Antes Democrático, Depois Judaico

Por que a democracia deve ser o princípio político que antecede o judaísmo em Israel? Esta, certamente, não é uma pergunta simples de ser respondida em poucas palavras; ainda assim, tentarei convencê-lo de que assim deve ser. Antes de responder a essa pergunta, preciso que você tenha em mente dois conceitos: (1) democracia é, segundo os critérios usados internacionalmente, um sistema de governo que se baseia na igualdade política, sendo esta definida por todos possuírem direito igual de voto, direito à cidadania e liberdades básicas (e.g. expressão, religiosa, associação, etc.). (2)  Estado é, por definição (Dahl, Gellner, Anderson, Weber, etc.), uma associação na qual o governo vigente possui uma extraordinária capacidade de impor uma ordem de valores através da força, coerção, violência ou manipulação (e.g. retórica e convencimento). Sendo estas as definições de Estado e democracia, lhes concedo nove razões para preferir a democracia ante ao judaísmo em Israel. Note que nas explicações dadas não excluo o judaísmo, apenas o coloco em ordem secundária no que tange à administração governamental.

Israel - Conexao Israel - Democracia

(1)   A democracia ajuda a prevenir a tirania. Não precisamos de muitos exemplos para recordar que, ao longo da história, diferentes líderes se deixaram levar por suas megalomanias, paranóias, seus interesses pessoais, ideologias, crenças religiosas, convicções, emoções e impulsos. Joseph Stalin na Rússia, Adolph Hitler na Alemanha, Benito Mussolini na Itália e Pol Pot no Camboja são apenas alguns exemplos de como esses traços ou estados psicológicos  estão suscetíveis a tornarem-se evidentes em qualquer ser humano que torne-se líder – como já dizia a máxima de Lord Acton, “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

A única forma de neutralizar o psicológico do “ser humano” é instituir um código moral baseado nos direitos humanos; um código que se aplique a todos de forma impessoal e que sirva de base para todo aquele que venha a assumir o poder executivo. A democracia é o único sistema de governo e o único valor capaz de manter, constitucionalmente, uma ordem igualitária e libertária. Um sistema baseado no judaísmo, devido aos seus preceitos religiosos, não seria capaz de fazê-lo – igualdade e liberdade seriam conceitos contraditórios a uma ordem judaica de governo. De fato, um sistema político baseado, primordialmente, no judaísmo tenderia a um fundamentalismo ditatorial.

(2)   A democracia garante aos seus cidadãos direitos fundamentais que nenhum outro governo garantiria. A democracia não é somente um sistema de governo, mas, também, um sistema de direitos. Os direitos são, segundo Robert Dahl, os elementos essenciais para um processo democrático de governo. Tome como exemplos os direitos a liberdade de expressão e a liberdade religiosa; não? Tome, então, como exemplo o direito ao voto igualitário e livre; ainda não? Tome o direito à associação? O direito de ir e vir? A liberdade de imprensa? A igualdade entre os gêneros? Não seriam poucos os direitos fundamentais que seriam violados em um sistema político baseado, primeiramente, no judaísmo. Pense, por um instante, em uma Israel judaica que concedesse liberdade religiosa a muçulmanos e cristãos (casamento, divórcio, educação, etc.) – atualmente, essa só é concedida devido ao caráter democrático do Estado de Israel. Pense em como seria a vida daquele que não é religioso – usufruiria este dos direitos fundamentais que a democracia, por outro lado, faria valer? Ou valeria a máxima de que “todos somos iguais, mas uns mais iguais que outros” (como já dizia George Orwell)? Somente um sistema fundamentalmente democrático é capaz de preservar direitos humanos fundamentais.

(3)   A democracia assegura aos seus cidadãos um nível de liberdade que nenhuma alternativa política asseguraria. Esse fator está estritamente associado a capacidade democrática de preservar certos direitos fundamentais. O ponto é que, assim como os direitos humanos, as liberdades que hoje usufruímos não devem ser tomadas como óbvias; de fato, a humanidade demorou muito tempo para percebê-las como condições básicas para vida em sociedade. Novamente, somente sendo o valor democrático prioritário ao judaico teria a sociedade israelense as suas liberdades asseguradas. Imagine, por exemplo, um governo em que as elites religiosas exercessem mais poder político do que já exercem – vivendo em Jerusalém, não sei como visitaria os meus amigos no Shabat.

(4)   A democracia permite a todos protegerem seus interesses fundamentais. Cada um possui um interesse distinto – sobrevivência, comida, casa, saúde, amor, respeito, segurança, família, amigos, trabalho, tempo livre, etc. Muito provavelmente seus interesses serão distintos dos demais. Como todos, você gostaria de exercer algum controle sobre os fatores que determinam a sua capacidade de conseguir realizar esses interesses; você gostaria, por exemplo, de ter liberdade de escolha, oportunidade para delinear a sua vida de acordo com seus objetivos, preferências, valores, compromissos, crenças e princípios. A democracia é o único sistema de governo (já desenvolvido) capaz de proteger a liberdade e a oportunidade necessária ao homem para construir sua vida como bem entender – ela tem problemas, certamente, mas diante das possibilidades, não vejo nada melhor. John Stuart Mill certa vez escreveu: “Human beings are only secure from evil at the hands of others in proportion as they have the power of being, and are self-protecting (….)”. Por estas palavras entendo que o homem estará seguro das forças governamentais somente se este puder preservar o seu poder de “ser autêntico”, sendo este a proteção de seus mais profundos interesses. Não me parece necessário argumentar que um sistema político baseado, primeiramente, no judaísmo não concederia a mínima (para não dizer nenhuma) autonomia para sermos e agirmos segundo aquilo que acreditamos – os preceitos religiosos o fariam por nós.

(5)   Somente a democracia é capaz de fazer o homem viver sob leis que ele mesmo criou. Nenhum ser humano é capaz de usufruir de uma vida a não ser com outras pessoas. No entanto, para viver em sociedade temos que pagar um preço: não podemos viver somente segundo nossos desejos. Quando deixamos nossa infância para trás, aprendemos um fato básico da vida – aquilo que queremos muitas vezes entra em conflito com aquilo que outros querem. Aprendemos também que os grupos aos quais pertencemos possuem certas regras de conduta que, como membros, precisamos obedecer. Conseqüentemente, aprendemos que, se não podemos impor nossas vontades pela força, temos que encontrar um meio pacífico para resolvermos nossas diferenças – um acordo de que nos respeitemos seria plausível, na minha opinião. No entanto, como institucionalizar um acordo? Sob que regras? Por que a sua e não a minha regra? A democracia é o único sistema de governo que reconhece essa “pluralidade de regras”. A democracia assegura que todos participarão do processo político igualitariamente de forma a serem ouvidos sem distinção religiosa, racial ou étnica. A democracia permite o debate público, o processo deliberativo, a negociação e o compromisso de que todos serão regidos por uma lei que satisfaça (em certa medida) a todos. A democracia, mesmo sem unanimidade, faz com que a lei seja decidida pela maioria. Em suma, é ela a única que permite ao homem criar as regras sob as quais ele será governado. Qualquer outra alternativa conhecida será falha – o judaísmo como princípio governamental é uma delas.

(6)    Somente a democracia provê oportunidade máxima para o exercício da responsabilidade moral. O que significa dizer que alguém “exerce responsabilidade moral’? Significa, ao meu ver, a possibilidade de você adotar certos princípios morais segundo os quais você tomará decisões que passam por reflexão, deliberação e análise desses princípios em termos das conseqüências que esses podem ter se adotados de forma geral. Significa, de forma simplista, seguir o velho imperativo Kantiano: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.” Seria o judaísmo aplicável àqueles que não se auto-determinam judeus? Seria o judaísmo capaz de abarcar todas as manifestações judaicas? Difícil crer que isso seria possível – a realidade unidimensional judaica que observamos em Israel não me permite pensar o contrário. A democracia, por sua vez, é capaz de tornar esse ideal possível. Se não podemos influenciar a conduta daqueles que nos governam como nos tornaríamos responsáveis por suas ações? Um paradoxo que só a democracia é capaz de solucionar.

