Ares Israelenses

por Rafael Fleischman

Respirar é algo tão automático que nem nos damos conta de que o estamos fazendo. Inspiramos e expiramos em média 12 vezes por minuto, fazendo passar por nossos pulmões cerca de 11 mil litros de ar em um único dia (um volume maior do que o que bebemos de água em 10 anos!). Já parou pra pensar no que pode acontecer se este ar estiver poluído? E então, como será que está o ar que os israelenses respiram?

As fontes de poluição do ar são muitas, mas podem ser classificadas em duas categorias: fontes naturais e fontes antropogênicas (causadas por atividades humanas). Evidentemente, temos controle apenas sobre o segundo grupo, e é nele que podemos atuar para reduzir a poluição.

O governo há algum tempo já entendeu a importância de se controlar a poluição no ar. Estações de monitoramento da qualidade do ar começaram a ser instaladas na década de 80[ref]Há hoje mais de 100 espalhadas pelo país.[/ref],mas a ação mais importante veio apenas em 2008, quando a Knesset aprovou a “Lei do Ar Limpo” (Chok Avir Naki). Essa lei estabelece limites para as concentrações dos principais poluentes e encarrega o Ministério do Meio Ambiente de cuidar para que eles não sejam ultrapassados[ref]Esta é considerada uma das leis de caráter ambiental mais importantes já aprovadas em Israel, e sua tramitação contou com o apoio de diversas organizações, destacando-se dentre elas a ONG “Adam, Teva veDin”.[/ref].

Nos últimos anos tem-se percebido uma clara diminuição em Israel dos poluentes em geral (sim, são vários os poluentes), e é claro que isto não acontece por acaso. Esta diminuição é um efeito da implementação de uma série de políticas no sentido de reduzir as emissões, explica o Ministro Amir Peretz. O box abaixo apresenta algumas das atividades conduzidas:

Clique para abrir o box

  • Usinas termelétricas:

o   Introdução do gás natural em 2004 (antes disso funcionavam apenas com óleo combustível e carvão).

o   Adaptação de algumas unidades para operar com o ciclo combinado.

  • Indústrias:

o   Estímulo ao uso de gás natural e GLP.

  • Transporte:

o   Melhora da qualidade dos combustíveis. Até 1996 a gasolina continha 1000 ppm (partes por milhão) de enxofre. Após sucessivas reduções, ela contém hoje 10 ppm (o diesel apresenta o mesmo valor).

o   Adequação dos veículos às diretrizes européias (padrão EURO).

o   Programa de retirada de circulação de carros particulares com mais de 20 anos.

o   Introdução de tecnologias modernas a bordo dos veículos para reduzir emissões (conversores catalíticos avançados), tecnologia EGR, sistemas SCR).

o   Medição de poluição de veículos em vias de trânsito.

Alguns dos poluentes que apresentam clara diminuição em suas concentrações são o dióxido de enxofre (SO2)[ref]O SO2 é um gás incolor que reage com vapor d’água, formando um ácido. É emitido em grandes quantidades no processo de refino do petróleo. No homem, pode causar infecções respiratórias e no meio ambiente, chuvas ácidas.[/ref], o ozônio (O3)[ref]A presença do ozônio na estratosfera é importante para absorver a radiação UV do Sol. No entanto, na troposfera (onde nós estamos) ele é maléfico ao homem, podendo causar irritações na garganta e outros problemas respiratórios.[/ref] e o dióxido de nitrogênio (NO2)[ref]É o gás que dá o aspecto avermelhado ao ar poluído, formado a partir da queima de combustíveis em altas temperaturas. Seus efeitos sobre o homem e sobre a natureza assemelham-se aos do SO2.[/ref]. A principal fonte de emissão deste último é a queima de combustíveis em altas temperaturas, e por isso, em regiões relativamente afastadas de atividades industriais, ele caracteriza muito bem o setor de transporte. Mas o que aconteceria, então, se por acaso tivesse um dia em que simplesmente não tivessem carros, ônibus e caminhões andando? Pois Israel é um exemplo de país (talvez o único) em que isso acontece: durante o Yom Kipur[ref]Apesar de não ser realmente nula, a quantidade de veículos circulando no Yom Kipur é, para efeitos práticos, desprezível.[/ref]. O gráfico a seguir mostra a concentração de NO2 medida nas várias estações de monitoramento de Haifa no período do Yom Kipur de 2012.

gráfico yom kipur

 

Entretanto, em uma recente pesquisa da Organização Mundial da Saúde, Israel aparece como o 12º país com a pior qualidade do ar. Essa pesquisa compreendeu apenas a concentração de Material Particulado (MP10)[ref]O MP10 não é um gás, mas sim consiste em minúsculas partículas sólidas com diâmetro menor que 10 micrômetros (1 centésimo de milímetro!). Ele é proveniente principalmente de motores diesel, usinas termelétricas, e indústrias. É considerado o poluente mais agressivo para a saúde.[/ref], que de fato, é alta em Israel. Mas o mais estranho é que, apesar dos esforços, ela não tem baixado nos últimos anos (em oposição à tendência geral). Como explicar isso?

mapaEsta alta concentração é proveniente de uma fonte natural (sobre a qual não temos controle, portanto) que é um fenômeno particular de países áridos: as tempestades de areia. Essas tempestades carregam consigo quantidades altíssimas de poeira fina, e não é à toa que as regiões desérticas do país apresentam maiores concentrações deste poluente, como pode ser visto no mapa ao lado.

Para efeitos de comparação, a tabela abaixo apresenta valores médios anuais para as concentrações dos poluentes tratados anteriormente em algumas cidades de Israel, bem como nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Infelizmente a informação disponível é bastante incompleta, inclusive em relatórios oficiais.

