As 8 mais fáceis, sem desculpinhas

05/10/2015 | Cultura e Esporte

Esta é uma pequena seleção das canções mais curtas e fáceis da língua hebraica. Todas elas tem letra de uma frase só, com no máximo 10 palavras. Acabaram as desculpinhas, quem não aprender a cantá-las é porque não quer.

Porque todas as letras são hiper-curtas, é natural que grande parte das canções sejam baseadas em versos bíblicos ou outras frases de louvor. Este é o momento para dizer que, embora as músicas abaixo sejam indispensáveis em comemorações judaicas por toda a diáspora, em Israel a figura é diferente. A grande maioria dos judeus laicos de Israel não se identifica de forma alguma com estas “canções de ortodoxos”, e há uma completa ausência de “músicas judaicas” em casamentos de amigos laicos que pude presenciar em Israel.

De toda forma, creio que todas as canções citadas abaixo fazem parte do cânone festivo judaico. Algumas delas são muito antigas, enquanto que outras são surpreendentemente novas e de história inusitada (a última é bizarra, e totalmente verdade). Elas estão ordenadas de mais “difícil” para a mais fácil, e uma curta explicação as acompanha. Confiram.

Siman Tov

Nível de dificuldade: facílima.

סִמֵּן טוֹב וּמַזָּל טוֹב יְהֵא לָנוּ וּלְכָל יִשְׂרָאֵל
Siman tov umazal tov yehe lanu ulechol Israel
Bom sinal e boa sorte para nós e para todo [o povo de] Israel

Esta frase é parte do Kidush Levana, benção mensal na ocasião da lua (לְבָנָה = levana) nova, marcando o início do mês. A palavra Mazal (מַזָּל) significava originalmente constelação, e mais tarde ganhou o significado de “destino”, pela crença da influência dos astros na vida na Terra. Portanto, Mazal Tov é literalmente um desejo de “um bom destino”, ou boa sorte. Contraste isso com a palavra em português “desastre”, vinda do grego estrela ruim (dys-aster = δυσ-ἀστήρ). A benção de boa sorte, com o tempo, passou a ser dada após um evento importante, e então ganhou seu sentido moderno, o de “parabéns”.

Siman (סִימָן) significa basicamente a mesma coisa. Incorporou-se ao hebraico na época de escrita do Talmud, vinda do grego sémeion (σημεῖον), com o sentido de sinal, milagre e indicação.
Em muitas comunidades judaicas do oriente desejava-se Mazal Tov quando uma menina nascia, e Siman Tov para meninos. Ambas as bençãos eram juntadas na ocasião do casamento, e até hoje esta é a primeira frase que abre o contrato de casamento, a ktubá (normalmente escrita em aramaico: בסימנא טבא ובמזלא מעליא).

A versão acima é de Mike Burstyn. Reparem na pronúncia “mazel tov” com E, em vez de “mazal tov” com A. Isto é uma clara influência do yiddish, e é assim que se diz, “mazel tov”, em muitos lugares da diáspora judaica, mas em Israel é sempre “mazal tov”. Finalmente, eu transliterei “umazal tov”, em vez de “vemazel tov”, como Mike Burstyn canta. Ambos os prefixos “U” e “VE” significam a mesma coisa, a conjunção “E” em português, mas neste caso U é o correto (porque antecede a consoante M).

Ki Mitzion Tetze

Nível de dificuldade: ridícula de fácil.

כִּי מִצִּיּוֹן תֵּצֵא תוֹרָה וּדְבַר אֲדֹנָי מִירוּשָׁלָיִם
Ki mitzion tetze tora udvar adonai (hashem) mirushalaim.
Pois de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor de Jerusalém.

Versículo da profecia dos últimos dias de Isaías (2:3). A palavra Adonai (Senhor) é pronunciada Hashem (השם), literalmente “o nome”, para evitar tomar Seu nome em vão. Mesmo com a mudança de pronúncia, nunca encontraremos em hebraico “hashem”, a substituição tem que ser feita em tempo real mesmo…

Novamente, a versão acima é cantada por Mike Burstyn (eu gosto dele), no décimo festival de música chassídica, de 1978, chegando em terceiro lugar. O vídeo acima é de um programa do canal 1 de Israel, com Mike (anos depois) assistindo a si mesmo e comentando.

Hava Nagila

Nível de dificuldade: absurdamente simples.

הָבָה נָגִילָה וְנִשְׂמְחָה, הָבָה נְרַנְּנָה (וְנִשְׂמְחָה), עוּרוּ אַחִים בְּלֵב שָׂמֵחַ
Hava nagila venismecha, hava neranena (venismecha), uru achim belev sameach.
Vamos nos alegrar e ficar contentes, vamos cantar (e ficar contentes), acordem, irmãos, com coração feliz.