(7)    A democracia propicia o desenvolvimento humano mais que qualquer outra forma viável de governo. Esse argumento é mais empírico que teórico. Algumas pesquisas na área de psicologia social mostram que o homem, em diferentes culturas e sociedades, acredita na existência de certas qualidades desejáveis (certas “virtudes”, segundo os gregos); são elas a honestidade, a justiça, a coragem e o amor. Ao nascer, todos nós temos a possibilidade de desenvolver essas qualidades desejáveis. Ainda assim, como vamos desenvolvê-las depende de certas circunstâncias, dentre as quais o sistema político é fator fundamental. Somente sistemas democráticos são capazes de desenvolver as virtudes supracitadas. Qualquer regime baseado em outro valor (e.g., judaísmo, islamismo, comunismo, etc.) reduz drasticamente a possibilidade dos cidadãos desenvolverem seus projetos e suas idéias, protegerem seus interesses, considerarem os interesses do outro e assumirem responsabilidades por decisões importantes na esfera privada. O regime democrático não é suficiente para que o homem se desenvolva, mas é, empiricamente, essencial para esse processo.

(8)   Somente um governo democrático está apto a instituir, sem contradições, a igualdade política. Por igualdade política entende-se a possibilidade de todos participarem ativamente do governo através do voto, de manifestações e associações sem distinção de credo, raça ou etnia. O judaísmo é, sem dúvida, incapaz de lidar com as diferenças – no âmbito político haveria uma obstrução administrativa que impossibilitaria o funcionamento governamental. Imagine, por exemplo, como decisões seriam tomadas em um “parlamento” composto por ortodoxos, reformistas, etc. Na realidade, é melhor não imaginar.

(9)   As democracias modernas nunca entraram em guerra umas com as outras. Parece banal, mas diante das atrocidades vistas ao longo da história, parece que chegamos a um sistema de governo com o qual a maioria dos países ocidentais concorda e suporta. Segundo esse dado empírico, eu, particularmente, lutaria por uma Israel mais democrática do que por uma Israel mais judaica.

Em um dos meus textos (‘O Fantasma Sai de Cena’) disse haver a necessidade de encontrarmos uma forma adequada para a coexistência entre judaísmo e democracia em Israel. Para isso, temos que nos perguntar sobre como manter o equilíbrio e a estabilidade de um regime que é baseado na fusão dessas duas fontes de valores. Naquela ocasião disse haver três possíveis soluções:

(1) Negligenciar a questão e seguir buscando soluções pontuais para os problemas que se apresentam.

(2) Colocar o caráter democrático antes do judaico.

(3) Colocar o caráter judaico antes do democrático.

Em ‘O Fantasma Sai de Cena’ expliquei porque acredito ser falha a adoção da primeira medida, deixando pendente uma explicação para as posições dois e três. Tendo excluído a possibilidade (1), nesse texto busquei demonstrar porque (2) é preferível a (3). Observe que “colocar o caráter democrático antes do judaico” não significa excluir o segundo; na realidade, essa é, ao meu ver, a única hierarquia de valores estável para vivermos em uma Israel democrática e judaica. Muitos devem me perguntar – “Mas qual é a sua definição de judaísmo? Sem ela não podemos analisar a possibilidade de um sistema político regido por preceitos judaicos.” A esses digo: “Busque qualquer definição judaica que você ache adequada; para todas, o princípio democrático deverá anteceder.” Na minha opinião, essa não é a pergunta a ser feita diante dos argumentos aqui expostos; na realidade, a questão central que deixo [reconhecidamente] em aberto é por que não buscar no judaísmo as bases para democracia? A essa pergunta dedicarei o meu próximo texto. Junto a ela tentarei responder como é possível preservar o judaísmo em um regime fundamentalmente democrático. Dessa forma, espero concluir o meu pensamento em relação a questão democracia-judaísmo em Israel. Sinceramente, eu não espero que todos concordem comigo; não acredito que, mesmo diante de evidências, a discussão sobre como equilibrar judaísmo e democracia termine. Na realidade, eu não quero que termine –  é parte da democracia que assim seja.

 

Comentários    ( 35 )

35 comentários para “Antes Democrático, Depois Judaico”

  • Gilson Honigman

    19/05/2013 at 19:09

    Óbvio que não se discute que o estado deve ser democrático. Mas sei não, Bruno, acho que faltou você dar a sua definição de judaísmo, na introdução. O meu judaísmo – sempre foi – o que se chama hoje de “judaísmo humanístico”. E isso anula muitas razões aqui expostas.

  • Mario Silvio

    20/05/2013 at 00:14

    Concordo com o Gilson, dependendo da definição de judaísmo, a discussão é outra. Concordo que democracia é fundamental e prioritária, mas se não houver nada de judaísmo, o que diferenciará Israel das outras?

  • Gabriel

    20/05/2013 at 02:55

    O Renascimento, o Iluminismo e a própria Democracia moderna são na minha opinião frutos do judaísmo. Não dos ortodoxos, mas dos judeus “assimilados” que trouxeram a ética, a discussão e a educação judaica para outros planos… Mas vai provar isso, Iluminati… 🙂 De cabeça, não sei se há estudos ou ao menos documentos que comprovem (com exceção de muitos dos símbolos dos pioneiros dos EUA que instauraram a Democracia, como as tábuas da lei de Moisés e a estrela de David – além de Dom Pedro II que sabia Hebraico e visitou Israel), é apenas uma sensação sem nenhuma base histórica ou teórica no momento.

  • Raul Gottlieb

    21/05/2013 at 12:03

    Os três comentários acima apontam a falha básica do bem elaborado texto do Bruno. Faltou definir o que é judaísmo e depois cotejar cada um dos nove pontos com o judaísmo.

    Definir o que é judaísmo é muito difícil. Mas esta dificuldade não autoriza a que se eleja a vertente ultra ortodoxa do judaísmo como a única legítima, para em seguida colocá-lo no lixo como anti-democrático.

    A grande maioria dos judeus do mundo – e de Israel – não são ultra ortodoxos. Então porque a ultra ortodoxia seria a única forma válida de judaísmo?

    Isto se assemelha à pessoa que quer demonstrar que todos os Vascaínos são criminosos. Daí seleciona um Vascaíno criminoso e diz: “Estão vendo? Eu tinha razão, os Vascaínos são criminosos!”. Quando alguém questiona: “Mas aquele outro Vascaíno lá é uma pessoa honestíssima!”, ele responde: “Ah, aquela outra pessoa não é uma legítima Vascaína, pois ela não é criminosa”.

    Bruno fala: “Tome, então, como exemplo o direito ao voto igualitário e livre; ainda não? Tome o direito à associação? O direito de ir e vir? A liberdade de imprensa? A igualdade entre os gêneros? Não seriam poucos os direitos fundamentais que seriam violados em um sistema político baseado, primeiramente, no judaísmo.”

    Nenhum destes princípios básicos está ausente nas correntes não ultra ortodoxas do judaísmo. Mas o Bruno prefere ignorar isto.

    E pretende também, com o título “Antes democrático e depois judaico” compatibilizar um ramo anti-moderno do judaísmo (que seu texto permite deduzir como sendo o único que ele considera legítimo) com a democracia, em posição subordinada. Mas isto eh impossível de acontecer. Se o judaísmo for efetivamente xenófobo, ele não conseguira ser subordinado à democracia.

    Enfim, a questão “o que é o judaísmo” é complexa, pois sendo ele uma cultura tem muitos formatos. A redução do judaísmo ao seu estrato anti-moderno (e consequentemente anti-democrático) não resolve o problema. Apenas ajuda a confundir.

    Sugiro que Bruno leia a entrevista da Anat Hoffman em http://www.jpost.com/Features/In-Thespotlight/Anat-Hoffman-Fighting-on-holy-ground-313131. E muito outro material!

    • Bruno Lima

      21/05/2013 at 23:02

      Raul,
      Obrigado pelo comentário.
      Você parece não ter lido com atenção a seguinte passagem:
      “Muitos devem me perguntar – “Mas qual é a sua definição de judaísmo? Sem ela não podemos analisar a possibilidade de um sistema político regido por preceitos judaicos.” A esses digo: “Busque qualquer definição judaica que você ache adequada; para todas, o princípio democrático deverá anteceder.”

