Ariel Zilber é prata, o silêncio é ouro

28/09/2014 | Cultura e Esporte; Opinião

Em janeiro de 2014, a Organização dos Compositores e Gravadoras de Música em Israel, Akum, sigla em hebraico, escolheu dar ao cantor e compositor Ariel Zilber o prêmio de “Obra de Vida”. O prêmio, que leva o nome de Nomi Shemer, é um dos mais prestigiosos dentre as dezenas de categorias que compõem a cerimônia anual, que ocorre no início de cada ano civil.

A justificativa da escolha é que “as obras de Zilber se destacam por sua originalidade e inovação, com uma combinação de elementos étnicos e estilos musicais novos. Reconhece-se que Zilber redefiniu o mainstream por trazer o que estava nos cantos ao centro.”

Nem todos gostaram da decisão, muito pelo contrário. A cantora Achinoam Nini (conhecida internacionalmente como Noa), também foi escolhida pelo Akum, para ganhar um prêmio por sua contribuição à divulgação da música israelense no exterior. Contudo, ela decidiu recusar o prêmio pelo fato de Zilber também ter sido premiado. Por quê?

Para entender, é preciso contar um pouco da biografia de Ariel Zilber.

Zilber ganhou a fama nos anos 1970, quando participou do grupo de rock Tamuz, juntamente com Shalom Chanoch e o baterista Meir Israel, entre outros. Tamuz teve uma vida curtíssima, e lançou apenas um álbum, Sof Onat HaTapuzim (o fim da estação das laranjas), em 1975. Este álbum é uma das pedras fundamentais do rock israelense.

O final da banda chegou como é comum acontecer com tantas outras bandas. Havia muito talento no grupo para comportar todos os integrantes. Zilber escrevera uma canção, Rutzi Shmulik, que foi vetada pelos outros integrantes da banda, por não estar de acordo com o estilo rock clássico que enxergavam que o grupo tinha. Disseram que a canção seria mais adequada para uma banda como Kaveret.

Ariel Zilber gravou a canção sozinho, e ela acabou sendo um enorme hit nas rádios israelenses. Neste momento, Zilber decidiu abandonar o grupo, e a dissolução da banda se deu em julho de 1976. O álbum solo de Zilber, também entitulado Rutzi Shmulik, foi lançado no próprio ano de 1976, resultando na escolha de Zilber pela rádio Reshet Gimel como cantor do ano, e Rutzi Shmulik como canção do ano.


Rutzi Shmulik, 1976

Ariel Zilber seguiu com sua carreira solo, fazendo rock, pop, baladas, e também trazendo melodias árabes e etíopes para seus discos. Nestas quatro décadas de carreira lançou cerca de 10 álbuns.

Em 2001, Ariel Zilber deu uma entrevista ao jornal Yediot Acharonot, com opiniões bastante controversas a respeito de homossexuais, esquerdistas, árabes, etc. Algumas frases da entrevista para dar um gostinho:
“Eu sou de extrema direita. Sou a favor de um Estado segundo as leis da halachá (leis judaicas)”.
“Não disse que ser homossexual é imoral, disse que é um desvio. Um desvio do caminho natural.”
“Os habitantes dos kibutzim são filhos da puta, com o nariz pra cima. Eles não querem trabalhar. Por anos eles manipularam o Estado, sem pagar Seguro Social propriamente. Pessoas más, corruptos.”

Este foi o início de um processo de extremização que o cantor passou, mas não parou por aí.

Em 2008, Zilber lançou o álbum Politically Correct, com músicas de protesto contra a retirada de Gaza. Algumas das canções são “judeu não expulsa judeu”, “expulsão” e “tubarão”, que conta a história de uma sardinha que está disposta a dar tudo ao tubarão para ter paz, e acaba devorada. As distribuidoras de música em Israel se recusaram a levar o disco às lojas, e Zilber acabou vendendo-o em seu próprio site. Em 2011 lançou outra bomba, a canção Kahana Tzadak, sobre o rabino Meir Kahana e todas as coisas das quais tinha razão, segundo Zilber e demais seguidores.