Abraham Zevi Idelsohn, o pai da musicologia israelense, catalogou esta melodia em 1915, em uma visita à comunidade hassídica de Sadigura, que vivia em Jerusalém. Originalmente não havia letra, era apenas “bim-bom” o tempo todo. Com o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, a comunidade judaica na Terra de Israel (Yishuv) ficou tremendamente satisfeita com a declaração Balfour e com o início do mandato britânico na Palestina, e Idelsohn decidiu resgatar a melodia que havia registrado anos antes e compor uma canção de comemoração. A canção era bastante conhecida na comunidade judaica da Palestina e de fora de Israel, mas apenas ganhou projeção internacional entre os não judeus no final da década de 1950, principalmente com duas gravações de 1959, de The Barry Sisters, e de Harry Belafonte. A versão acima é de Belafonte, que a canta com uma pronúncia bastante boa, na minha opinião.

Ismechu Hashamaim

Nível de dificuldade: pé nas costas.

יִשְׂמְחוּ הַשָּׁמַיִם וְתָגֵל הָאָרֶץ יִרְעַם הַיָּם וּמְלֹאוֹ
Ismechu hashamaim vetagel haaretz ir’am hayam umlo’o
Alegrem-se os céus e regozige-se a terra, retumbe o mar e tudo o que nele existe!

Outro clássico baseado em um versículo bíblico, desta vez Salmos 96:11. A versão acima é do compositor israelense Effi Netzer, um dos pais da Shira Betzibur (cantoria em público, quando os velhos se juntam pra lembrar dos velhos tempos).

Kol Haolam Kulo

Nível de dificuldade: moleza.

כל העולם כולו גשר צר מאוד, והעיקר לא לפחד כלל
Kol haolam kulo gesher tzar meod, vehaikar lo lefached klal.
O mundo inteiro é uma ponte muito estreita, e o principal é não tem medo algum.

A letra é uma frase do rabino Nachman de Breslav, também conhecido como Nachman de Uman (1772-1810). Ele foi o fundador do Hassidismo de Breslav, uma das maiores correntes hassídicas dos dias de hoje. Leia mais a respeito no artigo da Miriam, “Peregrinação e fuzuê israelense na Ucrânia“. No século 20, a frase ganhou melodia de Baruch Chait, rabino ortodoxo e músico, também fundador e chefe do colégio-yeshiva Maarava, em Jerusalém.

A linda versão acima é de Ofra Haza. Reparem em sua pronúncia da letra Resh (ר), da mesma forma como se fala o R em espanhol. Hoje em dia quase ninguém canta assim em Israel, e a pronúncia do Resh é gutural, como o R em alemão.

Shavtem Maim

Nível de dificuldade: absurdamente simples.

וּשְׁאַבְתֶּם-מַיִם בְּשָׂשׂוֹן מִמַּעַיְנֵי הַיְשׁוּעָה. — מַיִם, מַיִם, מַיִם, מַיִם, הוֹ מַיִם בְּשָׂשׂוֹן
Ush’avtem maim besason mimaynei hayeshua. (Maim… ho maim besason!)
[Vocês] tirarão água com alegria das fontes da salvação. (Água… oh água com alegria!)

Mais uma do maior “letrista” da Bíblia Hebraica, Isaías (12:3). Parte do capítulo em questão também foi incorporada à reza que encerra o Shabat, a Havdala. Em 1942, o músico israelense Emanuel Amiran-Pougatchov publicou duas melodias para este versículo. Uma das versões tornou-se extremamente popular, em parte pela criação de seus (hoje famosos) passos de dança, na comemoração da festa de Sukot do Kibutz Dgania B, em 1943 ou 1944 (não se sabe o ano ao certo). Os passos de “maim maim” foram apresentados no primeiro encontro de dança popular israelense no kibutz Dalia, em 1944 (este encontro foi o precursor do festival de Carmiel, o maior do gênero hoje em dia). A coreografia é fácil de se aprender, com o caminhar cruzado que ficou conhecido como passo Shavtem Maim.

Od Avinu Chai

Nível de dificuldade: não fica mais fácil que isso.

עוֹד אָבִינוּ חָי, עַם יִשְׂרָאֵל חַי
Od avinu chai, am Israel chai
Nosso pai ainda vive, o povo de Israel vive

A penúltima desta lista é a canção de Shlomo Carlebach, o rabino cantante. Ele é (foi) autor de centenas de canções, e a letra desta é baseada parcialmente no versículo de Gênesis 43:28. O pai em questão é Jacó, também chamado de Israel, o patriarca que teve 12 filhos (e uma filha!), e deu nome a um povo inteiro. O vídeo acima é do próprio Carlebach, numa gravação da TV israelense de 1972-73. Se esta versão é muito bagunçada para o seu gosto, teste escutar esta versão mais comportada.

Hevenu Shalom Aleichem

Nível de dificuldade: minto, essa é a mais fácil de todas.