      Se o problema não foi falta de atenção, chego a conclusão de que a sua posição sobre a questão judaísmo-democracia é vaga e mal fundamentada.
      Antes de responder o seu comentário, espero que dois pontos estejam claros para você:
      (1) Eu não excluo o judaísmo do âmbito político, apenas o coloco em segunda ordem.
      (2) O judaísmo possui valores democráticos, mas isso não o torna um sistema político democrático, principalmente, devido a certas contradições lógicas que explico abaixo [novamente].

      Não entendo, por todos os seus comentários já feitos em meus textos, como você enxerga a relação entre democracia e judaísmo. Provavelmente, nem você é capaz de enxergar uma possível compatibilidade entre a sua definição de judaísmo e o conceito de democracia que aqui exponho. Não te culpo por isso; você cai, como muitos, na idealização de um possível judaísmo [humanista, cultural, reformista, religioso, etc.] que seja capaz de coexistir praticamente com a democracia moderna. Você idealiza uma forma de judaísmo que atue no âmbito político sem que este se torne fundamentalista; uma forma de judaísmo capaz de lidar com a pluralidade religiosa e cultural; um judaísmo idealizado que seja capaz de preservar a igualdade e a liberdade civil de árabes, beduínos e drusos; um judaísmo que reconheça o ateu da mesma forma que reconhece o ortodoxo. Esse judaísmo humanista é lindo e eu, particularmente, o aplico no meu dia-a-dia; no entanto, a sua aplicabilidade política é impossível. Esse judaísmo possui certos valores democráticos, mas entraria em contradição com procedimentos democráticos.
      Um Estado primordialmente judaico é, por definição, desigual para com seus cidadãos muçulmanos e cristãos; esse Estado é inerentemente contraditório em termos de quem é cidadão – se for Estado judeu, então, árabes, beduínos e drusos não terão cidadania; se tiverem cidadania, o Estado perderá o seu caráter predominantemente judaico e passaria a ser, fundamentalmente, democrático. O Estado judeu não reconhece a pluralidade – se judaísmo é definido em termos religiosos, não há espaço para o ateu; se é definido em termos culturais, não há espaço para outras culturas; se há espaço para outras culturas e para o ateu, esse Estado, meu caro, é, antes democrático, depois judaico (curiosamente, o título do meu texto).

      A idéia de uma Israel predominantemente judaica é logicamente e empiricamente contraditória ao conceito de democracia. Já a idéia de uma Israel predominantemente democrática não é contraditória ao conceito de judaísmo (seja ele qual for). Como explicarei no meu próximo texto, uma Israel predominantemente judaica é incapaz de manter a sua democracia estável no longo prazo e eficiente no curto-prazo.

      No seu comentário você toma como verdade a idéia de que a minha definição de judaísmo é ortodoxa. Se assim fosse, eu não me consideraria judeu – o que seria um belo paradoxo para alguém que decidiu vir a Israel exatamente pela identificação que tem com o judaísmo e encontrar no sionismo a única manifestação não-religiosa do mesmo – para aqueles que não vivem em Israel, esta deve ser uma relação difícil de ser concebida.

      Você ainda comenta: “Isto se assemelha à pessoa que quer demonstrar que todos os Vascaínos são criminosos. Daí seleciona um Vascaíno criminoso e diz: “Estão vendo? Eu tinha razão, os Vascaínos são criminosos!”. Quando alguém questiona: “Mas aquele outro Vascaíno lá é uma pessoa honestíssima!”, ele responde: “Ah, aquela outra pessoa não é uma legítima Vascaína, pois ela não é criminosa”.

      Sobre esse comentário, sugiro que você releia o meu texto com atenção. Esse tipo de comentário demonstra que você não entendeu absolutamente nada do que foi dito.
      Ele se assemelha a outro comentário feito por você em ‘O Fantasma Sai de Cena’: “acho que na raiz disto tudo está a tua tentativa de comparar maçãs com borboletas (muitos diriam laranjas, mas laranja também é fruta, então escolhi um animal para enfatizar a distância).”

      Na ocasião te respondi:
      “Primeiro, não estou “comparando” nada, mas analisando a relação de duas ideologias — afinal, pode ser que borboletas e maçãs sejam incomparáveis, mas talvez sejam correlativos. Segundo, admitindo que democracia é maçã e judaísmo borboletas, como você enxerga o “ecossistema israelense”? Seriam maçã e borboletas partes de dois ecossistemas distintos?”

      Nessa ocasião, prefiro me calar.
      Boa leitura.

  • Marcelo Treistman

    21/05/2013 at 13:49

    Bruno, gostei bastante do texto.

    Acho que o destaque que você deu (em duas oportunidades) a possibilidade de o país continuar com o caráter judaico, exercido pela escolha pessoal de cada indivíduo é essencial para a compreensão do que você tenta nos dizer:

    a) “Note que nas explicações dadas não excluo o judaísmo”
    b) ” Observe que “colocar o caráter democrático antes do judaico” não significa excluir o segundo”

    Você propõe em um belo arrazoado de idéias que o Estado não pode conviver com duas fontes de valores de forma equitativa. Entre Democracia e Judaísmo no que tange a administração estatal voce já realizou a sua escolha.

    No seu primeiro texto, eu disse a você que era necessário que se fizesse uma definição prévia de judaísmo. Naquela oportuinidade você já havia me respondido e ressaltou novamente no presente texto:

    “Muitos devem me perguntar – “Mas qual é a sua definição de judaísmo? Sem ela não podemos analisar a possibilidade de um sistema político regido por preceitos judaicos.” A esses digo: “Busque qualquer definição judaica que você ache adequada; para todas, o princípio democrático deverá anteceder.”

    Hoje concordo com você e discordo do meu comentário anterior. Somente em um Estado que coloque a democracia como o pilar mais alto de seus valores, poderá permitir uma prática judaica segundo a escolha de cada um de seu cidadãos.

    Acredito que os comentários acima do Gilson, Mario e Gabriel, são frutos de uma falta de atenção com a parte final de seu artigo:

    “por que não buscar no judaísmo as bases para democracia? A essa pergunta dedicarei o meu próximo texto. Junto a ela tentarei responder como é possível preservar o judaísmo em um regime fundamentalmente democrático.”

    Desnecessário falar que estou ansioso pelo próximo texto. Afinal de contas, acredito que o judaísmo liberal que eu me aproximo é sim capaz de unir o judaísmo a democracia, podendo transformar estes dois pilares de valores em apenas um.

    Mais uma vez parabéns pelo brilhante artigo.

    Grande abraço

  • Mario Silvio

    21/05/2013 at 14:41

    “Acredito que os comentários acima do Gilson, Mario e Gabriel, são frutos de uma falta de atenção com a parte final de seu artigo:”
    No meu caso pelo menos não foi isso Marcelo.

    “por que não buscar no judaísmo as bases para democracia? A essa pergunta dedicarei o meu próximo texto. Junto a ela tentarei responder como é possível preservar o judaísmo em um regime fundamentalmente democrático.”
    Perceba que a questão continua: tudo vai depender da definição de judaísmo. Exemplo: é impossível buscar as bases para a democracia na ultra-ortodoxia.
    Uma fácil: adotar o sábado como dia de descanso no lugar do domingo. O resto está entre essas duas.

    Mas vamos aguardar, também estou ansioso pelo próximo texto.

  • Gilson Honigman

    21/05/2013 at 18:46

    Marcelo,

    Não tenho o dom da escrita, mas isso não me tira o dom da compreensão.

    Pelo menos nesse texto – não li o primeiro e o terceiro está por chegar, Bruno não coloca a opção democrático e judaico num mesmo tópico. Pelo que entendi, tentará fazer isso no próximo.

    E minha observação – apenas uma – é sobre esse texto, que meu judaísmo é outro e que provavelmente não haveria contradição entre as duas opções. Questiono qual o judaísmo do Bruno.