 

Clique para abrir a tabela

PM10 Média Anual [μg/m3] NO2 Média Anual [μg/m3] SO2 Média Anual [μg/m3] SO2 Máximo Dia [μg/m3] O3 Máximo Hora [μg/m3]
Recomendação OMS 20 40 20
Rio de Janeiro* 50 26 9 31 234
Sao Paulo* 36 26 5
Tel Aviv 49* 33* 3 8* 61*
Ramat Gan 49 41 3 53
Haifa 40* 8* 2* 23* 70
Krayot 39* 12 3 8 69*
Jerusalem 77 21* 67
Modiin 61 63
Beer Sheva 56 70
Afula 42 78*
Galil Ocidental 48 82
Nir Galim 51 8 34
Bat Hadar 44 19 5 18
Ashdod 30 10 41* 49
Gedera 5 13 61
Ashkelon 21 5 16 59
Sderot 8 45 69
Pardes Chana 15 34
Hedera 24 28*
Eilat 96

Anos base 2011-2013;

*: Valor Médio de diferentes estações;

Dessa forma, pode-se dizer que, em linhas gerais, Israel encontra-se em uma situação aceitável em relação aos principais poluentes, e que a situação fica ainda mais positiva considerando-se a tendência à redução. Esta constatação, entretanto, não vale para localidades próximas a estações termelétricas (como Ashdod, por exemplo), onde a população reclama constantemente da poluição.

Mas ainda há muito o que fazer em prol da qualidade do ar. Em 2013 foi aprovado o “plano nacional de redução de poluição atmosférica”, que destina um investimento de 100 milhões de shkalim em 5 anos. O plano prevê, entre outras ações:

  • Redução da frota de veículos particulares;
  • Benefícios a empregadores que encoragem a redução do uso de veículos particulares por parte de seus funcionários;
  • Projeto piloto para operar ônibus com gás natural;
  • Estímulo para taxis hibrídos (através de impostos);
  • Estímulo a combustíveis mais limpos – impostos diferenciados para combustíveis (a partir da poluição que causam);
  • Quantificação e caracterização da poluição gerada pela população em geral (como por materiais de limpeza, materiais de construção, mobília e têxteis).

No entanto, a situação é preocupante no que se trata do Material Particulado. Infelizmente, parece não haver o que possa ser feito em relação a ele, já que sua origem é natural, inerente ao local geográfico em que Israel se encontra. Certamente, este não foi um ponto levado em consideração no sexto Congresso Sionista (quando se discutiu onde seria criado o Estado Judeu). Mas já que uma marca de Israel é superar seus obstáculos através do desenvolvimento de tecnologias criativas, nos resta ser otimistas e esperar que alguém surja com uma solução inovadora.


rafaboy

Rafael Fleischman é carioca e veio morar em Israel em 2013. Atualmente é mestrando em engenharia mecânica no Technion e foca sua pesquisa em emissões veiculares.

 

 

Referências

 

Comentários    ( 3 )

3 comentários para “Ares Israelenses”

  • Paulinho

    26/05/2014 at 20:50

    Curti saber disso Rafaboy!
    Muito bom o texto!
    Tenho uma pergunta. Israel não tem um projeto de utilização de carros elétricos?! Em que pé anda isso? Não seria este um dos grandes passos em relação a despoluição do ar?!
    Abração

  • Rafael Fleischman

    27/05/2014 at 13:36

    Oi Paulinho, que bom que você gostou!

    Sim, havia um belo projeto de carros elétricos em Israel chamado “Better Place”. A ideia era que as pessoas comprassem carros elétricos com baterias facilmente substituíveis; Essas trocas ocorreriam em postos especiais (em vez de postos de abastecimento de combustível).

    Infelizmente, o projeto faliu e foi desativado. O carro elétrico é uma excelente tecnologia, mas algumas observações devem ser feitas em relação a ela:

    – A capacidade das baterias ainda é muito baixa (isso não permite a execução de viagens longas sem trocar/carregar as baterias);

    – Muita gente diz que o carro elétrico não polui. Isso não é necessariamente verdade, pois depende de como a eletricidade que ele usará será gerada. Em Israel, a geração de energia é principalmente termelétrica, ou seja, polui sim!

    Por esses motivos, um projeto mais real para curto prazo é a implementação de carros híbridos (um motor de combustão interna e um outro elétrico). Estes carros já existem no mercado, e sua utilização só cresce.

    Grande abraço!

  • Raul Gottlieb

    27/05/2014 at 23:19

    Olá Rafael,

    Pelo que eu entendo o Better Place faliu por falta de clientes.

    Um amigo me disse que ficou muito tentado a comprar o modelo homologado pela Better Place, mas o carro não era do tamanho que ele precisava e não tinha os acessórios que ele queria. Esta pessoa achava que deveriam ter colocado no mercado mais alternativas além da que foi oferecida.

    O carro híbrido está ganhando mercado no mundo todo porque tem um modelo econômico atraente (gasta pouco combustível e tem preço compatível) e não porque polui mais ou menos.

    Em resumo, é inútil fazer muitos planos contando com o idealismo do mercado. Há outros fatores além do ideal de manter o mundo intocado que agem sobre ele.

    Finalmente, penso que todas as ações (humanas e não humanas) transformam a natureza. Isto sempre foi assim e sempre será. Ou seja, o importante não é saber se o carro elétrico polui (pois sempre poluirá) e sim se ele causa mais danos ao meio ambiente do que o carro movido a petróleo.

    Abraço, Raul

Você é humano? *