הֵבֵאנוּ שָׁלוֹם עֲלֵיכֶם
Hevenu Shalom Aleichem
Trouxemos paz a vocês

Esta é uma das histórias mais loucas que já soube a respeito, e agora provavelmente vocês também. Segundo Eliahu haCohen, grande estudioso israelense da música hebraica, a canção vem de uma propaganda de cigarros alemães. É isso mesmo, repetirei: uma das canções hebraicas mais tradicionais é de uma propaganda. De cigarros. Alemães!

Os cigarros se chamavam Salem Aleikum, produzidos na cidade de Dresden, na “Fábrica de Cigarros e Tabacos Orientais Yenidze”, propriedade do judeu Hugo Zietz. A maior parte do tabaco era trazida da cidade de Yenidze, parte então do Império Otomano (hoje Genisea, na Grécia). O nome “oriental” serve para conferir reputação e autenticidade ao cigarro, uma vez que todos conheciam a qualidade superior do tabaco turco. A fábrica, planejada em 1907, é chamada em alemão de Mesquita do Tabaco (veja foto abaixo). Repare que uma das chaminés foi fantasiada de minarete, genial!

Dresden_Yenidze

Uma propaganda (de rádio?) foi feita com uma banda turca tocando uma música alegre, cuja letra era “Wir rauchen Salem Aleikum”, ou seja, “Nós fumamos Salem Aleikum”. Não demorou para a melodia ganhar uma paródia em hebraico, aproveitando-se que a benção Salem Aleikum em árabe soa muito parecido com Shalom Aleichem. O próprio Eliahu haCohen, nascido em 1935, conta que já cantava esta canção quando estava no jardim de infância. A primeira publicação da melodia que se tem é em um livro de canções para os soldados judeus do exército americano, durante a Segunda Guerra Mundial, publicado em 1943.

Da próxima vez que vocês ouvirem a canção “Hevenu Shalom Aleichem”, lembrem-se que a paz sobre nós é patrociada pelos cigarros Salem Aleikum, “o melhor presente de amor”! [Willkommenste Liebesgabe].

Vejam as propagandas abaixo.


Imagens:
Girassóis: foto de Rodrigo Uriartt, tirada na região de Rehovot. Seu Flickr é https://www.flickr.com/photos/ruriak/.
Fábrica de cigarros: Wikipedia.
Propagandas dos cigarros: Imperial War Museums, blog de Mavi Boncuk, blog Old Advertising.

Fontes:
Siman Tov: Open SiddurBible Hub, Daat.
Hava Nagila: Radio Hazak, Wikipedia.
Shavtem Maim: Daat, Zemereshet.
Hevenu Shalom Aleichem: Haaretz (inglês), Haaretz (hebraico), Zemereshet. Wikipedia.

 

Comentários    ( 6 )

6 comentários para “As 8 mais fáceis, sem desculpinhas”

  • Marcelo Starec

    05/10/2015 at 07:16

    Oi Yair,

    Muito bom!…Eu sequer imaginava sobre a origem da música Hevenu Shalom Aleichem!…Esse artigo é ótimo, inclusive por mostrar que numa cerimônia judaica atual, cantamos e dançamos com músicas de fato representativas da nossa história…Bom, isso eu sabia e dos textos bíblicos, também…mas conhecer a origem de cada uma dessas músicas foi sensacional !….

    Abraço,

    Marcelo.

  • Gabriel

    05/10/2015 at 21:05

    Muito bom Yair! Realmente sensacional a história da origem da melodia para “Hevenu Shalom Aleichem”.

  • Iana Abecassis

    06/10/2015 at 16:12

    Só eu senti falta das frases do Adon Olam?

  • Jaques

    07/10/2015 at 05:34

    Muito bom artigo. Acho que dava pra arredondar pra dez com “David Melech Israel” e “Ossê Shalom Bimromav”.

    Sempre achei curioso como aqui no Brasil em casamentos e bar mitsvas é comum misturar músicas religiosas e sionistas. Então é comum a banda, que geralmente não entende o que está cantando, emendar um ki mitsion com tsena tsena tsena. Numa mistura religiosa laica talvez impensável por aí. De qualquer forma, essa intolerância entre laicos e ortodoxos que parece só existir entre os judeus de Israel é quase tão absurda quanto a intolerância judaico/palestina.

    Só mais uma observação: O resh da Ofra Haza parece fonéticamente mais correto, já que essa é a pronúncia sefaradi. Pode ser viagem minha, mas acho que tem uma questão sociológica no uso mais comum desse resh gutural pela maioria dos israelenses.

  • Marcella Wolf

    13/10/2015 at 17:05

    Adorei o artigo! Lembrei da minha infância, nostalgia pura!
    Quero mais músicas 🙂

  • Suzana Grinspan

    12/11/2015 at 14:58

    Adorei !!!!!excelente Obrigada amigo Aron por ter mandado me trouxe lembranças de movimento Juvenil,assim como aprendi muitas novidades com as historias das musicas!!!!!

    suzana

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