    As citações

    a) “Note que nas explicações dadas não excluo o judaísmo” e
    b) ” Observe que “colocar o caráter democrático antes do judaico” não significa excluir o segundo”

    Acontecem sim e, nos nove destaques, se for democrático, não poderia ser judaico, como já destaquei acima. E eu concordo com as nove no que parece ser a definição de judaísmo para o Bruno. Que não é a minha, repito.

    Infelizmente concordo com ele que “a realidade unidimensional judaica que observamos em Israel”, que é a realidade que não o permite visitar um amigo no Shabat, é terrível. E acho difícil essa realidade mudar, pela taxa de natalidade de ortodoxos.

    Reafirmo, a questão é que meu judaísmo não é o mesmo em que Bruno se apoia, para fundamentar essas questões. E como não quero me submeter as regras impostas por esse judaísmo que não me representa, escrevo do Rio de Janeiro, e não de Jerusalém.

    Desculpe as redundâncias do texto.

    Abraço.

  • Mario Silvio

    21/05/2013 at 20:32

    Pergunta: vocês consideram o Israel de hoje judaico?

    • Claudio Daylac

      22/05/2013 at 01:42

      Eu considero, Mario.
      É um motivo central pra eu ter optado por morar aqui.
      Considero que viver meu dia-a-dia em hebraico, estudar de domingo a quinta, ter férias em Pessach e uma autoridade estatal que certifique se a comida é casher, entre outras pequenas coisas quotidianas compõem o caráter judaico do país.

      E nem entrei no mérito político ou religioso. Ainda que tudo isso possa ser classificado como político e religioso.

  • Raul Gottlieb

    21/05/2013 at 21:58

    É sim, Mario. Israel é judaico sim.

    • Mario Silvio

      23/05/2013 at 02:21

      Pois é Claudio e Raul, e mesmo assim é democrático.
      Como fica então
      “A idéia de uma Israel predominantemente judaica é logicamente e empiricamente contraditória ao conceito de democracia.”?
      O problema está no predominantemente? Estou um pouco confuso, pois, na minha opinião, Israel é judaico (e na de vocês também) e democrático.

      O Brasil por exemplo é, sem dúvida, um dos países com menor grau de racismo e, ao mesmo tempo, tem “aspectos” cristãos que com toda a sinceridade, não me incomodam em absolutamente NADA. Exemplos: feriados e crucifixos em repartições públicas.

  • David

    22/05/2013 at 02:46

    Oi, Bruno. Minha impressão é que o Raul considerou que você estava se referindo a uma leitura ortodoxa – ou, pelo menos, religiosa – do judeu, porque se não for o caso, muitos dos pontos que você citou perdem o sentido. Não todos, mas muitos deles.
    Foi exatamente o que pensei, quando li seu texto. Faz muito sentido, quando se fala de religião e, um pouco menos, quando se fala de cultura, povo e suas correntes majoritárias em Israel e na diáspora.

    • Bruno Lima

      22/05/2013 at 04:12

      David,

      Obrigado pela visita.
      Não entendo a insistência em afirmar que eu estava me “referindo a uma leitura ortodoxa – ou, pelo menos, religiosa – do judeu”. No texto deixo muito claro que me refiro a qualquer forma de judaísmo:
      “Muitos devem me perguntar – “Mas qual é a sua definição de judaísmo? Sem ela não podemos analisar a possibilidade de um sistema político regido por preceitos judaicos.” A esses digo: “Busque qualquer definição judaica que você ache adequada; para todas, o princípio democrático deverá anteceder.”

      Além disso, gostaria que idéias vagas e idealistas começassem a ganhar forma; gostaria de saber de forma clara e concreta onde “os meus pontos perdem o sentido” no caso de um judaísmo … (humanista? cultural? reformista? ortodoxo? inexistente?)

      Reitero o meu ponto na esperança de que haja um entendimento quanto a teoria que aqui exponho; dessa vez, no entanto, mudarei de tática – façamos juntos o seguinte exercício de pensamento:

      Pense no judaísmo mais adaptável aos princípios democráticos. Leve em consideração algumas condições para isso …
      (1) Esse judaísmo deve ser capaz de coexistir praticamente com a democracia moderna;
      (2) ele deve, portanto, ser aplicado na esfera política sem que se torne fundamentalista;
      (3) deve ser capaz de lidar com a pluralidade religiosa e cultural;
      (4) deve ser capaz de preservar a igualdade;
      (5) deve ser capaz de proteger as liberdades civis de árabes, beduínos e drusos (casamento, educação, etc.);

      Essa é, em certa medida, a base do judaísmo humanista. Como dito anteriormente, ele é lindo e eu, particularmente, o aplico no meu dia-a-dia.

      Tomemos como base esse judaísmo, capaz de realizar todas essas proezas democráticas. Analisemos agora as contradições democráticas desse mesmo judaísmo em termos de sua aplicabilidade política;
      (1) Um Estado primordialmente judaico é, por definição, desigual para com seus cidadãos muçulmanos e cristãos – se fosse igual, não seria judaico, mas, sim, democrático.
      (2) Esse Estado é inerentemente contraditório em termos da definição de quem é cidadão – se for um Estado judeu, então, árabes, beduínos e drusos não terão cidadania; se tiverem cidadania (no caso, conceder cidadania a todos sem distinção de raça, credo ou etnia), o Estado perderá o seu caráter predominantemente judaico e passará a ser, fundamentalmente, democrático.
      (3) O Estado judeu não reconhece a pluralidade – se judaísmo é definido em termos religiosos, não há espaço para o ateu; se é definido em termos culturais (ou humanista), não há espaço para outras culturas; se há espaço para outras culturas e para o ateu, esse Estado, meu caro, é, antes democrático, depois judaico (curiosamente, o título do meu texto).

      Repito os pontos centrais do meu argumento para que não haja dúvida:
      (1) O judaísmo [humanista] possui valores democráticos, mas isso não o torna um sistema político democrático.
      (2) Qualquer forma de judaísmo que predomine na esfera política entrará em contradição, não com valores democráticos, mas, sim, com procedimentos democráticos fundamentais para estabilidade e manutenção da ordem pública [democrática].
      (3) No meu próximo texto explicarei como eu acredito que o judaísmo, em um segundo plano, seria capaz de coexistir com a democracia em Israel.

      Por enquanto, fico na expectativa de que o idealismo judaico entenda a concretude democrática.
      Um abraço.

  • Raul Gottlieb

    22/05/2013 at 10:52

    Bruno,

    E se o judaísmo não for um sistema político e sim uma cultura que convive dentro de uma democracia? Creio que você realmente confunde maçãs com borboletas ao dizer que ou é democrático ou é judaico.

    Vamos aos teus pontos finais:

    1) O judaísmo não quer ser um sistema político. Os ultra-ortodoxos (e não os ortodoxos em geral) sequestraram o judaísmo para com ele impor uma ideologia anti-moderna. Mas eles não detém o “monopólio” do judaísmo.

    2) Se o judaísmo não for um sistema político ele não contraria nada. E é aqui que a minha parábola com o Vascaíno Honesto e, portanto, ilegítimo se encaixa. Você quer provar que o judaísmo como sistema político não é compatível com a democracia. Para demonstrar isto precisa construir o judaísmo como um sistema político – coisa que ele não é.

    3) Aguardo o teu próximo texto. Quem sabe em algum momento eu vou acabar entendendo o que você quer transmitir. Confesso que está um pouco difícil sim. Não consigo entender porque um estado judaico e democrático (sem subordinação) seria opositor aos casamentos civis ou inter-religiosos ou religiosos de outras religiões. Porque a adoção de um feriado judaico contraria o direito da população não judaica (o Brasil, com sua carga considerável de feriados cristãos é um bom exemplo para isto)? Será que o dia de descanso do Estado democrático terá que ser na quarta feira? Será que um Estado democrático pode ter um dia de descanso (que é um conceito religioso)? Será que um Estado que imprime em seu moto “In God weTrust” é um estado democrático? Os ateus não se se sentirão excluídos/ofendidos ao ter que conviver com este moto?

