Arnesto em Bror Chail

Ernesto Paulelli morreu aos 99 anos, poucos dias antes deste carnaval. Amigo de João Rubinato, mais conhecido como Adoniran Barbosa, foi a inspiração para o clássico “Samba do Arnesto”, na década de 50.

“Ele nunca tinha ido lá em casa, muito menos eu tinha dado o cano. As pessoas me diziam na rua, chamavam minha atenção pelo cano dado no Adoniran”, revelou Paulelli.

Certa vez, cansado de se justificar com o povão, procurou o amigo e perguntou: “Você não foi lá em casa, eu não furei contigo. Por que esse papo na música?. A resposta foi genial: “Arnesto, sem mancada, não tem samba”.

Adoniran Barbosa faleceu em 1982. Ele é o retrato cultural de São Paulo, com seus sambas contando o dia a dia da população, com histórias que identificam o seu povo. No entanto, sua filha escreveu, recentemente, na Folha de São Paulo, demonstrando mágoa com a cidade. Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa afirma que “São Paulo não ama Adoniran Barbosa tanto quanto Adoniran a amou. O museu em sua homenagem não fica no Bexiga, mas em um kibutz”.

Kibutz? Como assim?

Pois é…

O Kibutz Bror Chail foi fundado na década de 40 por judeus oriundos do movimento juvenil Hechalutz, do Cairo. Três anos depois, até a década de 80, recebeu jovens judeus brasileiros de movimentos sionistas socialistas como Dror, Gordônia, Ichud Habonim, Ichud Hanoar Hachalutzi e Habonim Dror. Ao chegarem a Israel, abraçavam a cultura local, mas não esqueciam de suas origens.

Na década de 70, Bror Chail sediava programa de televisão, do canal 1 local, com apresentações de versões de sambas e MPB para o hebraico. Nomes famosos no cenário israelense, como Yehudit Ravitz e Mati Caspi, estavam diretamente envolvidos. Nesta época, surgiu “Afilu Daka”, nada mais, nada menos, do que “Trem das Onze” na língua da bíblia.

Maria Helena Rubinato dá sua versão: “…Quem criou esse museu? Eu diria que foram pessoas imaginárias, se não trocasse longos e-mails com pessoas há mais de cinco anos. E se não me admirasse com a delicadeza e a trabalheira que enfrentam para manter em pé um museu para um compositor brasileiro que, embora tenha todas qualidades…não faz parte da legenda dourada da MPB que nossa imprensa e autoridades tanto paparicam. Seus nomes? Sheila Katzer Bovo, ex-secretária de Educação de Sorocaba (SP), cidade irmã de Shaar HaNegev, e o casal Edith e Tzvi Chazan, diretores do museu”.

Shaar HaNegev, onde se localiza Bror Chail, fica ao lado da Faixa de Gaza. Saindo de Tel Aviv, a viagem dura, aproximadamente, 40 minutos. A “Casa Adoniran Barbosa” foi inaugurada em julho de 2008, com a presença do embaixador do Brasil em Israel, Pedro Motta Pinto Coelho.

Segue Maria Helena: “…Atendendo pedido da diretoria (do museu), a Companhia Geral de Trens de Israel doou à Casa Adoniran Barbosa o primeiro vagão que chegou do Egito a Israel em 1910 — ainda época do Império Otomano na Palestina. O vagão que faz parte da história agora está no terreno do museu e, por obra e graça de Edith e Tzvi, com nossas cores”.

Estive em Bror Chail há cinco anos e meio, quando o museu era, ainda, recente. Festejava-se 60 anos do primeiro grupo de jovens do Dror que chegou a Bror Chail (Garin Aliá). No palco central, durante os ensaios, cantavam Adoniran a cada instante, numa espécie de relaxamento e retomada de forças.

“É o Trem das Onze em Bror Chail. A intenção da diretoria é transformá-lo numa galeria de exposições sobre a música popular brasileira…Você conhece país, cidade, pessoas mais generosas com uma de nossas maiores riquezas, a nossa música? Falta São Paulo resolver aderir a Bror Chail para o Trem das Onze poder dar a partida”, encerra Maria Helena Rubinato.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/146911-o-trem-das-onze-em-israel.shtml

Link Afilu Daka: http://shirimemportugues.blogspot.co.il/2009/07/afilu-daka-mati-caspi.html

Comentários    ( 15 )

15 comentários para “Arnesto em Bror Chail”

  • Mario S Nusbaum

    07/03/2014 at 16:54

    “um compositor brasileiro que, embora tenha todas qualidades…não faz parte da legenda dourada da MPB que nossa imprensa e autoridades tanto paparicam. ”
    Pura verdade! Eu sempre me revoltei com isso. Se ele fosse bahiano haveria estátuas e museus dele no Brasil inteiro.

    • Nelson Burd

      07/03/2014 at 17:00

      Adoniran, Germano Matias, Paulo Vanzolini. Nomes fantásticos da música brasileira, que vieram de São Paulo, e merecem todo respeito.

    • Mario S Nusbaum

      08/03/2014 at 14:16

      Verdade Nelson, e eu acrescentaria o Toquinho. Uma pergunta: é fácil chegar ao Bror Chail de ônibus (partindo de Tel Aviv)?

      Shabat Shalom

    • Nelson Burd

      09/03/2014 at 13:12

      Sim. Podes pegar condução até Askelon e, de lá, outro ônibus. Tem também até Sderot e, depois, Bror Chail. Há terceira opcão, que seria uma ônibus pinga-pinga, que para em Bror Chail, saindo de Tel Aviv, mas demora mais.

    • Nelson Burd

      09/03/2014 at 17:13

      Beleza, Mario.

  • Raul Gottlieb

    10/03/2014 at 22:05

    Muito bom o texto e a informação. Os israelenses consomem muita música brasileira. O Mati Caspi tem uma relação grande com o Brasil. Uma das filhas dele fala português como segundo idioma. Você sabe dizer porque, Nelson?

    • Nelson Burd

      11/03/2014 at 13:53

      Ele casou com uma brasileira, há mais de 30 anos. Deve ser a mãe da guria.

    • Nelson Burd

      11/03/2014 at 14:39

      Raul, um processo que pode ocorrer agora, seria o inverso. Nos últimos anos, muitos israelenses tem feito shows no Brasil, inclusive em lugares como o Canecão. Agora, terá outro ai, no Rio. Quem sabe, além da comunidade, os amantes de música, em geral, começam a conhecer a música israelense. Abraço.

  • Raul Gottlieb

    11/03/2014 at 20:58

    Ih, não sei não. Quase todo mundo que vai a estes shows é da comunidade. A divulgação é feita na comunidade, a venda é feita pelas instituições da comunidade. Não é exagero dizer que estes shows atraem mais pelo sionismo implícito do que pela qualidade artística (mesmo sendo ela primorosa na maioria dos casos).

    Para acontecer o que você sugere, os promotores tem que anunciar e vender fora da comunidade.

    Abraço, Raul

    • Nelson Burd

      11/03/2014 at 22:05

      Concordo plenamente. Tomo por exemplo os festivais de dança israeli, em Porto Alegre. Anunciam na afiliada local da Globo e vendem muitos ingressos para o público, em geral. Pessoas que costumam ir todos os anos, inclusive. Tomaram gosto pela coisa. Abraço.

  • clarice oren

    27/03/2014 at 13:38

    muito bom esse artigo!
    eu nao sabia nada sobre isso e e importante saber sobre historias como essa aqui na terrinha!

Você é humano? *