Hoje Ariel Zilber usa kipá na cabeça e tem barba longa, depois de se aproximar da ortodoxia judaica (Chabad).

Ariel Zilber, 2009
Ariel Zilber, 2009

Enfim, é fácil entender como Ariel Zilber se tornou uma personalidade completamente isolada do cenário cultural israelense, e porque a cantora Achinoam Nini, conhecida por suas opiniões de esquerda, recusou um prêmio tão importante, simplesmente para não legitimar a figura de Zilber. Ariel Zilber acabou ganhando o prêmio Akum, mas lhe foi retirado o título “Obra de Vida”, por pressão do público.

Dalia Rabin, filha do primeiro-ministro assassinado em 1995, integra o corpo diretivo do Akum. “A música de Ariel Zilber não é o problema, pelo contrário, trata-se de um artista excelente”, disse Rabin. “Tendo dito isso, as opiniões de Zilber a respeito de minorias, dos direitos individuais e da comunidade gay são problemáticas, e dar um prêmio de Obra de Vida é uma mensagem problemática à sociedade israelense.” Em 2007, Zilber participou de uma campanha para a libertação de Igal Amir, assassino de Itzchak Rabin.

Durante a cerimônia, Zilber subiu ao palco quando não devia, e em seu discurso disse que é um absurdo separar a sua obra musical de suas opiniões. “Sou contra boicotes, sou a favor das pessoas poderem expressar suas opiniões. Os membros do diretório do Akum separaram as canções de seu criador. O prêmio é por todas as canções, ou apenas pelas canções que não dizem nada? Fazer o quê, que há uma pessoa por trás das canções? Há aqueles do Akum que dizem que tudo bem rejeitar alguém por suas opiniões políticas, eu desmantelaria o Akum, e a construiria do começo, dizendo que há lugar para todo tipo de opinião neste povo. Eu sou um israelense judeu orgulhoso, um de vocês.”

Este é exatamente o tema que gostaria de debater. As opiniões de um artista devem ser separadas de sua obra? Devemos boicotar determinado artista se ele passa alguma linha vermelha? Exitem linhas vermelhas? Onde passam essas linhas?

Até hoje em dia existe o debate em Israel se as filarmônicas podem ou não tocar obras de Richard Wagner, que suspeita-se que era antissemita, e cuja música foi apropriada pelo nazismo para expressar a “natureza heróica alemã”, segundo Hitler. E aí? A música clássica de Wagner pode ser dissociada de seu criador?

Exemplos como este existem às centenas. Roger Waters, líder da banda Pink Floyd, é a favor de se boicotar o Estado de Israel pela ocupação da Palestina. Ele disse: “os paralelos com o que aconteceu na década de 30 na Alemanha são tão estupidamente óbvios”. E agora, quando tocar “The Wall” na rádio, tenho que mudar de estação?

Onde passa a linha vermelha, além da qual fica impossível apoiar certo artista por causa de suas opiniões? Excelente pergunta, Yair. A resposta: não sei.

É óbvio que todos devem ter liberdade de expressão, este é um dos pilares da democracia e obviamente da arte também. Contudo, eu acho que uma pessoa deve ser considerada em seu campo de excelência, e não devemos dar muita bola para o que ela diz em outros assuntos. O prêmio Nobel de Química não tem nada a me dizer sobre paz. O cantor americano famosão não tem nada a me acrescentar em assuntos de religião. E o atleta olímpico não tem nada a contribuir para mim em assuntos de política. Todos podem dizer o que quiserem, isso não significa que devemos dar importância. Reparem que nas frases acima usei os pronomes “me” e “mim”. O artista pode dizer, sou eu que escolho não escutar.

O Roger Waters é o único que associa os territórios ocupados com a Alemanha da década de 1930? Claro que não. E o Ariel Zilber não é o único que detesta a esquerda israelense. Se eu boicotar o Zilber, por que não boicotar também o motorista de taxi, e descer imediatamente quando ouvir a asneira sexista que invariavelmente virá durante o percurso? Dos cantores eu filtro o que não é música, e dos taxistas eu filtro tudo, só me leva pra casa e pronto.