    Por fim, gostaria de dizer que se você não considera em seu texto o judaísmo ultra-ortodoxo como o paradigma do judaísmo, então você consegue disfarçar esta posição muito bem. Há algum outro ramo do judaísmo que faça distinção de direitos civis com base no gênero? Que impeça o voto livre e consciente?

    Meio fora de tópico e mais por falta de algum lugar para divulgar isto, sugiro que leiam a reportagem do link: http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4382643,00.html

    Um abraço cordial,
    Raul

  • David Gruberger

    22/05/2013 at 13:06

    Bruno, obrigado pelo texto. Acrescentou muito e está em altíssimo nível! Vejo que você teve que escrever mais 3 textos depois e particularmente entendo que a maioria dos leitores que opinaram não conseguiram se desfazer por um segundo do seu próprio judaísmo. Felizmente, nosso povo é a junção de várias tribos, sempre foi.

    O Estado de Israel vive um conflito (mais um!) em relação ao seu judaísmo e à democracia. O judaísmo atual não é um sistema político, mas há leis judaicas para todas as esferas da vida de uma pessoa, inclusive para assuntos econômicos, civis e, por incrível que pareça, para a relação com governantes e assuntos comunitários externos. Na maioria dos casos, provavelmente apenas um país judaico ortodoxo levaria esses assuntos à esfera política.

    Com relaçao aos ‘outros’ judaísmos, eles são mais tolarantes quanto à convivência com o judaísmo diferente, mas ainda assim não acredito que cada movimento judaico não reivindique ter posse da verdade ou da razão de ser do judaísmo. Quem estaria certo? Não importa. Estou com o Bruno quando ele afirma que antes vem a democracia e depois o judaísmo.

    Por que? O judaísmo não pode reger a vida do estado nem suas leis. Ele é prejudicial, como se vê hoje no monopólio ortodoxo sobre as leis de casamento e divórcio. Ora, digamos que o Estado de Israel resolvesse quebrar o monopólio, dando a todas as correntes a chance de realizar casamentos sob os comandos de suas tradições. Reformistas, humanistas, conservadores, ortodoxos. Todas as ketubot estão valendo. Ainda assim, estariam excluídos os outros, que não querem se casar na sinagoga ou com um rabino.

    Outro exemplo mais prático: As leis democráticas do Estado de Israel garantiram que mulheres pudessem rezar no Kotel. Não tem nada a ver com judaísmo. Tem, sim, relação com a democracia e seus valores que permitiram que as diferenças ‘coexistam’. Isso é democracia, não judaísmo (mesmo que os valores judaicos permeiem as leis do estado).

    Bruno, to contigo e não abro (até que um argumento melhor venha)!
    David

    • Bruno Lima

      22/05/2013 at 14:54

      David,

      Obrigado pelo comentário.
      Eu estava prestes a escrever as minhas considerações finais quanto aos comentários feitos, mas você colocou, com extrema precisão, a resposta que eu daria.
      Acrescento ainda:
      O Raul confunde ordem normativa com ordem descritiva, tomando as duas como uma perspectiva única. Ao afirmar, equivocadamente, que “o judaísmo não quer ser um sistema político”, ele traz uma visão normativa do judaísmo. Equivocademente, não percebe que a nossa discussão sobre a questão judaísmo-democracia pressupõe o interesse judaico de tornar-se um sistema político; se não houvesse o interesse, não haveria discussão sobre o caráter judaico do Estado. Além disso, demonstra uma certa miopia quanto a realidade israelense – o que são os partidos Habait Hayeudi, Shas, dentre outros, se não a tentativa de implementar um regime judaico em Israel? O que é o domínio judaico sobre as questões do casamento, do divórcio, do shabat e da kashrut, se não uma forma de afirmação da ordem judaica em Israel? Sinceramente, espero que ao afirmar que “o judaísmo não quer ser um sistema político” o Raul esteja se referindo ao judaísmo que ele enxerga e não àqueles que vemos em Israel; ainda assim, digo: se o seu judaísmo não que ser um sistema político, porque estamos discustindo sobre o estabelecimento de uma hierarquia de valores no âmbito político em Israel? Se “o judaísmo não quer ser um sistema político”, então, a democracia não possui adversários, o que, como dito anteriormente, não é a realidade.

      O Raul comenta ainda:
      “Para demonstrar isto precisa construir o judaísmo como um sistema político – coisa que ele não é.”
      Esse, por outro lado é um argumento descritivo – judaísmo não é um sistema político. Nesse ponto, Raul, nós concordamos.
      O problema central que eu apresento se refere a idéia normativa de um judaísmo como sistema político; o problema é a possibilidade de uma Israel estabelecida sobre uma ordem, predominantemente, judaica.

      David, gostaria ainda de ressaltar uma passagem brilhante do seu comentário:
      “Outro exemplo mais prático: As leis democráticas do Estado de Israel garantiram que mulheres pudessem rezar no Kotel. Não tem nada a ver com judaísmo. Tem, sim, relação com a democracia e seus valores que permitiram que as diferenças ‘coexistam’. Isso é democracia, não judaísmo (mesmo que os valores judaicos permeiem as leis do estado).”

      Essa passagem sintetiza, com perfeição, as noções de democracia e judaísmo que tenho.

      Grande abraço!

  • João K. Miragaya

    22/05/2013 at 15:27

    Minha primeira pergunta: hoje Israel se caracteriza por ser mais judaica ou democratica? (perdao pela falta de acentos, escrevo desde a Universidade).

    Eu tenho as minhas duvidas. E meu principal ponto de questionamento nao tem absolutamente nada a ver com a religiao nem com os ortodoxos: chamo a atencao para a controversa Lei do Retorno. Todos os filhos e/ou netos de mae judia, ou conjuges de judeus, ou convertidos a religiao judaica (por qualquer corrente do judaismo) podem vir viver em Israel e receber cidadania apos tres meses, com direito, inclusive, a beneficios do Estado.

    Simples cristaos nao tem este direito. Arabes menos ainda. Os palestinos (as) casados (as) com judeus (ias) nao recebem a cidadania da mesma forma que outros. Os palestinos, refugiados da guerra de 1948, tampouco. Nem mesmo aqueles que comprovaram ter sido expulsos de suas casas (nao foram todos, mas o proprio Rabin admitiu a expulsao de comunidades inteiras nas regioes de Ramle e Lod).

    Como lidar com esta incoerencia? A Lei do Retorno, lei a partir da qual eu mesmo me beneficiei para vir viver aqui, eh uma clara mostra de que as vezes o Estado opta por ser judeu antes de democratico. E isto nao tem absolutamente nada a ver com a ortodoxia nem com coercao ortodoxa. A situacao se agrava quando comparada a dos refugiados palestinos, pois eh neste momento que a Lei do Retorno torna-se avessa a democracia. Palestinos que viviam em suas casas regularizadas, e supostamente garantidas a partir da lei da propriedade privada, nao tem o mesmo direito de retorno as suas terras que tem os judeus que nunca pisaram na Terra de Israel.

    A lei foi criada pelo ultra-secular Ben-Gurion, numa coalizao formada basicamente por judeus seculares e ate mesmo avessos a religiao.

    E vem a minha segunda pergunta: como conciliar a Lei do Retorno, a situacao dos refugiados e a democracia? Nao eh incoerente?

    Aceito as respostas de todos, mas gostaria de ler o que pensa o autor do texto. Sei que de forma geral lhe dou razao, pois neste caso o carater judaico vem antes do democratico e ele defende (assim como eu) que a democracia deve vir antes do judaismo. Por isso a minha primeira pergunta soh faz sentido apos a resposta da primeira.

    Penso nesta questao diariamente, e, apesar de me considerar sionista e democrata, nao consigo resolver esta contradicao. Conto com a sua ajuda, Bruno!

    • Mario Silvio

      23/05/2013 at 02:39

      Minha opinião: a lei do retorno é uma política de imigração/cidadania como outra qualquer.
      Alguns paises, como o Brasil e os EUA concedem cidadania pelo nascimento, certo? Pois bem, já conheci vários brasileiros que consideram não fazer isso errado e até desumano, apesar de muitas democracias serem assim.

