.104.000. Nasceram 176.230 bebês, sendo 90.646 do sexo masculino e 85.584 do sexo feminino. Um crescimento espantoso, tendo em vista que no último ano foram 160.749 nascimentos. É sabido que normalmente as guerras no país são seguidas de um baby-boom nos anos seguintes. Se isto realmente ocorrer, o próximo ano deverá ter um crescimento vegetativo ainda maior[ref]Alguns leitores deveriam alertar-me de que esta operação não foi efetivamente uma guerra. No entanto, a sua duração foi superior à da Segunda Guerra do Líbano (2006), que foi seguida de um baby-boom[/ref].
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O jornal destacou, também, os nomes mais dados pelos pais israelenses a seus filhos. Os de homem são (em ordem): Yossef, Daniel, Ori (ou Uri), Itay, Omer, Adam, Noam, Ariel, Eitan e David[ref]O diário não teve acesso aos nomes dados pela população árabe, mas afirma ser razoável supor que Muhammed seja o nome mais dado para meninos em todo o país[/ref]. Os de mulher: Tamar, Noa, Shira, Adele, Talia, Yael, Lian, Miriam, Maya e Avigail.Yossef e Tamar eram quarto e sétimo lugar nas mesmas listas, respectivamente, no ano passado. Os nomes bíblicos, em sua maioria, são dados principalmente pela parcela religiosa da população. Com exceção de Yossef e Miriam, no entanto, todos os outros nomes bíblicos que figuram na lista são dados em grandes quantidades tanto pela parcela laica quanto pela religiosa da população: Daniel, Adam, David, Tamar, Noa e Yael.

O número de olim chadashim (judeus imigrantes) também cresceu bastante: de 16.968 para 24.801. Este número, que nos anos 1990 girava em torno de 80 mil ao ano, nos últimos anos da primeira década deste século tinha uma média de 12 mil. A conclusão é a de que a queda foi drástica, mas o crescimento também parece ser significativo. Resta saber quantos destes permanecerão em Israel. O número de imigrantes é uma das armas do Estado para controlar o que se chama a questão demográfica, que, na prática, significa o medo de a população árabe aproximar-se da judaica. Já quase não há mais polêmicas envolvendo supostos gastos públicos com os imigrantes hoje, pois sua contribuição nas mais diversas áreas não deixam haver dúvidas se compensam ou não. De qualquer forma, receber imigrantes é uma das principais medidas que fazem com que possamos caracterizar o Estado como sionista hoje. A questão é mais ideológica do que econômica.

Outros números interessantes são: 140.591 casamentos (em comparação a 127.052 no ano passado); 32.457 divórcios, contra 29.616. Neste último ano 18.638.796 passaram pelos aeroportos israelenses rumo ao exterior (ou retornando dele): 10.745.047 israelenses e 7.893.749 estrangeiros.

Na parte esquerda o diário divulga informações demográficas sobre o país ao longo da história. Em 1948 a população era de 806 mil pessoas, sendo aproximadamente 660 mil judeus e quase todos os outros, árabes. Entre todas as cidades do país, somente Tel-Aviv tinha mais de 100 mil habitantes (cerca de 250 mil), enquanto hoje são 14, seis delas com mais de 200 mil: (em ordem): Jerusalém (aproximadamente 800 mil pessoas), Tel-Aviv (cerca de 410 mil), Haifa (270 mil), Rishon LeTzion (230 mil), Ashdod (225 mil) e Petach Tikvah (210 mil)[ref]Acredito que Beer-Sheva tenha ultrapassado esta cifra, pois no início do ano passado sua população já ultrapassava os 195 mil habitantes[/ref]. Em 1949 a população chegou ao seu primeiro milhão de habitantes. O segundo veio em 1958. O terceiro em 1970. Eram quatro milhões em 1982, cinco em 1991, seis em 1998, sete em 2006 e oito em 2013.

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A população no país hoje cresce bem mais do que na maioria dos países considerados desenvolvidos. Israel, em guerra permanente, tenta absorver imigrantes, dezenas de milhares de bebês, e manter o nível de bem-estar social que dá à sua população desde os anos 1970. Se tem sucesso, é outra discussão.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Ano novo, gente nova”

  • Marcelo Starec

    11/10/2014 at 18:39

    Oi João,
    Obrigado pelo artigo e as importantes informações que ele nos traz. Muitas análises podem ser feitas a partir desse interessante texto. Me saltou aos olhos o fato de Israel ter uma população não judia (majoritariamente árabe) de cerca de 146 mil pessoas em 1948 e hoje, 66 anos depois, ter uma população não judaica de cerca de 2 milhões de cidadãos (mais de 13 vezes o número existente em 1948!). Óbvio é que, se Israel não fosse um Estado que respeita e é tolerante com todos os seus habitantes, jamais teríamos um número assim, pois o que ocorreria era a saída dessas pessoas e os fatos demonstram por si só a realidade, assim como se colocarmos o mesmo dado, no restante do Oriente Médio, ficaria patente a redução populacional abrupta de judeus e cristãos! Aliás, aproveitando a oportunidade, teríamos o número de cristãos em Israel em 1948 e hoje?
    Um abraço,
    Marcelo.

    • João K. Miragaya

      12/10/2014 at 02:29

      Olá Marcelo.

      Os árabes cristãos são aproximadamente 8,6% dos árabes israelenses. Se considerarmos que estes são 1,7 milhão, são aproximadamente 146 mil. Não se sabe exatamente quantos cristãos “não-árabes” vivem em Israel, mas imagino que o número não seja muito grande. Os drusos seriam outros 8,2% (ou seja, 139 mil). Chegamos à conclusão de que os muçulmanos seriam 1,42 milhão, mais ou menos, ou 81% dos árabes israelenses. Evidentemente que divididos em várias correntes dentro deste conceito.

      Um abraço

  • Marcelo Starec

    12/10/2014 at 20:03

    Oi João,
    Muito obrigado! Essas informações que você e a Equipe do Conexão nos traz é muito importante para que eu e acredito, também os demais leitores do Conexão, consigam entender um pouco melhor a história e a realidade de Israel. É muito triste para mim e muitas outras pessoas ver Israel ser acusado, aqui no Brasil, o tempo todo de ser um Estado que promove e sempre promoveu o genocídio, a limpeza étnica e o apartheid, chegando ao extremo absurdo de comparar judeus a nazistas. Contra tais argumentos, entendo que esses dados falam por si só, pois são fatos e portanto fica aqui a máxima de que contra fatos não há argumentos…
    Abraço,