Agora um pouco de auto-crítica. Provavelmente a minha opinião acima é mais uma busca por justificativas que apóiam os gostos que eu já tenho. Confesso: gosto do Pink Floyd, gosto do Saramago (que a respeito de Gaza disse “Tudo isso tem um ar de campo de concentração que me lembra Auschwitz”). Gosto até mesmo dos filmes do Mel Gibson. Pronto, falei.

Eu também gosto muito das músicas do Ariel Zilber, especialmente a dos anos 70 e 80, e não me imagino jogando fora nenhum disco dele (na verdade só tenho mp3), não importa o que ele diga. Por outro lado, não tenho dificuldade alguma de boicotar um artista que não gosto, pela menor opinião que contrarie a minha. Assim sou: hipócrita.

O leitor atento perceberá que não respondi onde passam as linhas vermelhas. Respondo pela segunda vez a mesma coisa: não sei.

Em certos casos a ferramenta do boicote faz sentido e surte efeito. Tomemos por exemplo o caso da África do Sul e o regime de apartheid. Em outros casos, o boicote é absurdo, errado e estúpido, como o boicote de cientistas israelenses por certas universidades pelo mundo afora.

Os dois exemplos acima estão para mim de lados diferentes da linha vermelha, embora eu não saiba dizer exatamente onde ela passa. No caso artístico, acho que fico com a hipocrisia mesmo, a linha é na verdade um dégradé de cores, e ajeito sua localização específica segundo os meus gostos pessoais.

Conclusão: Ariel Zilber, você tem sim direito de opinião, você pode achar o que quiser dos esquerdistas e homossexuais, mas eu só vou escutar as suas músicas se elas tiverem uma mensagem legal para mim. Parabéns pelo prêmio, você tem uma linda obra de vida, mas só até o começo dos anos 2000. (“Sorte” tem os artistas que morrem jovens, e não podem mais sujar sua obra de vida com babaquices ditas “depois de velhos”.)

Enquanto isso, Ariel Zilber continua isolado e sozinho, lutando contra o establishment cultural de Israel, como o cipreste de sua canção Brosh:

Eis o cipreste, sozinho // Frente o fogo e água. // Eis o cipreste, sozinho // até o céu. // Cipreste, sozinho e forte, // Se ao menos fosse possível que eu aprendesse // os caminhos de uma árvore.


Brosh, o cipreste, 1976

Fontes:
Youtube (clip de Kahana Tzadak), Wikipedia, Haaretz, YNET (Dalia Rabin), YNET (entrevista de 2001), Mako, Shironet (letra de Tubarão).

Imagens:
Ariel Zilber, 2009: Wikipedia
Imagem de capa: Flickr de Asaf Antman, segundo a seguinte licença Creative Commons.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Ariel Zilber é prata, o silêncio é ouro”

  • Marcel Beer Kremnitzer

    29/09/2014 at 22:09

    Aqui no Brasil temos Lobão e Roger Moreira pra, se formos de esquerda ou progressistas, boicotar. Eu mesmo boicotei minha camiseta do Corinthians do Ronaldo Fenômeno depois que ele falou que Copa do Mundo não se faz com hospitais e escolas…

  • Uri

    29/09/2014 at 22:30

    Parabéns Yair, belo texto!

    Eu acredito que podemos dissociar a obra do artista de suas opiniões quando a sua obra não remete as suas opiniões aos quais repudiamos.

    Gosto da obra do Roger Waters e do Ariel Zilber, e penso que suas opiniões não me ferem tanto a ponto de decidir boicotá-los.

    O prêmio foi merecido, premiava sua obra musical e não suas opiniões políticas, infelizmente essa barulho todo, que é legítimo, transformou a cerimônia em um palanque político.

    Abs.

  • Johnny

    01/10/2014 at 20:21

    Muito legal o texto Yair!

    Muito parecido com esse episódio foi quando no final do ano passado a Universidade de Haifa alegou ter negado o prêmio de Doutor Honoris Causa a Robert (Israel) Aumann, Nobel de Economia em 2005, por conta de suas posições políticas de extrema-direita.

    Abraços