      “Simples cristaos nao tem este direito. Arabes menos ainda. ”
      Netos de italianos tem direitos na Itália que eu não tenho, o mesmo em Portugal. E daí?

      Situação dos refugiados: incluir neles filhos, netos, bisnetos, etc é um dos maiores absurdos que já vi. Só se discute esta barbaridade por se tratar de Israel.
      Se fosse um princípio válido, nós poderiamos viver em dezenas de países, já que nossos ancestrais foram expulso deles.

      ” Nem mesmo aqueles que comprovaram ter sido expulsos de suas casas ”
      Pura curiosidade: como comprovam? Passados 65 anos, quantos são?

      Veja só que “curioso”: na mesmíssima época 15 MILHÕES de pessoas “trocaram de lado” com a independência da India e do Paquistão, e fala-se centenas de vezes mais nos palestinos do que neles (na verdade não se fala nada). Se aplicarmos o mesmo conceito de refugiado, quantos seriam hoje? Mais de 100 milhões no mínimo.

      É o que eu sempre digo, certas coisas só são consideradas normais por serem contra Israel.

  • Nelson

    22/05/2013 at 17:37

    Não vejo incoerência. Os descendentes de europeus ganham passaporte da União Européia. Israel é a pátria judaica, israelita, hebréia, então seus descendentes que se espalharam pelo mundo tem esse direito, assim como teuto-brasileiros ganham passaporte alemão. Lei do Retorno e Questão de Refugiados são totalmente diferentes. A primeira, para mim, é inquestionável. A segunda deveria ser resolvida, segundo extra-oficial de Acordo de Genebra. Agora, mesclar as duas coisas é complicado, não vejo a relação, sinceramente, são coisas paralelas.

  • Raul Gottlieb

    22/05/2013 at 18:37

    Amigos,

    Não é apenas o Estado de Israel que vive o dilema sobre o que é o judaísmo, apesar que lá este dilema adquire um perfil mais dramático. Poucos sabem definir o que é o judaísmo, porque esta definição é muito complexa e desafia os modelos existentes.

    A Anat Hoffman disse algo interessante a respeito: “por não saber o que fazer com o judaísmo, o Estado o entregou a uma corrente e esta se corrompeu – teria acontecido o mesmo com qualquer outra corrente”.

    Concordo com ela, pois quando alguma entidade/organismo/grupo/sei-lá detém um poder absoluto e não auditável, a tendência é embarcar na corrupção e no autoritarismo. Isto me parecer ser inevitável.

    O fato é que esta corrupção ocasionou uma revolta muito grande contra a religião em Israel. E os israelenses se esforçam por desvalorizá-la e, a partir disso, se afastar dela. Talvez (talvez mesmo – estou apenas especulando) alguns dos textos do Conexão sejam um reflexo desta revolta.

    David, o judaísmo tem mais de 3 mil anos e neste período muitas leis foram estabelecidas. Cada conjunto legal visava atender a uma situação específica e não significa que todo este legado esteja vigente hoje. No entanto, tendo em vista a ignorância sobre o judaísmo que a aversão à ultra-ortodoxia provoca fica fácil para um manipulador pinçar alguma coisa neste imenso legado e dizer para você: “a lei judaica prescreve tal e tal coisa – veja está escrito aqui”.

    A halachá não foi feita para gerir um Estado. É desonesto utilizá-la para tal, como denunciou com muitíssima propriedade o judeu, cientista, ortodoxo Yeshaiahu Leibowitz.

    Israel não precisa quebra o monopólio dos charedim sobre o casamento dividindo o poder deles. Basta fazer como no Brasil onde há casamento civil e casamento religioso, sendo que algumas instituições religiosas (de n vertentes e confissões) reconhecidas pelo Estado tem o poder de assinar um casamento civil.

    O judaísmo não vai sofrer nada com esta providência.

    Bruno: não acredito que haja “interesse judaico em tornar-se um esquema político”! Onde você percebe isto? Se for nos ultra-ortodoxos eu até tendo a concordar (com reservas), mas aí você está afirmando que “judaísmo” para você é a ultra-ortodoxia, coisa que você nega. Me compliquei nessa.

    Você acertou quando disse que sou míope. Desde a idade da alfabetização uso óculos. Não obstante sei que os partidos que você citou são os partidos ultra-ortodoxos. E, como já disse algumas vezes, é um erro confundir judaísmo com ultra-ortodoxia. O judaísmo é muito maior que esta corrente pequena – apesar de tristemente influente pelas vicissitudes da fundação do Estado, quando eles ganharam poder político.

    Amigo Bruno, a democracia possui adversários sim. E a ultra-ortodoxia é adversária da democracia. Porém a ultra-ortodoxia não é o judaísmo. Claro que é o judaísmo que eu vejo. Mas eu escolho ver o judaísmo todo, enquanto que você parece centrado na ultra-ortodoxia, como a parábola do Vascaíno Honesto, que por ser honesto não pode ser Vascaíno.

    Enxergo sim estas pessoas que você vê ai em Israel. Conheço seus escritos, entendo a origem do seu pensamento e o seu impulso totalitário. Mas tenho certeza que eles não são os únicos judeus legítimos da face da Terra.

    Quanto à sua pergunta sobre “porque estamos discutindo”? A resposta é “por que você insiste em reduzir o judaísmo à ultra-ortodoxia”, ora pois. Porque você tem certeza que judaísmo é ou tem aspirações a ser um sistema politico. E eu não concordo com isto. Simples assim, me parece.

    Um grande abraço também, pode ter certeza que eu aprendo algumas coisas com os teus escritos. Obrigado por compartilhar.
    Raul

    • Bruno Lima

      22/05/2013 at 19:41

      Estimado Raul,

      Três importantes correções:
      (1) “Não obstante sei que os partidos que você citou são os partidos ultra-ortodoxos”. Habait Hayehudi não é um partido ultra-ortodoxo; pelo contrário, é religioso-nacionalista, com uma proposta de judaísmo muito diferente da ortodoxa. Esse partido possui, hoje, 12 cadeiras na knesset.

      (2) “Quanto à sua pergunta sobre “porque estamos discutindo”? A resposta é “por que você insiste em reduzir o judaísmo à ultra-ortodoxia”, ora pois.
      Como disse e reitero – se eu reduzisse o judaísmo a ultra-ortodoxia, eu não seria judeu segundo a minha própria concepção – incoerências a parte, essa não é a minha definição de judaísmo.

      (3) “Porque você tem certeza que judaísmo é ou tem aspirações a ser um sistema politico. E eu não concordo com isto. Simples assim, me parece.”
      Se o judaísmo não tivesse aspirações a ser um sistema político, não discutiríamos o caráter judaico do Estado (repare que falo do Estado, e, não, da sociedade, da cultura, do bairro, da minha casa, etc.). O Estado é, por definição, a instância central de qualquer sistema político e falar de seu caráter judaico é, logicamente, analisar o interesse judaico de ser parte do sistema político – seja lá qual for a definição de judaísmo.

      De qualquer forma, fico feliz que você aprenda com meus escritos.
      Agradeço a rica discussão que, frequentemente, temos.
      Bruno.

    • David Gruberger

      22/05/2013 at 22:37

      Raul,

      vi pelo seu background (aliás, obrigado pela contribuição ao site!) que a questão da ortodoxia ser a representante do judaísmo no Estado de Israel é um assunto caro para você, principalmente por ser um líder dentro da comunidade reformista carioca.

      Fui claro ao estabelecer que a Halacha seria usada como lei estatal apenas em um improvável estado judaico ortodoxo. Um estado baseado no Shulchan Aruch e seus múltiplos braços. Seria o Irã judaico, e nesse caso preferiria qualquer corrente do judaísmo à corrente ortodoxa. Mesmo que, para isso, tivesse que apoiar um estado longe do ideal. Aliás, não cuspam no caixão do Ben Gurion, pois ele fundou o estado que tinha, não o que imaginava em seus sonhos de criança. Cabe a nós desenvolver esse estado…

      Particularmente, não sou a favor de um estado que favoreça apenas uma corrente do judaísmo e acredito que o estado judeu não precisa meter o dedo na religião. Ele deve ser judeu na Lei do Retorno, que é quase um consenso em nosso povo. Ele é judeu ao preservar os chaguim e aplicar os nosos valores milenares nas escolas para a população judaica. Ele deve manter os lugares santos (de todas as religiões) e dar ao judaísmo, seja ele qual for, um ambiente único para florecer no Planeta Terra. Esse é o papel do Estado que se diz judeu (devem haver vários outros que não coloquei aqui).

      O Bruno vai mais fundo que a quebra do monopólio do judaísmo estatal. Ele almeja acabar com esse judaísmo estatal que, como já diz o já citado Leibowitz*, corrompe o judaísmo (seja ele qual for) e, segundo os amigos do Bruno, corrompem o Estado (lose-lose!!!!). Assim, acho que vocês concordam, mas estão gastando tempo precioso.

      1. Judaísmo não é ortodoxia (CONCORDAM)
      2. Deve haver quebra do monopólio estatal da ortodoxia ou de qualquer outra corrente** (CONCORDAM)
      3. Deve haver total ou quase total separação de religião e estado, com esforço para a criação de um ambiente favorável para o florescimento do judaísmo, de qualquer corrente, formando assim o Estado Democrático Judeu.*** (CONCORDAM)

      Fico por aqui.
      Forte abraço a todos!

      *Leibowitz era ortodoxo, mas de longe não era mainstream entre os ortodoxos, então não representa a posição ortodoxa sobre o assunto
      **Judaísmo estatal é ruim sempre. Se fossem mais correntes, seria oligopólio. Ou seja, não é só a democracia que incomoda. Qualquer favorecimento é ruim para o Estado e para o próprio judaísmo, uma vez que você não pode tornar oficial uma ou mais correntes. E se surgir outra? Imagine quanto tempo demoraria para o reconhecimento estatal de uma nova corrente. Estado e burocracia não combinam com o dinamismo e complexidade do pensamento religioso judaico.
      *** Não me oponho ao investimento estatal em assuntos religiosos, uma vez que esse seja transparente e igualitário. Como um fundo para assuntos religiosos, por exemplo.

    • Mario Silvio

      23/05/2013 at 02:40

      Exato, cada país dá cidadania para quem quiser

  • Raul Gottlieb

    22/05/2013 at 21:16

    O Habait Hayeudi é nacionalista. Ele persegue uma política que é mais xenófoba (a la Berlusconi) do que judaica. Não tem uma agenda comum com o Shas, por exemplo, e eu não penso que eles sejam contra o casamento civil ou a segregação das mulheres. Vi que você colocou ele junto com o Shas, mas achei que estava deslocado e preferi ignorar, porque o resto do teu texto aponta na direção de que judaico é ultra-ortodoxo.

    Você diz e reitera que se judaísmo fosse apenas ultra-ortodoxia você não seria judeu. Mas o resto do texto não transpira isto. Principalmente (mas não apenas) quando você fala sobre o meu judaísmo, deixando claro que ele é apenas meu (o judaísmo do Raul é assim, mas aqui em Israel a coisa é diferente, você diz, em interpretação livre).

    Acho que esta definição de que todas as facetas do Estado terem um viés político um tanto complicada. Mas confesso que não sei elaborar sobre ela porque me faltam as ferramentas da ciência política. Eu sou um engenheiro. Mas digo a você que acho este conceito muito esquisito.

    De qualquer forma se admitirmos que o judaísmo não obriga a segregação do gênero, o voto de cabresto, e outras coisas que você coloca no texto como sendo imperativamente judaicas, me parece que o teu texto perde muito da força.

  • Raul Gottlieb

    23/05/2013 at 12:49

    David,

    Eu concordo com tudo o que você diz, menos quando você me qualifica como um líder dentro da comunidade judaica reformista carioca.

    Exerço uma atividade voluntária em algumas atividades e isto não me qualifica como nada além de “judeu”. Muita gente faz o mesmo que eu faço nas mais diversas áreas.

    E sim, sou muito sensível à afirmação direta ou indireta (como é o caso do texto do Bruno) de que a ultra-ortodoxia é a única vertente legítima do judaísmo.

    Esta afirmação falsa me incomoda muito, pois ela anula o nosso riquíssimo tesouro cultural através da equação: “judaísmo = ultra-ortodoxia; ultra-ortodoxia não é compatível comigo, logo eu não quero saber de judaísmo (e de religião).”.

    Concordo também que BG nao podia fazer nada de diferente e que ele foi um dos grandes judeus da historia. Mas acho que as lideranças sucessivas erraram ao manter um ” status quo” que não existia mais.

    Abraco, Raul

    • Marcelo Treistman

      23/05/2013 at 13:38

      Raul,

      Excelente troca de argumentos.

      Gostaria de apontar o que eu acho que seja uma contradição na sua crítica ao texto do Bruno.

      Você nos brindou com um excelente artigo que trazia uma reportagem com a Anat Hoffman. Um dos trechos ela diz o seguinte:

      “But Israel has taken the easy route. It has taken the keys to Judaism and given it to one minority faction in the Jewish world. And the minority faction has done what every minority faction would do. The Reform would have done the same, none of us are immune.That minority faction became corrupt, it became a monopoly and it became more and more extreme”

      Pois é Raul… Este é o resumo perfeito de todo o texto do Bruno. A Anat resumiu em uma frase, o que ele vem tentando te explicar em todos os longos comentários.
      O Bruno entende (corretamente, na minha opinião) que o Judaísmo (qualquer um) ao fazer parte de um sistema político para determinar o “caráter judaico do Estado” se tornará corrupto e extremista – e desta forma contrário a democracia. Em nenhum momento – nenhum mesmo – o Bruno deixou subentendido que ele considerava a ortodoxia a única forma válida de judaísmo.

      Eu já consegui captar exatamente o desejo do nosso Autor. No próximo texto, ele nos explicará e trará exemplos de como um Estado que é – antes de tudo democrático – poderá comportar dentro do seu território uma vibrante vida judaica.

      Abraços grandes,

      Marcelo

  • Raul Gottlieb

    23/05/2013 at 19:44

    Querido Marcelo,

    Eu publiquei o link para a entrevista da Anat exatamente por conta deste trecho que você sublinhou.

    Ela diz que por não querer tratar da espinhosa questão da natureza do judaísmo, o Estado de Israel tomou o caminho mais fácil (take the easy route) e terceirizou o judaísmo aos ultra-ortodoxos.

    A minha experiência empresarial mostra que este é um caminho que muitos tomam – quando não sabem o que fazer, terceirizam o assunto a um especialista.

    Mas o problema é que a terceirização funciona bem apenas quando você sabe o que deve fazer porém não quer alocar recursos por razões estratégicas.

    A terceirização cega tem uma chance enorme de dar errado. E mais ainda quando você tem aversão ao assunto e entrega o problema ao terceiro dizendo: “resolve aí que eu não quero nem ver”.

    Foi exatamente isto que Israel fez e deu errado porque o especialista contratado não era qualificado (ele não entendeu que era preciso incluir, visto que ele estava no business de construir um Estado para todos e não de orientar os frequentadores voluntários de uma certa sinagoga) e porque ao longo do tempo adquiriu uma agenda de se auto outorgar benefícios.

    A consequência foi a corrupção (moral e material) que a Anat descreveu e a partir dela, muitas pessoas em Israel passaram a ter aversão ao judaísmo. Mas acho que este ponto já está bem entendido e não há muita discordância a respeito. Eu repito porque sou meio chato, você sabe.

    Contudo, veja que a Anat diz que trocar a caixa preta ultra-ortodoxa por uma outra caixa preta não vai ter resultado positivo, mas ela não diz que é impossível ao judaísmo fazer parte do sistema do Estado.

    Claro que é possível promover um diálogo legítimo no âmbito democrático do Estado para definir qual o melhor “pacto judaico” para o Estado! Entendendo que este pacto judaico não pode excluir os cidadãos não judeus.

    Este “pacto judaico” democraticamente construído subordinaria o judaísmo à democracia, como defende o Bruno?

    A resposta é sim, pois isto seria limitar o judaísmo aos valores democráticos.

    Então o Bruno está certo?

    A meu ver a resposta é não, por que sem o seu componente judaico, Israel não teria razão de ser.

    Israel só pode existir se for judaico, contudo ao mesmo tempo, a esmagadora maioria de seus habitantes só se interessa em viver no Estado se ele for democrático.

    Acho que este conceito é único no mundo – é preciso ser judaico e democrático sem subordinação de um a outro – assim como o judaísmo é único no mundo e desafia comparações com outros modelos.

    Aí está, a meu ver, o dilema que inquieta o Bruno. Parece-me que o final de sua trilogia vai confirmar a minha suspeita. E se isto for verdadeiro saberemos que o Bruno está em ótima companhia, pois este dilema inquieta a muitos e há muito tempo.

    Finalmente, veja que o Bruno deixou subentendido sim que considera a ultra-ortodoxia a única forma válida de judaísmo.

    Ele diz que a liberdade de imprensa e a igualdade entre os gêneros são direitos fundamentais que seriam violados em um sistema político baseado, primeiramente, no judaísmo. Ora isto só é verdadeiro se o judaísmo for ultra-ortodoxo. Há alguma outra vertente que prega a subordinação da mulher ao homem ou vice-versa? Ou que proíbe a expressão livre de ideias?

    Abraço,
    Raul

    • Marcelo Treistman

      25/05/2013 at 10:12

      Raul,

      Entre o que a Anat realmente disse:

      “The Reform would have done the same, none of us are immune.That minority faction became corrupt, it became a monopoly and it became more and more extreme”

      E a sua interpretação do que ela disse:

      “mas ela não diz que é impossível ao judaísmo fazer parte do sistema do Estado.”

      Existe uma distância muito grande.

      Se ela – de fato – tivesse dito a frase inserida em sua última resposta, eu tenderia a achar que ela concorda com a sua linha de pensamento. Como ela não disse aquilo que você especula que ela disse, acredito que ela concorde mesmo é com a conclusão do Bruno.

      Nenhum judaísmo, até mesmo aquele que na sua opinião (Raul) seria capaz de estabelecer um pacto democrático estaria imune a corrupção e extremismo se fosse alçado a um “Judaísmo de Estado”.

      Você, obviamente tem o direito de discordar da Anat e do Bruno por essa forma de pensamento. Só Achei estranho você nos trazer uma entrevista com uma representante do judaísmo liberal que resume de forma brilhante o grande artigo “antes democrático, depois judaico”.

      Afinal de contas, ela diz: “none of us are immune”. Essa é a contradição que eu queria te apontar no seu comentário.

      Abraços

      Marcelo

  • Raul Gottlieb

    25/05/2013 at 12:28

    Nenhum de nós é imune à corrupção que se origina do monopólio estatal sobre assuntos religiosos, Marcelo. Foi isto o que ela disse e não que nenhum de nós é imune à corrupção por participar de uma construção democrática de um Estado Judaico.

  • Raul Gottlieb

    25/05/2013 at 12:30

    Complementando: se a tua formulação estiver correta não há condição de nenhum grupo (religioso ou não) participar em nenhuma instância da construção de um Estado. O Estado seria construído por ninguém?

  • Lucia Levy

    26/05/2013 at 23:02

    Estimado Bruno, parabéns por mais este precioso texto.

    Nao vou polemizar ainda mais, apenas quero dizer que enquanto lia este texto me vi acompanhada de algumas lembrancas, fala-se em Estado de direito e Israel é um dos poucos países que nao tem uma constituicao (é a normativa), também nao é como Inglaterra que segue o caminho jurisprudencial, ainda assim é tido como o Estado mais ético do mundo, absolutamente nao falando em religiao, parece-me que esses princípios éticos estao codificados em um livro, cujo título em hebreo é Torá.

    Aí, falando em Ética, da qual faz parte a Justica, vem a história do tratamento igual para os desiguais, e a lembranca da veemente contestacao de Hannah Arendt, sempre judia e temporariamente refugiada e apátrida, ao artigo 1º da Declaracao Universal dos Direitos do Homem, de 1948, que pretende estabelecer o vínculo entre os direitos humanos e o “status civitatis”, em “The origins of Totalitarianism”.

    Finalmente, a terceira lembranca se refere a teoria da responsabilidade ética [para com o Outro], de Emmanuel Levinas, em sua fase laica, com a obra “Totalidade e Infinito”.

    A partir dessas contribuicoes teóricas, dentre outras, parece ser possível compreender bem a possibilidade de uma convivencia harmonica entre diferentes opcoes, inclusive de segmentos em uma dada religiao, desde que em um Estado democrático de direito. Só que Israel é um Estado judaico, como Espanha, onde vivo atualmente, é um Estado católico apostólico romano, e os Estados Unidos um Estado cristao protestante, todavia politicamente laicos.

    O Brasil é um Estado laico, a maioria da populacao é crista, entretanto, enfrenta a ortodoxia e até a ultraortodoxia, especialmente de alguns grupos protestantes, lá chamados evangélicos. Já quanto ao aspécto democrático, prefiro calar-me no momento.

    Nesse caminhar concordo plenamente contigo, antes a democracia, depois o judaísmo, de raca, de religiao, de cultura, cujas linhas divisórias sao tao tenues que fica difícil separar umas das outras.

    Aguardo ansiosa a complementacao da trilogia.

    • Bruno Lima

      27/05/2013 at 15:59

      Lucia,

      Muito obrigado pelo seu rico comentário.
      Cada frase sua é digna de um frutífero debate; de fato, o aspecto constitucional israelense e as obras de Levinas e Arendt estão relacionados com a discussão que tento promover em meus textos.
      Especificamente, “the origins of totalitarism”, “the human condition” e “Eichman in Jerusalem: a report on the banality of evil” são livros de Hannah Arendt aos quais faço ‘visitas’ frequentes para entender as raízes do totalitarismo e as nuances da democracia.

      De tocquevile (democracia na américa) e Montesquieu (the spirit of the laws) são outros dois pensadores em que busco basear meus pensamentos.
      Enfim, fico “feliz” pela sua ansiedade; espero que a complementação dessa trilogia me permita concluir o pensamento e deixar, assim, a minha postura clara em relação a questão judaismo-democracia.

      Um grande abraço,
      Bruno.

  • Sérgio Storch

    28/05/2013 at 01:43

    Bruno, parabéns pela densidade e clareza. Não encontrei você no Facebook, em meio a tantos Brunos Lima. Tampouco encontrei aqui uma forma de lhe dirigir email. Por isso peço que desculpe usar o espaço de discussão para fazer esse pedido: pode me mandar o nome de sua conta no face e o seu email?
    Quero também apresentar-lhe uma companheira do nosso grupo, TABA – Judeus Progressistas, que é doutora em psicologia política, e estará em breve em Israel para participar de Congresso, em mesa coordenada por Daniel Bar Tal. O meu no face: Sérgio Storch. Email: sergiostorch@gmail.com

  • Fabíola

    17/06/2013 at 16:28

    Bruno

    Bom dia é a primeira vez que visitei o site, logo de início parabenizo pelo artigo. Não pretendo dar continuidade a nenhuma polêmica. Mas concordo plenamente com você. Ser um estado democrático antes de judaico, não retira o judaísmo de Israel, assim como o fato de termos feriados religiosos no Brasil não significa dizer que o Brasil não é um Estado Laico. O problema é que quando aspectos da religião começam a interferir nas garantias do cidadão. Hoje, o Brasil tem uma bancada evangélica (protestantes neo pentecostal) muito forte, que impede a discussão de questões importantes para a sociedade civil, porque elementos religiosos radicais bloqueiam qualquer votação na Congresso Nacional. Essa radicalização é sempre perigosa.

    O fato de Israel ser antes democrático é o que permite que todos os seus cidadãos tenham suas garantias fundamentais respeitadas, independente da corrente do judaísmo que acreditam e independente do fato de serem judeus ou não. Enfim, o caráter democrático não exclui o caráter judaico, como você mesmo colocou: garantes liberdades que nenhum outro sistema garantiria.

    Um abraço